Livros

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segunda-feira, 26 de junho de 2017



"... após o candeeiro, ela numa pausa para cadenciarem passos e palavras, por esta altura, a mão da noite descia uma qualquer promessa de sonhos sobre a terra, aqui era o momento em que se silenciavam para se olharem, talvez nunca falassem tanto, é curioso, o amanhã nunca entrava nestes diálogos..."

in "Quantas conversas encontram o amanhã?"

sexta-feira, 23 de junho de 2017


"…E a conversa prolongou-se madrugada dentro. Enquanto as trevas cobriam a terra dos homens, os sonhos permaneciam coloridos. Com o tempo descobrimos que as cores dos sonhos se vão esbatendo...E as cores das memórias intensificando-se…Há quem chame a este fenómeno envelhecimento, e há quem o denomine por resignação."
in "Queria rever o teu rosto ao entardecer"

terça-feira, 20 de junho de 2017




Noite de verão no jardim…

O meu eu expande-se para ti…

Morna era a brisa… e leve também.

Nunca mais o meu eu se expandiu.

Nunca mais houve mornas brisas…

Talvez, ainda, haja o jardim…


in "Olhei para trás e sorri..."

sábado, 17 de junho de 2017

Do outro lado do rio, há uma margem



Levantar

Caminhar

Cair



Nós somos feitos do mesmo estofo dos sonhos, e a nossa curta vida está encerrada entre dois sonos.

                                                                             Shakespeare (in A Tempestade)


… pois a vida e a morte são uma só coisa, como uma só coisa são também o rio e o mar.

  Tende fé nos sonhos, pois neles se encontra a porta da eternidade.  

                                                                                                               Kahlil Gibran


Levantar


I


O tempo é o homem

 Os primeiros acordes do alvorecer insinuaram-se na penumbra. A luz sempre encontra uma forma de se anunciar. De se dar a conhecer. É da sua essência. Nessa manhã, ele encontrou-a na porta do armário. Como se lhe relembrasse uma urgência: talvez a da vida. Assim ficou: a descobrir os veios de uma porta, subitamente revelados. Cansou-se. Afinal, todo tem o seu tempo. E o tempo é o homem. Subiu a perspectiva, e observou as partículas dançantes, felizes e aquecidas, naquela chaga das trevas. Estariam só ali? Embaladas por aquele vestígio de felicidade? Desde quando? Levantou-se. Arranjou-se. Antes de sair, olhou para ela, que, através do rosto, transparecia o indizível de uma felicidade de outras paisagens. Por fim, saiu.

Encontrou a sala de refeições, àquela hora, já com bastante gente. Na sua maioria casais com filhos. Colocou a chave numa mesa e foi-se servir. Esperou algum tempo pela sua vez. Sentiu, no ar, a urgência do açambarcamento, como se fosse um imperativo encher os tabuleiros, uma forma de equilibrar as contas. Talvez a recepção, avistada através das portas de vidro, potenciasse este súbito e repentino apetite. Chegada a sua vez, avançou. De súbito, viu-se ultrapassado por um garotelho, com os seus dez anos, que se precipitou, numa urgência sem retorno, a reabastecer a caneca e respectivo cesto de pães e croissants. Ficou siderado. Não tanto pelo gesto do garoto. Mas sim pela forma, que denotava grande experiência, com que o executou. É um outro mundo, pensou. Ao qual não queria pertencer. Admirou-se como o tabuleiro, sustido pela mãozita de uma década àquela velocidade, sem vislumbre de inclinação. Ele tinha que agir. Aproximou-se do miúdo por trás, enquanto este aumentava consideravelmente o peso do tabuleiro, e pisou-lhe, como se tratasse de um singelo acidente, o calcanhar direito, o que fez com que o ténis saísse. O garoto, entre o espanto da pisadela, o olhar para trás e manter o tabuleiro equilibrado, a escolha de doce ou de mais fiambre, acabou por ficar a meio caminho, e ele aproveitou para o ultrapassar, saúdo-o com um sonoro Ah, peço imensa desculpa, e no seu íntimo regozijou-se pela vitória do passado face à ignomínia do presente.

