Livros

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quinta-feira, 16 de novembro de 2017


"... por ali andavam muitos sonhos seguidos de outras tantas frias manhãs, vencia um monte, naquele cume pensei repousar, mas, ali  chegado, só encontrei a sombra de um outro ainda mais alto, logo iniciava nova escalada, com a esperança de alcançar nesse outro cume o merecido repouso sob a luz revigorizante de um sol apenas meu..."

in "Não te esqueças de trazer um sonho contigo"

domingo, 12 de novembro de 2017


terça-feira, 7 de novembro de 2017


"Numa noite ida de província, em vez de pratos, talheres, copos, a mesa povoou-se de cor. Era uma mesa de madeira enegrecida. Talvez pela vizinhança com o lume. Comprida. Mas, nessa noite, era o coração do mundo. A noite estava fria. As mãos estendiam-se para a lareira, enquanto os olhos, ávidos, percorriam o festival de cores sobre a mesa, que encerrava uma indizível promessa de alegria. Adultos cirandavam, numa indiferença inexplicável às cores, falavam e falavam, e ele, teria perto de oito anos, vislumbrava o abismo que o separava daquelas criaturas mais altas, algumas com a cabeça prateada, cheias de certezas, convicções… Tudo uma frágil aparência, porque só o olhar de uma criança apreende o véu desiludido que lhes turva o olhar.
 Sente-se na pele que esta é uma noite diferente das outras. Porquê? Sim, não se explica, sente-se. E quando as coisas enveredam pela via dos sentimentos, o verbo torna-se supérfluo, porque compreendemos no outro uma essência irmanada. Mas voltemos à criança. Aos oito anos. Ouve-se o sino. Um sino tem voz de alma. Todos se encaminham para a saída. A mãe veste-lhe o sobretudo. Saem para a noite. O frio arrefece as conversas, mas não o passo. Apesar da crescente distância em relação à mesa, às cores, à promessa de alegria, de mãos nos bolsos, segue os familiares, afinal, ainda havia uma obrigação a cumprir. Em algum lugar de si, sentia que a palavra obrigação era desajustada. Porque cada passo seu proclamava agradecimento. Recorda-se de, antes de entrar no templo, olhar o céu. Estava um céu de natal. Os seus pensamentos, nesse momento, oscilaram entre o menino Jesus e o Pai Natal. Gostava de ambos. Em ambos repousava também uma promessa de alegria. Embora de alegrias distintas. E começava a compreender isso. Porque só uma criança pobre, ornamentada de trapos, nascida sem tecto, era capaz de reunir uma aldeia aquela hora da noite. E o seu coração de oito anos acreditava que aquela não seria a única aldeia. "
in "Natal rima com criança"

quinta-feira, 2 de novembro de 2017



Até que, lentamente, começo a ver passado. Como se, cada acorde, correspondesse a uma pincelada de uma tela ainda por desvelar. Assisto à magia do alvor da memória, embalado pela melódica abertura deste sonhado Stairway to Heaven (da imortal banda inglesa). Há muito que não ouvia. Compreendo, com tristeza, que a felicidade é sempre retrospectiva. É sempre a estação deixada para trás. Toda a tristeza do mundo desenha-me no rosto a ténue linha de um sorriso compreensivo – aquele que provém do tempo.

Agora, sou um passageiro memória, e viajo à mercê do seu passo. E começo a sentir os odores, a cheirar as cores, e a rever as emoções daqueles dias, enquanto ascendo a azuis de outrora.
in Queria rever o teu rosto ao entardecer




terça-feira, 24 de outubro de 2017


"... a 27 de Maio de 1987, na capital da ópera, contra todas as previsões, desde uma arrogância boçal aos favores dos média, familiarizados com nomes e marcas, e com uma traumática experiência 3 anos antes, com uma inglória final perdida, fruto de mais um que teve o seu preço, assisti ao mais belo bailado sobre um tapete verde, digno da capital que acolheu tal espectáculo, só vi camisolas azuis e brancas, de listas verticais, por todo o lado, até que, já se entrara no último quarto de hora, após tantas bolas perdidas, o magnífico argelino faz o impensável, aqueles singulares momentos em que a realidade se suspende para ver no que dá… Nem um respirar se ouve… Nada! Para mim, por muito que busquem argumentos coxos e desajustados, só o futebol tem este condão, de suspender o respirar do mundo para se ver se uma bola entra, e, felizmente, naquela noite de Maio, a bola entrou, e de calcanhar! O bailado fundia-se com uma justiça poética, e, nesse momento, sabia que o meu Porto ia ganhar..."
in "Quando a magia decidiu partir"

domingo, 22 de outubro de 2017

Rua do Sol



Hoje vi-o, passeio fora, orgulhoso, com uma bicicleta pela mão, percebia-se-lhe o tempo, mas, ainda assim, apresentável, percebi, de imediato, o destinatário, a essa hora olharia o quadro, verde, diante de si, talvez com uma frase para decompor ou uma conta de multiplicar, uma mão suportava os sonhos que lhe enchiam o pensar, enquanto a outra (com um lápis? Uma caneta?) fingia interesse pelo que se passava no quadro, àquela hora (aproximava-se o regresso a qualquer coisa de nome lar) as escassas refeições do dia empurravam-no para um sono crescente, andava por aqui há pouco mais de meia dúzia de anos, porém, aprendera que o encolher do estômago é proporcional ao alargar dos sonhos, nisto uma frase estridente fá-lo regressar-se e estremecer Perceberam, meninos? Ele a formular uma surda questão para si Perceber o quê? Os sapatos que, de tão apertados, mal lhe permitiam caminhar, quanto mais correr atrás de uma bola (...)