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sábado, 30 de maio de 2020


terça-feira, 19 de maio de 2020


segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

"DESLUMBRAMENTO"


PEDRO DE SÁ





Deslumbramento



 



Há uma vaga brisa.
Mas a minh'alma está com o que vejo menos.
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

In Ode Marítima
Álvaro de Campos





ÍNDICE








PASSADO
PRESENTE
FUTURO







PASSADO




 

- Porquê? Consegues explicar-me? O que se passou ao certo?
- Explicar? O que há para explicar? As coisas são como são. Para quê, agora, estarmos a teorizar acerca de factos?
- Porque o hoje constrói-se no ontem, e não acho correcto seguirmos em frente, sem compreender o acontecer… Não sei, gostava de saber a tua opinião, agora que já passou tanto tempo.
- É curioso! Mudaste tanto nestes anos. Até em termos lexicais. Para quê levantar esse assunto? Logo agora! Qual é a tua intenção? Ver se ainda, por aqui, algum sentir? Precisas de elevar o ego? É isso?
- Sabes bem que não! Apenas gostava de perceber onde nos perdemos. Quantas vezes, num instante do dia, aqueles segundos balsâmicos que nos permitem regressar, pensar-nos, dou por mim às voltas com esta questão: “E se…?” Percebes, certo?
- Sim, claro… Desculpa, nem perguntei pelo teu irmão.
- Fui visitá-lo ontem. Hoje não consegui. Às vezes questiono-me se fizemos algum mal para merecer isto! Meu irmão, um resto do que foi! Custa-me tanto! Ontem, antes de sair, olhei para trás, tinha de me certificar, não sei porquê, que ele continuava a olhar o mundo por uma janela, como se uma súbita compreensão de aqui não ser o seu lugar, de lhe estar vedada a tão propalada “felicidade” ou lá o que isso significa, meu irmão, o olhar vítreo, braços caídos sem prenúncio de gestos num amanhã, apesar da tarde, lá fora, pegar na mala, ele de pijama, ou seria o uniforme, nunca questionei tal, confesso, perdi a conta às tardes ali passadas, nos fins-de-semana, em monólogos estéreis, porém, sei que tenho de ir, chego impreterivelmente um pouco antes da hora de visita, saio do carro e fico a olhar o robusto edifício em tijoleira, de dois andares, envolto em vegetação, por vezes, penso ali está a “última estação”, engano-me, essa é sempre pretérita, é quando algo se parte em nós de forma irreversível, foi o que sucedeu com ele, um sentir demasiado deixou-o caído, de uma forma ininteligível sempre o compreendi, e isso aconteceu muito antes de também eu cair, não por um sentir demasiado, mas pela sua falta, é curioso, como os inversos nos podem atingir da mesma forma, a questão extenuada (“Como está ele hoje?”), a enfermeira de turno com respostas evasivas, já nem se detém a olhar-nos, tudo numa impessoalidade fria e mecânica, ontem só lhe encontrei espelho no céu lá fora, plúmbeo, o chuviscar ininterrupto, como se fosse parte integrante da paisagem, aqueles dias em que o longe se liquefaz para nos relembrar o aqui, mas a questão ficou suspensa na tarde chuvosa (“Como está ele hoje?”), estava sentado na cadeira do costume, diante da grande janela que dá para o relvado, atravessei a vasta sala, cruzei-me com outras figuras de pijama, ou seria o uniforme, sentadas a olhar um ponto indefinível, como se aí um qualquer sentido só por si perscrutado, à sua volta outros que me acompanharam os apreensivos passos desde a entrada, suspiraram a mesma questão chuvosa (“Como está ele hoje?”), obtiveram a mesma resposta, que o longe se liquefaz para nos relembrar o aqui…
- É estranho, não achas? Sempre o achei tão concentrado, sabia o que queria, parecia ter a vida toda delineada. E, de repente, aquela queda: súbita, inexplicável, tão estranha…
- Imagina para nós!
- E houve respostas dos médicos?
- Não precisas de usar eufemismos comigo! Diz logo: psiquiatras! Tudo muito vago, houve um que falou de um baile e de um episódio deveras estranho…
- Então?
- Leu-nos um texto, aparentemente, escrito pelo meu irmão. De facto, era a letra dele.
- E o que dizia?
- Queres que te leia? Deve estar para ali na minha secretária. Por acaso, gostava de ouvir a tua opinião.
- Sim, claro. Mas espera um pouco. Antes disso, fala-me um pouco de ti. Como estás?
- Como estou?
- Sim, estás bem? És feliz ou lá o que isso seja?
- Sempre foste renitente quanto à felicidade. Nunca percebi porquê. Se havia alguém, de facto, que tinha tudo para ser feliz, eras tu.
- Estás tão enganada!
- Desculpa?! Sempre tiveste tudo: pais que te amaram, boa casa, andaste nos melhores colégios, quando uma novidade, brinquedo, roupa, ténis, eras o primeiro a vir para a rua exibir…
- E isso, para ti, é a felicidade? Bens materiais, pais numa aparência de sentir, colégios particulares onde aprendes a estar em vez de a ser? Pois, creio que estejas bastante equivocada. Quantas vezes não te invejei? A ti e aos outros miúdos lá da rua. A liberdade de ir para a escola a pé, em vez do espartilho da carrinha à porta, trocar o tecto de casa pelo tejadilho da viatura, nem vislumbre, por brevíssimos instantes que fossem, do céu do mundo, e a obrigatoriedade da língua estrangeira, como se não bastasse o Português, a Matemática, o Meio Físico, ainda o Alemão!
- Tens o passado tão presente! Não sei porquê, mas nunca te vi assim…
- Eu?! A partir de certa altura, acho que virei costas ao futuro. Daí já nada espero.
- Estás amargo.
- Tu ajudaste…
- Talvez estivesses mais, acredita!
- Nunca o saberemos!
- Isso é verdade! Mas, na altura, foi a melhor escolha, pelo menos a que se me afigurou mais acertada. Eu nunca ambicionei um papel secundário a tempo inteiro. Isso não! Lembras-te do que te disse na altura? Pois, nem uma  foto podíamos tirar… Pelo menos, para testemunhar o que fomos.
- O teu sentir não era assim tão profundo… Quando é, queremos mais que o mundo se dane! Levamos tudo à frente!
