Livros

Livros

domingo, 23 de abril de 2017

Rio Pranto



Sempre ouvi dizer que Chorar faz bem! Não sei se é verdade. Talvez seja uma forma que encontrámos para nos levantarmos e retomar o caminho… Pois, é possível. Conheci-a há uns anos, numa fase da minha vida complicada, como se alguma vez a minha vida tivesse outra coisa que não fases complicadas, tinha alugado um quarto numa pensãozita esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam...

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O desencanto impronunciado de um Domingo à tarde



Foi assim, num repente, mas como tudo nesta vida, demorou o seu tempo, embora, para mim, reafirme que foi num repente, como dizia, após duas décadas, que, vistas daqui, parecem-me dois dias, ele Precisamos de conversar… Não sei se foi do Precisamos de conversar, de suster a respiração para articular as palavras, da sua expressão que denunciava uma irredutibilidade demasiado teatral, tudo num esforço...

sexta-feira, 31 de março de 2017

Saudades do futuro


Há gente que, não sei porquê, parece que passa pela vida sem que nada de especial aconteça, creio que, se hoje os reencontrasse, estariam nos mesmos lugares a desempenhar exactamente as mesmíssimas tarefas doutrora, como se o tempo tivesse virado costas àquelas paragens, e há outros, enfim, que são engolidos nas mais tumultuosas correntes… Se analisar devidamente ambos os percursos, confesso que não invejo nenhum, do fastio de conhecer há muito os amanhãs, à incerteza da próxima esquina (...)

domingo, 19 de março de 2017

Eu mais eu igual a qualquer coisa de indefinível



Sempre que sexta-feira, fim de tarde, Despacha-te começa a repetir-se lá por casa, a voz de minha mãe num volume crescente, os meus nervos em parelha com a sua volumetria, eu perdida atrás de objectos que insistem, não sei porquê, em esconder-se de mim quando estou refém da pressa, percorro as escassas divisões da casa que, em momentos assim, se me afiguram planícies de horizontes inalcançáveis, uma vez mais Despacha-te, outra ainda, Despacha-te, nisto a campainha, apresso-me a atender, já sei que voz me aguardava (...)

quinta-feira, 9 de março de 2017

Cesto de papéis


Bem sei que hoje quase não há cestos de papéis, e os poucos sobreviventes habitam, com certeza, em lares onde a sua missão há muito não é cumprida, não por culpa própria, como é evidente, mas pela idade de quem os olha. Sempre que via uma secretária, sabia que, por baixo ou ao lado, lá estaria o inevitável cesto de papéis, como se fosse um facto da ordem do existir. Hoje, por muito que me custe, as coisas alteraram-se, e, raramente, por baixo ou ao lado de uma secretária, se encontra um cesto de papéis. É sempre difícil lidar com uma alteração na ordem do existir, parece-nos que, de repente, alguém invadiu a casa do nosso viver e nos desarrumou as coisas(...)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Ali onde não há ontem nem amanhã



De vez em quando, regresso-me àquele lugar, não sei porquê, no acaso do dia, a imagem irrompe pelo meu pensar, e ali me fico, de novo, como se nunca tivesse partido, a luz peculiar, a harmonia dos sons, a doçura leve do ar, tudo a envolver-me, porém, sei-me no desconforto distante da minha circunstância. Quando férias, sub-repticiamente, tento elencá-lo como uma possibilidade, ela, de imediato, refuta, sempre com a mesma argumentação, de tão repetida, já lhe conheço a sequência, as noites frias, a escassez de diversões, a água gelada, o vento, sempre o vento, incessante, no fundo, é mais uma brisa, mas ela, logo, a exponenciar a coisa, por vezes, devido à convicção das suas afirmações, quase acredito que um desconfortável vento frio no lugar de uma reconfortante brisa do entardecer (...)