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sábado, 30 de maio de 2020
terça-feira, 19 de maio de 2020
sexta-feira, 15 de maio de 2020
domingo, 10 de maio de 2020
domingo, 3 de maio de 2020
segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
"DESLUMBRAMENTO"
PEDRO DE SÁ
Deslumbramento
Há uma vaga brisa.
Mas a minh'alma está com o que vejo menos.
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.
In Ode Marítima
Álvaro de Campos
ÍNDICE
PASSADO
PRESENTE
FUTURO
PASSADO
- Porquê? Consegues
explicar-me? O que se passou ao certo?
- Explicar? O que há
para explicar? As coisas são como são. Para quê, agora, estarmos a teorizar
acerca de factos?
- Porque o hoje
constrói-se no ontem, e não acho correcto seguirmos em frente, sem compreender
o acontecer… Não sei, gostava de saber a tua opinião, agora que já passou tanto
tempo.
- É curioso! Mudaste
tanto nestes anos. Até em termos lexicais. Para quê levantar esse assunto? Logo
agora! Qual é a tua intenção? Ver se ainda, por aqui, algum sentir? Precisas de
elevar o ego? É isso?
- Sabes bem que não!
Apenas gostava de perceber onde nos perdemos. Quantas vezes, num instante do
dia, aqueles segundos balsâmicos que nos permitem regressar, pensar-nos, dou
por mim às voltas com esta questão: “E se…?” Percebes, certo?
- Sim, claro… Desculpa,
nem perguntei pelo teu irmão.
- Fui visitá-lo ontem. Hoje não consegui. Às vezes questiono-me se
fizemos algum mal para merecer isto! Meu irmão, um resto do que foi! Custa-me
tanto! Ontem, antes de sair, olhei para trás, tinha de me certificar, não sei
porquê, que ele continuava a olhar o mundo por uma janela, como se uma súbita
compreensão de aqui não ser o seu lugar, de lhe estar vedada a tão propalada
“felicidade” ou lá o que isso significa, meu irmão, o olhar vítreo, braços
caídos sem prenúncio de gestos num amanhã, apesar da tarde, lá fora, pegar na
mala, ele de pijama, ou seria o uniforme, nunca questionei tal, confesso, perdi
a conta às tardes ali passadas, nos fins-de-semana, em monólogos estéreis,
porém, sei que tenho de ir, chego impreterivelmente um pouco antes da hora de
visita, saio do carro e fico a olhar o robusto edifício em tijoleira, de dois
andares, envolto em vegetação, por vezes, penso ali está a “última estação”, engano-me, essa é sempre pretérita, é quando
algo se parte em nós de forma irreversível, foi o que sucedeu com ele, um
sentir demasiado deixou-o caído, de uma forma ininteligível sempre o
compreendi, e isso aconteceu muito antes de também eu cair, não por um sentir
demasiado, mas pela sua falta, é curioso, como os inversos nos podem atingir da
mesma forma, a questão extenuada (“Como está ele hoje?”), a enfermeira de turno com respostas
evasivas, já nem se detém a olhar-nos, tudo numa impessoalidade fria e
mecânica, ontem só lhe encontrei espelho no céu lá fora, plúmbeo, o chuviscar
ininterrupto, como se fosse parte integrante da paisagem, aqueles dias em que o
longe se liquefaz para nos relembrar o aqui, mas a questão ficou suspensa na
tarde chuvosa (“Como está ele hoje?”), estava
sentado na cadeira do costume, diante da grande janela que dá para o relvado,
atravessei a vasta sala, cruzei-me com outras figuras de pijama, ou seria o
uniforme, sentadas a olhar um ponto indefinível, como se aí um qualquer sentido
só por si perscrutado, à sua volta outros que me acompanharam os apreensivos
passos desde a entrada, suspiraram a mesma questão chuvosa (“Como está ele
hoje?”), obtiveram a mesma resposta, que
o longe se liquefaz para nos relembrar o aqui…
- É estranho, não achas? Sempre o achei tão concentrado, sabia o que
queria, parecia ter a vida toda delineada. E, de repente, aquela queda: súbita,
inexplicável, tão estranha…
- Imagina para nós!
- E houve respostas dos médicos?
- Não precisas de usar eufemismos comigo! Diz logo: psiquiatras! Tudo
muito vago, houve um que falou de um baile e de um episódio deveras estranho…
- Então?
- Leu-nos um texto, aparentemente, escrito pelo meu irmão. De facto, era
a letra dele.
- E o que dizia?
- Queres que te leia? Deve estar para ali na minha secretária. Por acaso,
gostava de ouvir a tua opinião.
- Sim, claro. Mas espera um pouco. Antes disso, fala-me um pouco de ti.
Como estás?
- Como estou?
- Sim, estás bem? És feliz ou lá o que isso seja?
- Sempre foste renitente quanto à felicidade. Nunca percebi porquê. Se
havia alguém, de facto, que tinha tudo para ser feliz, eras tu.
- Estás tão enganada!
- Desculpa?! Sempre tiveste tudo: pais que te amaram, boa casa, andaste
nos melhores colégios, quando uma novidade, brinquedo, roupa, ténis, eras o primeiro
a vir para a rua exibir…
- E isso, para ti, é a felicidade? Bens materiais, pais numa aparência de
sentir, colégios particulares onde aprendes a estar em vez de a ser? Pois,
creio que estejas bastante equivocada. Quantas vezes não te invejei? A ti e aos
outros miúdos lá da rua. A liberdade de ir para a escola a pé, em vez do espartilho
da carrinha à porta, trocar o tecto de casa pelo tejadilho da viatura, nem
vislumbre, por brevíssimos instantes que fossem, do céu do mundo, e a
obrigatoriedade da língua estrangeira, como se não bastasse o Português, a
Matemática, o Meio Físico, ainda o Alemão!
- Tens o passado tão presente! Não sei porquê, mas nunca te vi assim…
- Eu?! A partir de certa altura, acho que virei costas ao futuro. Daí já
nada espero.
- Estás amargo.
- Tu ajudaste…
- Talvez estivesses mais, acredita!
- Nunca o saberemos!
- Isso é verdade! Mas, na altura, foi a melhor escolha, pelo menos a que
se me afigurou mais acertada. Eu nunca ambicionei um papel secundário a tempo
inteiro. Isso não! Lembras-te do que te disse na altura? Pois, nem uma foto podíamos tirar… Pelo menos, para
testemunhar o que fomos.
- O teu sentir não era assim tão profundo… Quando é, queremos mais que o
mundo se dane! Levamos tudo à frente!
- Falas sempre preso ao instante, ao momento, não olhas as coisas com a distância,
o tempo, o que tínhamos, acredita, não sobrevivia ao desgaste dos dias, perder-se-ia
em semanas, no máximo em um ou dois meses.
- És profeta?
- Não, sou mulher.
