Livros

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quarta-feira, 13 de dezembro de 2017



domingo, 10 de dezembro de 2017

A dificílima arte desta coisa de nome viver



E, de repente, compreendo que já percorri mais de metade do meu caminho. Resolvo sentar-me e reflectir nisto. Olho para trás e tudo se me afigura uma irrealidade, como se uma névoa turvasse a minha estadia por aqueles lugares, apenas as cicatrizes como testemunho da autenticidade do ido. Tão estranho: já percorri mais de metade do meu caminho… E continuo à procura de uma razão para caminhar, como se, em grande parte, me tivesse deixado conduzir, ao sabor de uma corrente de velada fonte, por vezes, vislumbro um sentido para as coisas, contudo, logo de seguida desvanece-se do meu horizonte, no seu lugar apenas um desdenhoso absurdo, que me atomiza de encontro aos meus mais turvos receios...

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017


"Entretanto, descera um silêncio de adeus no parque. Começou, também, a mover harmonia sob as águas, ao mesmo tempo que olhava as impressões do movimento. As impressões nascidas de si. Cada vez menos gente no parque. As janelas, dali avistadas, iluminavam-se. Olhou ainda as águas. E o crescente silêncio do carrinho. Já era tarde. Estava na hora de voltar. Levantou-se. Inicia um regresso vazio. Estava a ficar fresco, pensou. É melhor estugar o passo. Não vá o bebé acordar. Mas ainda a fonte. Detém-se num último olhar. A rapariga… Onde? Sim, é isso, onde nos perdemos? A mão no ventre, o olhar nas águas, e a incompreensão do silêncio."
in A alma reflecte-se num espelho d´água

domingo, 3 de dezembro de 2017



"... volvida hora e meia, o estacionamento de terra, a distribuição dos sacos, a mãe à frente, a brancura publicitava ainda mais o efeito gelatina, seguia-se o pai, o azul-choque da tanga a contrastar com a alvura descarnada dos membros inferiores, o irmão aos saltos com a bola e mais qualquer coisa, a uns quantos passos atrás, a irmã, sempre nas faldas deste quadro, a olhar como se de uma janela, demoraram o seu tempo a instalar-se, após o guarda-sol, as toalhas, abrir as cadeiras, ligar o rádio, pô-lo audível em relação às ondas, fechar os sacos onde havia comida por causa da areia, ele deliciado a pôr protector nas costas da mulher, ela nem precisou de o verbalizar, já a aguardava de frasco na mão, o filho entretinha-se a jogar raquetas com um vizinho de um guarda-sol próximo, só a rapariga da janela se encaminhou para a água, assim que uma onda lhe cobriu os pés, respirou fundo, avançou mais uns passos, achou curioso, o único som advinha das águas, olhou para trás, parecia tudo  tão longe…"
in "Um dia de praia"

sábado, 25 de novembro de 2017

A arqueologia de mim



Ultimamente uma questão acompanha a minha sombra: o que perdurará de mim quando partir? Volto do trabalho, ainda na escada, percebo que a casa cheira a jantar, entro, cumprimento-a enquanto tiro o casaco, começa, de imediato, a narrar-me as vicissitudes do seu dia, as peripécias do bairro, finjo atenção e simultaneamente dirijo-me para a janela, acompanha-me os passos e preenche-me os ouvidos até a um certo ponto, mais ou menos até à mesa da televisão, que demarca a sala da marquise, aí chegados, não sei porquê, regressa de imediato para as suas lides, enquanto eu, grato pela devolução do silêncio, puxo de um cigarro e por ali fico, não a olhar este cenário extenuado, mas à espera dos passos do pensar, nestes últimos tempos têm-me levado a um lugar lá atrás, quando o agora apenas um sorriso confiante no rosto, talvez se lá regressar volte a ostentar um sorriso confiante no rosto...

quinta-feira, 16 de novembro de 2017


"... por ali andavam muitos sonhos seguidos de outras tantas frias manhãs, vencia um monte, naquele cume pensei repousar, mas, ali  chegado, só encontrei a sombra de um outro ainda mais alto, logo iniciava nova escalada, com a esperança de alcançar nesse outro cume o merecido repouso sob a luz revigorizante de um sol apenas meu..."

