Livros do Escritor

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domingo, 14 de dezembro de 2025

Leveza

 


Ainda hoje, aquela é uma memória quente, sem dúvida, passei lá há uns dias, por acaso, regressava do trabalho, um acidente a bloquear a estrada fez-me sair do meu percurso normal. É curioso, olhei o lugar e parece que nunca ali vivi, tal a indiferença com que me fitou, nesta vida há momentos em que duvidamos até de sermos, este foi um deles, a praceta sem um vislumbre de verde, numa humanização desumanizada, sempre à sombra, por ali a luz sempre foi escassa, de manhã ou de tarde, tal a altura dos prédios e a desarmonia das formas, tudo num tortuoso urbanístico do alcatrão do estacionamento às antenas dos telhados, reparei, sem qualquer espanto, que em quatro ou cinco janelas, de casas diferentes, Vende-se ou Arrenda-se eram palavras de ordem, normal por ali, as casas tão pequenas, rápidos apeadeiros nesta jornada de nome vida, desacelerei para ver a janela onde, num certo tempo, olhei de dentro para fora, não conseguia, pois, a desarmonia das formas, logo, atrás de mim, uma buzina nervosa, outro que, devido ao acidente a bloquear a estrada, saiu do seu percurso normal, resolvi encostar, baixei o vidro, e lá estava, no sexto-andar, para este lado, quase irmanadas, sala e cozinha, o único quarto ficava do lado oposto, reparei que estava habitada pelas cortinas, amarelecidas, é certo, mas ainda assim pintavam o quadro geral de uma inquestionável dignidade, saí do carro, atravessei a estrada, para aceder ao estacionamento, que nunca fora traçado, tinha-se de subir o passeio, década e meia passada e tudo subsistia, um tortuoso urbanístico do alcatrão do estacionamento às antenas dos telhados, nisto, ouço um carro no esforço de subir o passeio, pela histeria mecânica que povoou os ares, deduzi que se tratava de manifesta inabilidade do condutor ou de uma reiterada declaração de reforma da viatura, por fim, lá conseguiu, depois de muitos gritos e soluços mecânicos, vencer o passeio, estacionaram a umas dezenas de metros de mim, tratava-se de um casal jovem. Ele saiu, expedito, abriu-lhe a porta e ajudou-a a sair, de início, estranhei tanta diligência, deixei-me ali estar, fingi esperar alguém, ninguém estranha aquele que espera, afinal, todos esperamos sempre por alguma coisa, assim que as mãos deles se encontram emolduradas por aquela singular desarmonia de formas, do alcatrão do estacionamento às antenas dos telhados, e ela por fim sai, numa dificuldade crescente, do carro, depois de se erguer, percebi-lhe uma gravidez adiantada, uma longa expiração quase lhe esvazia a alma, ao mesmo tempo que leva as mãos à zona lombar, como se numa súplica por leveza, ele já na bagageira, a depositar quatro volumosos sacos de plástico no alcatrão, após trancar o carro, seguiram, amparados, ela com o futuro dentro de si, ele com o presente, na forma do pão nosso de cada dia, ela em esforços de equilíbrio, ele trémulo pelo peso dos sacos para tão descarnados membros, ainda levou o seu tempo até à porta do prédio, pousou-os, pelo menos, duas vezes, para reequilibrar tão desigual luta, entre quatro volumosos sacos e dois descarnados membros, ela agradeceu, assim pôde harmonizar a respiração com a passada, até que deles só restou, como memória, o carro estacionado que também, volta e meia, expirava por um cansaço nascido tão ontem. Entretanto, as cortinas amarelecidas iluminaram-se, e continuavam a emprestar, ao quadro geral, uma inquestionável dignidade, nesta altura, ela devia estar deitada no sofá, a queixar-se dos pés inchados, de um cansaço de tudo, de simultaneamente desejar que o futuro se erga, mas recear por esse tão singular momento, ele a distribuir os quatro volumosos sacos, ora pela despensa, ora pelo frigorífico, a ouvi-la, mas os membros descarnados aquém de tais esforços, a capitular, depois do jantar, ele de volta do berço, já faltava pouco, dizia, com vincado orgulho, que a primeira cama do filho seria obra sua, neste ponto, ela