- Lembro-me tão bem, cheguei a escrever-te, espero que te lembres:
“Prefiro perder-me por ti, do que perder-te de mim”…
- Há zonas de ti que nunca amadureceram. Daí tivesse de pensar pelos
dois. Mas não voltes, por favor, a julgar os meus sentimentos. Uma das coisas
que mais me fascinou em ti, foi facto de seres uma alma desarrumada, davas-me
espelho, atenuavas-me a solidão, sabes, há divisões de mim onde nem à porta
passo, contudo, invadem-me os sonhos, aí, claro, nada posso fazer. Há uns dias,
por exemplo, num momento da tarde, creio que regressava a casa, levantou-se-me
esta memória: houve um Natal, teria cinco ou seis anos, o primeiro após o
divórcio, lembras-te, claro, foi meu pai a sair de casa. Bom, ao contrário do
expectável, tive o Natal com mais prendas: mãe, avós, tios, até vizinhos,
parecia que todos procuravam compensar-me por ver os pais seguir em direcções
opostas. Percebi, pelo soar da campainha, a chegada do meu pai, não me
perguntes como, aquelas coisas que simplesmente sabemos numa zona de nós tão
longe e simultaneamente tão próxima do mundo, mas, como dizia, foi após o
jantar, ainda deu tempo de abrir mais de metade das prendas, estava tão feliz,
lutava e lutava com papel de embrulho, de facto, há lutas que dão prazer, não
me passou despercebido, logo após a campainha soar, o cessar das conversas, um
silêncio que ampliava o próprio respirar, curioso, não me recordo de quem abriu
a porta, minha mãe não foi, isso tenho presente, talvez uma das tias, a imagem
de meu pai, à entrada, surgiu-me, tímido, renitente em avançar, olhou em volta
à espera de um incentivo, acabou por surgir através do afável gesto de um dos tios,
lá entrou, em tímidos passos, à medida que se ia aproximando, denotei-lhe uma
crescente noite pelo rosto, parecia envelhecer à medida que se aproximava, como
se lhe fosse exigido um esforço demasiado em ali estar, não me recordo se,
naquela noite em especial, de luzes e aparente concórdia, onde se celebra o
nascimento Daquele que veio apenas falar de Amor e Verdade, meu pai e minha mãe
trocaram uma só palavra, não me lembro de os ver juntos, eu ainda absorvida
pela minha guerra com o papel de embrulho, até que ele se abeirou de mim,
baixou-se e abraçou-me, como só um pai sabe, não, não era impressão minha,
havia tanta tristeza naquele rosto, ajudou-me numa batalha com mais papel de
embrulho, estive quase para lhe perguntar pela minha prenda, contudo, no último
momento, calei a questão, talvez o seu rosto tão anoitecido caminhasse por
paragens distantes de luzes e papéis de embrulho, creio que estivesse
desempregado, fazia umas horas no táxi de um amigo, a fábrica fechara, sabes,
por muito que esforçasse a memória, não me recordo, nem por uma vez, de olhar os
meus pais de mão dada, é curioso, as ideias que nos atravessam o pensar, nem
lhes sabemos a fonte, simplesmente irrompem pela nossa mente, mas sempre de
proveniência incógnita, nessa noite, por curiosidade, segui-lhes os passos,
cumprimentaram-se de uma distância segura, através de cordiais acenos, após
isso, os renitentes passos de meu pai conduziram-no até onde eu estava, deu-me
a impressão, não sei porquê, de ele ter deixado cair algo atrás do sofá, antes
de se abeirar de mim, pois, talvez fosse só uma impressão, abraçou-me, como só
um pai sabe, beijou-me a testa e num terno murmurar disse “Feliz Natal, minha querida”, um dos meus tios, com uma sonoridade
exagerada, convidou-o para a mesa, mais concretamente a zona onde se
concentravam o maior número de garrafas, porém, ele declinou, deu-me uma festa
na cabeça, enquanto “Recebeste tantas prendas! Meu Deus, tantas prendas!
Que bom!”, apesar de olhar em volta, para
se inteirar da sua circunstância, pareceu-me tão longe, tão distante, a sua voz
um eco trazido por um vento de terras longínquas, apesar da idade, compreendia
tudo isto sem o corpo das palavras, percebes o que quero dizer, certo? Dessa
noite, pouco mais recordo, nem dei pela sua partida, mas o relevante aqui
deu-se na manhã seguinte, peço desculpa se me demorei a chegar a este ponto,
todavia, para compreenderes a essência do seu gesto, cada aspecto, por muito
acessório pareça, conta bastante, lembras-te de ter dito, a certa altura, “deu-me
a impressão, não sei porquê, de ele ter deixado cair algo atrás do sofá, antes
de se abeirar de mim”? Pois, na manhã
seguinte, talvez motivada pela inusitada quantidade de prendas, acordei
espontaneamente, sem resquícios de esforço, a casa ainda dormia, pelos oblíquos
vestígios de luz vindos do exterior, compreendi a hora matinal, preparava-me
para rever e certificar da veracidade de todas aquelas prendas, quando tropecei
em algo caído atrás do sofá, baixei-me para ver e reparei num urso de peluche,
sorridente, bonacheirão, humilde, de repente, percebi: à vista de todas as
prendas, algumas dispendiosas, que abria ininterruptamente, ele atirou o
humilde peluche para o lugar mais recôndito da sala, onde nem as luzes dessa
particular noite tacteiam, num incompreensível gesto de pudor, abracei-o
espontaneamente, como se procurasse, nesse momento, despontar a reprimida
lágrima de meu pai na véspera.
- Era aquele urso velho que tinhas sempre encostado à cabeceira da cama?
- Sim!
- Pois… Realmente… Que história! Quantos objectos não fazem parte da
geografia de uma alma? Às vezes nem sonhamos a história que cada objecto
carrega! E como está hoje a relação com o teu pai?
- Cordial.
- Só tens isso para dizer?
- Parece-me o suficiente. Parte de mim, não sei porquê, sempre achou que
ele não se separou só da minha mãe, englobou-nos a todos.
- Não estás a ser injusta? Afinal, não raras vezes o encontrei em vossa
casa.
- Respondo-te com uma questão: estar perto significa estar próximo?
- De facto… Lembro-me, uma vez, de ter dito a alguém: pai e mãe podem ser
bênção ou maldição.
- Concordo plenamente.
- Acompanham-nos, para o bem ou mal, até ao nosso último respirar. Por
muito que o tentemos negar! Sabes, às vezes, olho-me ao espelho e revejo o meu
pai, ou ouço a sua voz numa expressão que verbalizo…
- Isso agrada-te?
- Confesso que não!
- Pois, compreendo, a mim também não. Mas, no caso do meu irmão, foi ele
quem melhor percebeu a situação.
- E o tal texto?
- Qual texto?
- O que ias ler! Escrito pelo teu irmão.