in "Não te esqueças de trazer um sonho contigo"

terça-feira, 7 de novembro de 2017


"Numa noite ida de província, em vez de pratos, talheres, copos, a mesa povoou-se de cor. Era uma mesa de madeira enegrecida. Talvez pela vizinhança com o lume. Comprida. Mas, nessa noite, era o coração do mundo. A noite estava fria. As mãos estendiam-se para a lareira, enquanto os olhos, ávidos, percorriam o festival de cores sobre a mesa, que encerrava uma indizível promessa de alegria. Adultos cirandavam, numa indiferença inexplicável às cores, falavam e falavam, e ele, teria perto de oito anos, vislumbrava o abismo que o separava daquelas criaturas mais altas, algumas com a cabeça prateada, cheias de certezas, convicções… Tudo uma frágil aparência, porque só o olhar de uma criança apreende o véu desiludido que lhes turva o olhar.
 Sente-se na pele que esta é uma noite diferente das outras. Porquê? Sim, não se explica, sente-se. E quando as coisas enveredam pela via dos sentimentos, o verbo torna-se supérfluo, porque compreendemos no outro uma essência irmanada. Mas voltemos à criança. Aos oito anos. Ouve-se o sino. Um sino tem voz de alma. Todos se encaminham para a saída. A mãe veste-lhe o sobretudo. Saem para a noite. O frio arrefece as conversas, mas não o passo. Apesar da crescente distância em relação à mesa, às cores, à promessa de alegria, de mãos nos bolsos, segue os familiares, afinal, ainda havia uma obrigação a cumprir. Em algum lugar de si, sentia que a palavra obrigação era desajustada. Porque cada passo seu proclamava agradecimento. Recorda-se de, antes de entrar no templo, olhar o céu. Estava um céu de natal. Os seus pensamentos, nesse momento, oscilaram entre o menino Jesus e o Pai Natal. Gostava de ambos. Em ambos repousava também uma promessa de alegria. Embora de alegrias distintas. E começava a compreender isso. Porque só uma criança pobre, ornamentada de trapos, nascida sem tecto, era capaz de reunir uma aldeia aquela hora da noite. E o seu coração de oito anos acreditava que aquela não seria a única aldeia. "
in "Natal rima com criança"

quinta-feira, 2 de novembro de 2017



Até que, lentamente, começo a ver passado. Como se, cada acorde, correspondesse a uma pincelada de uma tela ainda por desvelar. Assisto à magia do alvor da memória, embalado pela melódica abertura deste sonhado Stairway to Heaven (da imortal banda inglesa). Há muito que não ouvia. Compreendo, com tristeza, que a felicidade é sempre retrospectiva. É sempre a estação deixada para trás. Toda a tristeza do mundo desenha-me no rosto a ténue linha de um sorriso compreensivo – aquele que provém do tempo.

Agora, sou um passageiro memória, e viajo à mercê do seu passo. E começo a sentir os odores, a cheirar as cores, e a rever as emoções daqueles dias, enquanto ascendo a azuis de outrora.
in Queria rever o teu rosto ao entardecer




terça-feira, 24 de outubro de 2017


"... a 27 de Maio de 1987, na capital da ópera, contra todas as previsões, desde uma arrogância boçal aos favores dos média, familiarizados com nomes e marcas, e com uma traumática experiência 3 anos antes, com uma inglória final perdida, fruto de mais um que teve o seu preço, assisti ao mais belo bailado sobre um tapete verde, digno da capital que acolheu tal espectáculo, só vi camisolas azuis e brancas, de listas verticais, por todo o lado, até que, já se entrara no último quarto de hora, após tantas bolas perdidas, o magnífico argelino faz o impensável, aqueles singulares momentos em que a realidade se suspende para ver no que dá… Nem um respirar se ouve… Nada! Para mim, por muito que busquem argumentos coxos e desajustados, só o futebol tem este condão, de suspender o respirar do mundo para se ver se uma bola entra, e, felizmente, naquela noite de Maio, a bola entrou, e de calcanhar! O bailado fundia-se com uma justiça poética, e, nesse momento, sabia que o meu Porto ia ganhar..."
in "Quando a magia decidiu partir"

