Livros

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quinta-feira, 21 de setembro de 2017


"E agora, minha filha? Sei que tiveste de ser sedada já por duas vezes. Dizem que, por vezes, acontece. Não te preocupes, ainda não há falatório. Ele, lá fora sentado, só está preocupado contigo. Agora, a mim preocupa-me o inocente que ainda nem a mãe conhece. Vais alimentá-lo enquanto conseguires. Chegou a altura de representares um papel deveras difícil. Depois, alegas o que quiseres, que eu cuido dele. Não te esqueças: só se aprende ao olhar para cima. Mas disto, és incapaz! Sabes, serás sempre infeliz, porque viverás sempre contigo. Exactamente de onde foges a cada instante. Talvez seja esse o bálsamo da morte: libertarmo-nos de nós."

in "Do outro lado do rio, há uma margem"

segunda-feira, 18 de setembro de 2017


"Ela, neste momento, a ver-se, ali, parada, numa imobilidade expectante, na margem da estrada. A figura continua a cavar. Vestia um daqueles pares de calças que ostentava a geografia do tempo, uma outrora branca camisa desabotoada, e na cabeça pontificava uma boina que cheirava a sal e a terra. Raros são os objectos que comportam estes odores: sal e terra: o sonho e a realidade."

in "Do outro lado do rio, há uma margem"

quarta-feira, 13 de setembro de 2017




"No fundo, vivemos condenados a dois mundos: o nosso e o dos outros: e os nossos dias vivem-se nesta ténue fronteira: sonhamos em nós: mas ferimo-nos no dos outros… Há quem lhe chame vida."
in "Do outro lado do rio, há uma margem"



"Havia ali um qualquer desamparo de passeio sob a chuva. Bastava perscrutar-lhe o rosto por um instante demorado. Aí residem todas as respostas. Não fosse o rosto a entrada da alma. Em que outro lado se grava cada biografia?"

in "Do outro lado do rio, há uma margem"

domingo, 10 de setembro de 2017


"E era fácil aí perder-se, naquele labirinto de veias e sulcos. Imaginava os anos que foram necessários à edificação daquele labirinto. As gerações que nele trabalharam, o arrojo da construção, o esforço, as alegrias, as derrotas… Eram mãos com sabedoria, dizia para si, enquanto as olhava. Como se esta qualidade pudesse ser aplicável a uma extensão do corpo. De alguma forma, ele sabia que aquelas mãos eram sábias. Por vezes, quando a velha se silenciava, as mãos exprimiam-se no seu lugar: Meu filho, meu filho, estou cansada, tão cansada. Já não espero nada, e não há nada pior que isto."
in "Olhei para trás e sorri..."

terça-feira, 5 de setembro de 2017




"... nesse momento, em que deixei definitivamente a tua mão pendurada a olhar o passeio, percebi que teria de fazer as pazes comigo própria, afinal, teria de passar mais tempo na minha companhia, se aprender a fazer isto, talvez aí, é possível que sim, talvez não tenha de regressar à rua dos meus pais ao mesmo tempo que a camioneta do lixo."
in "Há quanto não sei o azul do céu"