- Ah, sim… Espera um pouco, deixa-me só procurar na secretária. Bom, aqui
está. Sabes, não gosto nada, a esta hora, de falar destas coisas…
- Mas o que se passou ao certo? Qual a verdadeira razão do seu
internamento? Falou-se de tanta coisa: tentativa de suicídio, depressão,
drogas, jogo, meu Deus, diz-se tanta coisa…
- Por favor, nem me contes mais
nada! Só me mete nojo essa gentinha que fala sem fazer a mínima ideia do que se
passa! Sempre uma necessidade de catalogar os outros. Como se só assim
circulassem melhor no mundo. Tão previsíveis! Enfim… Não foi nada disso a
derrubar o meu irmão. Foi algo bem mais sublime: virou costas ao mundo por
amor. Existe melhor razão? Pois, não me parece. A sua narrativa vale o que
vale, todavia, como pediste, vou ler-ta.
Quando me apercebi, falávamos disto e
daquilo, pareceu-me que já nos conhecíamos, nesta vida, de facto, pela melodia
da voz, a familiaridade peculiar de um gesto que risca o ar, a compreensão
derramada por um olhar, há quem, manifestamente, pareça caminhar há muito a
nosso lado, ela segurava um copo de sumo, embora o ignorasse, desde que
encetáramos o diálogo, à nossa volta só ruído, porém, nós permanecíamos naquele
peculiar universo velozmente criado para nos comunicarmos, nunca fui festivo,
por isso, nessa noite, ali desaguei somente pela promessa de que seria uma
pequena reunião de amigos para celebrar o aniversário do… Pois, não interessa,
não vou chamar para aqui o seu nome, como dizia, fui dos últimos a chegar, em
verdade, não havia muita gente, embora, para mim, sempre fosse gente a mais,
entrei relutante, logo a demasia do som a empurrar-me para o Inverno da rua, as
vozes histriónicas também concorreram para a hesitação dos meus passos, mas era
o aniversário do… Pois, não interessa, não vou chamar para aqui o seu nome,
apenas sublinho que ele vinha de um momento difícil e merecia ali a minha
presença, falava-se que, certa tarde, os pais encontraram-no caído, ao lado da
cama, próximo estava um frasco aberto, do seu interior rolaram pequenos
cilindros coloridos pelo chão, ainda houve tempo, embora o desgosto de ver o
filho caído, acompanhado de pequenos cilindros coloridos, fosse indelével,
sobretudo para o coração de uma mãe, ainda houve tempo, mas se não houvesse,
nem um “adeus”, nem um “adeus”, tudo porque, apesar da data próxima, dos
preparativos, de ela, inclusive, já ter experimentado o vestido, para uma
mulher esse deveria ser o “vestido”, e ainda razões de outra ordem, mais
próxima de nuvens e cumes, ele ter depositado o seu coração nas suas mãos, durante
seis anos, naquela casa, longe, muito longe, de cilindros coloridos derramados
pelo chão, o nome dela num tom meloso, perigosamente próximo da subserviência,
quando um nome acompanha o respirar, o coração já não pertence ao peito onde
bate, assim foi, Belinha, Belinha, Belinha, a mãe na dúvida se era o nome em si
que a irritava, se a respiração que lhe acentuava as sílabas, além do ar
apalermado do filho, sempre que pronunciava Belinha, os olhos resplandeciam, e
a energia ia-se-lhe, pois, quando um nome acompanha o respirar, o coração já
não pertence ao peito onde bate, o pai compreensivo com o persistente Belinha,
antes por ali do que noutros cenários, e Belinha, Belinha, Belinha, continuou a
ecoar, durante seis anos, até que, apesar da data próxima, dos preparativos,
ela, por telefone, nem a face lhe mostrou, “Desculpa, estive a pensar, e acho
que não devíamos dar este passo. Ainda somos bastante jovens. Temos toda uma
vida pela frente. Acho que é uma precipitação. Compreendes, não é? Mereces ser feliz…”,
ele mais nada ouviu, o telefone simplesmente caiu-lhe, pois, assim que Belinha,
a energia ia-se-lhe, a única coisa boa dos cilindros coloridos derramados pelo
chão foi o silenciar, definitivo, entre aquelas paredes, de Belinha, acompanhei
de perto o seu reerguer, se bem que, depois de certas quedas, nunca se caminhe
da mesma forma, por tudo isto, era imperativo que marcasse presença no seu
aniversário, percebi que ele optara pela representação, não era de censurar, há
momentos, na vida, em que um atalho é sempre a melhor das vias, assim o fez,
colocou uma máscara e com a sua ajuda reaprendeu a caminhar, Belinha tornou-se
uma palavra interdita, mais uma daquelas questões tácitas que se outorgam sem
argumentar, pensava em despedidas quando, de repente, o meu olhar se imobilizou
nela, de facto, foi o que sucedeu, estava sozinha, para meu espanto, detinha
uma aura de timidez que me encantou, se adicionarmos uma genuína beleza e a
graciosidade dos gestos afigurava-se um sonho esquecido pelo mundo, quando me
apercebi, falávamos disto e daquilo, pareceu-me que já nos conhecíamos, nem o
nome lhe perguntei, é curioso, há quem, manifestamente, pareça caminhar há
muito a nosso lado, pressenti-lhe um desejo de partida, proporcional ao que em
mim existia desde que ali entrara (apesar de ser o aniversário do…), ofereci-me
para a acompanhar até casa, ela assentiu, havia no seu rosto e gestos uma
dignidade de majestade sem coroa, assim que saímos para noite do mundo,
sabia-me perdido, o meu coração assumira a forma de um rosto, ela estava de
férias em casa dos avós, daí a novidade do seu rosto, ficava a escassas
centenas de metros do local da festa, sugeri-lhe que caminhássemos junto ao
rio, ela anuiu de imediato, acho que aguardava a minha sugestão, gostei
particularmente de vê-la caminhar a meu lado, como se me completasse, mesmo a
nossa passada logo se harmonizou, a noite convidava à palavra, ficou amena, nem
uma brisa para agilizar o mais ténue movimento, as luzes alongavam-se nas
águas, pareciam desdobrar-se numa outra existência, gostava de caminhar pela
margem, ela também, fazia-me pensar em que momento dar-se-á a foz do meu
