Livros do Escritor

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domingo, 15 de março de 2026

A porcachona e o tintim – epílogo

 





A pedido de muitos leitores, irei hoje esclarecer por onde andam estas funestas personagens e seus párias, desde já, como é evidente, não caminham por lugares muito ensolarados, não fossem personagens obscuras, a montante destas linhas pontifica um imperativo ético – de alertar incautos que se venham a cruzar com estas sinistras figuras –, bem como satisfazer a curiosidade dos leitores, de outro modo, confesso que nem uma sílaba gizaria, quanto às últimas da porcachona, parece que anda a grunhir muito pelas costas, o bugs bunny (recordam-se?) também caiu nesse erro, e a coisa correu-lhe mal, quase ficava com uma cenourita entalada algures, por conseguinte, é salutar para a porcachona (grunhe baixinho, muito baixinho, porcachona) e sua pocilga que ponham o único neurónio em movimento para não terminarem entalados algures pelos caminhos do mundo, fica o conselho, seria igualmente positivo que andasse com o focinho mais sorridente, quem nasce divorciado da beleza, pelo menos, que sorria, se a este aspecto somarmos as toneladas acumuladas com os anos, nada resta, em verdade, para um homem, a porcachona, de facto, é o primeiro passo para a homossexualidade, quem, no seu perfeito juízo, lhe pegaria? Se, por exemplo, sucedesse a tragédia de me deparar com a porcachona despida, lesto seria a cobri-la, creio que o trauma de tal imagem até induziria impotência, meu Deus, os estragos que a porcachona pode causar – arrepiante!!! Os complexos pelo baixíssimo intelecto – elevadas só a maledicência e a cobardia, ah, e as toneladas, claro, as toneladas – levam-na a grunhir alto perante os demais, só um acéfalo conseguia ouvir um grunhido até ao fim, quanto mais um conjunto, entre o seu público acéfalo está o nosso tintim, pois, esse mesmo, de caminhar bamboleante, a reprimida homossexualidade, talvez um dia alguém lhe dê o desejado beliscão nas nalgas, e fique corado de tanta felicidade, a camisa larga o suficiente para ocultar o crescente barrigão, os três pentelhos brancos no cocuruto, e a barbita pálida, quiçá inspirado no velho da Longa Vida, a abolacharem ainda mais a esférica carantonha, o caminho destes dois tamanhos frustrados inevitavelmente acabaria por se cruzar, é ver a porcachona grunhir, grunhir e grunhir, e o tintim, atrás dela, em hossanas, confrangedor, se ao menos a porcachona lhe desse o ambicionado beliscão nas nádegas bamboleantes, não podia cair-lhe em cima, coitadinho do tintim, nem um segundo resistia, embora fosse um severo meio de desbloquear a reprimida homossexualidade, quem sabe, à vista de um avanço da porcachona, o tintim procurasse o tão desejado colo onde pousar as suas nádegas bamboleantes, por ali pululam outras sinistras figuras conhecidas, a ratazana, agora sem bandolete, outro drama, a rainha do pedaço, com os óculos no cimo da tola, julga que, com esse artefacto, espanta as rugas em crescendo, a obesa de nome azeiteira, o pombo-correio do lugar, até chegou do sul, veja-se bem, para se sentar cada uma precisa, no mínimo, de duas cadeiras, tal a dimensão das nalgas, a menopausa é uma coisa tramada, uma questão transversal, ao atentar no focinho destas aberrações, é: Qual foi a última vez que tactearam os céus? Se é que algum desgraçado lá as conduziu… Se houve, foi há muito, há demasiado, tais as expressões cinzentas, azedas, até masculinizadas, a menopausa é uma coisa tramada, crescem para todos os lados, no entanto, o intelecto subsiste minúsculo, grandessíssimas FRUSTRADAS estas aberrações andantes, até suscita dó ouvir o exíguo vocabulário, onde a muleta “prontos” surge, de forma salvífica, a pontuar-lhes as boçalidades emitidas, frustradas físicas e intelectualmente: a coisa só podia descambar em complexos estampados no focinho e nos gestos; por ali cirandam, em torno da porcachona, o tintim, com o seu estrogéneo em alta, em coscuvilhices ora com uma, ora com outra, apesar de incessantemente o seu olhar, maroto e ardente, procurar um matulão que lhe dê o tão ansiado beliscão nas nádegas bamboleantes, se as menopausas ambulantes e FRUSTRADAS ansiassem por um beliscão, só se requisitassem uma retroescavadora, com a dimensão daquelas nalgas seria a única possibilidade de sentirem algo, há uns dias até mandaram uma menopausa, outra aberração, bem adiantada, cuja carantonha parecia um mapa de estradas, tal a profusão de rugas, dar um recadito mal-amanhado, o interlocutor, da aberração rugosa, deixou-a sozinha a debitar alarvidades, não fosse a burra-enrugada, com um pouco de atenção, julgar-se gente, por ali também pontifica o manguinhas-de-alpacas, de casaquinho de bombazina, com penteado à primeira-comunhão, esse pouco aparece entre as menopausas ambulantes e FRUSTRADAS, embora cumpra qualquer coordenada por ali emitida, esse é uma figurinha rasteirinha, estéril, frases ocas e deveras superficiais, apesar da falsidade, suada por cada poro, não passar despercebida a quem sabe olhar o mundo há muito, sem qualquer conteúdo, basta atentar no anacronismo da indumentária e de lhe perdurar o penteado com que saiu de casa para a primeira-comunhão, caros leitores, espero que a vossa curiosidade, com estas linhas, sempre públicas, quem nasce com Coluna-Vertebral não sabe rastejar, fique saciada sobre o paradeiro da porcachona, tintim e seus párias, genuínas aberrações caminhantes pelo mundo. 

