Livros

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terça-feira, 22 de agosto de 2017


"A questão de sempre: a realidade não sonha, é sonhada. E o tempo do sonho não é o tempo do homem. É uma outra coisa. Daí a dor do acordar…"
in "Queria rever o teu rosto ao entardecer"

quinta-feira, 17 de agosto de 2017


quarta-feira, 16 de agosto de 2017


O mito é o respirar do sentido.

in Queria rever o teu rosto ao entardecer

quarta-feira, 9 de agosto de 2017


"... ficaram os quatro sobre a falésia, aquém verbo, a olhar a praia que, a seus pés, se estendia até ao opulento e desafiador promontório, num incessante baile de ares, areias e águas. Movimento, foi a palavra que adveio ao espírito de Luís, e que traduzia, na perfeição, aquele cenário. Nada era estático. Tudo se mobilizava, a começar nas incessantes colinas de água das vagas, que se diluíam na areia, para logo ressurgirem no zénite líquido, tudo pautado pelo contínuo silvar do vento, passageiro das ondas, intemporal escultor dos caminhos do homem."

in "Queria rever o teu rosto ao entardecer"

segunda-feira, 7 de agosto de 2017


"Trouxe consigo, no regresso, apenas o possível. Como há muito aprendera a fazer. Afinal, a maior jornada não era a ida ao supermercado, mas a odisseia mensal da sobrevivência. Havia, de facto, naquela cidade, e em muitas outras do país que a vira nascer, muitos milagres da multiplicação. E só um país onde há fome é pródigo em taumaturgos.
Ao chegar, não houve o canto da sua ave. Também ela se silenciara. Sobe as escadas num esforço indizível. A dor é sempre incomunicável. Mete a chave à porta, e o seu coração aquece-se. Ouve o som familiar de alguém que a espera. Em breve, estará aos saltos a seu lado, a pedir comida, a lamber-lhe as mãos na singularidade de uma ternura desmedida. Sim, é a sua única companhia. É quem se senta a seu lado a olhar as fotografias."

in "Com a idade aprende-se a dizer Adeus"

sábado, 5 de agosto de 2017



"Neste momento, olha à sua volta, ao mesmo tempo que embala o carrinho. Talvez a criança ainda durma. Casais de idosos aqui e acolá, num passo em sintonia com o tempo. Ela olha-os com a inevitável distância da idade, mas na crescente compreensão de uma indesejada meta próxima. Outras mães e filhos aproveitam o precioso verde da urbe. Em bancos próximos, grupos de velhotes discutem temáticas próprias de quem enfrenta o vazio do tempo. Uma das mais duras batalhas da vida! Como resultado, sempre a derrota… Nada mais. Ou se sai louco, ou na amargura de quem bebeu o absurdo de ser…"
in "A alma reflecte-se num espelho d´água"


quinta-feira, 3 de agosto de 2017


"Há questões, de tão repetidas, que se sabe o tempo da resposta, assim que o NIF a chegar-lhe pelo auscultador, logo os seus dedos a iluminar o ecrã, o BI era apenas um pretexto, nunca o chegava a apontar, por ali, nada de novo, mais alguém que perdeu a corrida com os números, de novo, como se emitida por uma voz demasiado distante da sua, a frase já no mundo, Lamento informá-la, mas não nos vai ser possível conceder-lhe qualquer crédito… Tem aqui vencido…"

in "A Compreensão do Inverno"



segunda-feira, 31 de julho de 2017



"... certa noite, o amigo mais próximo deposita-lhe uma sugestão, pertinho do ouvido, e remata: Vais ver que não custa nada… A seguir, uma beira de estrada, um carro a desacelerar, o vidro baixa, o sujeito anafado, com uma calvície suada, mais velho que o pai, de sorriso suíno, três frases e negócio firmado, ela com a urgência renovada de retomar a fuga, a dignidade já nem nos bolsos..."

in "O silêncio do verbo"

sábado, 29 de julho de 2017


"Nem dei pela passagem da reunião. Mas sei que a vivi. As marcas ficam. Ficam sempre: um contínuo subtrair de entusiasmo. O seu equivalente traduz-se na crescente compreensão dos velhos, que ruminam incessantemente, com as suas bocas desertas, sonhos inconclusivos. Seduzimo-nos por brindar ao que foi, e esquecemo-nos de brindar ao que poderia ter sido. Hoje, neste regresso a casa, uma vez mais na auto-estrada da monotonia, vejo, à minha direita, a serra que se oculta na névoa do entardecer, e, à minha esquerda, o mar de sempre. Nasce, em mim, o desejo de um rosto pintado de promessa." 

