Livros

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sexta-feira, 27 de março de 2020

Só espero que encontres um lugar onde reclinar a cabeça



A primeira vez que nos cruzámos foi num dia demasiado chuvoso, logo pela manhã, estava eu de saída para o trabalho. Como sempre, saía em cima da hora. Estranho hábito este da lusitanidade: o de nunca se adiantar; como se as coisas do mundo, de uma forma sublimada, aguardassem por aquele que há-de chegar. Mas voltando a essa manhã, em particular. Não foi necessário abrir os estores, para compreender o uso de gabardina e de guarda-chuva. O barulho foi-me suficiente. Mas, assim que abri o estore do meu quarto, apercebi-me da aflição pintada de cinzento, de quem procurava, àquela hora, mobilizar-se entre ruas de rios, passeios cobertos de copas negras, filas metálicas pintadas de luzes, tudo sob o compasso da incessante água em queda e de uma contínua oscilação surda nos vidros das viaturas. Ao deixar a janela, deparo-me com a minha cama, ainda quente, ainda desfeita, que me lança um grito ensurdecedor, de sereia abandonada, e eu prestes a naufragar, talvez devido ao temporal avistado, mas, num último momento, totalmente sem saber como, consigo virar o leme do navio, e encontrar a porta de saída do quarto, e evitar aquele tépido adamastor. Claro que esta manobra salvífica, e consequente arrependimento, moldaram o meu humor para aquele dia. Assim como para muitos outros. Começar um dia arrependido: um degrau para a salvação… Se os contabilizar, já estarei para além do sistema solar há muito! Mas desse dia em particular, que insiste, ainda hoje, em regressar com uma nitidez cinematográfica à minha mente, guardo o meu primeiro encontro com ele. 

Estava já à porta do prédio, entre o abotoar de mais um botão da gabardina (caso sempre desnecessário), sacudir o guarda-chuva (para quê, se ainda estava seco?), olhar de novo a rua numa expressão de cordeiro sacrificial, no fundo, tudo provinha do sapiente instinto de sobrevivência que me sussurrava inclementemente ao ouvido: És mesmo um parvalhão, vai mas é ter com a sereia, antes que naufragues algures entre copas negras, ruas de rios, ou paradas metálicas uivantes.

Mas assim que abro a pesada porta metálica do prédio, o meu olhar tropeça nele. Estava encostado à porta, aproveitava aquele exíguo espaço a salvo das águas, ainda assim molhado, emanava o cansaço inato de um viajante, levantou a cabeça e olhou-me. Assim que me apercebo do seu olhar, compreendi a importância daqueles álbuns de fotografias da nossa infância, que, num orgulho sempre fugidio, as nossas mães mostravam às amigas em tardes de sábado balizadas entre chá e bolachas de manteiga. Não reagi logo. Talvez quisesse saborear, algures em mim, não sei muito bem em que zona do meu espírito, aquele olhar que, numa limpidez desarmante, apenas proclamava compreensão. Baixei-me. Ele, numa deferência irrepreensível, logo se levantou para me cumprimentar, apesar do cansaço, apesar (talvez) da ausência de um pequeno-almoço (quem sabe de um jantar?), apesar de uma possível noite em branco… E eu que sempre fui sensível aos requisitos da educação. Jamais em ser humano algum, eu vira tal esforço, para cumprir os requisitos da etiqueta, em circunstâncias tão adversas. E agora, que fazer? Só podia convidá-lo a entrar. Também tinha de me mostrar à altura da sua educação. Assim o fiz. Ele, sempre renitente, num passo hesitante entre a timidez e o indisfarçável cansaço, lá aceitou entrar. Ofereci-lhe o que tinha. Não era muita coisa. Apenas a fome lhe traiu a etiqueta. Mas a fome trai tudo, não é verdade? Finda a refeição, inclinou-se a um canto do sofá, e com o olhar pediu-me uns instantes de descanso. Claro que o coloquei à vontade. Nesse dia, cheguei atrasado. Não houve problema. Afinal, em dias de guarda-chuva todos chegam atrasados. 

No regresso, preocupei-me com a visita, e demorei-me mais no supermercado. Nessa noite, a nossa amizade viu a luz do dia. Uma amizade sem exigências: no fundo, a verdadeira. Minto, ele apenas me pedia que o levasse a passear duas vezes por dia. De manhã, para me mostrar a leveza do ar e a nitidez das coisas; e à noite, para me ensinar a distância das estrelas e sentir a respiração da terra...

quinta-feira, 26 de março de 2020


Havia nele, simultaneamente, uma alegria contagiante e uma tristeza melancólica, tão estranho… Por vezes, dava-lhe, subitamente, para revisitar lugares do passado, como se vivesse em vários tempos, não sei se me faço entender… Talvez fosse o contrário, e quisesse apenas trazer o ontem ao hoje.