sexta-feira, 13 de março de 2026

Uma marquesa a caminho de Tavira


A maior parte do tempo esquecemo-nos de viver o presente, preocupações, sonhos por realizar, cansaço, a voragem do dia-a-dia, enfim, o drama da vida contemporânea, no entanto, só quando um facto, iniludível e dramático, se anuncia no amanhã, é que fincamos os pés no presente, saboreando cada instante, como se o futuro apenas uma ilusão, há décadas que ocupava, através de um subaluguer, uma salita, se assim se pode denominar uma divisão, de oito metros quadrados, numa cave, quase inteiramente ocupada por uma marquesa, onde mitigava dores articulares, endireitava colunas e derramava o seu “saber”, bom, este último conceito é, sem qualquer dúvida, bastante controverso, não por acaso era conhecido como o Mestre, havia quem, de facto, se deitasse na marquesa só para ouvir as suas histórias, únicas, inolvidáveis, dignas de figurar em qualquer compêndio de actos de bravura, as más-línguas, como é evidente, escarneciam e questionavam a sua veracidade, pura inveja, nada mais, quem, no seu perfeito juízo, ousava colocar em causa a palavra do Mestre? Desde a travessia do Tejo, na foz, debaixo de água em apneia, às incursões aéreas, em território inimigo, durante a guerra colonial, enquanto piloto, ou realizar elevações, durante uma tarde inteira, para gáudio dos espectadores que se avolumaram com o decorrer das horas, tudo em palmas e espanto perante aquele titã descido dos céus, sem esquecer os múltiplos corações despedaçados e suspirantes que foi deixando à sua passagem, a verdade é que muitas chegavam cambaleantes e curvadas, num dramático esforço lá desciam a escada e, como se por milagre, volvida menos de uma hora, era vê-las renascidas, alegres e a correr escada acima, se alguém, má-língua ou não, ousa escarnecer e questionar a veracidade destes factos, estou cá eu para categoricamente os asseverar, quando algo lhe desagradava, com a sua voz arrastada e cavernosa, invocava um camarada de armas, “Cheira mal… Cheira muito mal…”, certo dia foi confrontado com a notícia de que a sua marquesa teria de abandonar a divisão, de oito metros quadrados, numa cave, pensou “Cheira mal… Cheira muito mal…”, mas não verbalizou, o espaço ia para trespasse, ironia do destino seria também para mitigar dores articulares e endireitar colunas, inferiu, desde logo, que os seus préstimos seriam mais do que imprescindíveis, como podem testemunhar as dezenas, perdão, centenas, que chegavam cambaleantes e curvadas, num dramático esforço lá desciam a escada e, como se por milagre, volvida menos de uma hora, era vê-las renascidas, alegres e a correr escada acima, continuou os seus afazeres, na salita, de oito metros quadrados, quase totalmente preenchida com a marquesa, a questão do encerramento do espaço não era tema de conversa, de forma tácita foi remetida para o silêncio, mediante quem se deitava na marquesa escolhia o tema das suas narrativas, ora a incansável história da travessia em apneia, ora enumerava os milhares de livros lidos, o pai detentor de uma biblioteca só com rival na de Alexandria, se alguém mais ousado colocasse uma questão específica sobre determinado autor, fungava uma vez, duas, ainda uma terceira, e sua voz arrastada e cavernosa logo “Esta contractura tem de ser debelada…,” quem, perante este alerta, “Esta contractura tem de ser debelada…,” ousaria lembrar-se de um autor e das suas obras? A atenção, de imediato, focada na génese das tão incómodas dores, se, desde cedo, o Mestre se viu perante tão rica e sumptuosa biblioteca, é natural o seu vastíssimo conhecimento, só o seu pai detinha seis licenciaturas, quatro mestrados e três doutoramentos, ou quatro doutoramentos, três mestrados, pois, talvez fosse por aí, os seus três irmãos todos engenheiros destacadíssimos em diferentes áreas, ele simplesmente o Mestre, tudo estava dito, nem uma sílaba a mais, já antevendo crises climáticas e numa medida deveras ecológica, passou a realizar a sua higiene nos balneários daquele espaço, escusava assim de gastar água em casa, o ambiente não podia estar mais grato, o tempo, esse estranho que incessantemente nos ilude, passou, até que, sempre mais cedo que o expectável, o dono do espaço alerta-o de que, no dia seguinte, teriam de retirar tudo, uma fungadela, duas, ainda uma terceira, e “Cheira mal… Cheira muito mal…”, à sua frente apenas vislumbrou um conformado e sofrido encolher de ombros, como décadas se evolam num instante?! Na manhã seguinte, alguns curiosos se avolumaram à porta a assistir à retirada das mobílias e para um derradeiro adeus, a verdade é que, desde sempre, se ilumina uma luz interior aquando da desgraça alheia, o homem e os seus paradoxos, começou cedo o trabalho, a manhã já ia alta quando só faltava retirar a marquesa da salita, se assim se pode denominar uma divisão, de oito metros quadrados, numa cave, bateram à porta, como resposta “Cheira mal… Cheira muito mal…”, uma segunda vez, como resposta, de novo, “Cheira mal… Cheira muito mal…”, dez minutos, vinte, chamaram o antigo arrendatário para intervir, a porta permanecia fechada, uma hora, uma hora e meia, perante tal intransigência, viram-se forçados a arrombá-la, incrédulos ficaram perante o cenário encontrado: o Mestre amarrara-se à marquesa; houve gritos, súplicas, a notícia subiu mais rápido as escadas do que as pacientes do Mestre, na rua já comentavam, a multidão duplicou à porta, uns minutos depois, triplicou, tudo numa crescente ansiedade para ver o desfecho, uma hora depois, dois indivíduos saíram com a marquesa onde permanecia o Mestre amarrado, houve palmas, gritos, choro, clamor, incentivos, aclamações, o povo num frenesim à vista do Mestre amarrado à marquesa, só quando a agitação serenou um pouco, a marquesa foi colocada, uns metros acima da porta, no passeio, o povo, de imediato, acorreu, um jovem aproximou-se e disse algo, o Mestre, ainda amarrado à marquesa, olhou-o e, com notória assertividade, disse-lhe: “Oh jovem, a falar com o Mestre, com as mãos nos bolsos?!”

