Livros

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domingo, 5 de julho de 2020

Que voz fala pela minha mão?



Escrever, estranha actividade esta. Para que se escreve? Esta é, em certa medida, uma questão redundante. Porque a escrita é, sem dúvida, necessária à vida social. Mas ao trazer à liça esta questão, procura-se evidenciar um outro nível da escrita, quiçá mais subterrâneo, o eu que se derrama numa folha de papel. Sim, o desafio supremo: fundir a vida num rectângulo branco. Nunca, como hoje, se publicou tanto em Portugal. Não quero entrar pela problematizante dicotomia quantidade/qualidade. É demasiado evidente. Basta olhar a montra de uma qualquer livraria. Há uns dias, a título de exemplo, vi um romance extraordinário (Cotovia, de Deszo Kosztolanyi), por uns meros 4,50, em 2ª edição. Note-se que a 1ª edição data, se não estou em erro, de 2003. É espantoso! Um romance magnífico que, no nosso país, está num verdadeiro limbo. Poderia, como é evidente, citar muitos outros. Mas por aqui me fico. Já não é nova a questão de se ensinar a ler, mas a sua pertinência está em crescendo, sem dúvida alguma. Sim, estou em crer que um jovem leitor de Harry Potter não venha, no futuro, a pegar em Dostoiévski. Mas esta é uma problemática transversal a outras formas de arte: a música, o cinema, etc… Basta atentar nos discos mais vendidos, ou nos filmes com mais assistência. O que nos resta? Neste particular, surge-me sempre a imagem final de O Rinoceronte, de Ionesco. Sim, é a solução. No fundo, a única possível, para quem a sua consciência não é um simples ramo que se inclina com o vento. Regressemos à questão da escrita. Afinal, porque se escreve? Há uma multiplicidade de respostas. Umas mais retóricas, outras mais poéticas, mas, em todas elas, há uma premente necessidade de explicitar algo de incomunicável. Note-se, neste ponto, que me estou a reportar a Escrever, não a escrevinhar, e ainda menos a modus vivendi (por outras palavras, aumento significativo de saldos bancários). No que me concerne, escrevo por sentir uma incomodidade, como se tratasse de um imperativo ético. Dito de outra forma, é como se saldasse uma dívida com um outro eu, ao permitir-lhe comunicar. Alguém uma vez disse que os livros deveriam vir sem o nome do autor (Lobo Antunes), não podia estar mais certo. Porque essa voz que comunica nos livros irrompe, quase sempre, do insondável de nós.

Na sessão de autógrafos do meu primeiro livro (Olhei para Trás e Sorri…), um cavalheiro aproximou-se de mim, para que lhe rabiscasse o meu nome, e disse-me o seguinte: Da vista de olhos que já dei pelo seu livro, sinto que esta história já o habita há muito. Escusado será dizer que fiquei siderado, perante tamanha sensibilidade. Embora escreva no silêncio, e sempre de madrugada (sou incapaz de escrever de dia), procuro aproximar o ritmo da prosa ao de uma composição melódica. Por exemplo, o Olhei para Trás e Sorri assemelha-se a um Adágio. Uma história de amor idealizada até a um Absoluto.

Já o meu 2º livro (Queria Rever o teu Rosto ao Entardecer) tem como elemento catalisador da acção uma música (o Stairway to Heaven, dos Led Zeppelin). A personagem central encontra-se na fila de trânsito diária, para o seu local de trabalho, e, de repente, aos primeiros acordes desta extraordinária canção, mergulha no rio da memória, e relembra quatro dias de uma viagem, com uns amigos, na sua adolescência. Uma viagem iniciática, e quatro dias que lhe perduram na memória. E um rosto desejado no sublime do entardecer. Actualmente, tenho-me ocupado com outro género literário: as crónicas. É curioso, ao redigir as crónicas, também me habitam melodias, desde, por exemplo, Yann Tiersen, a Leonard Cohen. Como se o ritmo das palavras fosse uma transposição paradigmática de uma melodia. Porque, no fundo, o sentir é sempre individual, quer das palavras, quer da música. E dessa individualidade brota o diálogo que edifica a caminhada da arte. Por conseguinte, como escritor, a alteridade é um valor supremo. Jamais procuro condicionar a interpretação de um leitor, num determinado sentido. O que anteriormente escrevi é, apenas, a minha visão das coisas. Nada mais!