existir, não sei de onde se me levantou esta ideia, mas creio que ela leu este
meu pensamento, olhou-me com serenidade, pareceu-me ouvir-lhe (“No fim,
compreenderás, no fim, compreenderás… Não poderia ser de outra forma),
continuámos a acompanhar o curso das águas, rumo a jusante, volta e meia ela
detinha-se, eu perdia-me no seu olhar que reflectia o céu nocturno, para onde
se evolam os sonhos calados dos homens, a certa altura, parámos num jardim,
sentou-se num banco, sentei-me a seu lado, o mais próximo possível para sentir
o calor do seu corpo, estava tão inebriado pelo momento que me escapou o
desejado calor, ela contou que vinha ali em criança, bem à nossa frente ficava
o carrinho do vendedor de algodão-doce, não me escapou o tom pausado das suas
palavras, o peso da saudade acentuava-se a cada sílaba, olhei o vazio derramado
pelo candeeiro onde, outrora, estava o carrinho do vendedor de algodão-doce,
acrescentou que só no regresso a casa ali paravam, pareceu-me vislumbrar um
brilho sem luz pelos seus olhos quando falou em “regresso”, o sentir
precipitou-se-lhe discretamente pelo rosto, não o disfarçou, permaneceu imóvel,
no banco de jardim, a meu lado, a olhar o vazio derramado pelo candeeiro onde,
outrora, estava o carrinho do vendedor de algodão-doce, não resisti e
peguei-lhe na mão, estava fria, achei natural, falávamos de despedidas sob a
noite do mundo, poucos sonhos reflectiam-se na distância das alturas,
levantou-se, “Já é tarde. Chegou a minha hora”, eu, tolo, tão longe do tom
pausado das suas palavras, peguei no meu casaco e pu-lo pelos seus ombros, ela
sorriu um agradecimento, percebi que faltava pouco para a deixar, os nossos
passos continuavam em harmonia, perguntou pelos meus sonhos, respondi-lhe que
vivia um, arrependi-me de imediato, achei forçada e demasiado óbvia, disse-me
“É pena termos de acordar, não é?”, aumentava a insularidade das sílabas e o
seu peso, até que, “Fico aqui”, um sentir de orfandade precipitou-se sobre mim,
por deixá-la, compreender o tanto que ficou por dizer, talvez o essencial,
acima de tudo o rosto que se me alojara
no coração, ela subiu os dois degraus até à sua porta, olhava um ponto
indefinível ao fundo da rua, se um pouco mais de atenção da minha parte, talvez
percebesse que procurava, num vazio agora derramado por um candeeiro, o
carrinho do vendedor de algodão-doce, onde sempre paravam aquando do regresso,
pelos seus ombros ainda o meu casaco, fingi esquecê-lo de propósito, tinha de
revê-la, já me doía o corpo de sabê-la longe do meu olhar, subi num ímpeto os
dois degraus que nos separavam, aproximei o meu rosto, ela recuou, apreciei o
seu pudor, um gesto que a fez ganhar mais espaço no meu coração, porém, antes
de descer os dois degraus, segurei-lhe a mão, entrelacei os dedos, pareceu-me
segurar gelo, não lhe passou despercebido o meu espanto, suspirou “Mãos frias,
coração quente”, não foi só o casaco, sobre os seus ombros, que deixei, nessa
noite, no alto daqueles dois degraus, o meu coração também ali ficou,
depositado no frio da sua mão, no dia seguinte, logo após o almoço, tomei a
direcção da sua porta, sempre tinha a desculpa do casaco, caso a magia da noite
se diluísse na cegueira do dia, mas a sua melodiosa voz ainda por aqui, como se
uma promessa, “Mãos frias, coração quente”, com a luz, a rua outra, eu também
outro, só o rosto que me ocupava o coração se mantinha, subi os dois degraus,
também diferentes, nem mais altos, nem mais baixos, apenas diferentes, e toquei
à campainha, uma senhora de idade fez-me encurtar o sorriso que ostentava na
cara à espera que ela me surgisse, pareceu-me avó, embora receasse ofender,
porque há maternidades tardias, daí o meu balbuciar, até que, perante a
expressão de estranheza da idosa, lá consegui encadear palavras de forma a
conseguir expressar-me sem ofender susceptibilidades alheias, especialmente se
houver maternidades tardias, “Boa tarde. Vinha à procura da… Ontem deixei-a
aqui à porta…”, só nesse momento me apercebi de continuar a não lhe saber o
nome, como foi possível? A expressão de estranheza manteve-se no rosto da
velha, retorquiu que morava sozinha, decido descer os dois degraus para
confirmar a porta, não, não havia dúvidas, foi ali que a vi, do alto desses
dois degraus, olhar um ponto indefinível ao fundo da rua, insisti, “Desculpe,
mas tenho a certeza de que foi aqui…”, uma vez mais, “Desculpe, mas tenho a
certeza de que foi aqui…”, a velha, quase num lamento, “Vivo sozinha”, eu
“Mas…”, ela “Tão sozinha, às vezes falo para acreditar que ainda respiro…”,
atrás da esguia silhueta, numa moldura, pareceu-me ver um rosto familiar, o meu
indicador instintivamente, ela acompanhou o gesto, abriu a porta, nem dei conta
de subir os dois degraus, de ali entrar, só me lembro de segurar a moldura e o rosto
que se me alojara no coração quase junto ao meu, olhei a velha, permanecia na
ombreira da porta, “Foi ela quem…”, aproximou-se, pegou na moldura com uma
indizível ternura, abraçou-a, “A minha neta… A estrada levou-ma, juntamente com
a minha filha, há dois anos…”, não ousei insistir, nem ao vislumbrar o meu
casaco pendurado no espaldar de uma cadeira, antes de sair, beijei a face da
velha, doravante, ela estaria bem mais acompanhada que eu, saí para o mundo,
pelo menos o que de mim restava, não sei para onde fui, de repente, percebi-me
na margem do rio, à minha frente só as águas no seu incessante caminho de
jusante…
segunda-feira, 18 de novembro de 2019
domingo, 17 de novembro de 2019
domingo, 27 de outubro de 2019
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domingo, 28 de janeiro de 2018
sábado, 30 de dezembro de 2017
Pedro de Sá
HARMONIA
… não choreis
por Mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos…
Lucas 23, 27-31
Sede prudentes
como serpentes e inocentes como pombas.