segunda-feira, 9 de março de 2026


 

... as grandes lições da existência gravam-se sempre mais na alma do que na carne...

in Nuvens passeantes pelas águas

sexta-feira, 6 de março de 2026

Finitudes

 


O mais curioso de tudo é que fomos lá juntos, quase parecia uma segunda lua-de-mel, os preparativos, passaportes, a escolha do fim-de-semana, os miúdos com a minha mãe, a viagem, assim que aterrámos, uma chuva miudinha omnipresente, pelo rosto, pelas roupas, ele “Já estou com saudades do nosso sol”, limitei-me à ternura de lhe dar a mão, assim silenciava angústias, ele, como sempre fazia, segurou-a num sentir feito gesto, após o aeroporto, a chegada ao hotel, a chave, elevador, o quarto (talvez alguém se tivesse esquecido de um sonho na almofada, não sei porquê, mas sempre desejei encontrar, nem que fosse por uma vez, um sonho abandonado. Tantas coisas largadas no mundo, mas ninguém se esquece de levar os sonhos consigo!), por fim, abrir malas, só depois, muito depois, um passeio já sob candeeiros iluminados, caminhávamos não pelas ruas novas para o nosso olhar, mas, no fundo, pelas interrogações que o amanhã nos apresentava. Há uns meses, sem nada me dizer, não sei se por afirmação pessoal, se por gozo, aventura, candidatou-se a uma vaga numa empresa de construção no exterior, que oferecia, entre muitas e vantajosas condições, o quádruplo do vencimento, disse-me, depois, que tropeçou no anúncio, contudo, contactaram-no, de imediato, para uma entrevista, da incredulidade inicial passou para um genuíno interesse, nesta fase, começamos a ver-nos dentro do quadro, foi enquanto se descalçava, não escolheu o momento ao acaso, que deixou no ar “Sabes que recebi uma proposta de trabalho do exterior?” Repara como ele colocou a questão… Ocultou apenas os seguintes factos: a candidatura foi de sua iniciativa, sabia das vantajosas condições de trabalho, como auferir o quádruplo do actual ordenado, partiu de uma carência de afirmação, e mais importante que tudo: já se via como parte integrante do quadro; não, não era um mero espectador, olhava-se já como personagem: e aqui reside a diferença entre equívocos e factos… Confesso que, na altura, não dei o devido relevo à sua questão, pois, não escolheu o momento ao acaso, ocupada que estava com o quotidiano, acho que lhe respondi “Olha que bom! Alguém que nos dê o devido valor”, a resposta saiu-me assim, quase como se fosse um cumprimento, uma exigência da educação, se fosse mais atenta, se não desse tanto de mim ao quotidiano, teria reparado que ele levara o triplo do tempo para se descalçar, que a frase lhe saíra a custo, numa naturalidade demasiada que apenas ocultava a teatralidade da situação, que permaneceu sentado de costas, nem ousou virar o rosto, que deu um longo suspiro enquanto lhe respondia com o cumprimento, se fosse mais atenta conheceria, há muito, a diferença entre equívocos e factos.