in "Queria rever o teu rosto ao entardecer"                             

segunda-feira, 24 de julho de 2017


Naquela estação, não houve beijos, longos abraços, dedos que se tocam, nada… Isso é para os filmes! Assim que a marcha se iniciou, nem os olhos se reencontraram mais. Nada! Ela inicia o regresso. Talvez cambaleie, afinal, quem conhece a sua geografia interior daquele momento? Cabeça baixa, uma mão no bolso, a outra segura um objecto (qual?), e o passo incerto de quem só possui pretérito. Quantas vezes na vida apenas temos pretérito? Porventura, vezes a mais… Mas quem o reconhece?
in "Um encantado e lento entardecer"

sexta-feira, 21 de julho de 2017



 "... com o tempo, o sorriso foi estreitando enquanto os braços empalideciam, aquela vozita filha da espontaneidade foi ficando arrastada, curioso, nunca quis nada que lhe ocultasse o roubo da coroa, apenas uma frase para atenuar o efeito, Assim pareço o Avô, talvez compreendesse que há vazios intangíveis, talvez por gritarem para além da rouquidão, ainda ontem, ao telefone, falava-lhe de natais por nascer e de aniversários por cumprir, os braços lívidos ajudaram-no a pousar o telefone, percebeu-lhes a dificuldade, afinal, ninguém ilumina um universo para assistir ao seu sono."
in "Os anjos não caminham"

terça-feira, 18 de julho de 2017



"Nessa noite, a nossa amizade viu a luz do dia. Uma amizade sem exigências: no fundo, a verdadeira. Minto, ele apenas me pedia que o levasse a passear duas vezes por dia. De manhã, para me mostrar a leveza do ar e a nitidez das coisas; e à noite, para me ensinar a distância das estrelas e sentir a respiração da terra. Em verdade, não pedia muito. Quantos não pedem mais, e não nos ensinam nada?"

in "Só espero que encontres um lugar onde reclinar a cabeça"



sábado, 15 de julho de 2017



"Afinal, tudo não passa de uma enorme desilusão pelo nada que foi dito, e pelo tudo que ficou por dizer. As falanges a serenar enquanto os olhares agora repousam naquele silêncio de fim. Ela acrescenta Esta é a tua história. Cheguei a meio. Porém, conheceste-me no cinzento e trouxeste-me para o azul. Ele sorri. Vira-se para ela e beija-lhe a face. Assim ficaram, até que um ligeiro frio lhes relembrou noite. As águas silenciosas agora em prata. Regressam ao quarto ainda de sentires entrelaçados. Fecham a porta de vidro. Acendem um candeeiro. O mundo, lá fora, já uma noite imensa. Enquanto eles se sorriem sob uma luz."
in "Do outro lado do rio, há uma margem"

quarta-feira, 12 de julho de 2017

sexta-feira, 7 de julho de 2017



"Pela segunda vez, nessa noite, ele beijou-a e murmurou-lhe amor e perdão, enquanto ela o silenciava com um gesto sentido. Assim ficaram, abraçados, sob o silêncio da madrugada."
in "Olhei para trás e sorri..."

Foi no alto de uma colina, que aprendi a olhar o mundo" - Pedro de Sá

quarta-feira, 5 de julho de 2017


"Cada ocaso é  um melancólico espelho da nossa finitude."

in "Olhei para trás e sorri..."

segunda-feira, 3 de julho de 2017


"Este não é, definitivamente, um mundo de silêncio. Estamos submersos de gritos, vozes, apelos, sinfonias, buzinas, uivos, ladrares, choros, risos, sussurros, confissões… Basta fecharmos os olhos, numa tentativa surda de repouso, para compreender a utopia jamais tangível do silêncio… "
in "Queria rever o teu rosto ao entardecer"


quinta-feira, 29 de junho de 2017


"... olhei para aquele planalto, sobre o rio que encontra a verdade salgada do mar, onde repousam sonhos de outrora, e pensei que ali também queria repousar os meus, não há melhor lugar quando o momento de compreender a minha verdade salgada chegar..."

in "Quando partir gostava de ali ficar"

segunda-feira, 26 de junho de 2017



"... após o candeeiro, ela numa pausa para cadenciarem passos e palavras, por esta altura, a mão da noite descia uma qualquer promessa de sonhos sobre a terra, aqui era o momento em que se silenciavam para se olharem, talvez nunca falassem tanto, é curioso, o amanhã nunca entrava nestes diálogos..."

in "Quantas conversas encontram o amanhã?"

sexta-feira, 23 de junho de 2017


"…E a conversa prolongou-se madrugada dentro. Enquanto as trevas cobriam a terra dos homens, os sonhos permaneciam coloridos. Com o tempo descobrimos que as cores dos sonhos se vão esbatendo...E as cores das memórias intensificando-se…Há quem chame a este fenómeno envelhecimento, e há quem o denomine por resignação."
in "Queria rever o teu rosto ao entardecer"

terça-feira, 20 de junho de 2017




Noite de verão no jardim…

O meu eu expande-se para ti…

Morna era a brisa… e leve também.

