O céu… Apenas o céu, não parecia assim tão
longe, como se uma viagem que finda, à sua volta, vozes, mas parecia-lhe que à
volta de um outro, afinal, a sua viagem finda no azul que contempla agora tão
próximo, é estanho, o azul das alturas sempre lhe pareceu tão longínquo, quase
uma irrealidade, e agora diante de si, tangível, de facto, a viagem finda, como
se da carruagem percebesse a estação, levanta-se, aguarda apenas que se
imobilize para então se apear, e o resto tão longe, como, no fim, tudo se torna
uma imensa distância, pois, o céu, apenas o céu… Nisto, uma voz sumida,
proveniente de um qualquer canto de si, sussurra Não te levantes, não te levantes… Nem penses nisso! Sem perceber o
porquê, deixa-se estar, compreende que está caído no chão do mundo, a olhar o
azul das alturas, mas desconhece a razão da queda, um calor súbito convida ao
repouso, deixa-se ir, há quanto uma paz assim? O resto tão longe, como, no fim,
tudo se torna uma imensa distância, pois, o céu, apenas o céu… De um dos lados,
uma mão acompanha na insistência a voz, Não
durma! Ouça, não pode dormir! Olhe para mim! Mas porquê aquela insistência?
Só queria abraçar uma paz nunca antes sentida, ainda, em esforço, profere duas
ou três frases, Deixe-me em paz! Quero
dormir! Cale-se, quero descansar, todas num inequívoco sentido de partir,
contudo, a voz irredutível, a elevar o tom, Não
o vou deixar adormecer! Ouça, diga-me o seu nome! Onde mora? De repente, o
calor de há pouco cede o seu lugar a um frio crescente, o anunciado repouso
apenas uma miragem sempre por cumprir, entretanto, mais vozes à sua volta, umas
em murmúrios, outras elevadas em preocupação, a mão e voz insistentes, do mesmo
lado, Ouça, diga-me o seu nome! Onde
mora? Neste ponto, resta-lhe pousar a mala no cais de todas as partidas e
contemplar o vazio diante de si, chegou tarde, uns já partiram, outros
regressaram, àquela hora o cais deserto, e a pedra, sob os seus pés, tão gasta,
tão cansada, tão chorada, testemunha muda da tragédia humana.
O céu partiu, agora, sobre si, a brancura
artificial de um veículo, compreende, pelo soluçar constante, a marcha
acelerada, no exterior, aquele pânico cantado, percebe-se, nesse preciso
momento, personagem de uma peça escrita por mão incógnita, não sabe para onde
vai, do que padece (embora uma voz sumida, proveniente de um qualquer canto de
si, sussurre Não te levantes, não te
levantes… Nem penses nisso!), em que dia está, e, de facto, se não está do
outro lado das coisas, à espera de um breve sinal que o faça regressar ao aqui,
respirar fundo, compreender o alívio pela serenidade do seu quarto devolvida,
de, afinal, estar na sua cama, quantas vezes aí não acordou em sobressalto
regressado de cenários desolados e absurdos? Contudo, desta vez, havia qualquer
coisa de diferente, talvez a entoação daquela voz sumida, proveniente de um
qualquer canto de si, a sussurrar Não te
levantes, não te levantes… Nem penses nisso! Talvez aquela mão em sintonia
com a insistência da voz, Não durma!
Ouça, não pode dormir! Olhe para mim! Talvez o azul diluído das alturas que
deu lugar à brancura artificial de um veículo, talvez a compreensão de uma dor
adormecida que o ameaçava engolir, a marcha acelerada e o pânico cantado no
exterior cessaram, ainda mais vozes à sua volta, rostos debruçados sobre si não
lhe permitem vislumbrar o céu… Apenas o céu, não parecia assim tão longe, como
se uma viagem que finda, no entanto, hoje a sua viagem não termina, é só o que
sabe, como personagem de uma peça escrita por mão incógnita, hoje permanecerá
caído, hoje não sentirá alívio pela serenidade do seu quarto devolvida, não,
nada disso, continuará caído em cenários desolados e absurdos, se ao menos
aquela mão incógnita estivesse mais inspirada a escrever-lhe os passos… Se ao
menos o poupasse a uma dor adormecida que ameaça irromper a cada instante… Se
calasse a voz sumida, proveniente de um qualquer canto de si, a sussurrar Não te levantes, não te levantes… Nem penses
nisso! Se tudo fosse uma outra coisa, talvez estas linhas não povoassem a
brancura destas páginas…

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