- Falas sempre preso ao instante, ao momento, não olhas as coisas com a distância, o tempo, o que tínhamos, acredita, não sobrevivia ao desgaste dos dias, perder-se-ia em semanas, no máximo em um ou dois meses.
- És profeta?
- Não, sou mulher.
- Lembro-me tão bem, cheguei a escrever-te, espero que te lembres: “Prefiro perder-me por ti, do que perder-te de mim”…
- Há zonas de ti que nunca amadureceram. Daí tivesse de pensar pelos dois. Mas não voltes, por favor, a julgar os meus sentimentos. Uma das coisas que mais me fascinou em ti, foi facto de seres uma alma desarrumada, davas-me espelho, atenuavas-me a solidão, sabes, há divisões de mim onde nem à porta passo, contudo, invadem-me os sonhos, aí, claro, nada posso fazer. Há uns dias, por exemplo, num momento da tarde, creio que regressava a casa, levantou-se-me esta memória: houve um Natal, teria cinco ou seis anos, o primeiro após o divórcio, lembras-te, claro, foi meu pai a sair de casa. Bom, ao contrário do expectável, tive o Natal com mais prendas: mãe, avós, tios, até vizinhos, parecia que todos procuravam compensar-me por ver os pais seguir em direcções opostas. Percebi, pelo soar da campainha, a chegada do meu pai, não me perguntes como, aquelas coisas que simplesmente sabemos numa zona de nós tão longe e simultaneamente tão próxima do mundo, mas, como dizia, foi após o jantar, ainda deu tempo de abrir mais de metade das prendas, estava tão feliz, lutava e lutava com papel de embrulho, de facto, há lutas que dão prazer, não me passou despercebido, logo após a campainha soar, o cessar das conversas, um silêncio que ampliava o próprio respirar, curioso, não me recordo de quem abriu a porta, minha mãe não foi, isso tenho presente, talvez uma das tias, a imagem de meu pai, à entrada, surgiu-me, tímido, renitente em avançar, olhou em volta à espera de um incentivo, acabou por surgir através do afável gesto de um dos tios, lá entrou, em tímidos passos, à medida que se ia aproximando, denotei-lhe uma crescente noite pelo rosto, parecia envelhecer à medida que se aproximava, como se lhe fosse exigido um esforço demasiado em ali estar, não me recordo se, naquela noite em especial, de luzes e aparente concórdia, onde se celebra o nascimento Daquele que veio apenas falar de Amor e Verdade, meu pai e minha mãe trocaram uma só palavra, não me lembro de os ver juntos, eu ainda absorvida pela minha guerra com o papel de embrulho, até que ele se abeirou de mim, baixou-se e abraçou-me, como só um pai sabe, não, não era impressão minha, havia tanta tristeza naquele rosto, ajudou-me numa batalha com mais papel de embrulho, estive quase para lhe perguntar pela minha prenda, contudo, no último momento, calei a questão, talvez o seu rosto tão anoitecido caminhasse por paragens distantes de luzes e papéis de embrulho, creio que estivesse desempregado, fazia umas horas no táxi de um amigo, a fábrica fechara, sabes, por muito que esforçasse a memória, não me recordo, nem por uma vez, de olhar os meus pais de mão dada, é curioso, as ideias que nos atravessam o pensar, nem lhes sabemos a fonte, simplesmente irrompem pela nossa mente, mas sempre de proveniência incógnita, nessa noite, por curiosidade, segui-lhes os passos, cumprimentaram-se de uma distância segura, através de cordiais acenos, após isso, os renitentes passos de meu pai conduziram-no até onde eu estava, deu-me a impressão, não sei porquê, de ele ter deixado cair algo atrás do sofá, antes de se abeirar de mim, pois, talvez fosse só uma impressão, abraçou-me, como só um pai sabe, beijou-me a testa e num terno murmurar disse “Feliz Natal, minha querida”, um dos meus tios, com uma sonoridade exagerada, convidou-o para a mesa, mais concretamente a zona onde se concentravam o maior número de garrafas, porém, ele declinou, deu-me uma festa na cabeça, enquanto “Recebeste tantas prendas! Meu Deus, tantas prendas! Que bom!”, apesar de olhar em volta, para se inteirar da sua circunstância, pareceu-me tão longe, tão distante, a sua voz um eco trazido por um vento de terras longínquas, apesar da idade, compreendia tudo isto sem o corpo das palavras, percebes o que quero dizer, certo? Dessa noite, pouco mais recordo, nem dei pela sua partida, mas o relevante aqui deu-se na manhã seguinte, peço desculpa se me demorei a chegar a este ponto, todavia, para compreenderes a essência do seu gesto, cada aspecto, por muito acessório pareça, conta bastante, lembras-te de ter dito, a certa altura, “deu-me a impressão, não sei porquê, de ele ter deixado cair algo atrás do sofá, antes de se abeirar de mim”? Pois, na manhã seguinte, talvez motivada pela inusitada quantidade de prendas, acordei espontaneamente, sem resquícios de esforço, a casa ainda dormia, pelos oblíquos vestígios de luz vindos do exterior, compreendi a hora matinal, preparava-me para rever e certificar da veracidade de todas aquelas prendas, quando tropecei em algo caído atrás do sofá, baixei-me para ver e reparei num urso de peluche, sorridente, bonacheirão, humilde, de repente, percebi: à vista de todas as prendas, algumas dispendiosas, que abria ininterruptamente, ele atirou o humilde peluche para o lugar mais recôndito da sala, onde nem as luzes dessa particular noite tacteiam, num incompreensível gesto de pudor, abracei-o espontaneamente, como se procurasse, nesse momento, despontar a reprimida lágrima de meu pai na véspera.
- Era aquele urso velho que tinhas sempre encostado à cabeceira da cama?
- Sim!
- Pois… Realmente… Que história! Quantos objectos não fazem parte da geografia de uma alma? Às vezes nem sonhamos a história que cada objecto carrega! E como está hoje a relação com o teu pai?
- Cordial.
- Só tens isso para dizer?
- Parece-me o suficiente. Parte de mim, não sei porquê, sempre achou que ele não se separou só da minha mãe, englobou-nos a todos.
- Não estás a ser injusta? Afinal, não raras vezes o encontrei em vossa casa.
- Respondo-te com uma questão: estar perto significa estar próximo?
