Livros

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quinta-feira, 19 de setembro de 2019


Envelhecer é perder o sonho.
in Deslumbramento


domingo, 15 de setembro de 2019

Despedidas


“Era uma vez um homem inábil para as letras e números. Embora nunca tivesse aceitado este facto. Logo, não o resolveu nada bem de si para si. Assim sendo, teve de trabalhar, nos bons tempos, sim, houve bons tempos neste outrora país, em que certas palavras não eram de uso corrente (como roubo, desfalque, crime, desvio de fundos, época de fogos, violações, rendimento mínimo, subvenções vitalícias, droga, metadona, ressaca, mais crime, currículo alternativo, passagem administrativa, por aí fora…), de ordem, educação, quem não estudava, ia trabalhar, não andava a enganar os outros, e ele assim o fez, foi trabalhar para bem longe, para outro continente (nesses bons tempos, a nossa bandeira estava hasteada bem alto em vários pontos do globo), aí se instalou e rapidamente começou a ganhar a vida, era extrovertido por natureza, procurava compensar a baixa estatura com outros dotes, como a dança e o verbo fácil, como sempre acontece nas histórias, certo dia conheceu a tal, a que lhe estava reservada nesta existência, uma alma tão desarrumada que tudo iria desarrumar à sua volta, foi tal o seu fascínio que, com o tempo, se foi apagando para que ela brilhasse ainda mais…"

segunda-feira, 9 de setembro de 2019


No fundo, as coisas são proporcionais: quanto maior o amor, maior a dor! 

in Deslumbramento

domingo, 8 de setembro de 2019

Um gesto do ontem apresenta-se ao amanhã



Há uns dias, por exemplo, num momento da tarde, creio que regressava a casa, levantou-se-me esta memória: houve um Natal, teria cinco ou seis anos, o primeiro após o divórcio, lembras-te, claro, foi meu pai a sair de casa. Bom, ao contrário do expectável, tive o Natal com mais prendas: mãe, avós, tios, até vizinhos, parecia que todos procuravam compensar-me por ver os pais seguir em direcções distintas. Percebi, pelo soar da campainha, a chegada do meu pai, não me perguntes como, aquelas coisas que simplesmente sabemos numa zona de nós tão longe e simultaneamente tão próxima do mundo, mas, como dizia, foi após o jantar, ainda deu tempo de abrir mais de metade das prendas, estava tão feliz, lutava e lutava com papel de embrulho, de facto, há lutas que dão prazer, não me passou despercebido, logo após a campainha soar, o cessar das conversas, um silêncio que ampliava o próprio respirar, curioso, não me recordo de quem abriu a porta, minha mãe não foi, isso tenho presente, talvez uma das tias, a imagem de meu pai, à entrada, surgiu-me, tímido, renitente em avançar, olhou em volta à espera de um incentivo, acabou por surgir através do afável gesto de um dos tios, lá entrou, em tímidos passos, à medida que se ia aproximando, denotei-lhe uma crescente noite pelo rosto...

sábado, 7 de setembro de 2019

Sentires



E o hoje é isto (três semanas para oitenta e três anos), sentado num banco de jardim, ao lado de casa, as pernas não permitem que o olhar deixe de ver a porta do prédio, é curioso que, com a idade, tudo se unifica, entretanto, reparo que uma silhueta familiar se aproxima, reconheço-a, ela Posso sentar-me? Eu Claro. Sentou-se, ficámos, durante um pouco, a ver o longo relvado em frente, onde três ou quatro miúdos brincavam, por fim, decido que o silêncio se arrastara em demasia, O que a traz até estes lados? Quer dizer-me alguma coisa? O seu olhar com as correrias na relva, porém, percebi que o seu pensar juntava palavras para frases, Fica tanto por dizer! Acho que hoje compreendes melhor as minhas falhas, certo? A questão saiu-lhe pronta, sem hipótese de me socorrer de argumentos esquivos, Sim, é verdade, o céu e o inferno sempre ao alcance de um monossílabo, pensei, ela prosseguiu A idade suaviza-nos o olhar. Eras tão inclemente: contigo, connosco, com os outros…

domingo, 1 de setembro de 2019


Uma evidência crescia em mim, como uma sombra que, doravante, iria turvar o meu existir: eu não partia dali, eu partia de mim.