domingo, 22 de outubro de 2017

Rua do Sol



Hoje vi-o, passeio fora, orgulhoso, com uma bicicleta pela mão, percebia-se-lhe o tempo, mas, ainda assim, apresentável, percebi, de imediato, o destinatário, a essa hora olharia o quadro, verde, diante de si, talvez com uma frase para decompor ou uma conta de multiplicar, uma mão suportava os sonhos que lhe enchiam o pensar, enquanto a outra (com um lápis? Uma caneta?) fingia interesse pelo que se passava no quadro, àquela hora (aproximava-se o regresso a qualquer coisa de nome lar) as escassas refeições do dia empurravam-no para um sono crescente, andava por aqui há pouco mais de meia dúzia de anos, porém, aprendera que o encolher do estômago é proporcional ao alargar dos sonhos, nisto uma frase estridente fá-lo regressar-se e estremecer Perceberam, meninos? Ele a formular uma surda questão para si Perceber o quê? Os sapatos que, de tão apertados, mal lhe permitiam caminhar, quanto mais correr atrás de uma bola (...)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Os mortos não sonham


Sempre que aquela música na rádio, ele assumia um ar circunspecto, como se não a ouvisse, ou lhe fosse indiferente, porém, era precisamente esse véu de gravidade a denunciar-lhe os passos do sentir, isto sucedia com mais frequência no carro (afinal, em que outro lugar, do hoje, se ouve rádio?), nesses momentos, olhava a minha vida de uma qualquer janela, como se de uma ilusão se tratasse, tão estranho, ele ali, a meu lado, a conduzir a caminho de casa, e a canção, interminável, a povoar o silêncio que, de súbito, se abriu entre nós, enquanto os melosos acordes ecoavam, eu a olhar calçadas e transeuntes, como se tal me interessasse, logo eu que tão pouco reparava nos outros, e a canção, interminável, a certa altura, já nem posição tinha, de tanto me obrigar a olhar a janela do meu lado, nunca soube se ele se apercebia do meu esforço (pela janela), do meu súbito desconforto, do silêncio que a música nos legou, eu persistia a olhar, através do vidro, gentes, passeios, montras esconsas, creio, em verdade, que, assim que os acordes se repercutiam no interior silenciado do carro, ele desacelerava, como se quisesse eternizar o momento (...)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017


"Porém, quando a noite entra na nossa vida, é quase impossível perceber quão fugaz é a sombra do dia. "

in "É preciso morrer para ser visto"

domingo, 15 de outubro de 2017


"Bem sei que ele queria um filho que nadasse como Johnny Weissmuller. Investi largas centenas de piscinas na satisfação do seu desejo. Acompanhou cada passo da evolução aquática. Creio que, neste aspecto, não o desiludi. Nos verões de praia, ainda hoje desconfio, que ele sustinha a respiração cada vez que me lançava à água, e bracejava com estrépito rumo à heroicidade, como se nele estivesse contida toda uma plateia cinematográfica ansiando pelos feitos do seu herói.
 Mas aconteceu-me algo que acontece a todos os filhos: cresci. E este fenómeno não se dissocia do refinamento do espírito crítico. E é aí que olhamos os nossos progenitores, do alto das nossas convicções inabaláveis próprias da então desconhecida efemeridade da juventude, e os desvelamos na radiografia das suas fraquezas e iniquidades. E então pensamos: como querem estes ensinar-nos algo? Eles próprios nada aprenderam. Hoje, já não penso assim. Hoje já não tenho convicções tão profundas. Hoje, de modo muito particular, sinto falta do seu sorriso de luz. Tinha uma forma única de conciliar tudo à volta do seu sorriso. E esta é uma qualidade muito rara."
in "Crónica ao Johnny Weissmuller"


domingo, 8 de outubro de 2017



"Noites de hospital, noites de gritos de uma dor só. Num momento de pausa, ela atravessa corredores de desespero, até à enfermaria onde ele se encontrava, uma desculpa profissional para se justificar por ali, mas ele ausente, a sua pausa a expirar, regressava quando o vê sair de um gabinete, num esforço patético de naturalidade, acompanhado de outra enfermeira, que se digladiava com uma chuva de cabelos para repor a touca, ela cola-se à parede do lado oposto do corredor, numa ânsia de invisibilidade, passa por eles, nada é dito, nem um cumprimento, de novo, uma questão cansada lhe surge A que sítio pertencemos?"

in "Do outro lado do rio, há uma margem"

terça-feira, 3 de outubro de 2017



"Sempre que me falam de cinema, é a cena final, deste maravilhoso filme, que me povoa, não sei porquê, ou talvez saiba, afinal, não há questões sem resposta, teria os meus doze anos quando, lá por casa, meu pai Tens de ver este filme! Ouvi-o e, de imediato, assenti, regra geral, sempre que meu pai (Tens de ver este filme!), acertava, neste caso, foi mais além…"