- De facto… Lembro-me, uma vez, de ter dito a alguém: pai e mãe podem ser bênção ou maldição.
- Concordo plenamente.
- Acompanham-nos, para o bem ou mal, até ao nosso último respirar. Por muito que o tentemos negar! Sabes, às vezes, olho-me ao espelho e revejo o meu pai, ou ouço a sua voz numa expressão que verbalizo…
- Isso agrada-te?
- Confesso que não!
- Pois, compreendo, a mim também não. Mas, no caso do meu irmão, foi ele quem melhor percebeu a situação.
- E o tal texto?
- Qual texto?
- O que ias ler! Escrito pelo teu irmão.
- Ah, sim… Espera um pouco, deixa-me só procurar na secretária. Bom, aqui está. Sabes, não gosto nada, a esta hora, de falar destas coisas…
- Mas o que se passou ao certo? Qual a verdadeira razão do seu internamento? Falou-se de tanta coisa: tentativa de suicídio, depressão, drogas, jogo, meu Deus, diz-se tanta coisa…
 - Por favor, nem me contes mais nada! Só me mete nojo essa gentinha que fala sem fazer a mínima ideia do que se passa! Sempre uma necessidade de catalogar os outros. Como se só assim circulassem melhor no mundo. Tão previsíveis! Enfim… Não foi nada disso a derrubar o meu irmão. Foi algo bem mais sublime: virou costas ao mundo por amor. Existe melhor razão? Pois, não me parece. A sua narrativa vale o que vale, todavia, como pediste, vou ler-ta.
Quando me apercebi, falávamos disto e daquilo, pareceu-me que já nos conhecíamos, nesta vida, de facto, pela melodia da voz, a familiaridade peculiar de um gesto que risca o ar, a compreensão derramada por um olhar, há quem, manifestamente, pareça caminhar há muito a nosso lado, ela segurava um copo de sumo, embora o ignorasse, desde que encetáramos o diálogo, à nossa volta só ruído, porém, nós permanecíamos naquele peculiar universo velozmente criado para nos comunicarmos, nunca fui festivo, por isso, nessa noite, ali desaguei somente pela promessa de que seria uma pequena reunião de amigos para celebrar o aniversário do… Pois, não interessa, não vou chamar para aqui o seu nome, como dizia, fui dos últimos a chegar, em verdade, não havia muita gente, embora, para mim, sempre fosse gente a mais, entrei relutante, logo a demasia do som a empurrar-me para o Inverno da rua, as vozes histriónicas também concorreram para a hesitação dos meus passos, mas era o aniversário do… Pois, não interessa, não vou chamar para aqui o seu nome, apenas sublinho que ele vinha de um momento difícil e merecia ali a minha presença, falava-se que, certa tarde, os pais encontraram-no caído, ao lado da cama, próximo estava um frasco aberto, do seu interior rolaram pequenos cilindros coloridos pelo chão, ainda houve tempo, embora o desgosto de ver o filho caído, acompanhado de pequenos cilindros coloridos, fosse indelével, sobretudo para o coração de uma mãe, ainda houve tempo, mas se não houvesse, nem um “adeus”, nem um “adeus”, tudo porque, apesar da data próxima, dos preparativos, de ela, inclusive, já ter experimentado o vestido, para uma mulher esse deveria ser o “vestido”, e ainda razões de outra ordem, mais próxima de nuvens e cumes, ele ter depositado o seu coração nas suas mãos, durante seis anos, naquela casa, longe, muito longe, de cilindros coloridos derramados pelo chão, o nome dela num tom meloso, perigosamente próximo da subserviência, quando um nome acompanha o respirar, o coração já não pertence ao peito onde bate, assim foi, Belinha, Belinha, Belinha, a mãe na dúvida se era o nome em si que a irritava, se a respiração que lhe acentuava as sílabas, além do ar apalermado do filho, sempre que pronunciava Belinha, os olhos resplandeciam, e a energia ia-se-lhe, pois, quando um nome acompanha o respirar, o coração já não pertence ao peito onde bate, o pai compreensivo com o persistente Belinha, antes por ali do que noutros cenários, e Belinha, Belinha, Belinha, continuou a ecoar, durante seis anos, até que, apesar da data próxima, dos preparativos, ela, por telefone, nem a face lhe mostrou, “Desculpa, estive a pensar, e acho que não devíamos dar este passo. Ainda somos bastante jovens. Temos toda uma vida pela frente. Acho que é uma precipitação. Compreendes, não é? Mereces ser feliz…”, ele mais nada ouviu, o telefone simplesmente caiu-lhe, pois, assim que Belinha, a energia ia-se-lhe, a única coisa boa dos cilindros coloridos derramados pelo chão foi o silenciar, definitivo, entre aquelas paredes, de Belinha, acompanhei de perto o seu reerguer, se bem que, depois de certas quedas, nunca se caminhe da mesma forma, por tudo isto, era imperativo que marcasse presença no seu aniversário, percebi que ele optara pela representação, não era de censurar, há momentos, na vida, em que um atalho é sempre a melhor das vias, assim o fez, colocou uma máscara e com a sua ajuda reaprendeu a caminhar, Belinha tornou-se uma palavra interdita, mais uma daquelas questões tácitas que se outorgam sem argumentar, pensava em despedidas quando, de repente, o meu olhar se imobilizou nela, de facto, foi o que sucedeu, estava sozinha, para meu espanto, detinha uma aura de timidez que me encantou, se adicionarmos uma genuína beleza e a graciosidade dos gestos afigurava-se um sonho esquecido pelo mundo, quando me apercebi, falávamos disto e daquilo, pareceu-me que já nos conhecíamos, nem o nome lhe perguntei, é curioso, há quem, manifestamente, pareça caminhar há muito a nosso lado, pressenti-lhe um desejo de partida, proporcional ao que em mim existia desde que ali entrara (apesar de ser o aniversário do…), ofereci-me para a acompanhar até casa, ela assentiu, havia no seu rosto e gestos uma dignidade de majestade sem coroa, assim que saímos para noite do mundo, sabia-me perdido, o meu coração assumira a forma de um rosto, ela estava de férias em casa dos avós, daí a novidade do seu rosto, ficava a escassas centenas de metros do local da festa, sugeri-lhe que caminhássemos junto ao rio, ela