in Deslumbramento


A haver um céu, não estará longe de um sonho de criança.

in Deslumbramento

quarta-feira, 28 de agosto de 2019


Somos mais o ontem ou o hoje? Talvez sejamos um entretanto que respira de equívoco em equívoco…
in Deslumbramento

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

sábado, 24 de agosto de 2019


O que é uma sombra se não um resto de noite no dia?

in O belo viaja com o longe

quarta-feira, 21 de agosto de 2019


Há uma fase da vida em que vamos ao cinema não para ir ao cinema, é como se cumpríssemos uma obrigatória etapa na viagem do existir.

in Deslumbramento


terça-feira, 20 de agosto de 2019

sábado, 17 de agosto de 2019


Nos alvores do amor encontramo-nos mais no outro do que em nós.

in Deslumbramento

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

segunda-feira, 12 de agosto de 2019


Às vezes questiono-me se  vivemos ou representamos, creio piamente que, grande parte, opta pela segunda possibilidade…

in Deslumbramento

sábado, 10 de agosto de 2019


A vida são dias e dias que se atropelam numa voracidade crescente, até que, sem aviso, chega aquele, o fatal, em que tudo cessa.

in Deslumbramento

sexta-feira, 9 de agosto de 2019


Duas pessoas podem habitar debaixo do mesmo tecto, por décadas, e os sonhos permanecerem calados.

in Deslumbramento

quarta-feira, 7 de agosto de 2019


Tudo na infância é um excesso, depois tudo é escassez, até nada ser.

in Deslumbramento


A velhice não é mais do que a soma dos nossos equívocos.

in Deslumbramento


sábado, 27 de julho de 2019


Mas os adultos perdem algures a essência: são crianças esquecidas de brincar.

in Deslumbramento

sexta-feira, 26 de julho de 2019


(…) Há algo mais verdadeiro que uma lágrima salgada? O riso subtrai, aligeira, uma lágrima condensa, suspende o próprio tempo.
in Deslumbramento

terça-feira, 16 de julho de 2019


Um galinheiro não é um lugar muito pródigo em adjectivos.

in Liberdade não rima com maledicência

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Um gesto do ontem apresenta-se ao amanhã



Há uns dias, por exemplo, num momento da tarde, creio que regressava a casa, levantou-se-me esta memória: houve um Natal, teria cinco ou seis anos, o primeiro após o divórcio, lembras-te, claro, foi o meu pai a sair de casa. Bom, ao contrário do expectável, tive o Natal com mais prendas: mãe, avós, tios, até vizinhos, parecia que todos procuravam compensar-me pelo divórcio. Percebi, pelo soar da campainha, a chegada do meu pai, não me perguntes como, aquelas coisas que simplesmente sabemos numa zona de nós tão longe e simultaneamente tão próxima do mundo, mas, como dizia, foi após o jantar, ainda deu tempo de abrir mais de metade das prendas, estava tão feliz, lutava e lutava com papel de embrulho, de facto, há lutas que dão prazer, não me passou despercebido, logo após a campainha soar, o cessar das conversas, um silêncio que ampliava o próprio respirar, curioso, não me recordo de quem abriu a porta, minha mãe não foi, isso tenho presente, talvez uma das minhas tias, a imagem de meu pai, à entrada, surgiu-me, tímido, renitente em avançar, olhou em volta à espera de um incentivo, acabou por surgir através do afável gesto de um dos meus tios, lá entrou, em tímidos passos, à medida que se ia aproximando, denotei-lhe uma crescente noite pelo rosto...

sexta-feira, 5 de julho de 2019


… foi há algum tempo, num Agosto de Sul, que me surgiu esta ideia, pois, o emissário sempre desconhecido, olhei para aquele planalto, sobre o rio que encontra a verdade salgada do mar, onde repousam sonhos de outrora, e pensei que ali também queria repousar os meus, não há melhor lugar quando o momento de compreender a minha verdade salgada chegar…
in Quando partir gostava de ali ficar