Nunca mais o meu eu se expandiu.

Nunca mais houve mornas brisas…

Talvez, ainda, haja o jardim…


in "Olhei para trás e sorri..."

sábado, 17 de junho de 2017

Do outro lado do rio, há uma margem



Levantar

Caminhar

Cair



Nós somos feitos do mesmo estofo dos sonhos, e a nossa curta vida está encerrada entre dois sonos.

                                                                             Shakespeare (in A Tempestade)


… pois a vida e a morte são uma só coisa, como uma só coisa são também o rio e o mar.

  Tende fé nos sonhos, pois neles se encontra a porta da eternidade.  

                                                                                                               Kahlil Gibran


Levantar


I


O tempo é o homem

 Os primeiros acordes do alvorecer insinuaram-se na penumbra. A luz sempre encontra uma forma de se anunciar. De se dar a conhecer. É da sua essência. Nessa manhã, ele encontrou-a na porta do armário. Como se lhe relembrasse uma urgência: talvez a da vida. Assim ficou: a descobrir os veios de uma porta, subitamente revelados. Cansou-se. Afinal, todo tem o seu tempo. E o tempo é o homem. Subiu a perspectiva, e observou as partículas dançantes, felizes e aquecidas, naquela chaga das trevas. Estariam só ali? Embaladas por aquele vestígio de felicidade? Desde quando? Levantou-se. Arranjou-se. Antes de sair, olhou para ela, que, através do rosto, transparecia o indizível de uma felicidade de outras paisagens. Por fim, saiu.

Encontrou a sala de refeições, àquela hora, já com bastante gente. Na sua maioria casais com filhos. Colocou a chave numa mesa e foi-se servir. Esperou algum tempo pela sua vez. Sentiu, no ar, a urgência do açambarcamento, como se fosse um imperativo encher os tabuleiros, uma forma de equilibrar as contas. Talvez a recepção, avistada através das portas de vidro, potenciasse este súbito e repentino apetite. Chegada a sua vez, avançou. De súbito, viu-se ultrapassado por um garotelho, com os seus dez anos, que se precipitou, numa urgência sem retorno, a reabastecer a caneca e respectivo cesto de pães e croissants. Ficou siderado. Não tanto pelo gesto do garoto. Mas sim pela forma, que denotava grande experiência, com que o executou. É um outro mundo, pensou. Ao qual não queria pertencer. Admirou-se como o tabuleiro, sustido pela mãozita de uma década àquela velocidade, sem vislumbre de inclinação. Ele tinha que agir. Aproximou-se do miúdo por trás, enquanto este aumentava consideravelmente o peso do tabuleiro, e pisou-lhe, como se tratasse de um singelo acidente, o calcanhar direito, o que fez com que o ténis saísse. O garoto, entre o espanto da pisadela, o olhar para trás e manter o tabuleiro equilibrado, a escolha de doce ou de mais fiambre, acabou por ficar a meio caminho, e ele aproveitou para o ultrapassar, saúdo-o com um sonoro Ah, peço imensa desculpa, e no seu íntimo regozijou-se pela vitória do passado face à ignomínia do presente.

II

Uma sombra vertical proclama harmonia

O seu olhar, neste momento, perdia-se entre o espectáculo em volta e um solitário que se equilibrava, em harmonia messiânica, numa exígua canoa no meio do grande lago, emoldurado pelas janelas da sala. O dia amanhecia, de novo, pardacento, como se esse véu emergisse das águas, e colorisse os céus. O solitário das águas estava, agora, num estatismo arrogante. Como se apelasse a um artista anónimo. Como se cumprisse um ritual. Como se aquele fosse, de facto, o seu lugar no mundo. Ele pousou, nesse momento, a chávena com mais leite do que café. O seu olhar apenas naquela sombra vertical – que proclamava harmonia.
Ele, agora, era o outro: na imobilidade, no equilíbrio da chávena, na arrogância de uma certeza, no silêncio de um grito por um olhar. Num lento adeus, a canoa afastou-se, e ele ainda ficou um pouco assim: entre o encantatório do movimento e a efémera memória do Sentido.

