Livros

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segunda-feira, 22 de abril de 2019

Um lugar só existe no tempo



Há uns dias, olhei um lugar e compreendi que já nada existia, eu e o lugar, porque quem ali fui, hoje já não sou, o que ali aconteceu, hoje só na irrealidade da minha memória, concluí, assim, que um lugar só existe no tempo, fica-nos como a extensão material do pensar, mas tão pouco, tão escasso, tão irreversivelmente pobre, daí a minha conclusão: um lugar só existe no tempo; quem procure relembrar-se num regresso, creio que perder-se-á ainda mais, não há regressos, este talvez seja o maior dos mitos, porque regressar é impossível, nem as sombras serão as mesmas (…)


(…) lá fora, a noite aproxima-se para nos relembrar Fim, resolvemos deixar a divisão da casa dominada pelo piano, olhei uma última vez as teclas agora anoitecidas, não sei porquê só ouvi silêncio, por fim, fechei a porta.
in Perspectivas

sábado, 20 de abril de 2019


(…) talvez não tenha conseguido sobreviver a si mesmo, a escrita, por uns tempos, ainda atenuou este confronto, mas era uma alma demasiado desarrumada (…)

in Harmonia

terça-feira, 16 de abril de 2019


… mas tu devias saber, melhor que ninguém,  que o coração de uma mulher só tem uma Primavera…

in Álbum de família

domingo, 14 de abril de 2019

Perspectivas



Havia um piano em casa da minha Avó, por causa disso, aquela deixou de ser a casa da minha Avó e passou a ser a casa do piano, o meu olhar, nesse tempo, apenas à altura das teclas, alvas, etéreas, pareciam na expectativa de uma divindade caminhante que fizesse soar acordes adormecidos, não sei porquê, mas não se falava do piano, como se não dominasse uma das divisões da casa, parecia haver, entre os crescidos, um acordo sublimado de não se falar do piano, eu, nesse tempo, apenas à altura das teclas, nunca ouvira falar de tais acordos, apenas o pressentia… 

quarta-feira, 10 de abril de 2019

O sonho tem a altura da infância



Quando deixei de sonhar? Sei lá! Foi há muito, isso sem dúvida. E a esta realidade ninguém foge. Hoje, aí sentado, você pensa que será uma excepção, não se engane, com o tempo, vamos perdendo tudo, familiares, amigos (como se os houvesse), objectos, faculdades, perdendo, perdendo, e perdendo, até que, certo dia, diante de um espelho, a inevitável questão levanta-se: afinal, o que continuo aqui a fazer? Ninguém foge a esta pergunta, mais cedo ou mais tarde salta-nos ao caminho, e para ali fica, desdenhosa, à espera de uma resposta que sempre calamos (afinal, o que ando aqui a fazer?), acredito que morrer começa quando perdemos os motivos para aqui continuar, como se fôssemos perdendo a bagagem ao longo da jornada, até nada restar, não duvide, esta é a realidade, insiste (Quando deixei de sonhar?), talvez quando, ao pousar o rosto na almofada, não haja desejo de um amanhã, é curioso como a vida é um constante fechar de portas, por cada decisão tomada, fecham-se, de imediato, múltiplas possibilidades, desde a escolha de amigos, curso, desporto, namorada, café a frequentar, enfim, por cada direcção escolhida, logo uma infinidade de opções fechadas, e nunca saberemos onde iria desaguar “aquele” caminho...