Como dizia, pois, o passeio sob candeeiros iluminados, caminhávamos não pelas ruas novas para o nosso olhar, mas, no fundo, pelas interrogações que o amanhã nos apresentava, a chuva miudinha não se esquecia de nós, conferia às coisas uma imaterialidade de sonho, parecia que não pisávamos o chão do mundo, quase como se pairássemos sobre as coisas, apenas o frio líquido no rosto nos devolvia à nossa circunstância, um vulto ou outro, com o familiar guarda-chuva, protector de almas, sobre a cabeça, cruzava-se connosco na irrealidade daquele cenário nocturno, com pontos luminosos difusos e contorcidos pela cortina de água, regressámos, partiu de mim, eu não era personagem daquele cenário, tinha a alma desprotegida, chovia-me nas minhas dores, ele, pelo contrário, percebi que não se importava de continuar, só aquando dos primeiros esboços de regresso é que lhe compreendi contrariedade, já era um caminhante imaterial daquele sonho, sem eu saber, talvez algo lhe protegesse a alma. Foi sem surpresa que, no dia seguinte, após a entrevista, me anunciou ter aceitado a oferta de emprego, de novo, cada um caminhava pelas suas paisagens interiores… O resto, já sabes, passados dois meses, regressou, desta vez para ficar, àquela omnipresente chuva miudinha, agora que penso nisso, é curioso, parecia já lhe conhecer os contornos do rosto, ao contrário de mim, ele nunca fechava os olhos, como se lhe conhecesse o gosto, e os miúdos, quando contámos, abraçaram-se-lhe ao pescoço, aqueles lugares onde as palavras não entram, percebes, não é…? Nesses dois meses reaprendemos o namoro. Sabes aqueles objectos que procuramos incessantemente, depois, quando a sua existência há muito ignoramos, num repente, surgem diante de nós, como se nunca tivessem dali partido? Pois, assim foi com aquele estar do namoro, uma ânsia por alguém que encerra em si o Sentido, de um momento para o outro, apesar dos filhos, das fiéis contas na caixa-do-correio, dos anos de permeio, dos silêncios obstinados, das noites de omoplatas, ali estava, no tapete de entrada, como se nunca tivesse partido, renovámos juras de amor, ele “Aos fins-de-semana regresso. Estamos no século XXI! São só duas horas de avião! E a qualidade de vida que vamos garantir aos miúdos, já viste? E quando eu não puder vir, vão vocês ter comigo. Certamente, ainda vamos estar mais horas juntos,” enquanto ele falava, não sei porquê, surgiu-me a imagem da omnipresente chuva miudinha que parecia familiarizada com os contornos do seu rosto, os miúdos não o acompanharam até ao aeroporto, preferi que ficassem com a minha mãe, fomos só nós, uma mala bastou para se levar, não percebi se indiciava pressa de partir ou urgência no regresso, aguardámos sentados pelo  voo, descansei o pensar no seu ombro, enquanto ele calendarizava o futuro de regressos e partidas, e eu que sempre senti uma repulsa visceral por estes lugares de gestos efémeros que se suspendem num para sempre, até que uma voz mecânica anunciou a partida, caminhei a seu lado até onde me fui permitido, não ousei falar, o sentir desarrumado estender-se-ia à minha frágil voz, e no meu céu interior, naquele momento, uma omnipresente chuva miudinha, essa sim conhecia os contornos do meu rosto, abraçámo-nos durante o necessário de um sentir feito gesto, quando me regressei, ele já ia para além de efémeros gestos que se suspendem num para sempre, antes da derradeira porta, olhou para trás, o seu rosto estava como há dois meses, parecia dizer-me “Já estou com saudades do nosso sol”, o meu olhar desceu à mala que bastou para se levar, não percebi se indiciava pressa de partir ou urgência no regresso, é que há tantas coisas largadas no mundo, mas ninguém se esquece de levar os sonhos consigo.


 

domingo, 1 de março de 2026


 

"... estava sentada, num longo e desumanizado corredor, a humanidade, num hospital, só se circunscreve a alguns gestos, não é verdade?"

in Nuvens passeantes pelas águas

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Se regressar, espero lá nos encontrarmos

 