anuiu de imediato, acho que aguardava a minha sugestão, gostei particularmente de vê-la caminhar a meu lado, como se me completasse, mesmo a nossa passada logo se harmonizou, a noite convidava à palavra, ficou amena, nem uma brisa para agilizar o mais ténue movimento, as luzes alongavam-se nas águas, pareciam desdobrar-se numa outra existência, gostava de caminhar pela margem, ela também, fazia-me pensar em que momento dar-se-á a foz do meu existir, não sei de onde se me levantou esta ideia, mas creio que ela leu este meu pensamento, olhou-me com serenidade, pareceu-me ouvir-lhe (“No fim, compreenderás, no fim, compreenderás… Não poderia ser de outra forma), continuámos a acompanhar o curso das águas, rumo a jusante, volta e meia ela detinha-se, eu perdia-me no seu olhar que reflectia o céu nocturno, para onde se evolam os sonhos calados dos homens, a certa altura, parámos num jardim, sentou-se num banco, sentei-me a seu lado, o mais próximo possível para sentir o calor do seu corpo, estava tão inebriado pelo momento que me escapou o desejado calor, ela contou que vinha ali em criança, bem à nossa frente ficava o carrinho do vendedor de algodão-doce, não me escapou o tom pausado das suas palavras, o peso da saudade acentuava-se a cada sílaba, olhei o vazio derramado pelo candeeiro onde, outrora, estava o carrinho do vendedor de algodão-doce, acrescentou que só no regresso a casa ali paravam, pareceu-me vislumbrar um brilho sem luz pelos seus olhos quando falou em “regresso”, o sentir precipitou-se-lhe discretamente pelo rosto, não o disfarçou, permaneceu imóvel, no banco de jardim, a meu lado, a olhar o vazio derramado pelo candeeiro onde, outrora, estava o carrinho do vendedor de algodão-doce, não resisti e peguei-lhe na mão, estava fria, achei natural, falávamos de despedidas sob a noite do mundo, poucos sonhos reflectiam-se na distância das alturas, levantou-se, “Já é tarde. Chegou a minha hora”, eu, tolo, tão longe do tom pausado das suas palavras, peguei no meu casaco e pu-lo pelos seus ombros, ela sorriu um agradecimento, percebi que faltava pouco para a deixar, os nossos passos continuavam em harmonia, perguntou pelos meus sonhos, respondi-lhe que vivia um, arrependi-me de imediato, achei forçada e demasiado óbvia, disse-me “É pena termos de acordar, não é?”, aumentava a insularidade das sílabas e o seu peso, até que, “Fico aqui”, um sentir de orfandade precipitou-se sobre mim, por deixá-la, compreender o tanto que ficou por dizer, talvez o essencial, acima de tudo o  rosto que se me alojara no coração, ela subiu os dois degraus até à sua porta, olhava um ponto indefinível ao fundo da rua, se um pouco mais de atenção da minha parte, talvez percebesse que procurava, num vazio agora derramado por um candeeiro, o carrinho do vendedor de algodão-doce, onde sempre paravam aquando do regresso, pelos seus ombros ainda o meu casaco, fingi esquecê-lo de propósito, tinha de revê-la, já me doía o corpo de sabê-la longe do meu olhar, subi num ímpeto os dois degraus que nos separavam, aproximei o meu rosto, ela recuou, apreciei o seu pudor, um gesto que a fez ganhar mais espaço no meu coração, porém, antes de descer os dois degraus, segurei-lhe a mão, entrelacei os dedos, pareceu-me segurar gelo, não lhe passou despercebido o meu espanto, suspirou “Mãos frias, coração quente”, não foi só o casaco, sobre os seus ombros, que deixei, nessa noite, no alto daqueles dois degraus, o meu coração também ali ficou, depositado no frio da sua mão, no dia seguinte, logo após o almoço, tomei a direcção da sua porta, sempre tinha a desculpa do casaco, caso a magia da noite se diluísse na cegueira do dia, mas a sua melodiosa voz ainda por aqui, como se uma promessa, “Mãos frias, coração quente”, com a luz, a rua outra, eu também outro, só o rosto que me ocupava o coração se mantinha, subi os dois degraus, também diferentes, nem mais altos, nem mais baixos, apenas diferentes, e toquei à campainha, uma senhora de idade fez-me encurtar o sorriso que ostentava na cara à espera que ela me surgisse, pareceu-me avó, embora receasse ofender, porque há maternidades tardias, daí o meu balbuciar, até que, perante a expressão de estranheza da idosa, lá consegui encadear palavras de forma a conseguir expressar-me sem ofender susceptibilidades alheias, especialmente se houver maternidades tardias, “Boa tarde. Vinha à procura da… Ontem deixei-a aqui à porta…”, só nesse momento me apercebi de continuar a não lhe saber o nome, como foi possível? A expressão de estranheza manteve-se no rosto da velha, retorquiu que morava sozinha, decido descer os dois degraus para confirmar a porta, não, não havia dúvidas, foi ali que a vi, do alto desses dois degraus, olhar um ponto indefinível ao fundo da rua, insisti, “Desculpe, mas tenho a certeza de que foi aqui…”, uma vez mais, “Desculpe, mas tenho a certeza de que foi aqui…”, a velha, quase num lamento, “Vivo sozinha”, eu “Mas…”, ela “Tão sozinha, às vezes falo para acreditar que ainda respiro…”, atrás da esguia silhueta, numa moldura, pareceu-me ver um rosto familiar, o meu indicador instintivamente, ela acompanhou o gesto, abriu a porta, nem dei conta de subir os dois degraus, de ali entrar, só me lembro de segurar a moldura e o rosto que se me alojara no coração quase junto ao meu, olhei a velha, permanecia na ombreira da porta, “Foi ela quem…”, aproximou-se, pegou na moldura com uma indizível ternura, abraçou-a, “A minha neta… A estrada levou-ma, juntamente com a minha filha, há dois anos…”, não ousei insistir, nem ao vislumbrar o meu casaco pendurado no espaldar de uma cadeira, antes de sair, beijei a face da velha, doravante, ela estaria bem mais acompanhada que eu, saí para o mundo, pelo menos o que de mim restava, não sei para onde fui, de repente, percebi-me na margem do rio, à minha frente só as águas no seu incessante caminho de jusante…