Mateus 10:16
ÍNDICE
A página em branco………………………………………..5
A Ideia………………………………………………………50
A Escrita………………………………………….…………100
A página em branco
Se me perguntassem como ali cheguei, não saberia o que
responder, afinal, tudo começou há muito. Mas, agora, ali na rua, sob aquele
inclemente sol de Agosto, a tarde no seu auge, não havia tempo para
considerações acerca da génese deste meu destino. Toquei à campainha, nem
hesitei, o trinco da porta demorou o necessário a abrir-se, entrei, aproveitei
para respirar fundo e fruir da frescura da entrada forrada a mármores, sempre
apreciei a frescura das entradas dos prédios antigos, por vezes, reflectia se,
com os tempos, não desaprendêramos de fazer as coisas… Subi a escada até ao
primeiro-andar, enquanto ouvia uma porta a abrir-se, aí chegado, deparei-me com
uma mulher, de estatura média, era agradável à vista, tinha uma beleza
dissonante dos seus gestos e voz, como se um corpo que merecesse outra alma
(quantas vezes tal sucede?), teria mais uns dois ou três anos que eu, sempre
fui péssimo a estimar idades, porém, desta vez acho que acertara, até porque,
de certa forma, estava contextualizado, cumprimentámo-nos, ela Chegou um pouco antes da hora. Não olhei
para o relógio, achei que seria uma manifestação de fraqueza, optei por um
sorriso, sempre a melhor forma de ocultar sentires e pensares, estendi-lhe a
mão, ela retribuiu, cumprimentámo-nos, convidou-me para entrar, conduziu-me
para a sala, enquanto Bom, depois do seu
telefonema, confesso que dei voltas ao assunto, e não sei bem o que quer de
mim… Afinal, não o conheci assim tão bem. Apontou-me para um cadeirão, sentei-me,
ela sentou-se, num sofá barato, bem à minha frente, porém, lá prevaleceu um
resquício de educação Desculpe, nem lhe
perguntei se toma alguma coisa… Quer um café? Não sei porquê, mas nunca
tive forças para recusar um café, aceitei, sinceramente, acho que ela esperava
o contrário. Levantou-se, enquanto isso, olhei à minha volta, percebia-se que
se tratava de um apartamentozito alugado, talvez com uma renda inversamente
proporcional ao espaço disponibilizado, mobiliário só o necessário, como é
natural nestes infelizes tempos de inconstância, além desta salita onde
estávamos, pelas portas que vi, poucas mais divisões deveria ter, regressou com
o café, vestia uma roupa de desporto, coçada em vários pontos, as cores
esbatidas, uns ténis, apesar de serem de uma marca em voga, não me escapou que
fossem o modelo mais básico, o que conferia ao quadro uma nota desagradável,
pois, a tal ideia de dissonância, a sua dicção era sofrível e o esforço pelo
verbo faziam-na salivar, felizmente ainda estava a alguma distância e eu não
uso óculos, mas, assim que se silenciava, de novo, como se por milagre, diante
de mim, aquela beleza de há pouco, discreta, é certo, mas tão longínqua
daqueles gestos, salivares, roupas coçadas, enfim, houve outro pormenor que não
me escapou, desde que ali entrei, não vi um único livro! Sempre achei que uma
casa sem livros é um homem sem ideias. Como pôde ele relacionar-se com uma
mulher assim? A minha curiosidade aumentava, de facto, ela evidenciava outros
atributos, talvez fosse por aí… Como
estava a dizer, estendeu-me a chávena e sentou-se no sofá barato, bem à
minha frente, não percebo bem o que quer
de mim. Já agora, é da família dele? Reparei que o salivar se adensava à
medida que ela procurava acelerar o discurso, talvez houvesse também alguma
nervoseira à mistura, procurei tranquilizá-la pausando as palavras, Não. Nada disso. Estou a recolher dados para
um trabalho académico. Sabe, todos os seus livros são puramente
autobiográficos. É esta a minha convicção e quero demonstrá-lo. Acredito que
cada linha que escreveu corresponde a um instante vivido. E, como é natural, tenho
esperança de encontrar resposta para a sua decisão… Percebe, não é? O que o
levou a… Neste ponto, percebi-lhe algum desconforto, remexeu-se, por mais
que uma vez, no sofá, Pois, compreendo,
mas insisto: não sei como ajudá-lo. Saímos juntos algumas vezes. Nada mais… Compreendi
que tinha de me socorrer rapidamente de uma questão, a seiva do diálogo, O que sentiu quando soube da sua morte? A
mudança tão repentina, na geografia da conversa, deixou-a perplexa, demorou o
seu tempo a recompor-se, Bom, foi terrível,
não acha? E naquelas circunstâncias… Não estava nada à espera! Foi um amigo
comum que me contou. É curioso, agora que falo nisto, uma parte de mim não
ficou surpreendida. Ele falava recorrentemente da morte. Eu até lhe dizia para
afastar tais pensamentos. Mas parecia uma obsessão. Começava a achar que,
afinal, não tinha perdido o meu tempo! Recostei-me no cadeirão, acho que este
gesto a incentivou à palavra, pareceu-me que também ela precisava de
reorganizar este acontecimento em si, Certa
tarde, estávamos num café, ele andava inquieto, isto sucedia quando não tinha
matéria para a escrita, este ponto, claro, não me passou despercebido, se
ela, há pouco, afirmou não o conhecer assim tão bem, como é possível saber a
génese da sua inquietude? Optei pelo silêncio e deixei-a prosseguir, Começava a perguntar-me pelos meus pais,
irmã, se nos dávamos bem, a minha infância, amores passados, eu respondia-lhe,
claro, mas, ao mesmo tempo, percebia-lhe esta inclinação vampiresca, afinal,
ele precisava de temáticas para escrever, agora que me lembro disto, sabe que
chegou a escrever sobre mim e um antigo namorado? Mandou-me o texto e perguntou
se correspondia, li-o, mas confesso-lhe a minha dificuldade com aquela prosa,
não sei porquê, parecia-me que ele escrevia ao contrário do suceder das coisas.
Como hei-de dizer? Parecia que estava a assistir ao desenrolar da história, mas
sob um outro ponto de vista, ou mesmo de vários pontos de vista, na altura,
optei por discordar da sua descrição demasiado suburbana da casa dos meus pais,
ele refugiou-se, de imediato, na liberdade criativa. Anuí, claro está, para
disfarçar o meu desconforto com o rótulo de suburbanos. Neste ponto, quase
não disfarcei um sorriso, relanceei, uma vez mais, a roupa de desporto, coçada
em vários pontos, com as cores esbatidas, e o modelo básico dos ténis, a
dicção, como é óbvio, só servia para coroar o quadro geral, porém, uma questão
impunha-se Mas achava-o elitista? Acho
que ficou, de novo, surpreendida com a minha frontalidade, Elitista? Bom, como hei-de dizer? Sabe, quando li aquele texto sobre
mim e um antigo namorado, no fundo, foi a única coisa que li dele, não sou
muito de leituras, então, literatura, não tenho mesmo paciência! Gosto de
coisas mais práticas, mais palpáveis, mas voltando àquele texto, ele pegou na
história que lhe contei e trabalhou-a como quis, não o reconheci naquelas
linhas. Se me dissessem que tinha sido escrito por um desconhecido, eu
acreditava, porque o texto era muito sério, muito erudito, bom, eu sabia que
ele tinha todas essas qualidades, porém, no dia-a-dia, não era nada assim,
acho, inclusive, que o procurava disfarçar, talvez para não se distanciar em
demasia de nós... Por outro lado, às vezes, roçava a extrema má educação e
chegava a ser agressivo, no trânsito, então, nem lhe digo nada… Agora,
elitista, não creio que fosse. Bom, era um bocado snobe, quer dizer, tinha os
seus momentos, sobretudo, lá está, quando tinha de demonstrar a sua erudição,
no entanto, quando a coisa virava, parecia que estávamos diante de um autêntico
cavador. Não me escapou um pormenor, resolvi jogar um trunfo na mesa, Falou-me há pouco do trânsito. Afinal, pressuponho
que saíram várias vezes, certo? Como sempre sucede nestas situações,
percebo-lhe desconforto pelo desvelar da mentira, Sim, tem razão. Mas não é meu costume falar da minha vida a estranhos,
como deve imaginar. E, já agora, o senhor anda a investigar a vida privada dele
ou a sua obra? Tentativa de inverter os papéis, um clássico, sorri-lhe de
novo, neste momento, acho que ela estava mais ansiosa por falar do que eu por
ouvi-la, não me pareceu que fosse adiantar muito ao que já sabia, contudo,
deixei-a prosseguir, Ao contrário do que
possa julgar, eu também tenho faculdade, e muito antes de si. Noutra área, é
certo, daí a minha distância das letras. Não pude reter a imagem daquela
dicção, diante de um auditório, a dissertar sobre a mais singela temática. Dei
o meu melhor para liquidar, de imediato, a gargalhada que me nascia. Consegui
restabelecer-me, assumi uma expressão de interesse pelas suas palavras,
enquanto anuía com insistência, para que ela levantasse o passado, Corremos vários cafés e esplanadas. Quase sempre
junto a praias. Percebia-se que ele amava o mar. Acho que o tranquilizava (...)
sábado, 17 de junho de 2017
Do outro lado do rio, há uma margem
Levantar
Caminhar
Cair
Nós somos feitos do mesmo estofo dos sonhos, e a nossa curta vida está
encerrada entre dois sonos.