Não sei porquê, de repente, o meu olhar em lentos passos pelo seu rosto àquela hora, devia a tarde estar no auge, ou talvez já caminhasse um adeus, ele sentado à janela, na cadeira do costume, sempre com a rua, ou talvez não, pousei o que me ocupava o momento (e penso que mais vezes devia ter pousado o que tanto me ocupou os momentos…), enterneci-me com a expressão que ostentava, o menino do ontem e o velho do hoje num duelo para ver quem ocupava mais espaço naquele rosto, não se apercebeu de que pousara o que me ocupava o momento para o olhar, a luz de adeus do exterior, não sei porquê, inclinava as coisas a favor do menino do ontem, os cabelos de prata tornavam-se dourados, os sulcos da vida impressos na face tornavam-se difusos no jogo de sombras daquela hora, aproximei-me, não se apercebeu, sempre a rua, talvez aí procurasse o menino do ontem, estendi-lhe a mão e encaminhei-o para dentro, a dificuldade em se levantar acentuava-se, ainda há uns dias, a nossa mais velha A mãe tem de se mentalizar o que é melhor para todos. Qualquer dia, dá cabo da sua saúde também… Isto assim é que não pode continuar! Acha que o pai daria pela diferença, nesta fase, de estar em casa ou num lar? Sinceramente, devia poupar-se… Desde cedo, percebi a proximidade entre palavras e lâminas, quase lhes sinto uma certa consanguinidade, por uns momentos, detive-me a olhá-la pelo lado do ontem, talvez por saber que ajuda a suavizar as coisas, dessa janela, via-a às cavalitas do pai, a insistir, nas manhãs de escola, quase em birra, para que fosse o pai a levá-la à escola, e aquela noite, antes de jantar, eu sabia de antemão do que se tratava, a campainha, disse-lhe para descer e ajudar o pai com as compras, lá em baixo deparou-se com um carro novo, assim que a viu, o pai atirou-lhe as chaves, ela entre a incredulidade e uma alegria irreprimível, quase o sufocou com um daqueles abraços sem amanhã. A irmã, bem mais nova, não se conteve Quando for mais velha, também vou ter um, não é? Não tardámos com o Sim. Veio numa fase em que, de certa forma, já estávamos acomodados, a sua chegada fez-nos despertar para a existência, como se revivêssemos um período há muito ido. Mas a mais velha, talvez pelas exigências da idade, ou do temperamento, exigia-nos mais cuidados. Sempre que pensava nas diferenças entre elas, a imagem da minha vizinha com os dedos estendidos e a frase recorrente a ilustrar Pois é, os filhos são como os dedos da mão, têm a mesma origem, mas são todos diferentes. Nunca se esqueça disto! Anos depois, a mais velha, claro, exigia-nos mais cuidados, trocou o curso por um súbito casamento e uma maternidade quase imposta, não gostámos da sua escolha, mas sabíamos, de antemão, que, neste particular, escolher estava além do nosso jardim, respeitámos, claro, embora isso não quisesse dizer que aceitássemos, certa noite, levou o sujeito lá a casa, teria mais uns dez anos que ela, um divórcio às costas, dois filhos reféns desse outrora lar, sobrevivia pelo ramo imobiliário, denotava-se pelo discurso tiques de vendedor, assim que o vi, confesso, desagradou-me, o mesmo sucedeu com o pai, bastou darmos as mãos, enquanto eles entravam, para nos percebermos… Desde o fato profusamente coçado, à pasta de gel que reflectia candeeiros, aos despojos de acne de uma juventude sofrível que lhe pontuavam o rosto, à artificialidade dos gestos e modos que indiciavam somente um carácter sem chão, de facto, não, não gostámos da sua escolha, ainda hoje, quando, num acaso da vida, regresso a estes momentos, não é difícil, basta olhar o rosto do meu neto, questiono o que levou minha filha a olhar aquele sujeito, o miúdo, coitado, sempre o mantivemos fora desta arena de sentires desordenados, embora lhe reconhecesse, em certos traços de carácter, a herança paterna, talvez na verbosidade, muitas vezes, de assuntos onde estava tão aquém… O curso esfumou-se, o filho ficou, o sujeito partiu, foi reflectir candeeiros para outras paragens, o resultado expectável, não houve censuras, recriminações, nada, quando a campainha soou mais pesada, parecia anunciar o filho e as malas que ela trazia, o pai limitou-se a abrir-lhe a porta com uma expressão ternurenta, preferiu calar-se a dizer algo desajustado, eu não consegui, assim que as malas e o miúdo sob a luz do candeeiro da entrada, não me contive Pois… Pois, de falta de aviso não te podes queixar… Estava escrito! Só não viu, quem não quis, não ousou ripostar, no fundo, ela sabia de que lado estava a razão, e apesar de orgulhosa, a sobrevivência impunha-se. A irmã não se manifestou, estava naquela fase da vida em que a manhã compreende que se torna tarde. Não se seguiram tempos fáceis, porém, ela não permitiu que o miúdo se tornasse em mais uma despesa nossa, empregou-se, apesar da insistência paterna para que retomasse o curso, respondia laconicamente Agora é impossível! Tenho um filho. E sou eu que tenho de lhe pôr o pão de cada dia na mesa. Tínhamos orgulho pela assumpção da responsabilidade, contudo, havia em nós simultaneamente uma dor inconfessada pelo curso abandonado e por uma existência inconclusa: sempre que a olhávamos, víamos duas pessoas: a real e a sonhada; a que é, e a que podia ter sido. Ela também o sentia, daí a pressa constante, nos gestos e palavras, sempre que na nossa presença. É sabido que, pelo menos, vivemos duas vidas: a pensada e a vivida. Somos plurais, é um facto. Foi o pai que a fez reaprender a lentidão dos gestos e palavras, quando se aproximou do neto, lhe aligeirou, com o seu saber, o fardo de existir, e, por fim, fê-la sorrir, como um caminho que, sem saber muito bem porquê, nos esquecemos ou deixámos de usar por uma qualquer súbita conveniência…

Desde cedo, percebi a proximidade entre palavras e lâminas, quase lhes sinto uma certa consanguinidade, por uns momentos, detive-me a olhá-la pelo lado do ontem, talvez por saber que ajuda a suavizar as coisas, mas não, pelo contrário, como é que ela ousa Acha que o pai daria pela diferença, nesta fase, de estar em casa ou num lar? Sinceramente, devia poupar-se… Depois de, numa outra vida, foi tão ontem que assim me parece, com uma infinita paciência o pai tê-la feito reaprender a lentidão dos gestos e palavras, quando se aproximou do neto, lhe aligeirou, com o seu saber, o fardo de existir, e, por fim, fê-la sorrir, como um caminho que, sem saber muito bem porquê, nos esquecemos ou deixámos de usar por uma qualquer súbita conveniência… Hoje vejo uma sombra do homem que foi, mas, pelo menos uma vez por dia, através de um olhar, um gesto, um sorriso, a sombra dilui-se e ele ressurge, como se não houvesse ontem, como se nunca tivesse partido, e isso para mim é mais que suficiente.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026


 

... a absoluta consciência de a felicidade ser uma ilusão, por ser passageira do passado… Todos a procuram no amanhã, porém a sua morada é no ontem!

in Nuvens passeantes pelas águas

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Só tenho o sol e a lua

 