Tudo se diluiu, na estridente dor de uma chávena, desafiadora de gravidades. Também ele caiu no desconforto de si. Estremeceu, primeiro. Depois, buscou a génese do estrépito. Sem saber muito bem o porquê. Sim, soube desde logo que se tratava de uma chávena. Então, porquê esta quase obsessão de localizar, no espaço da sala, o ponto exacto da ocorrência, e visualizar o rosto do infeliz? Ele não o sabia. Apenas sentiu, em si, esta necessidade, quase orgânica… Tinha sido uma criança, a fonte do seu súbito desassossego. Crianças e ruído são íntimos de há muito. Não desistiu do epílogo da caneca. Esperava, sabia que em vão, pelo castigo do meliante. Acabou por emergir: a mãe afagou-lhe o cabelo, o rosto do pai sustentava o sorriso apatetado daqueles que não vincam o solo. Não, ele já não pertencia a este mundo. Olhou cansado o absurdo de uma cena recorrente. Enquanto o fazia, apoiou o rosto na mão direita. Por fim, suspirou… Longos corredores, silêncios obedientes, temores aquém verbo, imagens que revisitava balizadas pelo infinito de uma expiração. Na velhice, o futuro reside no passado. Só assim tem sentido. Afinal, de que outro modo o podiam encontrar? Esta é uma das grandes verdades da vida: passado e futuro, com o tempo, acabam por se fundir.

 E ali estava ele, sozinho a uma mesa, oscilando entre o grande lago, no exterior de uma natureza paciente pelo sempre adiado regresso, e o civilizado ruído do movimento interior da sala. O seu olhar, reflectido na caneca, anunciava fim. Apesar de terminado o café com leite, ainda permaneceu sentado. Outrora, sentir-se-ia constrangido pela solidão. Nunca se deu bem consigo mesmo. Achava-se insuficiente. Sempre careceu de um espelho. Pelo menos um que o sossegasse. Só, sentia o apelo da elipse, e, do abismo de si, sempre emergia envolto nas roupagens da inquietude e da desilusão. Ao longo da vida, sempre se compadeceu daqueles cavalheiros que ocupavam, numa proclamação de derrota, uma mesa, de um qualquer restaurante, sem saber muito bem porquê… E porquê esta analogia com a derrota? Porque não associava ele, a imagem de um homem só, a uma mesa, com a de um farol, por exemplo? Afinal, solidão e luz são velhas companheiras. Não, ele não conseguia. Os seus olhos partiam sempre toldados por um véu de tristeza. Quem o terá bordado? Que delicadas mãos terão confeccionado tal peça, indelevelmente inquilina de sua alma? Sempre esta fonte inexorável de questões… E respostas, onde? E uma mulher só? Sem saber muito bem o porquê, não se compadecia tanto. No fundo, ele sabia há muito que o porquê é a porta da desculpa. Uma mulher, só, encerra em si uma aura de dignidade – daí a naturalidade de uma viúva –, um homem sozinho é o rosto do abandono e da incompletude – e de viuvez, estamos conversados!