domingo, 28 de janeiro de 2018

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

sábado, 30 de dezembro de 2017






Pedro de Sá



HARMONIA






                      … não choreis por Mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos…
                                                  Lucas 23, 27-31

Sede prudentes como serpentes e inocentes como pombas.

                                                   Mateus 10:16





ÍNDICE



A página em branco………………………………………..5

A Ideia………………………………………………………50

A Escrita………………………………………….…………100





A página em branco




Se me perguntassem como ali cheguei, não saberia o que responder, afinal, tudo começou há muito. Mas, agora, ali na rua, sob aquele inclemente sol de Agosto, a tarde no seu auge, não havia tempo para considerações acerca da génese deste meu destino. Toquei à campainha, nem hesitei, o trinco da porta demorou o necessário a abrir-se, entrei, aproveitei para respirar fundo e fruir da frescura da entrada forrada a mármores, sempre apreciei a frescura das entradas dos prédios antigos, por vezes, reflectia se, com os tempos, não desaprendêramos de fazer as coisas… Subi a escada até ao primeiro-andar, enquanto ouvia uma porta a abrir-se, aí chegado, deparei-me com uma mulher, de estatura média, era agradável à vista, tinha uma beleza dissonante dos seus gestos e voz, como se um corpo que merecesse outra alma (quantas vezes tal sucede?), teria mais uns dois ou três anos que eu, sempre fui péssimo a estimar idades, porém, desta vez acho que acertara, até porque, de certa forma, estava contextualizado, cumprimentámo-nos, ela Chegou um pouco antes da hora. Não olhei para o relógio, achei que seria uma manifestação de fraqueza, optei por um sorriso, sempre a melhor forma de ocultar sentires e pensares, estendi-lhe a mão, ela retribuiu, cumprimentámo-nos, convidou-me para entrar, conduziu-me para a sala, enquanto Bom, depois do seu telefonema, confesso que dei voltas ao assunto, e não sei bem o que quer de mim… Afinal, não o conheci assim tão bem. Apontou-me para um cadeirão, sentei-me, ela sentou-se, num sofá barato, bem à minha frente, porém, lá prevaleceu um resquício de educação Desculpe, nem lhe perguntei se toma alguma coisa… Quer um café? Não sei porquê, mas nunca tive forças para recusar um café, aceitei, sinceramente, acho que ela esperava o contrário. Levantou-se, enquanto isso, olhei à minha volta, percebia-se que se tratava de um apartamentozito alugado, talvez com uma renda inversamente proporcional ao espaço disponibilizado, mobiliário só o necessário, como é natural nestes infelizes tempos de inconstância, além desta salita onde estávamos, pelas portas que vi, poucas mais divisões deveria ter, regressou com o café, vestia uma roupa de desporto, coçada em vários pontos, as cores esbatidas, uns ténis, apesar de serem de uma marca em voga, não me escapou que fossem o modelo mais básico, o que conferia ao quadro uma nota desagradável, pois, a tal ideia de dissonância, a sua dicção era sofrível e o esforço pelo verbo faziam-na salivar, felizmente ainda estava a alguma distância e eu não uso óculos, mas, assim que se silenciava, de novo, como se por milagre, diante de mim, aquela beleza de há pouco, discreta, é certo, mas tão longínqua daqueles gestos, salivares, roupas coçadas, enfim, houve outro pormenor que não me escapou, desde que ali entrei, não vi um único livro! Sempre achei que uma casa sem livros é um homem sem ideias. Como pôde ele relacionar-se com uma mulher assim? A minha curiosidade aumentava, de facto, ela evidenciava outros atributos, talvez fosse por aí… Como estava a dizer, estendeu-me a chávena e sentou-se no sofá barato, bem à minha frente, não percebo bem o que quer de mim. Já agora, é da família dele? Reparei que o salivar se adensava à medida que ela procurava acelerar o discurso, talvez houvesse também alguma nervoseira à mistura, procurei tranquilizá-la pausando as palavras, Não. Nada disso. Estou a recolher dados para um trabalho académico. Sabe, todos os seus livros são puramente autobiográficos. É esta a minha convicção e quero demonstrá-lo. Acredito que cada linha que escreveu corresponde a um instante vivido. E, como é natural, tenho esperança de encontrar resposta para a sua decisão… Percebe, não é? O que o levou a… Neste ponto, percebi-lhe algum desconforto, remexeu-se, por mais que uma vez, no sofá, Pois, compreendo, mas insisto: não sei como ajudá-lo. Saímos juntos algumas vezes. Nada mais… Compreendi que tinha de me socorrer rapidamente de uma questão, a seiva do diálogo, O que sentiu quando soube da sua morte? A mudança tão repentina, na geografia da conversa, deixou-a perplexa, demorou o seu tempo a recompor-se, Bom, foi terrível, não acha? E naquelas circunstâncias… Não estava nada à espera! Foi um amigo comum que me contou. É curioso, agora que falo nisto, uma parte de mim não ficou surpreendida. Ele falava recorrentemente da morte. Eu até lhe dizia para afastar tais pensamentos. Mas parecia uma obsessão. Começava a achar que, afinal, não tinha perdido o meu tempo! Recostei-me no cadeirão, acho que este gesto a incentivou à palavra, pareceu-me que também ela precisava de reorganizar este acontecimento em si, Certa tarde, estávamos num café, ele andava inquieto, isto sucedia quando não tinha matéria para a escrita, este ponto, claro, não me passou despercebido, se ela, há pouco, afirmou não o conhecer assim tão bem, como é possível saber a génese da sua inquietude? Optei pelo silêncio e deixei-a prosseguir, Começava a perguntar-me pelos meus pais, irmã, se nos dávamos bem, a minha infância, amores passados, eu respondia-lhe, claro, mas, ao mesmo tempo, percebia-lhe esta inclinação vampiresca, afinal, ele precisava de temáticas para escrever, agora que me lembro disto, sabe que chegou a escrever sobre mim e um antigo namorado? Mandou-me o texto e perguntou se correspondia, li-o, mas confesso-lhe a minha dificuldade com aquela prosa, não sei porquê, parecia-me que ele escrevia ao contrário do suceder das coisas. Como hei-de dizer? Parecia que estava a assistir ao desenrolar da história, mas sob um outro ponto de vista, ou mesmo de vários pontos de vista, na altura, optei por discordar da sua descrição demasiado suburbana da casa dos meus pais, ele refugiou-se, de imediato, na liberdade criativa. Anuí, claro está, para disfarçar o meu desconforto com o rótulo de suburbanos. Neste ponto, quase não disfarcei um sorriso, relanceei, uma vez mais, a roupa de desporto, coçada em vários pontos, com as cores esbatidas, e o modelo básico dos ténis, a dicção, como é óbvio, só servia para coroar o quadro geral, porém, uma questão impunha-se Mas achava-o elitista? Acho que ficou, de novo, surpreendida com a minha frontalidade, Elitista? Bom, como hei-de dizer? Sabe, quando li aquele texto sobre mim e um antigo namorado, no fundo, foi a única coisa que li dele, não sou muito de leituras, então, literatura, não tenho mesmo paciência! Gosto de coisas mais práticas, mais palpáveis, mas voltando àquele texto, ele pegou na história que lhe contei e trabalhou-a como quis, não o reconheci naquelas linhas. Se me dissessem que tinha sido escrito por um desconhecido, eu acreditava, porque o texto era muito sério, muito erudito, bom, eu sabia que ele tinha todas essas qualidades, porém, no dia-a-dia, não era nada assim, acho, inclusive, que o procurava disfarçar, talvez para não se distanciar em demasia de nós... Por outro lado, às vezes, roçava a extrema má educação e chegava a ser agressivo, no trânsito, então, nem lhe digo nada… Agora, elitista, não creio que fosse. Bom, era um bocado snobe, quer dizer, tinha os seus momentos, sobretudo, lá está, quando tinha de demonstrar a sua erudição, no entanto, quando a coisa virava, parecia que estávamos diante de um autêntico cavador. Não me escapou um pormenor, resolvi jogar um trunfo na mesa, Falou-me há pouco do trânsito. Afinal, pressuponho que saíram várias vezes, certo? Como sempre sucede nestas situações, percebo-lhe desconforto pelo desvelar da mentira, Sim, tem razão. Mas não é meu costume falar da minha vida a estranhos, como deve imaginar. E, já agora, o senhor anda a investigar a vida privada dele ou a sua obra? Tentativa de inverter os papéis, um clássico, sorri-lhe de novo, neste momento, acho que ela estava mais ansiosa por falar do que eu por ouvi-la, não me pareceu que fosse adiantar muito ao que já sabia, contudo, deixei-a prosseguir, Ao contrário do que possa julgar, eu também tenho faculdade, e muito antes de si. Noutra área, é certo, daí a minha distância das letras. Não pude reter a imagem daquela dicção, diante de um auditório, a dissertar sobre a mais singela temática. Dei o meu melhor para liquidar, de imediato, a gargalhada que me nascia. Consegui restabelecer-me, assumi uma expressão de interesse pelas suas palavras, enquanto anuía com insistência, para que ela levantasse o passado, Corremos vários cafés e esplanadas. Quase sempre junto a praias. Percebia-se que ele amava o mar. Acho que o tranquilizava (...)

sábado, 17 de junho de 2017

Do outro lado do rio, há uma margem



Levantar

Caminhar

Cair



Nós somos feitos do mesmo estofo dos sonhos, e a nossa curta vida está encerrada entre dois sonos.

