Livros do Escritor

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Um dia todos acabamos por cair


 

O céu… Apenas o céu, não parecia assim tão longe, como se uma viagem que finda, à sua volta, vozes, mas parecia-lhe que à volta de um outro, afinal, a sua viagem finda no azul que contempla agora tão próximo, é estanho, o azul das alturas sempre lhe pareceu tão longínquo, quase uma irrealidade, e agora diante de si, tangível, de facto, a viagem finda, como se da carruagem percebesse a estação, levanta-se, aguarda apenas que se imobilize para então se apear, e o resto tão longe, como, no fim, tudo se torna uma imensa distância, pois, o céu, apenas o céu… Nisto, uma voz sumida, proveniente de um qualquer canto de si, sussurra Não te levantes, não te levantes… Nem penses nisso! Sem perceber o porquê, deixa-se estar, compreende que está caído no chão do mundo, a olhar o azul das alturas, mas desconhece a razão da queda, um calor súbito convida ao repouso, deixa-se ir, há quanto uma paz assim? O resto tão longe, como, no fim, tudo se torna uma imensa distância, pois, o céu, apenas o céu… De um dos lados, uma mão acompanha na insistência a voz, Não durma! Ouça, não pode dormir! Olhe para mim! Mas porquê aquela insistência? Só queria abraçar uma paz nunca antes sentida, ainda, em esforço, profere duas ou três frases, Deixe-me em paz! Quero dormir! Cale-se, quero descansar, todas num inequívoco sentido de partir, contudo, a voz irredutível, a elevar o tom, Não o vou deixar adormecer! Ouça, diga-me o seu nome! Onde mora? De repente, o calor de há pouco cede o seu lugar a um frio crescente, o anunciado repouso apenas uma miragem sempre por cumprir, entretanto, mais vozes à sua volta, umas em murmúrios, outras elevadas em preocupação, a mão e voz insistentes, do mesmo lado, Ouça, diga-me o seu nome! Onde mora? Neste ponto, resta-lhe pousar a mala no cais de todas as partidas e contemplar o vazio diante de si, chegou tarde, uns já partiram, outros regressaram, àquela hora o cais deserto, e a pedra, sob os seus pés, tão gasta, tão cansada, tão chorada, testemunha muda da tragédia humana.

O céu partiu, agora, sobre si, a brancura artificial de um veículo, compreende, pelo soluçar constante, a marcha acelerada, no exterior, aquele pânico cantado, percebe-se, nesse preciso momento, personagem de uma peça escrita por mão incógnita, não sabe para onde vai, do que padece (embora uma voz sumida, proveniente de um qualquer canto de si, sussurre Não te levantes, não te levantes… Nem penses nisso!), em que dia está, e, de facto, se não está do outro lado das coisas, à espera de um breve sinal que o faça regressar ao aqui, respirar fundo, compreender o alívio pela serenidade do seu quarto devolvida, de, afinal, estar na sua cama, quantas vezes aí não acordou em sobressalto regressado de cenários desolados e absurdos? Contudo, desta vez, havia qualquer coisa de diferente, talvez a entoação daquela voz sumida, proveniente de um qualquer canto de si, a sussurrar Não te levantes, não te levantes… Nem penses nisso! Talvez aquela mão em sintonia com a insistência da voz, Não durma! Ouça, não pode dormir! Olhe para mim! Talvez o azul diluído das alturas que deu lugar à brancura artificial de um veículo, talvez a compreensão de uma dor adormecida que o ameaçava engolir, a marcha acelerada e o pânico cantado no exterior cessaram, ainda mais vozes à sua volta, rostos debruçados sobre si não lhe permitem vislumbrar o céu… Apenas o céu, não parecia assim tão longe, como se uma viagem que finda, no entanto, hoje a sua viagem não termina, é só o que sabe, como personagem de uma peça escrita por mão incógnita, hoje permanecerá caído, hoje não sentirá alívio pela serenidade do seu quarto devolvida, não, nada disso, continuará caído em cenários desolados e absurdos, se ao menos aquela mão incógnita estivesse mais inspirada a escrever-lhe os passos… Se ao menos o poupasse a uma dor adormecida que ameaça irromper a cada instante… Se calasse a voz sumida, proveniente de um qualquer canto de si, a sussurrar Não te levantes, não te levantes… Nem penses nisso! Se tudo fosse uma outra coisa, talvez estas linhas não povoassem a brancura destas páginas…

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