II

Uma sombra vertical proclama harmonia

O seu olhar, neste momento, perdia-se entre o espectáculo em volta e um solitário que se equilibrava, em harmonia messiânica, numa exígua canoa no meio do grande lago, emoldurado pelas janelas da sala. O dia amanhecia, de novo, pardacento, como se esse véu emergisse das águas, e colorisse os céus. O solitário das águas estava, agora, num estatismo arrogante. Como se apelasse a um artista anónimo. Como se cumprisse um ritual. Como se aquele fosse, de facto, o seu lugar no mundo. Ele pousou, nesse momento, a chávena com mais leite do que café. O seu olhar apenas naquela sombra vertical – que proclamava harmonia.
Ele, agora, era o outro: na imobilidade, no equilíbrio da chávena, na arrogância de uma certeza, no silêncio de um grito por um olhar. Num lento adeus, a canoa afastou-se, e ele ainda ficou um pouco assim: entre o encantatório do movimento e a efémera memória do Sentido.

Tudo se diluiu, na estridente dor de uma chávena, desafiadora de gravidades. Também ele caiu no desconforto de si. Estremeceu, primeiro. Depois, buscou a génese do estrépito. Sem saber muito bem o porquê. Sim, soube desde logo que se tratava de uma chávena. Então, porquê esta quase obsessão de localizar, no espaço da sala, o ponto exacto da ocorrência, e visualizar o rosto do infeliz? Ele não o sabia. Apenas sentiu, em si, esta necessidade, quase orgânica… Tinha sido uma criança, a fonte do seu súbito desassossego. Crianças e ruído são íntimos de há muito. Não desistiu do epílogo da caneca. Esperava, sabia que em vão, pelo castigo do meliante. Acabou por emergir: a mãe afagou-lhe o cabelo, o rosto do pai sustentava o sorriso apatetado daqueles que não vincam o solo. Não, ele já não pertencia a este mundo. Olhou cansado o absurdo de uma cena recorrente. Enquanto o fazia, apoiou o rosto na mão direita. Por fim, suspirou… Longos corredores, silêncios obedientes, temores aquém verbo, imagens que revisitava balizadas pelo infinito de uma expiração. Na velhice, o futuro reside no passado. Só assim tem sentido. Afinal, de que outro modo o podiam encontrar? Esta é uma das grandes verdades da vida: passado e futuro, com o tempo, acabam por se fundir.

 E ali estava ele, sozinho a uma mesa, oscilando entre o grande lago, no exterior de uma natureza paciente pelo sempre adiado regresso, e o civilizado ruído do movimento interior da sala. O seu olhar, reflectido na caneca, anunciava fim. Apesar de terminado o café com leite, ainda permaneceu sentado. Outrora, sentir-se-ia constrangido pela solidão. Nunca se deu bem consigo mesmo. Achava-se insuficiente. Sempre careceu de um espelho. Pelo menos um que o sossegasse. Só, sentia o apelo da elipse, e, do abismo de si, sempre emergia envolto nas roupagens da inquietude e da desilusão. Ao longo da vida, sempre se compadeceu daqueles cavalheiros que ocupavam, numa proclamação de derrota, uma mesa, de um qualquer restaurante, sem saber muito bem porquê… E porquê esta analogia com a derrota? Porque não associava ele, a imagem de um homem só, a uma mesa, com a de um farol, por exemplo? Afinal, solidão e luz são velhas companheiras. Não, ele não conseguia. Os seus olhos partiam sempre toldados por um véu de tristeza. Quem o terá bordado? Que delicadas mãos terão confeccionado tal peça, indelevelmente inquilina de sua alma? Sempre esta fonte inexorável de questões… E respostas, onde? E uma mulher só? Sem saber muito bem o porquê, não se compadecia tanto. No fundo, ele sabia há muito que o porquê é a porta da desculpa. Uma mulher, só, encerra em si uma aura de dignidade – daí a naturalidade de uma viúva –, um homem sozinho é o rosto do abandono e da incompletude – e de viuvez, estamos conversados!