                                                                             Shakespeare (in A Tempestade)


… pois a vida e a morte são uma só coisa, como uma só coisa são também o rio e o mar.

  Tende fé nos sonhos, pois neles se encontra a porta da eternidade.  

                                                                                                               Kahlil Gibran


Levantar


I


O tempo é o homem

 Os primeiros acordes do alvorecer insinuaram-se na penumbra. A luz sempre encontra uma forma de se anunciar. De se dar a conhecer. É da sua essência. Nessa manhã, ele encontrou-a na porta do armário. Como se lhe relembrasse uma urgência: talvez a da vida. Assim ficou: a descobrir os veios de uma porta, subitamente revelados. Cansou-se. Afinal, todo tem o seu tempo. E o tempo é o homem. Subiu a perspectiva, e observou as partículas dançantes, felizes e aquecidas, naquela chaga das trevas. Estariam só ali? Embaladas por aquele vestígio de felicidade? Desde quando? Levantou-se. Arranjou-se. Antes de sair, olhou para ela, que, através do rosto, transparecia o indizível de uma felicidade de outras paisagens. Por fim, saiu.

Encontrou a sala de refeições, àquela hora, já com bastante gente. Na sua maioria casais com filhos. Colocou a chave numa mesa e foi-se servir. Esperou algum tempo pela sua vez. Sentiu, no ar, a urgência do açambarcamento, como se fosse um imperativo encher os tabuleiros, uma forma de equilibrar as contas. Talvez a recepção, avistada através das portas de vidro, potenciasse este súbito e repentino apetite. Chegada a sua vez, avançou. De súbito, viu-se ultrapassado por um garotelho, com os seus dez anos, que se precipitou, numa urgência sem retorno, a reabastecer a caneca e respectivo cesto de pães e croissants. Ficou siderado. Não tanto pelo gesto do garoto. Mas sim pela forma, que denotava grande experiência, com que o executou. É um outro mundo, pensou. Ao qual não queria pertencer. Admirou-se como o tabuleiro, sustido pela mãozita de uma década àquela velocidade, sem vislumbre de inclinação. Ele tinha que agir. Aproximou-se do miúdo por trás, enquanto este aumentava consideravelmente o peso do tabuleiro, e pisou-lhe, como se tratasse de um singelo acidente, o calcanhar direito, o que fez com que o ténis saísse. O garoto, entre o espanto da pisadela, o olhar para trás e manter o tabuleiro equilibrado, a escolha de doce ou de mais fiambre, acabou por ficar a meio caminho, e ele aproveitou para o ultrapassar, saúdo-o com um sonoro Ah, peço imensa desculpa, e no seu íntimo regozijou-se pela vitória do passado face à ignomínia do presente.

II

Uma sombra vertical proclama harmonia

O seu olhar, neste momento, perdia-se entre o espectáculo em volta e um solitário que se equilibrava, em harmonia messiânica, numa exígua canoa no meio do grande lago, emoldurado pelas janelas da sala. O dia amanhecia, de novo, pardacento, como se esse véu emergisse das águas, e colorisse os céus. O solitário das águas estava, agora, num estatismo arrogante. Como se apelasse a um artista anónimo. Como se cumprisse um ritual. Como se aquele fosse, de facto, o seu lugar no mundo. Ele pousou, nesse momento, a chávena com mais leite do que café. O seu olhar apenas naquela sombra vertical – que proclamava harmonia.
Ele, agora, era o outro: na imobilidade, no equilíbrio da chávena, na arrogância de uma certeza, no silêncio de um grito por um olhar. Num lento adeus, a canoa afastou-se, e ele ainda ficou um pouco assim: entre o encantatório do movimento e a efémera memória do Sentido.

Tudo se diluiu, na estridente dor de uma chávena, desafiadora de gravidades. Também ele caiu no desconforto de si. Estremeceu, primeiro. Depois, buscou a génese do estrépito. Sem saber muito bem o porquê. Sim, soube desde logo que se tratava de uma chávena. Então, porquê esta quase obsessão de localizar, no espaço da sala, o ponto exacto da ocorrência, e visualizar o rosto do infeliz? Ele não o sabia. Apenas sentiu, em si, esta necessidade, quase orgânica… Tinha sido uma criança, a fonte do seu súbito desassossego. Crianças e ruído são íntimos de há muito. Não desistiu do epílogo da caneca. Esperava, sabia que em vão, pelo castigo do meliante. Acabou por emergir: a mãe afagou-lhe o cabelo, o rosto do pai sustentava o sorriso apatetado daqueles que não vincam o solo. Não, ele já não pertencia a este mundo. Olhou cansado o absurdo de uma cena recorrente. Enquanto o fazia, apoiou o rosto na mão direita. Por fim, suspirou… Longos corredores, silêncios obedientes, temores aquém verbo, imagens que revisitava balizadas pelo infinito de uma expiração. Na velhice, o futuro reside no passado. Só assim tem sentido. Afinal, de que outro modo o podiam encontrar? Esta é uma das grandes verdades da vida: passado e futuro, com o tempo, acabam por se fundir.

 E ali estava ele, sozinho a uma mesa, oscilando entre o grande lago, no exterior de uma natureza paciente pelo sempre adiado regresso, e o civilizado ruído do movimento interior da sala. O seu olhar, reflectido na caneca, anunciava fim. Apesar de terminado o café com leite, ainda permaneceu sentado. Outrora, sentir-se-ia constrangido pela solidão. Nunca se deu bem consigo mesmo. Achava-se insuficiente. Sempre careceu de um espelho. Pelo menos um que o sossegasse. Só, sentia o apelo da elipse, e, do abismo de si, sempre emergia envolto nas roupagens da inquietude e da desilusão. Ao longo da vida, sempre se compadeceu daqueles cavalheiros que ocupavam, numa proclamação de derrota, uma mesa, de um qualquer restaurante, sem saber muito bem porquê… E porquê esta analogia com a derrota? Porque não associava ele, a imagem de um homem só, a uma mesa, com a de um farol, por exemplo? Afinal, solidão e luz são velhas companheiras. Não, ele não conseguia. Os seus olhos partiam sempre toldados por um véu de tristeza. Quem o terá bordado? Que delicadas mãos terão confeccionado tal peça, indelevelmente inquilina de sua alma? Sempre esta fonte inexorável de questões… E respostas, onde? E uma mulher só? Sem saber muito bem o porquê, não se compadecia tanto. No fundo, ele sabia há muito que o porquê é a porta da desculpa. Uma mulher, só, encerra em si uma aura de dignidade – daí a naturalidade de uma viúva –, um homem sozinho é o rosto do abandono e da incompletude – e de viuvez, estamos conversados!