Shakespeare
(in A Tempestade)
… pois a vida e a morte são uma só coisa, como uma só coisa são também o
rio e o mar.
Tende fé nos sonhos, pois neles
se encontra a porta da eternidade.
Kahlil Gibran
Levantar
I
Os primeiros acordes do alvorecer
insinuaram-se na penumbra. A luz sempre encontra uma forma de se anunciar. De
se dar a conhecer. É da sua essência. Nessa manhã, ele encontrou-a na porta do
armário. Como se lhe relembrasse uma urgência: talvez a da vida. Assim ficou: a
descobrir os veios de uma porta, subitamente revelados. Cansou-se. Afinal, todo
tem o seu tempo. E o tempo é o homem. Subiu a perspectiva, e observou as
partículas dançantes, felizes e aquecidas, naquela chaga das trevas. Estariam
só ali? Embaladas por aquele vestígio de felicidade? Desde quando? Levantou-se.
Arranjou-se. Antes de sair, olhou para ela, que, através do rosto, transparecia
o indizível de uma felicidade de outras paisagens. Por fim, saiu.
Encontrou a sala de refeições, àquela
hora, já com bastante gente. Na sua maioria casais com filhos. Colocou a chave
numa mesa e foi-se servir. Esperou algum tempo pela sua vez. Sentiu, no ar, a
urgência do açambarcamento, como se fosse um imperativo encher os tabuleiros,
uma forma de equilibrar as contas. Talvez a recepção, avistada através das
portas de vidro, potenciasse este súbito e repentino apetite. Chegada a sua
vez, avançou. De súbito, viu-se ultrapassado por um garotelho, com os seus dez
anos, que se precipitou, numa urgência sem retorno, a reabastecer a caneca e
respectivo cesto de pães e croissants. Ficou siderado. Não tanto pelo gesto do
garoto. Mas sim pela forma, que denotava grande experiência, com que o
executou. É um outro mundo, pensou.
Ao qual não queria pertencer. Admirou-se como o tabuleiro, sustido pela mãozita
de uma década àquela velocidade, sem vislumbre de inclinação. Ele tinha que
agir. Aproximou-se do miúdo por trás, enquanto este aumentava consideravelmente
o peso do tabuleiro, e pisou-lhe, como se tratasse de um singelo acidente, o
calcanhar direito, o que fez com que o ténis saísse. O garoto, entre o espanto
da pisadela, o olhar para trás e manter o tabuleiro equilibrado, a escolha de
doce ou de mais fiambre, acabou por ficar a meio caminho, e ele aproveitou para
o ultrapassar, saúdo-o com um sonoro Ah,
peço imensa desculpa, e no seu íntimo regozijou-se pela vitória do passado
face à ignomínia do presente.
II
Uma sombra vertical proclama harmonia
O seu olhar, neste momento, perdia-se
entre o espectáculo em volta e um solitário que se equilibrava, em harmonia
messiânica, numa exígua canoa no meio do grande lago, emoldurado pelas janelas
da sala. O dia amanhecia, de novo, pardacento, como se esse véu emergisse das
águas, e colorisse os céus. O solitário das águas estava, agora, num estatismo
arrogante. Como se apelasse a um artista anónimo. Como se cumprisse um ritual.
Como se aquele fosse, de facto, o seu lugar no mundo. Ele pousou, nesse
momento, a chávena com mais leite do que café. O seu olhar apenas naquela
sombra vertical – que proclamava harmonia.
Ele, agora, era o outro: na imobilidade,
no equilíbrio da chávena, na arrogância de uma certeza, no silêncio de um grito
por um olhar. Num lento adeus, a canoa afastou-se, e ele ainda ficou um pouco
assim: entre o encantatório do movimento e a efémera memória do Sentido.
Tudo se diluiu, na estridente dor de
uma chávena, desafiadora de gravidades. Também ele caiu no desconforto de si. Estremeceu,
primeiro. Depois, buscou a génese do estrépito. Sem saber muito bem o porquê.
Sim, soube desde logo que se tratava de uma chávena. Então, porquê esta quase
obsessão de localizar, no espaço da sala, o ponto exacto da ocorrência, e
visualizar o rosto do infeliz? Ele não o sabia. Apenas sentiu, em si, esta
necessidade, quase orgânica… Tinha sido uma criança, a fonte do seu súbito
desassossego. Crianças e ruído são íntimos de há muito. Não desistiu do epílogo
da caneca. Esperava, sabia que em vão, pelo castigo do meliante. Acabou por
emergir: a mãe afagou-lhe o cabelo, o rosto do pai sustentava o sorriso
apatetado daqueles que não vincam o solo. Não, ele já não pertencia a este
mundo. Olhou cansado o absurdo de uma cena recorrente. Enquanto o fazia, apoiou
o rosto na mão direita. Por fim, suspirou… Longos corredores, silêncios
obedientes, temores aquém verbo, imagens que revisitava balizadas pelo infinito
de uma expiração. Na velhice, o futuro reside no passado. Só assim tem sentido.
Afinal, de que outro modo o podiam encontrar? Esta é uma das grandes verdades
da vida: passado e futuro, com o tempo, acabam por se fundir.
E ali estava ele, sozinho a uma mesa,
oscilando entre o grande lago, no exterior de uma natureza paciente pelo sempre
adiado regresso, e o civilizado ruído
do movimento interior da sala. O seu olhar, reflectido na caneca, anunciava
fim. Apesar de terminado o café com leite, ainda permaneceu sentado. Outrora,
sentir-se-ia constrangido pela solidão. Nunca se deu bem consigo mesmo.