 Agora, olha o lago. Soube, há poucos dias, que lhe chamam a Lagoa Adormecida. Sim, faz algum sentido. Porque adormecer inspira tranquilidade. Dormir, já não. Mas aquelas águas apelam a sonhos tranquilos. Por contraste com as manhãs daquela sala de refeições. No fundo, aquele espaço em nada difere das salas de refeições dos outros hotéis. Há um lastro comum de excitação e de bocejo: o que origina estados de espírito a roçar a insuportabilidade. Continuou a observar os seus vizinhos da manhã. Numa mesa distante, um casal de anciãos, com a sua digníssima coroa prateada, saboreava a refeição com gestos lentos, próprios de quem já assimilou o saber dos pequenos nadas – o sempre tardio saber da vida –, ela muito direita, poucos imaginam o esforço da pose, ele mais curvado, mas numa curvatura honrada, de vez em quando uma palavra, o resto num harmonioso silêncio dialogante, como se nada fizesse sentido naquela sala sem a sua presença. Do casal infantilizado e da sua cria, já falámos. Numa mesa próxima, havia outro casal com duas filhas adolescentes. Reinava entre eles um respeito traduzido nos gestos. Nos gestos, não. Mas sim na sobriedade com que os executavam, como se tivessem uma profunda consciência do cerimonial que preside a uma refeição. Como se só sob esta luz, o acto de se sentar a uma mesa tivesse algum sentido. Tudo ali era lentidão e silêncio. As raparigas contrastavam a idade com a parcimónia dos gestos. Apesar de cumprirem os requisitos etários da moda, exalavam uma aura de anacronismo indecifrável. O pai era um sujeito anafado, com a ruralidade bem visível no rosto, apesar dos subsequentes anos de urbe, a mãe, inexplicavelmente, só se faria notar no quadro familiar. Sim, ela ali estava: era a mãe… Mas, em qualquer outro contexto, o seu lugar seria o da invisibilidade. Uma dessas pessoas que nem a memória ilumina. As raparigas, pelo contrário, talvez se iluminassem fora daquele palco. De certa forma, era como se representassem, não, não é bem isso, havia uma fatalidade que lhes sombreava a face, uma aceitação incondicional de um cálice amargo, por uma esperança algures reconhecida. Ele continuou a observá-los, com uma curiosidade crescente. A forma cerimoniosa como o patriarca limpou os lábios, análoga à de um sacerdote durante a eucaristia, como se uma multidão observasse o seu mais ínfimo movimento, e uma palavra adveio-lhe ao espírito: uma palavra de outras paragens, eivada do espontâneo, com outros protagonistas, outros ritmos… A palavra felicidade. Quão longe daquela mesa! Estaria a ser injusto? É possível… Não, ali não havia vestígios de risos, de… Mas é isso a felicidade? Risos, movimento, brincadeira? Não haverá outras manifestações? Em alguma parte de si, ele compreendeu a tranquilidade emanada de cada gesto, a leveza do silêncio (tão rara de encontrar), a comunhão subterrânea daquelas quatro pessoas. E esta sintonia, não se poderia denominar de felicidade? A resposta, demasiado óbvia, verbalizou-se pela voz sem voz de si mesmo. E continuou a olhar aquela família, seduzido pelo véu da felicidade inaudível dos gestos.

 III

 Quando o apelo da madrugada se desvanece

 Saiu para o amanhecer cinzento. À sua frente, o lago. Atrás, o edifício, de dois pisos, do hotel. As cortinas fechadas, do seu quarto, denunciavam o sono da mulher. Dirigiu-se para a margem. Estranho este fascínio humano por margens e água! Deixou-se estar, de mãos atrás das costas (uma última tentativa de resistir à gravidade), a ouvir as águas e a sentir o afago sedoso da neblina no rosto. Uns metros ao lado, um sujeito preparava uma manhã de anzóis e paciência. Aproximou-se dele, enquanto este se debruçava sobre baldes e iscos de longa espera. Saudou-o com um Bom-dia, entre o educado e o alegre, a indiciar ao outro predisposição para a conversa. O indivíduo levantou os olhos dos baldes, e retribuiu um Bom-dia enformado de cautela e surpresa.  
- Então, por aqui abunda o peixe?

- (O sujeito olhou-o o tempo que considerou suficiente. Entretanto, devolveu à terra algo que trazia emprestado na boca. As bocas lusitanas são pródigas nestas devoluções às origens.) A sua cara não me é estranha!
- (Não esperava esta resposta. Sentiu um desconforto crescente. Recuou um passo, para melhor se equilibrar do golpe verbal. Sim, é verdade, nunca gostou desta frase. Sempre a interpretou como uma ameaça velada. Como a promessa de uma reminiscência dolorosa. Mas que ameaça poderia conter aquele humilde homem àquela matinal hora? Todas! É a resposta. Porque ele via-o com o seu presente, passado e futuro. Cada homem assim vê o mundo. Raramente olha a realidade fora deste espartilho. Quando assim acontece, está para além dela. E nessas ocasiões, esta sob a inebriante espiral da liberdade: sem ontem e sem amanhã. No fundo, sem o tempo. Mas, como anteriormente se afirmou, o tempo é o homem, e se esta é a sua medida, ou uma das possíveis, que homem é esse para além da sua mensurabilidade? Ele conhecia a resposta, sempre aspirou a um Absoluto, sob as mais diversas formas ao longo da sua vida. Já lá iremos. Neste momento, confronta-se, à beira de um lago, com um sujeito que o perturbou com uma exclamação corrente.) Não sei como! Somos da capital. (Refugiou-se num chavão chauvinista e deselegante: próprio de países que vivem a duas velocidades).

- Se é por aí, também já por lá andei. E não guardo saudades. Mas a sua cara não é da capital que recordo (A capital não tem rosto. Sim, são faces sem rosto, pensou ele, enquanto o ouvia.). É de outro lugar…
- Lamento desapontá-lo, mas não estou a ver de onde será.


- Está aqui hospedado?

- Sim.

- E não tem familiares por aqui?