 Agora, olha o lago. Soube, há poucos dias, que lhe chamam a Lagoa Adormecida. Sim, faz algum sentido. Porque adormecer inspira tranquilidade. Dormir, já não. Mas aquelas águas apelam a sonhos tranquilos. Por contraste com as manhãs daquela sala de refeições. No fundo, aquele espaço em nada difere das salas de refeições dos outros hotéis. Há um lastro comum de excitação e de bocejo: o que origina estados de espírito a roçar a insuportabilidade. Continuou a observar os seus vizinhos da manhã. Numa mesa distante, um casal de anciãos, com a sua digníssima coroa prateada, saboreava a refeição com gestos lentos, próprios de quem já assimilou o saber dos pequenos nadas – o sempre tardio saber da vida –, ela muito direita, poucos imaginam o esforço da pose, ele mais curvado, mas numa curvatura honrada, de vez em quando uma palavra, o resto num harmonioso silêncio dialogante, como se nada fizesse sentido naquela sala sem a sua presença. Do casal infantilizado e da sua cria, já falámos. Numa mesa próxima, havia outro casal com duas filhas adolescentes. Reinava entre eles um respeito traduzido nos gestos. Nos gestos, não. Mas sim na sobriedade com que os executavam, como se tivessem uma profunda consciência do cerimonial que preside a uma refeição. Como se só sob esta luz, o acto de se sentar a uma mesa tivesse algum sentido. Tudo ali era lentidão e silêncio. As raparigas contrastavam a idade com a parcimónia dos gestos. Apesar de cumprirem os requisitos etários da moda, exalavam uma aura de anacronismo indecifrável. O pai era um sujeito anafado, com a ruralidade bem visível no rosto, apesar dos subsequentes anos de urbe, a mãe, inexplicavelmente, só se faria notar no quadro familiar. Sim, ela ali estava: era a mãe… Mas, em qualquer outro contexto, o seu lugar seria o da invisibilidade. Uma dessas pessoas que nem a memória ilumina. As raparigas, pelo contrário, talvez se iluminassem fora daquele palco. De certa forma, era como se representassem, não, não é bem isso, havia uma fatalidade que lhes sombreava a face, uma aceitação incondicional de um cálice amargo, por uma esperança algures reconhecida. Ele continuou a observá-los, com uma curiosidade crescente. A forma cerimoniosa como o patriarca limpou os lábios, análoga à de um sacerdote durante a eucaristia, como se uma multidão observasse o seu mais ínfimo movimento, e uma palavra adveio-lhe ao espírito: uma palavra de outras paragens, eivada do espontâneo, com outros protagonistas, outros ritmos… A palavra felicidade. Quão longe daquela mesa! Estaria a ser injusto? É possível… Não, ali não havia vestígios de risos, de… Mas é isso a felicidade? Risos, movimento, brincadeira? Não haverá outras manifestações? Em alguma parte de si, ele compreendeu a tranquilidade emanada de cada gesto, a leveza do silêncio (tão rara de encontrar), a comunhão subterrânea daquelas quatro pessoas. E esta sintonia, não se poderia denominar de felicidade? A resposta, demasiado óbvia, verbalizou-se pela voz sem voz de si mesmo. E continuou a olhar aquela família, seduzido pelo véu da felicidade inaudível dos gestos.

 III

 Quando o apelo da madrugada se desvanece

 Saiu para o amanhecer cinzento. À sua frente, o lago. Atrás, o edifício, de dois pisos, do hotel. As cortinas fechadas, do seu quarto, denunciavam o sono da mulher. Dirigiu-se para a margem. Estranho este fascínio humano por margens e água! Deixou-se estar, de mãos atrás das costas (uma última tentativa de resistir à gravidade), a ouvir as águas e a sentir o afago sedoso da neblina no rosto. Uns metros ao lado, um sujeito preparava uma manhã de anzóis e paciência. Aproximou-se dele, enquanto este se debruçava sobre baldes e iscos de longa espera. Saudou-o com um Bom-dia, entre o educado e o alegre, a indiciar ao outro predisposição para a conversa. O indivíduo levantou os olhos dos baldes, e retribuiu um Bom-dia enformado de cautela e surpresa.  
- Então, por aqui abunda o peixe?

- (O sujeito olhou-o o tempo que considerou suficiente. Entretanto, devolveu à terra algo que trazia emprestado na boca. As bocas lusitanas são pródigas nestas devoluções às origens.) A sua cara não me é estranha!
- (Não esperava esta resposta. Sentiu um desconforto crescente. Recuou um passo, para melhor se equilibrar do golpe verbal. Sim, é verdade, nunca gostou desta frase. Sempre a interpretou como uma ameaça velada. Como a promessa de uma reminiscência dolorosa. Mas que ameaça poderia conter aquele humilde homem àquela matinal hora? Todas! É a resposta. Porque ele via-o com o seu presente, passado e futuro. Cada homem assim vê o mundo. Raramente olha a realidade fora deste espartilho. Quando assim acontece, está para além dela. E nessas ocasiões, esta sob a inebriante espiral da liberdade: sem ontem e sem amanhã. No fundo, sem o tempo. Mas, como anteriormente se afirmou, o tempo é o homem, e se esta é a sua medida, ou uma das possíveis, que homem é esse para além da sua mensurabilidade? Ele conhecia a resposta, sempre aspirou a um Absoluto, sob as mais diversas formas ao longo da sua vida. Já lá iremos. Neste momento, confronta-se, à beira de um lago, com um sujeito que o perturbou com uma exclamação corrente.) Não sei como! Somos da capital. (Refugiou-se num chavão chauvinista e deselegante: próprio de países que vivem a duas velocidades).