Achava-se insuficiente. Sempre careceu de um espelho. Pelo menos um que o
sossegasse. Só, sentia o apelo da elipse, e, do abismo de si, sempre emergia
envolto nas roupagens da inquietude e da desilusão. Ao longo da vida, sempre se
compadeceu daqueles cavalheiros que ocupavam, numa proclamação de derrota, uma
mesa, de um qualquer restaurante, sem saber muito bem porquê… E porquê esta
analogia com a derrota? Porque não associava ele, a imagem de um homem só, a
uma mesa, com a de um farol, por exemplo? Afinal, solidão e luz são velhas
companheiras. Não, ele não conseguia. Os seus olhos partiam sempre toldados por
um véu de tristeza. Quem o terá bordado? Que delicadas mãos terão confeccionado
tal peça, indelevelmente inquilina de sua alma? Sempre esta fonte inexorável de
questões… E respostas, onde? E uma mulher só? Sem saber muito bem o porquê, não
se compadecia tanto. No fundo, ele sabia há muito que o porquê é a porta
da desculpa. Uma mulher, só, encerra em si uma aura de dignidade – daí a
naturalidade de uma viúva –, um homem sozinho é o rosto do abandono e da
incompletude – e de viuvez, estamos conversados!
Agora, olha o lago. Soube, há poucos
dias, que lhe chamam a Lagoa Adormecida. Sim,
faz algum sentido. Porque adormecer inspira tranquilidade. Dormir, já não. Mas
aquelas águas apelam a sonhos tranquilos. Por contraste com as manhãs daquela
sala de refeições. No fundo, aquele espaço em nada difere das salas de
refeições dos outros hotéis. Há um lastro comum de excitação e de bocejo: o que
origina estados de espírito a roçar a insuportabilidade. Continuou a observar
os seus vizinhos da manhã. Numa mesa distante, um casal de anciãos, com a sua
digníssima coroa prateada, saboreava a refeição com gestos lentos, próprios de
quem já assimilou o saber dos pequenos nadas – o sempre tardio saber da vida –,
ela muito direita, poucos imaginam o esforço da pose, ele mais curvado, mas
numa curvatura honrada, de vez em quando uma palavra, o resto num harmonioso
silêncio dialogante, como se nada fizesse sentido naquela sala sem a sua presença.
Do casal infantilizado e da sua cria, já falámos. Numa mesa próxima, havia
outro casal com duas filhas adolescentes. Reinava entre eles um respeito
traduzido nos gestos. Nos gestos, não. Mas sim na sobriedade com que os executavam,
como se tivessem uma profunda consciência do cerimonial que preside a uma
refeição. Como se só sob esta luz, o acto de se sentar a uma mesa tivesse algum
sentido. Tudo ali era lentidão e silêncio. As raparigas contrastavam a idade
com a parcimónia dos gestos. Apesar de cumprirem os requisitos etários da moda,
exalavam uma aura de anacronismo indecifrável. O pai era um sujeito anafado, com
a ruralidade bem visível no rosto, apesar dos subsequentes anos de urbe, a mãe,
inexplicavelmente, só se faria notar no quadro familiar. Sim, ela ali estava:
era a mãe… Mas, em qualquer outro contexto, o seu lugar seria o da
invisibilidade. Uma dessas pessoas que nem a memória ilumina. As raparigas,
pelo contrário, talvez se iluminassem fora daquele palco. De certa forma, era
como se representassem, não, não é bem isso, havia uma fatalidade que lhes sombreava
a face, uma aceitação incondicional de um cálice amargo, por uma esperança
algures reconhecida. Ele continuou a observá-los, com uma curiosidade
crescente. A forma cerimoniosa como o patriarca limpou os lábios, análoga à de
um sacerdote durante a eucaristia, como se uma multidão observasse o seu mais
ínfimo movimento, e uma palavra adveio-lhe ao espírito: uma palavra de outras
paragens, eivada do espontâneo, com outros protagonistas, outros ritmos… A
palavra felicidade. Quão longe daquela mesa! Estaria a ser injusto? É possível…
Não, ali não havia vestígios de risos, de… Mas é isso a felicidade? Risos,
movimento, brincadeira? Não haverá outras manifestações? Em alguma parte de si,
ele compreendeu a tranquilidade emanada de cada gesto, a leveza do silêncio
(tão rara de encontrar), a comunhão subterrânea daquelas quatro pessoas. E esta
sintonia, não se poderia denominar de felicidade? A resposta, demasiado óbvia,
verbalizou-se pela voz sem voz de si mesmo. E continuou a olhar aquela família,
seduzido pelo véu da felicidade inaudível dos gestos.
III
Quando o apelo da madrugada se desvanece
Saiu para o amanhecer cinzento. À sua
frente, o lago. Atrás, o edifício, de dois pisos, do hotel. As cortinas
fechadas, do seu quarto, denunciavam o sono da mulher. Dirigiu-se para a margem.
Estranho este fascínio humano por margens e água! Deixou-se estar, de mãos
atrás das costas (uma última tentativa de resistir à gravidade), a ouvir as
águas e a sentir o afago sedoso da neblina no rosto. Uns metros ao lado, um
sujeito preparava uma manhã de anzóis e paciência. Aproximou-se dele, enquanto
este se debruçava sobre baldes e iscos de longa espera. Saudou-o com um Bom-dia, entre o educado e o alegre, a
indiciar ao outro predisposição para a conversa. O indivíduo levantou os olhos
dos baldes, e retribuiu um Bom-dia enformado
de cautela e surpresa.
- Então,
por aqui abunda o peixe?
- (O sujeito olhou-o o tempo que
considerou suficiente. Entretanto, devolveu à terra algo que trazia emprestado
na boca. As bocas lusitanas são pródigas nestas devoluções às origens.) A sua cara não me é estranha!
- (Não esperava esta resposta. Sentiu
um desconforto crescente. Recuou um passo, para melhor se equilibrar do golpe
verbal. Sim, é verdade, nunca gostou desta frase. Sempre a interpretou como uma
ameaça velada. Como a promessa de uma reminiscência dolorosa. Mas que ameaça
poderia conter aquele humilde homem àquela matinal hora? Todas! É a resposta. Porque ele via-o com o seu presente, passado e
futuro. Cada homem assim vê o mundo. Raramente olha a realidade fora deste
espartilho. Quando assim acontece, está para além dela. E nessas ocasiões, esta
sob a inebriante espiral da liberdade: sem ontem e sem amanhã. No fundo, sem o
tempo. Mas, como anteriormente se afirmou, o
tempo é o homem, e se esta é a sua medida, ou uma das possíveis, que homem
é esse para além da sua mensurabilidade? Ele conhecia a resposta, sempre
aspirou a um Absoluto, sob as mais
diversas formas ao longo da sua vida. Já lá iremos. Neste momento,
confronta-se, à beira de um lago, com um sujeito que o perturbou com uma
exclamação corrente.) Não sei como! Somos
da capital. (Refugiou-se num chavão chauvinista e deselegante: próprio de
países que vivem a duas velocidades).
- Se
é por aí, também já por lá andei. E não guardo saudades. Mas a sua cara não é
da capital que recordo (A capital não tem rosto. Sim, são faces sem rosto,
pensou ele, enquanto o ouvia.). É de
outro lugar…
- Lamento
desapontá-lo, mas não estou a ver de onde será. - Está aqui hospedado?
- Sim.
- E não tem familiares por aqui?
- (O cerco
estreitava-se. Aqui chegados, só restavam duas alternativas: a fuga ou a
hostilidade. Nenhuma delas se lhe afigurou atraente, sobretudo àquela hora.
