Livros

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sábado, 16 de fevereiro de 2019




(…) mas sempre esta nossa insistência em confundir desejos com factos, a frieza da realidade, pois, numa permanente espera pelo nosso regresso do sonho, em verdade, sonhar talvez seja virar costas à realidade, cada vez me convenço mais disso, sabe, chegamos a um ponto da vida em que temos mais rostos na memória do que à nossa volta, mas com o tempo vão-se diluindo, diluindo, até que só ainda a voz ecoa, indelével, talvez para nos relembrar diálogos interrompidos.
in Todos os sonhos cumpriram-se, menos o sonho

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

A morte de uma ideia



De repente, uma frase desvela o sentido das coisas, Só nos apaixonamos por ideias, e mais outra, Em verdade, nunca nos apaixonamos pelo outro, mas sim pela ideia que dele construímos, e ainda, Reparem: o outro nunca nos desilude, em verdade, é apenas a ideia a morrer, eu, siderado, na compreensão do Sentido, de facto, nunca tinha visto as coisas por esse prisma, então, na realidade, simplesmente apaixonei-me pela ideia que construí da… Bom, vou começar como deve de ser, ou seja, pelo início, estava-se naquela altura do ano em que se desespera por sol, o Inverno havia sido inclemente, já nem me recordava de olhar as alturas, tal o cinzentismo que nos cobria há tanto, pelos passeios, um trânsito de guarda-chuvas a potenciar eventuais acidentes, como música de fundo, o som contínuo dos limpa pára-brisas, no seu incessante movimento de pálpebras mecânicas (…)

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Todos os sonhos cumpriram-se, menos o sonho




A última vez que o vi? Bom, foi há umas semanas, fomos lá a casa, e, não sei porquê, achei-o ainda mais calado, à superfície apenas a circunstância, pouco mais, a minha cunhada sempre aquém desta realidade, com ela as palavras circunscreviam-se a bibelôs e cortinados, o mais ser-lhe-ia inconcebível, no fundo a vida é isto, dois estranhos a viver sob um tecto durante décadas, ele apercebeu-se do erro já tarde, demasiado tarde, acreditava no destino, e, durante muitos anos, aceitou-o, até deixar de o suportar, repare nisto: todos os seus actos foram de uma extraordinária lucidez! Não admito outras conjecturas acerca do seu comportamento! Nem tão pouco juízos de valor! Creio, sinceramente, que ele entrou numa espiral de desencanto, haverá coisa pior? Numa dolorosa lentidão, foi deixando, deixando, deixando, o exterior, para se refugiar em si, mas esse era, de facto, o lugar menos recomendável, os seus telefonemas tornaram-se esparsos, claro que, visto daqui, tudo se compreende melhor, infelizmente é sempre assim, não é verdade? A distância, pois, a distância, clarificadora, fria, indiferente, aqui chegados, o que nos resta? Reescrever a geografia de uma alma? Meu irmão já cá não está, de que adianta? Concordo, falar aquieta a dor, mas, por outro lado, penso, não sei porquê, para ele só havia um caminho, à luz do agora parece fazer sentido, não sei se me compreende…

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019


… depois surge a figura dele, lá vai, numa passada em que se lê o saber da amargura do destino, mas obstina-se, lá vai, sempre, àquela hora, como se um rito, lá vai, ela mão no vidro, a sentir aquela frieza que traz consigo sempre a memória do real, a mão em adeus, ou num apelo, mas ele sempre, lá vai, a dobrar a esquina, até que, por fim, apenas uma mão no vidro. 
in E se de uma janela nem horizonte...



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019



Por quem espera? Só esperamos, em verdade, por quem nos conhece. Talvez, àquela hora da madrugada, ela aguarde por um vislumbre de si num outro. Às vezes é o que esperamos do mundo, para nos sabermos vivos. 
in Hoje subiu a maré em mim