Livros

Livros

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Uma janela que não mais se iluminou



Perdi a conta, nesta vida, às janelas que não mais se iluminaram, sempre me fascinou, da rua, contemplar, ao alto, uma janela iluminada, como se um vestígio do dia na noite infinda, um obstinar de luz perante o inclemente avançar das trevas, e um pressentimento de calor, de partilha, de conforto, no fundo, o essencial do existir, porém, perdemo-nos tanto atrás de menoridades, por vezes, acabamos mesmo por nos perdermos, também eu procuro esta essência (calor, partilha, um pouco de conforto), e sempre, em mim, esta coisa de olhar o passado, de cristalizar o acontecer, afinal, no meu pensar não há passado, presente e futuro, tudo perdura num espaço (sem vozes silenciadas, rostos desvanecidos e gestos apagados)...

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019



sexta-feira, 29 de novembro de 2019

A Incessante Efemeridade das Vagas



Num entardecer (seria Verão?) ele regressa a casa pela concorrida estrada litoral. Pelos vidros abertos, entra um apelo marítimo. Não lhe resiste. Pára a viatura, descalça-se, e sente a areia antes de a pisar. Afinal, ver é sentir… No ar respira-se fim. Agora, caminha ao sabor da lentidão do momento. Olha à sua volta. Uma criança corre sob o desvelo materno. Ri o riso da infância: sonoro, espontâneo, vivo. À sua direita, uma jovem mulher sentada olha o mar, numa imobilidade pensante. Um rosto de saudade. Alguém que amou? Sim, talvez isso. As mãos nos joelhos. O olhar absorto no horizonte. Sim, ela está longe. Mas a distância advém do tempo. E essa é sempre a mais longínqua. Agora, ela compõe uma madeixa, no gesto possível do feminino, que a brisa descaíra. Ele memoriza-lhe o rosto. Uma beleza serena. A única que demora a vista. Agora, à sua frente, passam dois sujeitos a correr. O indizível do esforço grita-se-lhes no rosto. Talvez percepcionem que a meta seja distante. 

 O sol, agora, pousa nas águas. Neste momento, ele sente a frescura revigorante líquida sob os pés. Não avança mais. Respira fundo. Fecha os olhos: como se fosse uma exigência do sentir. Não, sentir é uma outra coisa. Só se sente com a distância. Mas ele, neste momento, apenas fruía o instante. O revigorante e contínuo abraço das águas. Algo o despertou. Talvez o apelo do lar. Talvez um grito da criança. Talvez o receio de se perder em si…