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Liberdade não rima com maledicência




Quando o galo entrou no galinheiro, o conselho já se encontrava reunido, cinco galinhas e um galo velho, gordo, com um ar assustado, de quem procurava incessantemente um qualquer ponto de fuga, a presidir ao conselho estava uma galinha gorda, velha, denotava-se-lhe uma gritante dificuldade em equilibrar-se no poleiro, oscilava à medida que articulava sílabas, num tom monocórdico muito seu, o galo, ainda à entrada, não lhe estranhou o tom, infelizmente, pensou, já lhe era familiar, há coisas que a vida nos podia poupar, talvez assim sorríssemos mais, porém, ainda à entrada, inspirou e expirou longamente (e de si para si disse Vamos a isto!), queria, de facto, subtrair-se do azedume...




quarta-feira, 26 de junho de 2019



(…) candeeiros, nem altos, nem baixos, nem iluminavam, nem obscureciam, apenas vagos pontos de luz a apontar uma direcção, a de um sempre incumprido regresso no final de cada dia, se não somos daqui, regressar deveria ser banido do nosso léxico (…)

in O hoje constrói-se no ontem


sexta-feira, 21 de junho de 2019


“Não, este de almas nada entende”, tinha um coração envelhecido, de certa forma, sempre o soube, vivemos no coração e caminhamos pelo pensar, quem não se apercebe destas singelezas pouco aprendeu por aqui…

in O hoje constrói-se no ontem

domingo, 16 de junho de 2019

O hoje constrói-se no ontem



Só ouviu o início da frase, o resto já não lhe interessava, por sabê-lo, talvez bem demais, assim que a voz, atrás da secretária, partiu em busca de palavras ajustadas para pô-la a par da sua situação, ela desinteressou-se, procurou um ponto de fuga, encontrou-o na janela, alta, estreita, uma arquitectura desumana, opressiva, deprimente, reparou que estava ligeiramente aberta, dava para um estacionamento, nem um vislumbre de natureza para aquietar o espírito, nada, apenas alcatrão, carros e candeeiros, a voz, atrás da secretária, persistia no seu tom monocórdico, sem vestígios de emoção...

quinta-feira, 13 de junho de 2019


Na minha memória, só ecoa o final…

L.- Acabámos por não chegar onde queríamos…
B.- Enganas-te, Luís. Só chegamos onde podemos.
L.- Pareces uma velha a falar.
B.- E sinto-me uma, acredita… (Nisto, Bárbara vira-se para Luís e beija-o na face, enquanto lhe dá a mão sob a areia.) Obrigado…

in Queira rever o teu rosto ao entardecer


sexta-feira, 7 de junho de 2019

Outono




Meu irmão, o que te fez a vida? Aqui estou, na ombreira da porta, da sala de visitas, comprida, larga, discretamente a observar-te, perdido que estás, à janela, de pijama, olhas não para lá do vidro, mas um não sei quê em ti, mais tarde ou mais cedo todos acabamos por olhar “um não sei quê” em nós, é uma inevitabilidade, no teu caso foi cedo, talvez em demasia, lá fora um prenúncio de noite, os dias mais ligeiros com a mala, com pressa em abandonar-nos, mas isso é-te indiferente, há muito fizeste a mala ao aqui, meu irmão, o que te fez a vida? Persistes com a janela, mas até da distância vê-se que nada esperas...

segunda-feira, 3 de junho de 2019



Fomo-nos sentar e viver a espera, quando já nada esperamos, continuam a obrigar-nos a esperar, chego à conclusão de que a vida se resume a uma enorme ironia, parece sentir gozo em se rir na nossa cara, como se no seu enleio nos conduzisse ao ponto de onde julgáramos ter partido há tanto, e, afinal, ainda ali estamos. 
in A noite do pensar

segunda-feira, 27 de maio de 2019



Por fim, o casal de jovens inicia o regresso. Um caminhar vazio. De onde vinham? Talvez do funeral de um sonho. Sim, qual será a extensão do nosso cemitério de sonhos? De certeza que já vai além do peito. E eles num caminhar amparado. Como se receassem uma queda. A última. 

in A alma reflecte-se num espelho d´água