- (O cerco estreitava-se. Aqui chegados, só restavam duas alternativas: a fuga ou a hostilidade. Nenhuma delas se lhe afigurou atraente, sobretudo àquela hora. Após a questão, baixou os olhos instintivamente, e apercebeu-se de que toda a sua aparente sofisticação citadina ruíra perante a argúcia de quem observa a metamorfose lenta das coisas.) O que o leva a concluir isso? (Optou pela primeira, camuflado pela questão.)

- O seu rosto, já lhe disse. (O sujeito emanava uma espontaneidade, nos gestos e na voz, que começava a irritá-lo. Falava com a mesma naturalidade com que tratava das lides. Um dom só ao alcance daqueles que conhecem e sentem as texturas das coisas.)

- (Acabou por capitular.) Sim, tive. Mas já não me resta nenhum. (Afastou-se, no vagar de uma indesejada reflexão.)

 Regressou ao quarto. Ela já acordara. A porta da casa de banho estava entreaberta e ouvia-se a cascata matinal do duche. Ele aproveitou para abrir a cortina e assomar à varanda. Sempre gostou daquele cenário: horizontes por alcançar, as águas sussurrantes (ou serão águas sonhadoras?), as copas impressionistas da outra margem… Transmitia-lhe serenidade. Assim ficou, encostado à porta de vidro, de mãos nos bolsos, não a olhar, mas a sentir o silêncio melodioso das águas. Recordou aquela vez, há muito passada, em que acompanhou, precisamente dali, a lenta e cantada aparição do nascer do mundo. Nessa altura, o alaranjado do horizonte soube-lhe a vastidão. Já não se recorda de há quanto tempo foi, parecia-lhe, agora, ter sido numa outra vida. Sim, é verdade, quantas vezes se morre e nasce ao longo de uma vida? Ele também já fora outro. Ou outros… Quem é ele agora? Acordara, nessa madrugada longínqua, sem porquê. A seu lado, dormia aquela que já partira. Sim, estamos sempre a deixarmo-nos. Ele levantou-se, numa ânsia crescente de harmonia, desvelou um pouco a cortina, correu a porta de vidro, e saiu para a varanda por amanhecer. Ainda os distantes pontos luminosos no tecto nocturno, aqui e ali o salto de um peixe, cantos da madrugada em aparente dissonância, e ele sem a obstinação do pensar, apenas a leveza do sentir, submerso nas sensações de uma aurora irrepetível, recorda-se de fechar os olhos, assim que sentiu um tímido calor no rosto, e da sua voz se juntar a um coro imemorial de saudação ao ser da vida.
Nunca mais experienciou tal sensação de plenitude. Também o apelo da madrugada se desvanecera. Sim, há coisas que se deixam pelo caminho. E outras que se apanham? Não, o caminhar da vida é uma crescente solidão. Ele regressou ao interior do quarto, na mesma altura em que ela saía, enrolada numa toalha, do seu banho. Sorriram-se.

- Não me acordaste…

- Preferi não fazê-lo. Precisavas de uma noite assim.

- Sim, há muito que não me conciliava com o sono.