in Harmonia

segunda-feira, 23 de março de 2020

Rua das Almas



De que é que tenho medo? Não sei… Bom, no fundo, de tanta coisa… Depois vai-se a ver e, num repente, perco-os a todos e atiro-me de cabeça à primeira ilusão, depois magoo-me, e já foram tantas vezes, daí o cansaço, percebes, certo? Para quê juntar-me agora? Faz algum sentido? Não, não quero ficar sozinha, mas não vou deixá-la nesta fase, nem à rua consegue ir sozinha, acho que me mente, parece ver cada vez pior, já nem lhe pergunto pelas legendas, chega de testes, para quê carregar na dor? Sim, é verdade, é mesmo estupido, ultimamente refugia-se nas novelas, ao menos aí fica escudada de legendas, ninguém a chateia...

domingo, 22 de março de 2020

Um Encantado e Lento Entardecer



Um final de tarde (Verão?) numa esplanada. Talvez pela época estival, àquela precisa hora, onde um prenúncio de despedida ecoa no silêncio arrastado das lentas e arfantes sombras do mundo, haja, em cada rosto, a resignação sentida de uma derrota partilhada. Para onde se debruça aquela esplanada? Para o omnipresente azul líquido da terra? Ou para o das alturas? Ou será que se debruça sobre o interior amenizado, talvez pelo cansaço da derrota, daqueles que, sentados, ocupam um lugar, que julgam seu, no mosaico de uma contemporaneidade sempre fugidia? Um entardecer de Verão relembra um comboio que parte (para onde?), numa lentidão demasiado dolorosa, de uma qualquer estação, talvez porque esse compasso arrastado nos relembre despedidas. Eles ali estão. Partilham uma mesa. Cada um a saborear o seu gelado, com sabores diferentes. Sim, para partilhas já chega a mesa. Chegaram há algum tempo. Num passo arrastado. Depois de escolherem os sabores, precipitaram-se sobre as cadeiras, e olham para adormecer o pensamento.

Nesse mesmo momento, de gelados, cadeiras, e de ocasos marítimos, eles caminham sobre a plataforma, de um cimento escurecido, talvez turvado pela dor singular, repetida demasiado pluralmente, de um indesejado adeus. Caminham de mão dada. Numa passada hesitante. Como se a cada passo, se ouvisse um grito lancinante, ensurdecedor, vindo talvez do olhar, que anuncia resignação. Só se resigna quem compreende a derrota. E só é derrotado, aquele que deixa a alma na almofada. São os parentes directos do sim – tantas vezes o proferem, num dizer antagónico ao pensar (coma da identidade!). E ele sobe os dois degraus da carruagem, pousa as malas. E ela permanece, na plataforma, a olhá-lo. Talvez olhe vazio. Os seus olhares interrompidos por incontáveis vultos, que também querem aquele comboio, outros que também permanecem na plataforma, o céu denota-se azul, sim, apesar da estrutura fechada da estação (afinal, é o términus da linha; ou o início), e os vultos que não os deixam sós, sim, são vultos, nada mais, eles não lhes reconhecem substância, apenas querem reencontrar-se num olhar só, ouve-se um apito, demasiado longo, talvez pelo estrépito, talvez por soletrar adeus, primeiro um estremecimento, depois um ténue movimento, que vai ganhando consistência, e a realidade apresenta-se incompreensível ao pensamento, porque, num ápice, a plataforma vazia, no horizonte apenas sombras, e ela só, a olhar para dentro, sobre uma plataforma num crescente de escuridão. Os outros, já lá não estão. Desvaneceram-se. De facto, não tinham substância. A única substância real que ela conhece, nesse momento, é a do vazio. Naquela estação, não houve beijos, longos abraços, dedos que se tocam, nada… Isso é para os filmes! Assim que a marcha se iniciou, nem os olhos se reencontraram mais. Nada! Ela inicia o regresso. Talvez cambaleie, afinal, quem conhece a sua geografia interior daquele momento? Cabeça baixa, uma mão no bolso, a outra segura um objecto (qual?), e o passo incerto de quem só possui pretérito. Quantas vezes na vida apenas temos pretérito? Porventura, vezes a mais…

quarta-feira, 18 de março de 2020

O lento esvoaçar das cortinas pela manhã



Uma vez ela leu que a vida de um casal se escreve na cama, a frase demorou-se nela, chegou a pousar o livro para digeri-la devidamente, anuiu passado o necessário, de facto era tão verdadeira (“A vida de um casal escreve-se na cama”), a sua actual circunstância é um espelho dessa verdade, amarga no presente, por vezes, ansiamos tanto por mudança, novidade, rupturas, como se implorássemos ao tempo que estugasse o passo, e numa inesperada manhã, diante da nossa total impreparação, a vida, desdenhosa, altera-nos radicalmente o viver, da janela do quarto ela olha o possível, nada onde se lhe demore a vista, ainda menos o pensar, em si levanta-se a memória com o aroma a café quente, como é distinto o cheiro a café quente comparando com enfraquecido e inerte aroma a café frio, o perfume do café quente é digno de todas as manhãs do mundo, há quem diga que Deus bebeu uma chávena de café quente para se inspirar na criação de tudo, pois, é possível, mas, neste momento, em pé, ela olha o possível, carros estacionados, a esquálida árvore, lá em baixo, que se obstina no seu emudecido grito...