"Se algum dia me sentir só com as minhas convicções, sempre posso ligar a televisão, agarrar num certo dvd, ouvir o eco de uma voz (Tens de ver este filme!), e rever Shane, e quando, no final, assistir à sua partida, rumo às montanhas anoitecidas, resta-me acompanhar o miúdo no seu grito final: Adeus, Shane!"
in "Adeus, Shane"

terça-feira, 26 de setembro de 2017

quinta-feira, 21 de setembro de 2017


"E agora, minha filha? Sei que tiveste de ser sedada já por duas vezes. Dizem que, por vezes, acontece. Não te preocupes, ainda não há falatório. Ele, lá fora sentado, só está preocupado contigo. Agora, a mim preocupa-me o inocente que ainda nem a mãe conhece. Vais alimentá-lo enquanto conseguires. Chegou a altura de representares um papel deveras difícil. Depois, alegas o que quiseres, que eu cuido dele. Não te esqueças: só se aprende ao olhar para cima. Mas disto, és incapaz! Sabes, serás sempre infeliz, porque viverás sempre contigo. Exactamente de onde foges a cada instante. Talvez seja esse o bálsamo da morte: libertarmo-nos de nós."

in "Do outro lado do rio, há uma margem"

segunda-feira, 18 de setembro de 2017


"Ela, neste momento, a ver-se, ali, parada, numa imobilidade expectante, na margem da estrada. A figura continua a cavar. Vestia um daqueles pares de calças que ostentava a geografia do tempo, uma outrora branca camisa desabotoada, e na cabeça pontificava uma boina que cheirava a sal e a terra. Raros são os objectos que comportam estes odores: sal e terra: o sonho e a realidade."

in "Do outro lado do rio, há uma margem"

quarta-feira, 13 de setembro de 2017




"No fundo, vivemos condenados a dois mundos: o nosso e o dos outros: e os nossos dias vivem-se nesta ténue fronteira: sonhamos em nós: mas ferimo-nos no dos outros… Há quem lhe chame vida."
in "Do outro lado do rio, há uma margem"



"Havia ali um qualquer desamparo de passeio sob a chuva. Bastava perscrutar-lhe o rosto por um instante demorado. Aí residem todas as respostas. Não fosse o rosto a entrada da alma. Em que outro lado se grava cada biografia?"

in "Do outro lado do rio, há uma margem"

domingo, 10 de setembro de 2017


"E era fácil aí perder-se, naquele labirinto de veias e sulcos. Imaginava os anos que foram necessários à edificação daquele labirinto. As gerações que nele trabalharam, o arrojo da construção, o esforço, as alegrias, as derrotas… Eram mãos com sabedoria, dizia para si, enquanto as olhava. Como se esta qualidade pudesse ser aplicável a uma extensão do corpo. De alguma forma, ele sabia que aquelas mãos eram sábias. Por vezes, quando a velha se silenciava, as mãos exprimiam-se no seu lugar: Meu filho, meu filho, estou cansada, tão cansada. Já não espero nada, e não há nada pior que isto."
in "Olhei para trás e sorri..."

terça-feira, 5 de setembro de 2017




"... nesse momento, em que deixei definitivamente a tua mão pendurada a olhar o passeio, percebi que teria de fazer as pazes comigo própria, afinal, teria de passar mais tempo na minha companhia, se aprender a fazer isto, talvez aí, é possível que sim, talvez não tenha de regressar à rua dos meus pais ao mesmo tempo que a camioneta do lixo."
in "Há quanto não sei o azul do céu"

segunda-feira, 4 de setembro de 2017



"Hoje chove lá fora. É daqueles dias em que o mundo nos vira as costas. Sem direito a porquês. Como se não tivéssemos importância. E, de facto, não temos. Porque, na realidade, só somos insubstituíveis para nós mesmos..."
 in "Um balouço chora ao vento"

segunda-feira, 28 de agosto de 2017


"Agora, apenas um espelho de pedra. E as datas. E ele, em si, a memorizá-las, como se precisasse, mais com o olhar, ao mesmo tempo que se irava contra os balizamentos do social. Duas datas: parecia um bilhete tornado epitáfio; e da viagem, nem um vislumbre…"

in "Do outro lado do rio, há uma margem"

