Ainda
hoje, aquela é uma memória quente, sem dúvida, passei lá há uns dias, por
acaso, regressava do trabalho, um acidente a bloquear a estrada fez-me sair do
meu percurso normal. É curioso, olhei o lugar e parece que nunca ali vivi, tal
a indiferença com que me fitou, nesta vida há momentos em que duvidamos até de
sermos, este foi um deles, a praceta sem um vislumbre de verde, numa
humanização desumanizada, sempre à sombra, por ali a luz sempre foi escassa, de
manhã ou de tarde, tal a altura dos prédios e a desarmonia das formas, tudo num
tortuoso urbanístico do alcatrão do estacionamento às antenas dos telhados,
reparei, sem qualquer espanto, que em quatro ou cinco janelas, de casas
diferentes, Vende-se ou Arrenda-se eram palavras de ordem,
normal por ali, as casas tão pequenas, rápidos apeadeiros nesta jornada de nome
vida, desacelerei para ver a janela
onde, num certo tempo, olhei de dentro para fora, não conseguia, pois, a
desarmonia das formas, logo, atrás de mim, uma buzina nervosa, outro que,
devido ao acidente a bloquear a estrada, saiu do seu percurso normal, resolvi
encostar, baixei o vidro, e lá estava, no sexto-andar, para este lado, quase
irmanadas, sala e cozinha, o único quarto ficava do lado oposto, reparei que
estava habitada pelas cortinas, amarelecidas, é certo, mas ainda assim pintavam
o quadro geral de uma inquestionável dignidade, saí do carro, atravessei a
estrada, para aceder ao estacionamento, que nunca fora traçado, tinha-se de
subir o passeio, década e meia passada e tudo subsistia, um tortuoso
urbanístico do alcatrão do estacionamento às antenas dos telhados, nisto, ouço
um carro no esforço de subir o passeio, pela histeria mecânica que povoou os
ares, deduzi que se tratava de manifesta inabilidade do condutor ou de uma
reiterada declaração de reforma da viatura, por fim, lá conseguiu, depois de
muitos gritos e soluços mecânicos, vencer o passeio, estacionaram a umas
dezenas de metros de mim, tratava-se de um casal jovem. Ele saiu, expedito, abriu-lhe
a porta e ajudou-a a sair, de início, estranhei tanta diligência, deixei-me ali
estar, fingi esperar alguém, ninguém estranha aquele que espera, afinal, todos
esperamos sempre por alguma coisa, assim que as mãos deles se encontram
emolduradas por aquela singular desarmonia de formas, do alcatrão do
estacionamento às antenas dos telhados, e ela por fim sai, numa dificuldade
crescente, do carro, depois de se erguer, percebi-lhe uma gravidez adiantada,
uma longa expiração quase lhe esvazia a alma, ao mesmo tempo que leva as mãos à
zona lombar, como se numa súplica por leveza, ele já na bagageira, a depositar
quatro volumosos sacos de plástico no alcatrão, após trancar o carro, seguiram,
amparados, ela com o futuro dentro de si, ele com o presente, na forma do pão nosso de cada dia, ela em esforços
de equilíbrio, ele trémulo pelo peso dos sacos para tão descarnados membros,
ainda levou o seu tempo até à porta do prédio, pousou-os, pelo menos, duas
vezes, para reequilibrar tão desigual luta, entre quatro volumosos sacos e dois
descarnados membros, ela agradeceu, assim pôde harmonizar a respiração com a
passada, até que deles só restou, como memória, o carro estacionado que também,
volta e meia, expirava por um cansaço nascido tão ontem. Entretanto, as cortinas
amarelecidas iluminaram-se, e continuavam a emprestar, ao quadro geral, uma
inquestionável dignidade, nesta altura, ela devia estar deitada no sofá, a
queixar-se dos pés inchados, de um cansaço de tudo, de simultaneamente desejar
que o futuro se erga, mas recear por esse tão singular momento, ele a
distribuir os quatro volumosos sacos, ora pela despensa, ora pelo frigorífico,
a ouvi-la, mas os membros descarnados aquém de tais esforços, a capitular,
depois do jantar, ele de volta do berço, já faltava pouco, dizia, com vincado
orgulho, que a primeira cama do filho seria obra sua, neste ponto, ela
apressava-se a corrigi-lo e falava de filha, sorriam-se e uma anuência brotava