- Se é por aí, também já por lá andei. E não guardo saudades. Mas a sua cara não é da capital que recordo (A capital não tem rosto. Sim, são faces sem rosto, pensou ele, enquanto o ouvia.). É de outro lugar…
- Lamento desapontá-lo, mas não estou a ver de onde será.


- Está aqui hospedado?

- Sim.

- E não tem familiares por aqui?

- (O cerco estreitava-se. Aqui chegados, só restavam duas alternativas: a fuga ou a hostilidade. Nenhuma delas se lhe afigurou atraente, sobretudo àquela hora. Após a questão, baixou os olhos instintivamente, e apercebeu-se de que toda a sua aparente sofisticação citadina ruíra perante a argúcia de quem observa a metamorfose lenta das coisas.) O que o leva a concluir isso? (Optou pela primeira, camuflado pela questão.)

- O seu rosto, já lhe disse. (O sujeito emanava uma espontaneidade, nos gestos e na voz, que começava a irritá-lo. Falava com a mesma naturalidade com que tratava das lides. Um dom só ao alcance daqueles que conhecem e sentem as texturas das coisas.)

- (Acabou por capitular.) Sim, tive. Mas já não me resta nenhum. (Afastou-se, no vagar de uma indesejada reflexão.)

 Regressou ao quarto. Ela já acordara. A porta da casa de banho estava entreaberta e ouvia-se a cascata matinal do duche. Ele aproveitou para abrir a cortina e assomar à varanda. Sempre gostou daquele cenário: horizontes por alcançar, as águas sussurrantes (ou serão águas sonhadoras?), as copas impressionistas da outra margem… Transmitia-lhe serenidade. Assim ficou, encostado à porta de vidro, de mãos nos bolsos, não a olhar, mas a sentir o silêncio melodioso das águas. Recordou aquela vez, há muito passada, em que acompanhou, precisamente dali, a lenta e cantada aparição do nascer do mundo. Nessa altura, o alaranjado do horizonte soube-lhe a vastidão. Já não se recorda de há quanto tempo foi, parecia-lhe, agora, ter sido numa outra vida. Sim, é verdade, quantas vezes se morre e nasce ao longo de uma vida? Ele também já fora outro. Ou outros… Quem é ele agora? Acordara, nessa madrugada longínqua, sem porquê. A seu lado, dormia aquela que já partira. Sim, estamos sempre a deixarmo-nos. Ele levantou-se, numa ânsia crescente de harmonia, desvelou um pouco a cortina, correu a porta de vidro, e saiu para a varanda por amanhecer. Ainda os distantes pontos luminosos no tecto nocturno, aqui e ali o salto de um peixe, cantos da madrugada em aparente dissonância, e ele sem a obstinação do pensar, apenas a leveza do sentir, submerso nas sensações de uma aurora irrepetível, recorda-se de fechar os olhos, assim que sentiu um tímido calor no rosto, e da sua voz se juntar a um coro imemorial de saudação ao ser da vida.
Nunca mais experienciou tal sensação de plenitude. Também o apelo da madrugada se desvanecera. Sim, há coisas que se deixam pelo caminho. E outras que se apanham? Não, o caminhar da vida é uma crescente solidão. Ele regressou ao interior do quarto, na mesma altura em que ela saía, enrolada numa toalha, do seu banho. Sorriram-se.

- Não me acordaste…

- Preferi não fazê-lo. Precisavas de uma noite assim.

- Sim, há muito que não me conciliava com o sono.