Se me perguntassem, hoje, se o voltaria a fazer, a minha resposta seria sim. Não há como lhe fugir. Confesso que me custou depois, e as lágrimas que não caíam, acho que foi a primeira vez que chorei para dentro, parecia que as lágrimas vinham do mundo para mim… Tudo começou no final de uma manhã, a campainha, o meu filho a entrar, percebi-lhe, pelos passos do olhar, que me ia pedir algo, como se fosse o menino que ainda guardo em mim, primeiro, a olhar à volta, passos lentos na minha direcção, a voz pausada e serena, quase a soletrar Sabes, mãe… Começava, sempre que queria algo, assim a frase (Sabes, mãe…), com a voz pausada e serena, neste caso, falou-me da possibilidade de um negócio qualquer com o meu genro, um café, lá do bairro, estava para trespassar, não por falta de liquidez, ressalvou logo, apenas o cansaço e a idade do casal, há anos que o homem dizia aos clientes Estou a ficar fora de prazo! Qualquer dia, passo isto e regresso à minha terra. Não quero morrer sem cumprir o sonho de construir uma casita na minha aldeia. E de, pelo menos, eu e a minha patroa termos uns anos de descanso por lá. A cidade mata-nos. Isto não é vida para ninguém! Pegamos de sol a sol… E férias, nem vê-las! Sabe há quanto não sabemos o que é um fim-de-semana? Ocultou-me as últimas cinco frases da sua argumentação, só muito depois é que as conheci. Acrescentou que seria uma excelente oportunidade para todos, como isto não está nada fácil de empregos, assim sendo, precisavam de um avalista para o empréstimo, lembro-me tão bem, a vida é muito engraçada, há coisas que não nos largam e outras que parece que nem lá estivemos, neste caso, estava a preparar-me para descascar as batatas do almoço, ao falar disto quase as sinto ainda em minhas mãos, como se nunca as tivesse largado, disse-lhe logo que sim, apenas relembrei a minha reforma, que ia pouco além de quinhentos euros, ele retorquiu que, o avalista, se tratava de uma mera formalidade bancária, encolhi os ombros, queria simplesmente que eles encontrassem o seu espaço neste mundo, e, tratando-se do meu genro, que a família se reencontrasse, bem sei que nunca foram muito próximos, isso, de certa forma, contribuiu para que ele e a irmã se afastassem um pouco, dói ver seres, nascidos da nossa carne, caminharem tão afastados, durante uns tempos, consegui juntá-los à minha mesa… Nessa noite, a campainha, minha filha e meu genro, já sabiam do meu sim, vinham agradecer e descansar-me, Não te preocupes, mãe, que vamos todos arregaçar as mangas. Vai ser um sucesso! Já temos umas ideias para inovar o espaço, até vamos reformular o conceito… Neste ponto, eu ficava a olhá-la, nunca percebi se ela falava mesmo assim ou se fazia de propósito para que não a percebesse, sempre que me alheava de uma conversa, aprendi a prestar atenção aos gestos e expressões da pessoa, falam sempre muito mais que as palavras, por vezes, tornam-se ensurdecedores com os seus desesperados e calados gritos, confesso a minha preocupação após esta visita nocturna, minha filha caminhava pelo sonho, arrastando com ela o seu companheiro, em contraste com o irmão, que se movia pela necessidade, apesar de todos conhecerem o flagelo do desemprego, partiam de lugares tão distintos, sonho e necessidade não vivem debaixo do mesmo céu.

Cinco meses depois, a campainha, também num final de manhã, dessa vez, lavava umas alfaces para a salada, fechei a torneira, limpei as mãos, meu filho, com um ar transtornado, pensei a questão mas acabei por não lhe dar voz (Não devias estar a trabalhar?), era demasiado evidente, ali à porta, a olhar o tapete, sempre que perdia nos jogos de bola, fazia o mesmo, pois, o menino que ainda guardo em mim, entrou devagar, sentou-se, falou, falou, não o interrompi, nem o devemos fazer, aprendi, há muito, que os gestos e expressões falam sempre muito mais que as palavras, por vezes, tornam-se ensurdecedores com os seus desesperados e calados gritos, afinal o café não abre portas há três semanas, confessou-me que não tencionam reabri-lo, primeiro, acusaram-se de, ao final de cada dia, as contas nunca baterem certo, seguiram-se recriminações por uns trabalharem mais que outros, a minha filha queria investir para reformular conceitos, o irmão, e bem, achava prematuro, certa tarde, filho e genro quase de pegavam em frente aos clientes, avançaram com os papéis para a dissolução da sociedade, neste ponto, ninguém se lembrou do empréstimo ao banco, continuam a não se lembrar, mesmo que a memória se refrescasse, nada poderiam fazer, com o tempo, percebi que um avalista é tudo menos uma formalidade bancária, comecei a receber carta atrás de carta com uma frequência quase diária, logo eu que só tinha as três ou quatro contas providenciais a desaguar-me todos os meses na caixa-do-correio, certa tarde, ao levantar a reforma, dão-me trezentos e poucos euros, a minha indignação de nada valeu, só duas semanas depois é que me informaram da penhora de um terço da minha pensão, seguiu-se um panfleto colado na porta, retirei-o, claro, li-o mais que uma vez, contudo, faltavam-lhe gestos e expressões, falam sempre muito mais que as palavras, depois, bom, não quero falar disso, nem o vou fazer, a vida é muito engraçada, há coisas que não nos largam e outras que parece que nem lá estivemos, não sabia que podiam ser simultâneas, hoje para aqui estou, num pequeno quarto, em casa do meu filho, quando me convidaram a deixar a minha casa, um homem, de fato, com um papel na mão, acompanhado de polícias, não quero falar disso, nem o vou fazer, lembrei-me de, certa vez, alguém dizer Quando se fala muito em liberdade, é mau sinal, pois, eu a pensar onde estava a liberdade quando me apontaram a porta da rua da minha própria casa, tive de me amparar aos móveis para não cair, uma incredulidade raivosa apoderou-se de mim, concluí que, a partir de agora, só me restavam o sol e a lua, nada mais, não quero falar disso, nem o vou fazer, várias vezes, enquanto caminhava para fora da minha casa, ouvi por mais que uma voz A senhora sente-se bem? Não quer parar na farmácia? É melhor medir essa tensão! Foi meu filho que serviu de véu quando as lágrimas do mundo correram para mim, contaram-me, mais tarde, que a irmã estava do outro lado do passeio a assistir, discreta, que chegou a discutir com a polícia e com o homem do fato, que lhes gritou Esta casa viu-me nascer! Soube, uns dias depois, que deixara de ter genro, não posso dizer que o lamente, talvez ela apareça uma noite destas para jantar, e, se ela aparecer, queria sossegá-la, dizer-lhe que Dificilmente a casa que nos viu nascer será a do último adeus…

