Livros

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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Quando uma Enxada mergulha na Terra, o homem ergue-se um pouco para o Céu


Terminada a refeição, levanta-se da imemorial mesa de madeira, esvazia o resto escarlate do copo, limpa a boca com as costas da mão, coloca a boina na cabeça, e sai para o quintal. Aí, observa o frenesim das aves domésticas pelas sobras do almoço, que a mulher, numa paciência benévola, distribuía. Olhou-a. Dos traços que demoravam o seu olhar, agora apenas vestígios. Mas ainda assim, o seu olhar naquele rosto. Apercebia-se de que o tempo esbatia a luz daquele olhar. No fundo, a de todos os olhares. Seria o tempo? Ou as esquinas da vida? Pega na bicicleta, e grita-lhe do portão Vou andando, quando, em verdade, lhe queria dizer outras coisas, com outras palavras… Quantas palavras ficam por dizer na vida? E ele no portão, já em cima da bicicleta, e ela rodeada de asas estridentes, ainda mais restos do almoço, e ele apenas queria dizer-lhe que sim, se fosse hoje voltaria a pronunciar um sim diante do sacerdote, tudo, com ela, valeu a pena. Pedala com a indolência de um início de tarde. A sua marcha é ligeiramente oscilante. Será de levar a enxada pelo ombro? Será da idade? Resquícios daquela estadia no hospital? E o calor a fazer-se sentir. Passa pelo largo da igreja. O sino canta-lhe, agora, as horas, com a sua voz de séculos. Quando o sino canta, a terra emudece. E como ele gosta daquela voz! De certa forma, ecoa em si. Talvez por um anúncio de repouso. E ele num pedalar obstinado, gotas de suor multiplicam-se-lhe na fronte. Segura o guiador com maior afinco. E pedala, pedala, a respiração num crescente ofegante, nada ouve, a não ser a crescente carência de oxigénio. Por fim, vê a sua terra. Encosta a bicicleta a uma sebe. A enxada no ombro. Olha o céu. Tira do bolso um amarrotado lenço, que aquieta um pouco a testa. Dá início à labuta. O tempo passa, mas o calor não. O cabo da enxada já lhe é indiferente. Outrora desenhou-lhe nas palmas das mãos uma geografia muito particular. Só quem há mesa sente a leveza dos talheres, tem gravada em si esta indelével rota de húmus e raízes (...)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020


em breve teríamos de regressar à nossa circunstância, silenciaste-me com um beijo, apontaste o horizonte, uma vez mais os teus dedos pelo rosto, a dúvida se eram lágrimas ou chuva a demarcar-me os contornos, o mundo iluminava-se, pouco mais foi dito, eu estava certa, ambos sabíamos, se tudo pudesse ser uma outra coisa, talvez aí o Ideal e o Ser se encontrassem, e não houvesse lugares neste mundo com tantos sonhos enterrados.

in Deslumbramento



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Só se Aprende ao Olhar para Cima



Ela estava deitada há algum tempo. Quanto? Não sabe. Talvez tivesse dormido um pouco. O que a despertou? As dores? Sim. Não, o barulho. Mas também as dores. Talvez tudo somado. E sempre um vai e vem constante de batas brancas. Outros deitados como ela entravam em salas, de portas de saloon, em velocidades de cenários de asfalto. E ela permanecia ali, encostada a uma parede, com um gotejar, provindo das alturas, ininterrupto braço adentro. O movimento não cessava. Tenta levantar um pouco a cabeça, para compreender melhor o espaço. Logo uma mão sorridente trata de a serenar de encontro à almofada. Ouve um expressivo acalme-se, está quase, e ela, numa resignação indefesa, de regresso à horizontalidade branca. De repente, uma dor excruciante brota-lhe dos estigmas. Uma dor de fogo, no fundo, uma dor de raiz. Apercebe-se, agora, da sua imobilidade. Afinal, já ali tinha estado. Aquando da primeira estigmatização. E, por ali, não queriam mais cordeiros sacrificiais. Sim, esta foi a sua segunda tentativa. Nessa manhã, tivera um teste de Português. Correra-lhe muito bem. Almoçara, num cafezito próximo da escola, com umas colegas. Conversas de liceu, algures entre rapazes e moda. Findo o almoço, o namorado acompanhou-a a casa. Sempre diligente. Talvez demasiado atencioso. Hoje estás longe, recorda-se de ele dizer isto, estás longe, sim, há muito que ela está longe, e ele a dar-lhe a mão, pelo passeio fora, com um orgulho indesmentível, traduzido num sorriso sem recuo, e ela de expressão amarelecida, a seu lado, ora a tentar acompanhar o passo dele, acelerado pelo entusiasmo, ora em guerra declarada com aquela estúpida madeixa, que testa incessantemente os seus reflexos e a sua paciência. Ele deixa-a à porta de casa, significa beijo prolongado, ele sorrisos, ela longe, ele entusiasmo, ela numa nostalgia muda, Logo, queres ir ao café?, e ela a pensar que logo é tão longe...

domingo, 9 de fevereiro de 2020

A eternidade é uma tarde de infância



Dizem que o tempo acelera com o decorrer da vida, não sei se é verdade, talvez a verdade resida noutro lado, não é o acelerar do tempo, mas a nossa crescente desatenção para as coisas, lembro-me, como se há pouco, que, na meninice, passava muito tempo, nas mais diversas brincadeiras, em contacto com a terra, desde corridas de carrinhos, aos inolvidáveis jogos das escondidas, onde se buscava, com avidez, o lugar mais recôndito em escassos segundos, até às batalhas de canudos, artilhados de acordo com os limites da imaginação, ou os jogos de berlindes, transversal a todas as brincadeiras o sentir a terra, foi aí que, de facto, aprendi a ouvir o respirar do mundo...