sexta-feira, 25 de agosto de 2017


"Por fim, o sol obrigou-o a desviar-se. Olhou um ramo próximo. Admirava, agora, a graça com que se alongava, em contínuas multiplicações, numa harmonia de matéria e céu. Como se abraçasse o todo, e tangesse a impossibilidade. De súbito, levou a mão ao rosto. Contemplou as inscrições gravadas na palma. E, então sim, compreendeu…"

in "Queria rever o teu rosto ao entardecer"


terça-feira, 22 de agosto de 2017


"A questão de sempre: a realidade não sonha, é sonhada. E o tempo do sonho não é o tempo do homem. É uma outra coisa. Daí a dor do acordar…"
in "Queria rever o teu rosto ao entardecer"

quarta-feira, 16 de agosto de 2017


O mito é o respirar do sentido.

in Queria rever o teu rosto ao entardecer

quarta-feira, 9 de agosto de 2017


"... ficaram os quatro sobre a falésia, aquém verbo, a olhar a praia que, a seus pés, se estendia até ao opulento e desafiador promontório, num incessante baile de ares, areias e águas. Movimento, foi a palavra que adveio ao espírito de Luís, e que traduzia, na perfeição, aquele cenário. Nada era estático. Tudo se mobilizava, a começar nas incessantes colinas de água das vagas, que se diluíam na areia, para logo ressurgirem no zénite líquido, tudo pautado pelo contínuo silvar do vento, passageiro das ondas, intemporal escultor dos caminhos do homem."

in "Queria rever o teu rosto ao entardecer"

segunda-feira, 7 de agosto de 2017


"Trouxe consigo, no regresso, apenas o possível. Como há muito aprendera a fazer. Afinal, a maior jornada não era a ida ao supermercado, mas a odisseia mensal da sobrevivência. Havia, de facto, naquela cidade, e em muitas outras do país que a vira nascer, muitos milagres da multiplicação. E só um país onde há fome é pródigo em taumaturgos.
Ao chegar, não houve o canto da sua ave. Também ela se silenciara. Sobe as escadas num esforço indizível. A dor é sempre incomunicável. Mete a chave à porta, e o seu coração aquece-se. Ouve o som familiar de alguém que a espera. Em breve, estará aos saltos a seu lado, a pedir comida, a lamber-lhe as mãos na singularidade de uma ternura desmedida. Sim, é a sua única companhia. É quem se senta a seu lado a olhar as fotografias."

in "Com a idade aprende-se a dizer Adeus"

sábado, 5 de agosto de 2017



"Neste momento, olha à sua volta, ao mesmo tempo que embala o carrinho. Talvez a criança ainda durma. Casais de idosos aqui e acolá, num passo em sintonia com o tempo. Ela olha-os com a inevitável distância da idade, mas na crescente compreensão de uma indesejada meta próxima. Outras mães e filhos aproveitam o precioso verde da urbe. Em bancos próximos, grupos de velhotes discutem temáticas próprias de quem enfrenta o vazio do tempo. Uma das mais duras batalhas da vida! Como resultado, sempre a derrota… Nada mais. Ou se sai louco, ou na amargura de quem bebeu o absurdo de ser…"
in "A alma reflecte-se num espelho d´água"


quinta-feira, 3 de agosto de 2017


"Há questões, de tão repetidas, que se sabe o tempo da resposta, assim que o NIF a chegar-lhe pelo auscultador, logo os seus dedos a iluminar o ecrã, o BI era apenas um pretexto, nunca o chegava a apontar, por ali, nada de novo, mais alguém que perdeu a corrida com os números, de novo, como se emitida por uma voz demasiado distante da sua, a frase já no mundo, Lamento informá-la, mas não nos vai ser possível conceder-lhe qualquer crédito… Tem aqui vencido…"

in "A Compreensão do Inverno"



segunda-feira, 31 de julho de 2017



"... certa noite, o amigo mais próximo deposita-lhe uma sugestão, pertinho do ouvido, e remata: Vais ver que não custa nada… A seguir, uma beira de estrada, um carro a desacelerar, o vidro baixa, o sujeito anafado, com uma calvície suada, mais velho que o pai, de sorriso suíno, três frases e negócio firmado, ela com a urgência renovada de retomar a fuga, a dignidade já nem nos bolsos..."