Enquanto falavam, ela primeiro desvelou-se, para depois escolher a sua roupa. Ele, fruto da experiência, preferiu sentar-se. Observou, num encantamento espantado, e com um natural sabor de primeira vez, a feminilidade dos seus gestos. O feminino. Uma graça liberta de qualquer resquício de gravidade. Em cada gesto, ela inteira. São gestos cantados, cantantes, pensava ele. Ora aqui, ora ali, a forma de pegar numa peça de roupa, de a olhar, numa análise além tempo, como se aquele acto, revestido de uma falsa aparência de futilidade, contivesse, em si, o futuro de nações. É curioso, nunca se ouviu alguém nomear uma flor de fútil. Por ser bela, por ser colorida… No entanto, uma mulher, que procure os mesmos desígnios, expõe-se a tal impropério. E qual é a diferença entre uma mulher e uma flor? Não sei, ainda não a descobri. Se alguém já a descobriu, deixo-lhe este espaço, de seguida, para o preencher.
Após deixar cair a toalha, sucedeu-se um silêncio. Como aquele particular silêncio indizível entre as notas de uma peça. E nem o esquecido passar dos anos, disfarça o embaraço da nudez. Ele vestido, chegado da varanda, ela saída do banho, apenas com a toalha. O arranjar-se. A toalha, de repente, a seus pés. Ele disfarça, sentando-se. Continua a conversa de ocasião. Ela, nua, escolhe o enxoval do dia. E ele procura manter, ao longo da conversa, os olhos com os dela. Mas ela está nua! E o tempo não apagou, por completo, a vontade do um. O olhar dele acaba por descair. Era uma questão de tempo. Mais de oportunidade. A gravidade já fez os seus estragos naquele corpo. E, nestas coisas, o tempo é um aliado precioso. O corpo, com o tempo, assemelha-se mais a um mapa. Todavia, ele olhava-a além tempo. Era, ainda, um olhar de início. Sem mapas, estradas, curvas, trajectos sinuosos… Daí que ela lhe surgisse envolta naquele brilho, de há tantos e tantos anos atrás, e ele, de lábios ligeiramente entreabertos, não a olhava, olhava-se, sim, a si mesmo, num espanto interior perante uma revelação… Que idade teria? Ao certo não se lembra, apenas se recorda de conhecer a gilete há pouco tempo, mas vê-se, a si mesmo, sentado naquele sofá, com um tecido creme pontuado por umas cornucópias verde-escuras, à frente uma estante com pouquíssimos livros, no meio espaço para a televisão, era uma sala rectangular, pequena, apenas espaço para o sofá, estante, e, à sua direita, uma mesa redonda com quatro cadeiras. À esquerda, uma pequena varanda, transformada, como sempre acontece por estas paragens, em marquise. Provinha daí uma ligeira aragem. Bastante agradável. Esta não era a sua casa. Talvez a de um amigo. E foi aí, sob a leveza dessa aragem, que ela se lhe revelou. Apenas isso. Ele, lábios entreabertos, sem saber que postura assumir, e um desejo obstinado de gravar cada detalhe, mas apercebia-se do malogro dessa aspiração, tal o inebriamento do instante. E, neste exacto momento, ele apercebe-se de uma aragem vinda de tempo incerto. Não, aqui não há estantes de poucos livros, sofás com cornucópias verde-escuras, mesas redondas circunscritas por quatro cadeiras, nem marquises, mas persiste aquela peculiar aragem, tépida, agradável, que convida a olhar o presente de lábios entreabertos.

 IV
Um silencioso e horizontal espelho de pedra

 Seguem, neste momento, por uma estrada à sombra, ora de pinheiros ora de eucaliptos. Ele concentrado. Em silêncio. Ela, a seu lado, olha a paisagem. Apreciava aquele cenário. Bosques cerrados que dão lugar a campos agrícolas, longos vales atravessados por rios caudalosos, horizontes que prenunciam céus e alturas…

terça-feira, 13 de junho de 2017


"Na minha memória, só ecoa o final…

 - Acabámos por não chegar onde queríamos…

- Enganas-te, Luís. Só chegamos onde podemos.

- Pareces uma velha a falar.

- E sinto-me uma, acredita… (Nisto, Bárbara vira-se para Luís e beija-o na face, enquanto lhe dá a mão sob a areia.) Obrigado…"

in Queria rever o teu rosto ao entardecer

domingo, 11 de junho de 2017


"Enquanto o mar se pintava de ocaso, um paquete ladeava o comboio numa corrida com metas distintas. Sempre que via um barco assim, no regresso a casa, ele percebia onde não queria estar. E o seu olhar nem o barco via, apenas que vogava rumo à única réstia de luz do mundo. Enquanto o comboio, de estação em estação, apenas derramava despojos de ilusões." in "Olhei para trás e sorri..."

sábado, 27 de maio de 2017

Rio Pranto II



Ao olhar para o fundo da rua, mais ou menos quando as janelas em volta se iluminam, e a única palavra que faz sentido é regresso, ainda se lembra dos gritos e das portas que batiam, mas o que lhe doía mais era o facto de as portas se fecharem diante de si, como se lhe gritassem inclementemente indesejado, o cenário mudou várias vezes, rés-do-chão, segundo-andar, chegou a conhecer um sexto-andar, e uma cave, porém, os gritos e o bater de portas subsistiam, o inclemente grito de indesejado também, havia outros pontos em comum, das janelas só sombra dos prédios em volta, às vezes, ele olhava o passeio para, entre as pedras, sossegar a vista numa fragilidade verde que por ali despontava...

quarta-feira, 17 de maio de 2017

"O dia amanhecia, de novo, pardacento, como se esse véu emergisse das águas, e colorisse os céus. O solitário das águas estava, agora, num estatismo arrogante. Como se apelasse a um artista anónimo. Como se cumprisse um ritual. Como se aquele fosse, de facto, o seu lugar no mundo. " in "Do outro lado do rio, há uma margem"