 Agora, olha o lago. Soube, há poucos dias, que lhe chamam a Lagoa Adormecida. Sim, faz algum sentido. Porque adormecer inspira tranquilidade. Dormir, já não. Mas aquelas águas apelam a sonhos tranquilos. Por contraste com as manhãs daquela sala de refeições. No fundo, aquele espaço em nada difere das salas de refeições dos outros hotéis. Há um lastro comum de excitação e de bocejo: o que origina estados de espírito a roçar a insuportabilidade. Continuou a observar os seus vizinhos da manhã. Numa mesa distante, um casal de anciãos, com a sua digníssima coroa prateada, saboreava a refeição com gestos lentos, próprios de quem já assimilou o saber dos pequenos nadas – o sempre tardio saber da vida –, ela muito direita, poucos imaginam o esforço da pose, ele mais curvado, mas numa curvatura honrada, de vez em quando uma palavra, o resto num harmonioso silêncio dialogante, como se nada fizesse sentido naquela sala sem a sua presença. Do casal infantilizado e da sua cria, já falámos. Numa mesa próxima, havia outro casal com duas filhas adolescentes. Reinava entre eles um respeito traduzido nos gestos. Nos gestos, não. Mas sim na sobriedade com que os executavam, como se tivessem uma profunda consciência do cerimonial que preside a uma refeição. Como se só sob esta luz, o acto de se sentar a uma mesa tivesse algum sentido. Tudo ali era lentidão e silêncio. As raparigas contrastavam a idade com a parcimónia dos gestos. Apesar de cumprirem os requisitos etários da moda, exalavam uma aura de anacronismo indecifrável. O pai era um sujeito anafado, com a ruralidade bem visível no rosto, apesar dos subsequentes anos de urbe, a mãe, inexplicavelmente, só se faria notar no quadro familiar. Sim, ela ali estava: era a mãe… Mas, em qualquer outro contexto, o seu lugar seria o da invisibilidade. Uma dessas pessoas que nem a memória ilumina. As raparigas, pelo contrário, talvez se iluminassem fora daquele palco. De certa forma, era como se representassem, não, não é bem isso, havia uma fatalidade que lhes sombreava a face, uma aceitação incondicional de um cálice amargo, por uma esperança algures reconhecida. Ele continuou a observá-los, com uma curiosidade crescente. A forma cerimoniosa como o patriarca limpou os lábios, análoga à de um sacerdote durante a eucaristia, como se uma multidão observasse o seu mais ínfimo movimento, e uma palavra adveio-lhe ao espírito: uma palavra de outras paragens, eivada do espontâneo, com outros protagonistas, outros ritmos… A palavra felicidade. Quão longe daquela mesa! Estaria a ser injusto? É possível… Não, ali não havia vestígios de risos, de… Mas é isso a felicidade? Risos, movimento, brincadeira? Não haverá outras manifestações? Em alguma parte de si, ele compreendeu a tranquilidade emanada de cada gesto, a leveza do silêncio (tão rara de encontrar), a comunhão subterrânea daquelas quatro pessoas. E esta sintonia, não se poderia denominar de felicidade? A resposta, demasiado óbvia, verbalizou-se pela voz sem voz de si mesmo. E continuou a olhar aquela família, seduzido pelo véu da felicidade inaudível dos gestos.

 III

 Quando o apelo da madrugada se desvanece

 Saiu para o amanhecer cinzento. À sua frente, o lago. Atrás, o edifício, de dois pisos, do hotel. As cortinas fechadas, do seu quarto, denunciavam o sono da mulher. Dirigiu-se para a margem. Estranho este fascínio humano por margens e água! Deixou-se estar, de mãos atrás das costas (uma última tentativa de resistir à gravidade), a ouvir as águas e a sentir o afago sedoso da neblina no rosto. Uns metros ao lado, um sujeito preparava uma manhã de anzóis e paciência. Aproximou-se dele, enquanto este se debruçava sobre baldes e iscos de longa espera. Saudou-o com um Bom-dia, entre o educado e o alegre, a indiciar ao outro predisposição para a conversa. O indivíduo levantou os olhos dos baldes, e retribuiu um Bom-dia enformado de cautela e surpresa.  
- Então, por aqui abunda o peixe?

- (O sujeito olhou-o o tempo que considerou suficiente. Entretanto, devolveu à terra algo que trazia emprestado na boca. As bocas lusitanas são pródigas nestas devoluções às origens.) A sua cara não me é estranha!
- (Não esperava esta resposta. Sentiu um desconforto crescente. Recuou um passo, para melhor se equilibrar do golpe verbal. Sim, é verdade, nunca gostou desta frase. Sempre a interpretou como uma ameaça velada. Como a promessa de uma reminiscência dolorosa. Mas que ameaça poderia conter aquele humilde homem àquela matinal hora? Todas! É a resposta. Porque ele via-o com o seu presente, passado e futuro. Cada homem assim vê o mundo. Raramente olha a realidade fora deste espartilho. Quando assim acontece, está para além dela. E nessas ocasiões, esta sob a inebriante espiral da liberdade: sem ontem e sem amanhã. No fundo, sem o tempo. Mas, como anteriormente se afirmou, o tempo é o homem, e se esta é a sua medida, ou uma das possíveis, que homem é esse para além da sua mensurabilidade? Ele conhecia a resposta, sempre aspirou a um Absoluto, sob as mais diversas formas ao longo da sua vida. Já lá iremos. Neste momento, confronta-se, à beira de um lago, com um sujeito que o perturbou com uma exclamação corrente.) Não sei como! Somos da capital. (Refugiou-se num chavão chauvinista e deselegante: próprio de países que vivem a duas velocidades).

- Se é por aí, também já por lá andei. E não guardo saudades. Mas a sua cara não é da capital que recordo (A capital não tem rosto. Sim, são faces sem rosto, pensou ele, enquanto o ouvia.). É de outro lugar…
- Lamento desapontá-lo, mas não estou a ver de onde será.


- Está aqui hospedado?

- Sim.

- E não tem familiares por aqui?

