Livros

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domingo, 16 de junho de 2019

O hoje constrói-se no ontem



Só ouviu o início da frase, o resto já não lhe interessava, por sabê-lo, talvez bem demais, assim que a voz, atrás da secretária, partiu em busca de palavras ajustadas para pô-la a par da sua situação, ela desinteressou-se, procurou um ponto de fuga, encontrou-o na janela, alta, estreita, uma arquitectura desumana, opressiva, deprimente, reparou que estava ligeiramente aberta, dava para um estacionamento, nem um vislumbre de natureza para aquietar o espírito, nada, apenas alcatrão, carros e candeeiros, a voz, atrás da secretária, persistia no seu tom monocórdico, sem vestígios de emoção...

quinta-feira, 13 de junho de 2019


Na minha memória, só ecoa o final…

L.- Acabámos por não chegar onde queríamos…
B.- Enganas-te, Luís. Só chegamos onde podemos.
L.- Pareces uma velha a falar.
B.- E sinto-me uma, acredita… (Nisto, Bárbara vira-se para Luís e beija-o na face, enquanto lhe dá a mão sob a areia.) Obrigado…

in Queira rever o teu rosto ao entardecer


sexta-feira, 7 de junho de 2019

Outono




Meu irmão, o que te fez a vida? Aqui estou, na ombreira da porta, da sala de visitas, comprida, larga, discretamente a observar-te, perdido que estás, à janela, de pijama, olhas não para lá do vidro, mas um não sei quê em ti, mais tarde ou mais cedo todos acabamos por olhar “um não sei quê” em nós, é uma inevitabilidade, no teu caso foi cedo, talvez em demasia, lá fora um prenúncio de noite, os dias mais ligeiros com a mala, com pressa em abandonar-nos, mas isso é-te indiferente, há muito fizeste a mala ao aqui, meu irmão, o que te fez a vida? Persistes com a janela, mas até da distância vê-se que nada esperas...