domingo, 14 de maio de 2017

Quando a magia decidiu partir…



Hoje vou falar de futebol. Confesso que desconheço o que me impele a tal coisa. Afinal nunca havia escrito sobre o mundo da bola. Apesar de, quem me conhece, saber da minha paixão por um clube que morou a Norte… Não é equívoco o uso do pretérito. De facto, o meu Futebol Clube do Porto partiu para um qualquer lugar incógnito... E não há sinais de que tão cedo regresse. Numa madrugada de há muito, mas simultaneamente parece que ontem, acordei sozinho, nem dei trabalho ao despertador, por casa, o silêncio da hora, pelas ruas, volta e meia, o eco de um carro como um singular lamento num tempo que se prolonga em demasia, mas, como disse anteriormente, hoje vou falar de futebol, pouco passava das cinco da manhã, nessa madrugada de há muito, porém, foi das vezes que menos me custou a acordar, para mim, talvez pela idade, ainda desconhecia o que era uma lâmina de barbear, havia qualquer coisa de aventura no ar, um quê de magia sobre as coisas, algo de irrepetível que só a meninice proporciona, talvez seja o futuro de portas escancaradas, pois, talvez...

domingo, 23 de abril de 2017

Rio Pranto



Sempre ouvi dizer que Chorar faz bem! Não sei se é verdade. Talvez seja uma forma que encontrámos para nos levantarmos e retomar o caminho… Pois, é possível. Conheci-a há uns anos, numa fase da minha vida complicada, como se alguma vez a minha vida tivesse outra coisa que não fases complicadas, tinha alugado um quarto numa pensãozita esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam...

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O desencanto impronunciado de um Domingo à tarde



Foi assim, num repente, mas como tudo nesta vida, demorou o seu tempo, embora, para mim, reafirme que foi num repente, como dizia, após duas décadas, que, vistas daqui, parecem-me dois dias, ele Precisamos de conversar… Não sei se foi do Precisamos de conversar, de suster a respiração para articular as palavras, da sua expressão que denunciava uma irredutibilidade demasiado teatral, tudo num esforço...

sexta-feira, 31 de março de 2017

Saudades do futuro


Há gente que, não sei porquê, parece que passa pela vida sem que nada de especial aconteça, creio que, se hoje os reencontrasse, estariam nos mesmos lugares a desempenhar exactamente as mesmíssimas tarefas doutrora, como se o tempo tivesse virado costas àquelas paragens, e há outros, enfim, que são engolidos nas mais tumultuosas correntes… Se analisar devidamente ambos os percursos, confesso que não invejo nenhum, do fastio de conhecer há muito os amanhãs, à incerteza da próxima esquina (...)

domingo, 19 de março de 2017

Eu mais eu igual a qualquer coisa de indefinível



Sempre que sexta-feira, fim de tarde, Despacha-te começa a repetir-se lá por casa, a voz de minha mãe num volume crescente, os meus nervos em parelha com a sua volumetria, eu perdida atrás de objectos que insistem, não sei porquê, em esconder-se de mim quando estou refém da pressa, percorro as escassas divisões da casa que, em momentos assim, se me afiguram planícies de horizontes inalcançáveis, uma vez mais Despacha-te, outra ainda, Despacha-te, nisto a campainha, apresso-me a atender, já sei que voz me aguardava (...)

quinta-feira, 9 de março de 2017

Cesto de papéis


Bem sei que hoje quase não há cestos de papéis, e os poucos sobreviventes habitam, com certeza, em lares onde a sua missão há muito não é cumprida, não por culpa própria, como é evidente, mas pela idade de quem os olha. Sempre que via uma secretária, sabia que, por baixo ou ao lado, lá estaria o inevitável cesto de papéis, como se fosse um facto da ordem do existir. Hoje, por muito que me custe, as coisas alteraram-se, e, raramente, por baixo ou ao lado de uma secretária, se encontra um cesto de papéis. É sempre difícil lidar com uma alteração na ordem do existir, parece-nos que, de repente, alguém invadiu a casa do nosso viver e nos desarrumou as coisas(...)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Ali onde não há ontem nem amanhã



De vez em quando, regresso-me àquele lugar, não sei porquê, no acaso do dia, a imagem irrompe pelo meu pensar, e ali me fico, de novo, como se nunca tivesse partido, a luz peculiar, a harmonia dos sons, a doçura leve do ar, tudo a envolver-me, porém, sei-me no desconforto distante da minha circunstância. Quando férias, sub-repticiamente, tento elencá-lo como uma possibilidade, ela, de imediato, refuta, sempre com a mesma argumentação, de tão repetida, já lhe conheço a sequência, as noites frias, a escassez de diversões, a água gelada, o vento, sempre o vento, incessante, no fundo, é mais uma brisa, mas ela, logo, a exponenciar a coisa, por vezes, devido à convicção das suas afirmações, quase acredito que um desconfortável vento frio no lugar de uma reconfortante brisa do entardecer (...)