apressava-se a corrigi-lo e falava de filha, sorriam-se e uma anuência brotava entre eles, Desde que venha com saúde, e, de certa forma, o chavão lá conseguia adormecer inconvenientes angústias, não por muito tempo, é certo, mas por algum, regresso ao carro, atravesso a rua e entro, antes de rodar a chave, um último vislumbre às cortinas amarelecidas daquele sexto-andar, talvez, daqui a uns anos, percebam que a filha precisa do seu espaço, aí uma placa, a dizer Vende-se, encobrirá parcialmente as cortinas amarelecidas, mudar-se-ão para uma casa maior, com três quartos, embora não muito longe, ela consegue progredir no trabalho, sempre se ajeitou com as línguas, quantas vezes o pai (O inglês é o futuro! Ouve bem, o inglês é o futuro!), com o tempo, a filha será a última, quase todos os dias, a atravessar o portão da escola rumo a casa, e das primeiras, pela leveza do ar das manhãs, a chegar, ele mantém-se na carpintaria, apesar das horas livres crescerem numa inversão proporcional à escassez de encomendas, o patrão Esta gente não quer móveis a sério! Prefere cartão endurecido que, ao mínimo abanão, se desmonta todo… Onde já se viu coisa assim? Um móvel é como um casamento: é para a vida toda! Agora, chegámos ao faça você mesmo! Como se toda a gente percebesse de carpintaria… Isto caminha para o fim, acredite… Os meses tornam-se anos, ela começa a sugerir-lhe que se lave e mude de roupa após o trabalho, o suor e o ar indigente começam a desagradá-la, quando antes achava a sua graça, afigurava-se-lhe diferente, talvez por nunca ter gostado de queques, mas daí a suor e indigência… Nesta vida há sinais que só compreendemos depois do acontecer, como um aviso para o qual ensurdecemos, muitas vezes sem sabermos muito bem o porquê, um desenlace que teimamos em adiar, apesar da filha, da dívida comum pela nova casa, de, volta e meia, nas manhãs de fim-de-semana, ainda uns laivos de antigamente, compassados por suores e respiração ofegante, de não haver um rosto no horizonte sentimental de si, talvez a habite uma noção de fim sobre as coisas, é curioso, ela nada fez para alterar o curso do sentir, como se sempre soubesse para onde tudo se precipita, ele tentou, no que pôde, contrariar o rumo das coisas, falou, claro, na filha, na dívida comum pela nova casa, de, volta e meia, nas manhãs de fim-de-semana, ainda uns laivos de antigamente, ela com a distância, percebia-se-lhe no olhar, parecia já não o reconhecer, ele pensou que fosse das horas livres crescerem numa inversão proporcional à escassez de encomendas, de trazer menos de metade, em cada mês, que ela para casa, pois, (O inglês é o futuro! Ouve bem, o inglês é o futuro!), como o pai dela tinha razão! E havia aquele embaraço envergonhado no momento de o apresentar aos colegas de trabalho, afinal, o que percebia ele de inglês? As encomendas, na carpintaria, cada vez mais escassas, porém, quando surgiam, por telefone ou à porta, sempre em português, certa tarde, cansada daquela histeria mecânica que povoava os ares, acompanhada de uma insistente declaração de reforma, ela chega a casa num silêncio deslizante, ele, por acaso, na rua, olhou com admiração as nuvens reflectidas na brilhante pintura do automóvel, deslizavam em adeus, virou costas para fazer a mala… Percebo noite à minha volta, ainda estou com as cortinas amarelecidas, entretanto iluminadas, talvez, neste momento, ela desvie, para abrir a porta, os oito meses de gravidez do lavatório, na exígua casa-de-banho, ele na sala, que tinha o tamanho de um quarto, a levantar-se para lhe ir buscar uma colcha, sabia que, à noite, ela se queixa de frio, e ele sempre ali ao pé, naquele sexto-andar, para este lado, quase irmanadas, sala e cozinha, o único quarto fica do lado oposto, é curioso, ali nunca me senti perdida, e agora, neste silêncio deslizante, a pintura a reflectir as luzes da noite, não sei que direcção tomar, de facto, nesta vida há momentos em que duvidamos até de sermos…

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