quinta-feira, 25 de junho de 2020


domingo, 21 de junho de 2020

Uma pauta musical aberta na madrugada




Naquele instante, sobre o precipício de si, nascera uma decisão. A decisão de um passo. Que importância tinha isso? Afinal, quantos passos damos na vida? E em que direcções? E ele longe de tudo isto. Sob o crescente inebriar da vertigem. Como se a saboreasse. Voltemos à sua decisão. Mais em concreto, à sua génese. Nunca há uma razão. Isto devia ser uma lei de carácter universal. E cansada de tanto se repetir. Há, isso sim, razões. Dito de uma outra forma: a razão é sempre plural. Sim, soa melhor. Neste momento, uma brisa com aroma de sul no seu rosto. Esboça o agradecimento na forma de um sorriso. Desde que ali chegara, mantém-se de olhos fechados. Não por cobardia. Mas para exponenciar o sentir último das coisas. O corpo num balançar ligeiro. Não, não se trata de qualquer vislumbre de nervosismo. Apenas um sinal de que o movimento encontra o pensar. Ele, neste momento, à janela do passado. A paisagem demora a aclarar-se. Puxa mais o estore. Abre, por completo, a janela. Demora a amanhecer. Por fim, surgem uns vestígios de luz. Acompanhados de sons. Coloca a cabeça de fora. Repara na extensa fila que se avoluma para passar sob a janela. À frente, surge um casal. De novo, em si, um sorriso e um ligeiro frémito no braço (sim, ia nascer uma saudação). O casal olha-o, mas, à medida que se aproxima da janela, ele repara numa turva linha riscada sobre os rostos: a de uma genuína tristeza. O casal, agora, afasta-se, talvez fosse uma ilusão, mas pareceu vê-los, com um gesto, a mandá-lo afastar-se da janela. De seguida, passa uma rapariga, com uma boneca debaixo do braço. A boneca com um vestido gasto do brincar, duas tranças rematadas com laçarotes cor-de-rosa. O rosto da rapariga desconhecia a idade vinda dos anos. Assim permanecera. A boneca debaixo do braço, numa candura própria do feminino. Tinha o inato da maternidade em si. Também olhou para cima. Disse-lhe um adeus demorado. Um adeus sem desilusões. Um gesto nascido de quem provou pouco do sal da vida. Talvez tivesse havido, e muitos, sonhos inconclusos naquele rosto de criança. A rapariga afasta-se. Sempre com a boneca debaixo do braço. Ele a olhá-la, mas nem sinal do verbo. O rosto, de novo, para a sua direita. O cortejo continua a avolumar-se. Neste momento, um casal idoso. Trajes de aroma campestre. Olham-no sem recriminações. Com um amor genuíno. Como se fosse um acto da natureza. Por conseguinte, não é questionável. Acontece, e pronto. Se chove em Fevereiro, ninguém questiona o porquê. Bom, talvez seja um pouco assim o amor espontâneo, nas suas diferentes manifestações. Manifesta-se, nada mais. Afinal, é do ser das coisas. A velha levanta, um pouco, a mão, sob a janela. Um gesto de pensa bem, apenas isso, e encerra, nesse erguer de mão, um mundo de significações. E ele: tenho saudades; os velhotes, ao olhar para trás, afinal é breve a passagem por debaixo de um peitoril, tudo a seu tempo, tudo a seu tempo… 

domingo, 14 de junho de 2020

Deste caminhar entre o céu e a terra





Quando me falam em reféns do álcool, a primeira imagem a erguer-se na memória é a dele, parecia tão concentrado, senhor absoluto dos seus domínios, embora fossem apenas vinte metros quadrados subalugados num café, para mim era o mundo, um quiosque onde, entre jornais aborrecidíssimos para adultos ainda mais enfadonhos, brilhavam as revistas de super-heróis e as cadernetas de cromos, recordo-me ser alto, de facto quando crianças tudo é alto, depois, em adultos, percebemos quão errónea era a nossa perspectiva, neste ponto discordo, há vozes do ontem que, se ouvisse hoje, baixava-me de imediato, nem que tivesse de me ajoelhar, para continuarem a provir do alto, a de minha avó, por exemplo, jamais a voz de minha avó virá da terra, sempre proveio das alturas, mas como dizia, parecia tão concentrado, certa tarde, munido de uma providencial moeda, que possibilitava a aquisição de mais uma carteirinha de cromos, afinal, havia uma caderneta para completar, corro em direcção àquele universo de vinte metros quadrados, o meu espanto quando, em vez dele, parecia tão concentrado, surgiu-me o rosto da filha, definitivamente mais baixa, um pouco acima da minha meninice, porém de idade já folheasse os aborrecidíssimos jornais para adultos ainda mais enfadonhos, tinha um aspecto de roedora, talvez pelos incisivos saídos, era de gestos rápidos e ágeis, ao contrário da parcimoniosa concentração, creio que, nesse momento, compreendi o carácter volátil das coisas, permanente só a inconstância do acontecer, adquiri a ambicionada carteirinha de cromos e regressei, para meu espanto, demorei a abri-la, perdi a vontade durante o necessário, incomodou-me bastante não ter encontrado um sujeito alto, parecia tão concentrado, senhor absoluto dos seus domínios, embora fossem apenas vinte metros quadrados subalugados num café (...)