entre eles, Desde que venha com saúde, e,
de certa forma, o chavão lá conseguia adormecer inconvenientes angústias, não
por muito tempo, é certo, mas por algum, regresso ao carro, atravesso a rua e
entro, antes de rodar a chave, um último vislumbre às cortinas amarelecidas
daquele sexto-andar, talvez, daqui a uns anos, percebam que a filha precisa do
seu espaço, aí uma placa, a dizer Vende-se, encobrirá parcialmente as cortinas amarelecidas, mudar-se-ão para uma casa
maior, com três quartos, embora não muito longe, ela consegue progredir no
trabalho, sempre se ajeitou com as línguas, quantas vezes o pai (O inglês é o futuro! Ouve bem, o inglês é o
futuro!), com o tempo, a filha será a última, quase todos os dias, a
atravessar o portão da escola rumo a casa, e das primeiras, pela leveza do ar
das manhãs, a chegar, ele mantém-se na carpintaria, apesar das horas livres
crescerem numa inversão proporcional à escassez de encomendas, o patrão Esta gente não quer móveis a sério! Prefere
cartão endurecido que, ao mínimo abanão, se desmonta todo… Onde já se viu coisa
assim? Um móvel é como um casamento: é para a vida toda! Agora, chegámos ao
faça você mesmo! Como se toda a gente percebesse de carpintaria… Isto caminha
para o fim, acredite… Os meses tornam-se anos, ela começa a sugerir-lhe que
se lave e mude de roupa após o trabalho, o suor e o ar indigente começam a
desagradá-la, quando antes achava a sua graça, afigurava-se-lhe diferente,
talvez por nunca ter gostado de queques, mas daí a suor e indigência… Nesta
vida há sinais que só compreendemos depois do acontecer, como um aviso para o
qual ensurdecemos, muitas vezes sem sabermos muito bem o porquê, um desenlace
que teimamos em adiar, apesar da filha, da dívida comum pela nova casa, de,
volta e meia, nas manhãs de fim-de-semana, ainda uns laivos de antigamente,
compassados por suores e respiração ofegante, de não haver um rosto no
horizonte sentimental de si, talvez a habite uma noção de fim sobre as coisas,
é curioso, ela nada fez para alterar o curso do sentir, como se sempre soubesse
para onde tudo se precipita, ele tentou, no que pôde, contrariar o rumo das
coisas, falou, claro, na filha, na dívida comum pela nova casa, de, volta e
meia, nas manhãs de fim-de-semana, ainda uns laivos de antigamente, ela com a
distância, percebia-se-lhe no olhar, parecia já não o reconhecer, ele pensou
que fosse das horas livres crescerem numa inversão proporcional à escassez de
encomendas, de trazer menos de metade, em cada mês, que ela para casa, pois, (O inglês é o futuro! Ouve bem, o inglês é o
futuro!), como o pai dela tinha razão! E havia aquele embaraço envergonhado
no momento de o apresentar aos colegas de trabalho, afinal, o que percebia ele
de inglês? As encomendas, na carpintaria, cada vez mais escassas, porém, quando
surgiam, por telefone ou à porta, sempre em português, certa tarde, cansada
daquela histeria mecânica que povoava os ares, acompanhada de uma insistente
declaração de reforma, ela chega a casa num silêncio deslizante, ele, por
acaso, na rua, olhou com admiração as nuvens reflectidas na brilhante pintura
do automóvel, deslizavam em adeus, virou costas para fazer a mala… Percebo
noite à minha volta, ainda estou com as cortinas amarelecidas, entretanto
iluminadas, talvez, neste momento, ela desvie, para abrir a porta, os oito
meses de gravidez do lavatório, na exígua casa-de-banho, ele na sala, que tinha
o tamanho de um quarto, a levantar-se para lhe ir buscar uma colcha, sabia que,
à noite, ela se queixa de frio, e ele sempre ali ao pé, naquele sexto-andar,
para este lado, quase irmanadas, sala e cozinha, o único quarto fica do lado
oposto, é curioso, ali nunca me senti perdida, e agora, neste silêncio
deslizante, a pintura a reflectir as luzes da noite, não sei que direcção
tomar, de facto, nesta vida há momentos em que duvidamos até de sermos…

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