Enquanto falavam, ela primeiro desvelou-se, para depois escolher a sua roupa. Ele, fruto da experiência, preferiu sentar-se. Observou, num encantamento espantado, e com um natural sabor de primeira vez, a feminilidade dos seus gestos. O feminino. Uma graça liberta de qualquer resquício de gravidade. Em cada gesto, ela inteira. São gestos cantados, cantantes, pensava ele. Ora aqui, ora ali, a forma de pegar numa peça de roupa, de a olhar, numa análise além tempo, como se aquele acto, revestido de uma falsa aparência de futilidade, contivesse, em si, o futuro de nações. É curioso, nunca se ouviu alguém nomear uma flor de fútil. Por ser bela, por ser colorida… No entanto, uma mulher, que procure os mesmos desígnios, expõe-se a tal impropério. E qual é a diferença entre uma mulher e uma flor? Não sei, ainda não a descobri. Se alguém já a descobriu, deixo-lhe este espaço, de seguida, para o preencher.
Após deixar cair a toalha, sucedeu-se um silêncio. Como aquele particular silêncio indizível entre as notas de uma peça. E nem o esquecido passar dos anos, disfarça o embaraço da nudez. Ele vestido, chegado da varanda, ela saída do banho, apenas com a toalha. O arranjar-se. A toalha, de repente, a seus pés. Ele disfarça, sentando-se. Continua a conversa de ocasião. Ela, nua, escolhe o enxoval do dia. E ele procura manter, ao longo da conversa, os olhos com os dela. Mas ela está nua! E o tempo não apagou, por completo, a vontade do um. O olhar dele acaba por descair. Era uma questão de tempo. Mais de oportunidade. A gravidade já fez os seus estragos naquele corpo. E, nestas coisas, o tempo é um aliado precioso. O corpo, com o tempo, assemelha-se mais a um mapa. Todavia, ele olhava-a além tempo. Era, ainda, um olhar de início. Sem mapas, estradas, curvas, trajectos sinuosos… Daí que ela lhe surgisse envolta naquele brilho, de há tantos e tantos anos atrás, e ele, de lábios ligeiramente entreabertos, não a olhava, olhava-se, sim, a si mesmo, num espanto interior perante uma revelação… Que idade teria? Ao certo não se lembra, apenas se recorda de conhecer a gilete há pouco tempo, mas vê-se, a si mesmo, sentado naquele sofá, com um tecido creme pontuado por umas cornucópias verde-escuras, à frente uma estante com pouquíssimos livros, no meio espaço para a televisão, era uma sala rectangular, pequena, apenas espaço para o sofá, estante, e, à sua direita, uma mesa redonda com quatro cadeiras. À esquerda, uma pequena varanda, transformada, como sempre acontece por estas paragens, em marquise. Provinha daí uma ligeira aragem. Bastante agradável. Esta não era a sua casa. Talvez a de um amigo. E foi aí, sob a leveza dessa aragem, que ela se lhe revelou. Apenas isso. Ele, lábios entreabertos, sem saber que postura assumir, e um desejo obstinado de gravar cada detalhe, mas apercebia-se do malogro dessa aspiração, tal o inebriamento do instante. E, neste exacto momento, ele apercebe-se de uma aragem vinda de tempo incerto. Não, aqui não há estantes de poucos livros, sofás com cornucópias verde-escuras, mesas redondas circunscritas por quatro cadeiras, nem marquises, mas persiste aquela peculiar aragem, tépida, agradável, que convida a olhar o presente de lábios entreabertos.

 IV
Um silencioso e horizontal espelho de pedra

 Seguem, neste momento, por uma estrada à sombra, ora de pinheiros ora de eucaliptos. Ele concentrado. Em silêncio. Ela, a seu lado, olha a paisagem. Apreciava aquele cenário. Bosques cerrados que dão lugar a campos agrícolas, longos vales atravessados por rios caudalosos, horizontes que prenunciam céus e alturas…

terça-feira, 13 de junho de 2017


"Na minha memória, só ecoa o final…

 - Acabámos por não chegar onde queríamos…

- Enganas-te, Luís. Só chegamos onde podemos.

- Pareces uma velha a falar.

- E sinto-me uma, acredita… (Nisto, Bárbara vira-se para Luís e beija-o na face, enquanto lhe dá a mão sob a areia.) Obrigado…"

in Queria rever o teu rosto ao entardecer

domingo, 11 de junho de 2017


"Enquanto o mar se pintava de ocaso, um paquete ladeava o comboio numa corrida com metas distintas. Sempre que via um barco assim, no regresso a casa, ele percebia onde não queria estar. E o seu olhar nem o barco via, apenas que vogava rumo à única réstia de luz do mundo. Enquanto o comboio, de estação em estação, apenas derramava despojos de ilusões." in "Olhei para trás e sorri..."