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026


 

... nós, juntos, brilhávamos em demasia – até o mundo parecia invejar-nos…

in Nuvens passeantes pelas águas


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026


 A questão que nos devemos colocar é: ao olhar para trás, faríamos alguma coisa diferente?

in Nuvens passeantes pelas águas

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O homem do sorriso triste

 


Todos os anos é a mesma coisa, após as férias, aí vem ela, naquele seu jeito acelerado, com os meus dois netos, o meu filho sempre cinco a seis passos atrás, entra e senta-se sem o mínimo de um providencial com licença, nunca me habituei a isto, nem quero tal coisa, houve quem já me dissesse Não ligue! Ignore, que é o melhor que faz… Esta geração é assim! Que se há-de fazer? A isto, eu respondo Educação desconhece idades ou gerações. Simplesmente, ou se tem ou não, repito, nunca me habituei a isto, nem quero tal coisa, mas, como dizia, ela já sentada, os miúdos ainda no corredor, o meu filho, coitado, a fechar a porta de casa, a relatar-me as férias, para melhor ilustrar o vazio das suas palavras, socorre-se do rectângulo do hoje, a forma do indicador aterrar na superfície envidraçada confere-lhe, confesso, uma ilusória noção de elegância, que, em verdade, nem ela nem os seu desengonçados gestos possuem, contudo, na aparência tudo é sempre uma outra coisa, e ela, coitadita, de dedo em riste, puxa imagem daqui, empurra outra para acolá, como se eu, alguma vez, com os anos que tenho desta desgraçada estadia neste estranho lugar a meio sempre de qualquer coisa que só no fim saberemos o que é, esperamos bem que sim, ficasse pela superfície das coisas, o irritante e incansável indicador fazia-se acompanhar da sua inqualificável voz Já viu? Esta tirámos de propósito para si. Esta praia fica mesmo em frente ao hotel. É fantástica, não acha? E os seus netos ficaram tão bem… Entretanto, os miúdos entram, a voz dela cessa, por pouco, bem sei, cumprimentam-me e logo se vão sentar, denoto que nem o esforço de abrir uma porta de diálogo, pois, nunca me habituei a isto, nem quero tal coisa, por fim, o meu filho, ainda por cima único, tanto que eu e o pai sonhámos para ele, cumprimenta-me com pudor sempre que na presença dela, há tanto que li estas entrelinhas, ainda namoravam, e ela já lhe atirava à cara És mesmo um menino da mamã! Isto parece que se lhe interiorizou, desde então, este pudor de gestos e palavras, como se um espartilho, olho-o e percebo-lhe uma sombra pousada no rosto, não, acreditem, não é coisa de mãe, muito menos um delírio de velha, há muito que o meu filho, ainda por cima único, vive com uma sombra pousada no rosto, nem de propósito, quase de seguida, a boçal atira Já viu? O seu filho é que fica sempre cá com uma cara… Sinceramente! Vira-se para ele e acrescenta Não és nada fotogénico! Aqui quase lhe respondia, mas, num último instante, consegui segurar a frase que me deixava (Se não é feliz, não pode ter boa cara!), confesso desconhecer o porquê de me ter calado, talvez essa fala pertencesse a uma outra voz, sim, talvez seja por aí, afinal, não foi para mim que ela se virou (Não és nada fotogénico!) … Teria de ser ele a afastar a sombra pousada no seu rosto, há coisas que já são uma nossa pretérita pertença, como se estivessem largadas no mundo à espera da nossa passagem, este momento aguardou por ele, sempre ali esteve, de todas as formas possíveis, o eco ainda se arrastou pelos ares da tarde (Não és nada fotogénico!), ele impassível, parecia habitar outro contexto, a sombra pousada no seu rosto vencia-o sempre, reparei que, nos momentos seguintes, evitou o meu olhar, nada de novo, quantas vezes, desde que ele abriu a porta da nossa casa à boçal, isto se repetiu? Tanto que eu e o pai sonhámos para ele! Ainda me lembro, pelos seus últimos dias, o meu querido marido, em esforço, a articular Mulher: vê se metes algum juízo na cabeça do nosso Fernandinho! Aquela mulher nem para um bode serve! E, pouco dias depois, partiu… Com este desgosto, é certo, mas que fazer? Abrimos a porta do mundo aos filhos, mas são eles que escolhem a que sombras querem repousar, para mim, a tarde já vai alta, relembro a janta que tenho de fazer, ela percebe o toque, que eu sei, embora se faça desentendida, mudo de estratégia E agora que as férias acabaram, vai procurar trabalho? Ou acha que não vale a pena? Já conheço a sequência desta cena, os movimentos aceleram-se-lhe, enquanto procura desconversar, as feições endurecem, empurra os miúdos para a porta, por fim, pelo rosto do meu filho, leio-lhe uma censura inarticulada pela minha última frase: nem sombras, nem ecos, nem fotogenia: apenas uma reprovação silenciada pelo gesto feito frase. Entretanto, a boçal já a chamar o elevador, os miúdos nem um adeus, pois, nunca me habituei a isto, nem quero tal coisa, por mim, já vão tarde, afinal, as pontes só ligam margens possíveis, e eu estou cansada, tão cansada, desta desgraçada estadia neste estranho lugar a meio sempre de qualquer coisa que só no fim saberemos o que é, esperamos bem que sim, que agradeço a paz restituída, vou à janela, vejo-os lá em baixo, a boçal à frente, depois os miúdos, ele para o fim, cinco a seis passos atrás, naquele seu modo de andar desarticulado, sorrio para mim à vista disso, quase o revejo de sapatos ortopédicos, mochila às costas, a caminho da primária, parece que foi há bocado e, afinal, aconteceu numa outra vida, suspiro longamente enquanto um pensamento regressa-me abrimos a porta do mundo aos filhos, mas são eles que escolhem a que sombras querem repousar…