Após a questão, baixou os olhos instintivamente, e apercebeu-se de que toda a
sua aparente sofisticação citadina ruíra perante a argúcia de quem observa a
metamorfose lenta das coisas.) O que o
leva a concluir isso? (Optou pela primeira, camuflado pela questão.)
- O
seu rosto, já lhe disse. (O sujeito emanava uma espontaneidade, nos gestos
e na voz, que começava a irritá-lo. Falava com a mesma naturalidade com que
tratava das lides. Um dom só ao alcance daqueles que conhecem e sentem as
texturas das coisas.)
- (Acabou por capitular.) Sim, tive. Mas já não me resta nenhum. (Afastou-se,
no vagar de uma indesejada reflexão.)
Regressou ao quarto. Ela já acordara.
A porta da casa de banho estava entreaberta e ouvia-se a cascata matinal do
duche. Ele aproveitou para abrir a cortina e assomar à varanda. Sempre gostou
daquele cenário: horizontes por alcançar, as águas sussurrantes (ou serão águas
sonhadoras?), as copas impressionistas da outra margem… Transmitia-lhe
serenidade. Assim ficou, encostado à porta de vidro, de mãos nos bolsos, não a
olhar, mas a sentir o silêncio melodioso das águas. Recordou aquela vez, há
muito passada, em que acompanhou, precisamente dali, a lenta e cantada aparição
do nascer do mundo. Nessa altura, o alaranjado do horizonte soube-lhe a
vastidão. Já não se recorda de há quanto tempo foi, parecia-lhe, agora, ter
sido numa outra vida. Sim, é verdade, quantas vezes se morre e nasce ao longo
de uma vida? Ele também já fora outro. Ou outros… Quem é ele agora? Acordara,
nessa madrugada longínqua, sem porquê. A seu lado, dormia aquela que já
partira. Sim, estamos sempre a deixarmo-nos. Ele levantou-se, numa ânsia
crescente de harmonia, desvelou um pouco a cortina, correu a porta de vidro, e
saiu para a varanda por amanhecer. Ainda os distantes pontos luminosos no tecto
nocturno, aqui e ali o salto de um peixe, cantos da madrugada em aparente
dissonância, e ele sem a obstinação do pensar, apenas a leveza do sentir,
submerso nas sensações de uma aurora irrepetível, recorda-se de fechar os
olhos, assim que sentiu um tímido calor no rosto, e da sua voz se juntar a um
coro imemorial de saudação ao ser da vida.
Nunca mais experienciou tal sensação
de plenitude. Também o apelo da madrugada se desvanecera. Sim, há coisas que se
deixam pelo caminho. E outras que se apanham? Não, o caminhar da vida é uma
crescente solidão. Ele regressou ao interior do quarto, na mesma altura em que
ela saía, enrolada numa toalha, do seu banho. Sorriram-se.
- Não
me acordaste…
- Preferi não fazê-lo. Precisavas de uma noite assim.
- Sim, há muito que não me conciliava com o sono.
Enquanto falavam, ela primeiro
desvelou-se, para depois escolher a sua roupa. Ele, fruto da experiência,
preferiu sentar-se. Observou, num encantamento espantado, e com um natural
sabor de primeira vez, a feminilidade dos seus gestos. O feminino. Uma graça
liberta de qualquer resquício de gravidade. Em cada gesto, ela inteira. São
gestos cantados, cantantes, pensava ele. Ora aqui, ora ali, a forma de pegar
numa peça de roupa, de a olhar, numa análise além tempo, como se aquele acto,
revestido de uma falsa aparência de futilidade, contivesse, em si, o futuro de
nações. É curioso, nunca se ouviu alguém nomear uma flor de fútil. Por ser
bela, por ser colorida… No entanto, uma mulher, que procure os mesmos
desígnios, expõe-se a tal impropério. E qual é a diferença entre uma mulher e
uma flor? Não sei, ainda não a descobri. Se alguém já a descobriu, deixo-lhe
este espaço, de seguida, para o preencher.
Após
deixar cair a toalha, sucedeu-se um silêncio. Como aquele particular silêncio
indizível entre as notas de uma peça. E nem o esquecido passar dos anos, disfarça
o embaraço da nudez. Ele vestido, chegado da varanda, ela saída do banho,
apenas com a toalha. O arranjar-se. A toalha, de repente, a seus pés. Ele
disfarça, sentando-se. Continua a conversa de ocasião. Ela, nua, escolhe o
enxoval do dia. E ele procura manter, ao longo da conversa, os olhos com os
dela. Mas ela está nua! E o tempo não apagou, por completo, a vontade do um. O
olhar dele acaba por descair. Era uma questão de tempo. Mais de oportunidade. A
gravidade já fez os seus estragos naquele corpo. E, nestas coisas, o tempo é um
aliado precioso. O corpo, com o tempo, assemelha-se mais a um mapa. Todavia, ele
olhava-a além tempo. Era, ainda, um olhar de início. Sem mapas, estradas,
curvas, trajectos sinuosos… Daí que ela lhe surgisse envolta naquele brilho, de
há tantos e tantos anos atrás, e ele, de lábios ligeiramente entreabertos, não
a olhava, olhava-se, sim, a si mesmo, num espanto interior perante uma
revelação… Que idade teria? Ao certo não se lembra, apenas se recorda de
conhecer a gilete há pouco tempo, mas vê-se, a si mesmo, sentado naquele sofá,
com um tecido creme pontuado por umas cornucópias verde-escuras, à frente uma
estante com pouquíssimos livros, no meio espaço para a televisão, era uma sala
rectangular, pequena, apenas espaço para o sofá, estante, e, à sua direita, uma
mesa redonda com quatro cadeiras. À esquerda, uma pequena varanda,
transformada, como sempre acontece por estas paragens, em marquise. Provinha
daí uma ligeira aragem. Bastante agradável. Esta não era a sua casa. Talvez a
de um amigo. E foi aí, sob a leveza dessa aragem, que ela se lhe revelou.
Apenas isso. Ele, lábios entreabertos, sem saber que postura assumir, e um
desejo obstinado de gravar cada detalhe, mas apercebia-se do malogro dessa
aspiração, tal o inebriamento do instante. E, neste exacto momento, ele
apercebe-se de uma aragem vinda de tempo incerto. Não, aqui não há estantes de
poucos livros, sofás com cornucópias verde-escuras, mesas redondas
circunscritas por quatro cadeiras, nem marquises, mas persiste aquela peculiar
aragem, tépida, agradável, que convida a olhar o presente de lábios
entreabertos.
IV
Um silencioso e horizontal espelho de pedra
Seguem, neste momento, por uma estrada à sombra, ora
de pinheiros ora de eucaliptos. Ele concentrado. Em silêncio. Ela, a seu lado,
olha a paisagem. Apreciava aquele cenário. Bosques cerrados que dão lugar a
campos agrícolas, longos vales atravessados por rios caudalosos, horizontes que
prenunciam céus e alturas…
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