sexta-feira, 12 de junho de 2020

A Alma reflecte-se num Espelho d´Água




Assim que ela entra no parque, num gesto próprio do rito, baixa a cobertura do carrinho de bebé. Por vezes, sem motivo. Como é o caso de hoje, em que as coisas surgem num indistinto pardacento, o que lhes confere uma angústia de grito sem eco. Como se proviessem de uma distância sem vislumbre. No fundo, como se não fossem tangíveis. E nestes casos, só nos resta o nosso refúgio. O que, na maior parte das vezes, é insuficiente. Aí chegados, vogamos numa corrente indistinta sob uma tonalidade com o aroma da indiferença. E, num lugar de nós, que teimamos em negligenciar, compreendemos o miserável da nossa condição. Mas regressemos aquela mulher que, num ritual de perfeição, cobre o carrinho à entrada do parque. Caminha no passo decidido de quem conhece, há tempo suficiente, a próxima paragem. Senta-se, como sempre, num dos bancos da praça da fonte. Mais precisamente, naquele que fica debaixo do choupo, que tem uma das traves, do encosto das costas, partida, e a tinta, verde-escura, estalada em vários pontos, num apelo continuado à renovação. Neste momento, olha à sua volta, ao mesmo tempo que embala o carrinho. Talvez a criança ainda durma. Casais de idosos aqui e acolá, num passo em sintonia com o tempo. Ela olha-os com a inevitável distância da idade, mas na crescente compreensão de uma indesejada meta próxima. Outras mães e filhos aproveitam o precioso verde da urbe. Em bancos próximos, grupos de velhotes discutem temáticas próprias de quem enfrenta o vazio do tempo. Uma das mais duras batalhas da vida! Como resultado, sempre a derrota… Nada mais. Ou se sai louco, ou na amargura de quem bebeu o absurdo de ser…


Sem saber porquê, o seu olhar, neste momento, com um casal jovem que se dirige, no passo arrastado de quem chega de longínquas paragens, para a beira da fonte. Sentam-se na berma. Um sentar exausto, sofrido, como se proclamassem derrota. O rapaz, de costas para a fonte. Ela, de onde estava, via-o de frente, mas ele olhava muito para além dela… A rapariga sentara-se de lado. Uma das mãos mergulhada na água fria. Um súbito raio de luz ressuscita a alegria daquele espelho adormecido. Sem saber porquê, a rapariga sorri à vista daquela nova realidade, como se tudo fosse novo, a sua mão mergulhada naquele mundo líquido, agora iluminado, a mobilizar-se, em lentos movimentos, como se aquietasse o tropel de um coração em fuga de um peito… Ela de mão mergulhada na água. Numa gratidão silenciosa, pela luz das alturas. Recebe-a, agora, no rosto. Um gesto de agradecimento é uma oração sem reza. No fundo, a mais fidedigna. O mais é pedir… Assim continua, por mais uns minutos. Rosto na luz, movimento, numa harmonia de sentir jusante, sob a superfície. Ela, do banco sob o choupo, com uma das traves do espaldar partida, o verde-escuro estalado em vários pontos, no gesto ritmado de embalar o carrinho da criança adormecida, continua a observar aquele casal jovem recém-chegado. A rapariga, ainda sentado de lado, uma mão derramada nas águas, o rosto sorridente para a luz. Baixa, neste momento, o olhar para as águas. Um olhar cansado e de compreensão. Vista dali, a rapariga afigurou-se-lhe vazia. Afinal, era ela a fonte daquele lago. O rapaz levantara-se. Um, dois passos, uma mão no ombro dela, e um gesto suficiente de Temos de ir… A rapariga levanta-se. A mão imobiliza-se, emerge das águas, e detém-se no seu ventre. Ela pára de mover o carrinho, e leva também a mão ao ventre. Assim ficam, numa mímica além-verbo...

domingo, 7 de junho de 2020

Balanço



Há uns tempos escrevi que, no fim de tudo, só dois ou três momentos valeram a pena, e devido a esses fugazes instantes conseguimos levar adiante esta caminhada, de facto, não é muito (dois ou três momentos…), não é nada, se contabilizarmos a imensidão de dias que preenchem um viver, o fastio do seu desenrolar, decidi, aqui chegado, realizar um balanço, se terá valido a pena ter caminhado por este lado das coisas, não é fácil uma conclusão quando não temos memória de outros trilhos, porém, resolvi aferir se valeu a pena, e nunca gostei de declinar desafios, ao olhar para trás retenho dois ou três momentos, um em particular, fantasias de um sótão abandonado, neste ponto, creio com sinceridade que as fantasias é que foram abandonadas pelo caminho, o sótão sempre por aqui esteve, como é triste largar fantasias pelo caminho, ocupam muito espaço, e a vida não lhes permite respirar...