in "O silêncio do verbo"

sábado, 29 de julho de 2017


"Nem dei pela passagem da reunião. Mas sei que a vivi. As marcas ficam. Ficam sempre: um contínuo subtrair de entusiasmo. O seu equivalente traduz-se na crescente compreensão dos velhos, que ruminam incessantemente, com as suas bocas desertas, sonhos inconclusivos. Seduzimo-nos por brindar ao que foi, e esquecemo-nos de brindar ao que poderia ter sido. Hoje, neste regresso a casa, uma vez mais na auto-estrada da monotonia, vejo, à minha direita, a serra que se oculta na névoa do entardecer, e, à minha esquerda, o mar de sempre. Nasce, em mim, o desejo de um rosto pintado de promessa." 

in "Queria rever o teu rosto ao entardecer"                             

segunda-feira, 24 de julho de 2017


Naquela estação, não houve beijos, longos abraços, dedos que se tocam, nada… Isso é para os filmes! Assim que a marcha se iniciou, nem os olhos se reencontraram mais. Nada! Ela inicia o regresso. Talvez cambaleie, afinal, quem conhece a sua geografia interior daquele momento? Cabeça baixa, uma mão no bolso, a outra segura um objecto (qual?), e o passo incerto de quem só possui pretérito. Quantas vezes na vida apenas temos pretérito? Porventura, vezes a mais… Mas quem o reconhece?
in "Um encantado e lento entardecer"

sexta-feira, 21 de julho de 2017



 "... com o tempo, o sorriso foi estreitando enquanto os braços empalideciam, aquela vozita filha da espontaneidade foi ficando arrastada, curioso, nunca quis nada que lhe ocultasse o roubo da coroa, apenas uma frase para atenuar o efeito, Assim pareço o Avô, talvez compreendesse que há vazios intangíveis, talvez por gritarem para além da rouquidão, ainda ontem, ao telefone, falava-lhe de natais por nascer e de aniversários por cumprir, os braços lívidos ajudaram-no a pousar o telefone, percebeu-lhes a dificuldade, afinal, ninguém ilumina um universo para assistir ao seu sono."
in "Os anjos não caminham"

terça-feira, 18 de julho de 2017



"Nessa noite, a nossa amizade viu a luz do dia. Uma amizade sem exigências: no fundo, a verdadeira. Minto, ele apenas me pedia que o levasse a passear duas vezes por dia. De manhã, para me mostrar a leveza do ar e a nitidez das coisas; e à noite, para me ensinar a distância das estrelas e sentir a respiração da terra. Em verdade, não pedia muito. Quantos não pedem mais, e não nos ensinam nada?"

in "Só espero que encontres um lugar onde reclinar a cabeça"



sábado, 15 de julho de 2017



"Afinal, tudo não passa de uma enorme desilusão pelo nada que foi dito, e pelo tudo que ficou por dizer. As falanges a serenar enquanto os olhares agora repousam naquele silêncio de fim. Ela acrescenta Esta é a tua história. Cheguei a meio. Porém, conheceste-me no cinzento e trouxeste-me para o azul. Ele sorri. Vira-se para ela e beija-lhe a face. Assim ficaram, até que um ligeiro frio lhes relembrou noite. As águas silenciosas agora em prata. Regressam ao quarto ainda de sentires entrelaçados. Fecham a porta de vidro. Acendem um candeeiro. O mundo, lá fora, já uma noite imensa. Enquanto eles se sorriem sob uma luz."
in "Do outro lado do rio, há uma margem"

quarta-feira, 12 de julho de 2017

sexta-feira, 7 de julho de 2017



"Pela segunda vez, nessa noite, ele beijou-a e murmurou-lhe amor e perdão, enquanto ela o silenciava com um gesto sentido. Assim ficaram, abraçados, sob o silêncio da madrugada."
in "Olhei para trás e sorri..."

Foi no alto de uma colina, que aprendi a olhar o mundo" - Pedro de Sá

quarta-feira, 5 de julho de 2017


"Cada ocaso é  um melancólico espelho da nossa finitude."

in "Olhei para trás e sorri..."

segunda-feira, 3 de julho de 2017


"Este não é, definitivamente, um mundo de silêncio. Estamos submersos de gritos, vozes, apelos, sinfonias, buzinas, uivos, ladrares, choros, risos, sussurros, confissões… Basta fecharmos os olhos, numa tentativa surda de repouso, para compreender a utopia jamais tangível do silêncio… "
in "Queria rever o teu rosto ao entardecer"