- (O cerco estreitava-se. Aqui chegados, só restavam duas alternativas: a fuga ou a hostilidade. Nenhuma delas se lhe afigurou atraente, sobretudo àquela hora. Após a questão, baixou os olhos instintivamente, e apercebeu-se de que toda a sua aparente sofisticação citadina ruíra perante a argúcia de quem observa a metamorfose lenta das coisas.) O que o leva a concluir isso? (Optou pela primeira, camuflado pela questão.)

- O seu rosto, já lhe disse. (O sujeito emanava uma espontaneidade, nos gestos e na voz, que começava a irritá-lo. Falava com a mesma naturalidade com que tratava das lides. Um dom só ao alcance daqueles que conhecem e sentem as texturas das coisas.)

- (Acabou por capitular.) Sim, tive. Mas já não me resta nenhum. (Afastou-se, no vagar de uma indesejada reflexão.)

 Regressou ao quarto. Ela já acordara. A porta da casa de banho estava entreaberta e ouvia-se a cascata matinal do duche. Ele aproveitou para abrir a cortina e assomar à varanda. Sempre gostou daquele cenário: horizontes por alcançar, as águas sussurrantes (ou serão águas sonhadoras?), as copas impressionistas da outra margem… Transmitia-lhe serenidade. Assim ficou, encostado à porta de vidro, de mãos nos bolsos, não a olhar, mas a sentir o silêncio melodioso das águas. Recordou aquela vez, há muito passada, em que acompanhou, precisamente dali, a lenta e cantada aparição do nascer do mundo. Nessa altura, o alaranjado do horizonte soube-lhe a vastidão. Já não se recorda de há quanto tempo foi, parecia-lhe, agora, ter sido numa outra vida. Sim, é verdade, quantas vezes se morre e nasce ao longo de uma vida? Ele também já fora outro. Ou outros… Quem é ele agora? Acordara, nessa madrugada longínqua, sem porquê. A seu lado, dormia aquela que já partira. Sim, estamos sempre a deixarmo-nos. Ele levantou-se, numa ânsia crescente de harmonia, desvelou um pouco a cortina, correu a porta de vidro, e saiu para a varanda por amanhecer. Ainda os distantes pontos luminosos no tecto nocturno, aqui e ali o salto de um peixe, cantos da madrugada em aparente dissonância, e ele sem a obstinação do pensar, apenas a leveza do sentir, submerso nas sensações de uma aurora irrepetível, recorda-se de fechar os olhos, assim que sentiu um tímido calor no rosto, e da sua voz se juntar a um coro imemorial de saudação ao ser da vida.
Nunca mais experienciou tal sensação de plenitude. Também o apelo da madrugada se desvanecera. Sim, há coisas que se deixam pelo caminho. E outras que se apanham? Não, o caminhar da vida é uma crescente solidão. Ele regressou ao interior do quarto, na mesma altura em que ela saía, enrolada numa toalha, do seu banho. Sorriram-se.

- Não me acordaste…

- Preferi não fazê-lo. Precisavas de uma noite assim.

- Sim, há muito que não me conciliava com o sono.

Enquanto falavam, ela primeiro desvelou-se, para depois escolher a sua roupa. Ele, fruto da experiência, preferiu sentar-se. Observou, num encantamento espantado, e com um natural sabor de primeira vez, a feminilidade dos seus gestos. O feminino. Uma graça liberta de qualquer resquício de gravidade. Em cada gesto, ela inteira. São gestos cantados, cantantes, pensava ele. Ora aqui, ora ali, a forma de pegar numa peça de roupa, de a olhar, numa análise além tempo, como se aquele acto, revestido de uma falsa aparência de futilidade, contivesse, em si, o futuro de nações. É curioso, nunca se ouviu alguém nomear uma flor de fútil. Por ser bela, por ser colorida… No entanto, uma mulher, que procure os mesmos desígnios, expõe-se a tal impropério. E qual é a diferença entre uma mulher e uma flor? Não sei, ainda não a descobri. Se alguém já a descobriu, deixo-lhe este espaço, de seguida, para o preencher.
Após deixar cair a toalha, sucedeu-se um silêncio. Como aquele particular silêncio indizível entre as notas de uma peça. E nem o esquecido passar dos anos, disfarça o embaraço da nudez. Ele vestido, chegado da varanda, ela saída do banho, apenas com a toalha. O arranjar-se. A toalha, de repente, a seus pés. Ele disfarça, sentando-se. Continua a conversa de ocasião. Ela, nua, escolhe o enxoval do dia. E ele procura manter, ao longo da conversa, os olhos com os dela. Mas ela está nua! E o tempo não apagou, por completo, a vontade do um. O olhar dele acaba por descair. Era uma questão de tempo. Mais de oportunidade. A gravidade já fez os seus estragos naquele corpo. E, nestas coisas, o tempo é um aliado precioso. O corpo, com o tempo, assemelha-se mais a um mapa. Todavia, ele olhava-a além tempo. Era, ainda, um olhar de início. Sem mapas, estradas, curvas, trajectos sinuosos… Daí que ela lhe surgisse envolta naquele brilho, de há tantos e tantos anos atrás, e ele, de lábios ligeiramente entreabertos, não a olhava, olhava-se, sim, a si mesmo, num espanto interior perante uma revelação… Que idade teria? Ao certo não se lembra, apenas se recorda de conhecer a gilete há pouco tempo, mas vê-se, a si mesmo, sentado naquele sofá, com um tecido creme pontuado por umas cornucópias verde-escuras, à frente uma estante com pouquíssimos livros, no meio espaço para a televisão, era uma sala rectangular, pequena, apenas espaço para o sofá, estante, e, à sua direita, uma mesa redonda com quatro cadeiras. À esquerda, uma pequena varanda, transformada, como sempre acontece por estas paragens, em marquise. Provinha daí uma ligeira aragem. Bastante agradável. Esta não era a sua casa. Talvez a de um amigo. E foi aí, sob a leveza dessa aragem, que ela se lhe revelou. Apenas isso. Ele, lábios entreabertos, sem saber que postura assumir, e um desejo obstinado de gravar cada detalhe, mas apercebia-se do malogro dessa aspiração, tal o inebriamento do instante. E, neste exacto momento, ele apercebe-se de uma aragem vinda de tempo incerto. Não, aqui não há estantes de poucos livros, sofás com cornucópias verde-escuras, mesas redondas circunscritas por quatro cadeiras, nem marquises, mas persiste aquela peculiar aragem, tépida, agradável, que convida a olhar o presente de lábios entreabertos.

 IV
Um silencioso e horizontal espelho de pedra

 Seguem, neste momento, por uma estrada à sombra, ora de pinheiros ora de eucaliptos. Ele concentrado. Em silêncio. Ela, a seu lado, olha a paisagem. Apreciava aquele cenário. Bosques cerrados que dão lugar a campos agrícolas, longos vales atravessados por rios caudalosos, horizontes que prenunciam céus e alturas…