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Adeus, Shane


 

Sempre que me falam de cinema, é a cena final, deste maravilhoso filme, que me povoa, não sei porquê, ou talvez saiba, afinal, não há questões sem resposta, teria os meus doze anos quando, lá por casa, meu pai Tens de ver este filme! Ouvi-o e, de imediato, assenti, regra geral, sempre que meu pai (Tens de ver este filme!), acertava, neste caso, foi mais além… Não, não vou relatar pormenorizadamente a história, enaltecer as interpretações, realçar o tom crepuscular de todo o filme, bem como o sublimado triângulo amoroso, a magistral banda sonora, nada disso, vou simplesmente centrar-me no efeito que, após ouvir o lamento daquele miúdo (Adeus, Shane), teria mais ou menos a minha idade, aquele serão provocou em mim. De facto, há coisas, nesta vida, que nos espelham a geografia da alma, uma pessoa, um livro, um filme, uma música, até uma paisagem, nessa noite, oscilei entre o miúdo que era e o herói que partia ao crepúsculo, após cumprir a sua promessa (De não haver mais armas no vale…), sim, Shane era um homem de palavra, desconhecia o nim, hoje, já adulto, quase tudo é gente do nim, em todos os sectores desta apalermada sociedade, do profissional ao lúdico, é curioso, se alguém chamar o outro de palerma, poder-se-á considerar ofensivo, mas poucos se importam de fazer figuras aparvalhadas, desde assistir, por vezes boquiabertos, a autênticos dejectos televisivos, a aderir entusiasmadamente a todas as modas subterraneamente chegadas, como “caçar” bonequinhos imaginários, entre outros feitos dignos de causar a repulsa dos nossos avós, creio que, neste cenário, Shane jamais se apearia, continuaria a sua marcha rumo a um lugar digno de si, por estes lados, já ninguém olha o outro nos olhos, ainda menos os inimigos, que sempre existem, estão identificados, e este é o melhor dos mundos para eles se mobilizarem, tudo permanece numa anestesia de delírio e fúteis risos, estou a escrever isto com a profunda convicção de que nem meia dúzia conhece Shane, George Stevens ou Alan Ladd, pouco me importa, sou um afortunado, é tudo o que posso dizer, porque, num serão de há muito, alguém me disse Tens de ver este filme! Só havia dois canais, pôr para trás ou para a frente era ficção científica, daí que a nossa atenção sorvesse cada pormenor no seu irrepetível carácter, talvez por isso fôssemos mais atentos, talvez por isso não abraçássemos tanto a preguiça, findo o filme, nessa noite dos meus doze anos, permaneci sentado a arrumar sentimentos, e como precisava de arrumar sentimentos, gosto de filmes assim, que me desarrumem por dentro, são cada vez mais raros, hoje ou despertam bocejos ou atentam a inteligência na sua desmesurada estupidez, enfim, lá aparece um ou outro que vale a pena, ou talvez, no meu caso, seja uma outra coisa, a ausência de uma voz que me diga Tens de ver este filme! Como compreendi aquele miúdo que gritava para a noite Volta, Shane! Quantas vezes, numa vida, queríamos que as coisas tivessem a cor do nosso sentir? Ali, naquele espaço de uma despedida, a vida foi-me apresentada, nada foi como devia, talvez por compreender, num canto cá de mim, que tudo não podia ser de outra forma, a última fala de Shane é um quase sumido, mas num tom sem réplica, Adeus, pequeno Joe, após perceber que cada homem nasce com a sua fôrma, e por muito que faça, não lhe pode fugir, assim sendo, tinha de partir, nos dias seguintes, claro que rodei o meu revólver de fulminantes à Shane, creio que, agora mesmo, se o reencontrasse, voltaria a fazê-lo, uma das grandes lições deste magistral filme é exactamente essa: cada homem nasce com a sua fôrma, e por muito que faça, não lhe pode fugir. No que me concerne, a cada dia, vou descobrindo um pouco mais dessa minha fôrma, por isso, há uns tempos, escrevi: Para onde vou, levo-me comigo… Daí que não consiga articular nins… Daí que também não os compreenda… Se algum dia me sentir só com as minhas convicções, sempre posso ligar a televisão, agarrar num certo dvd, ouvir o eco de uma voz (Tens de ver este filme!), e rever Shane, e quando, no final, assistir à sua partida, rumo às montanhas anoitecidas, resta-me acompanhar o miúdo no seu grito final: Adeus, Shane!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026



 A escrita respira como a vida: sob a luz, tudo flui, com as trevas, tudo se adensa...

in Nuvens passeantes pelas águas

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026


... compreendi, muito cedo, que amadurecer é iluminar as iniquidades do mundo…  

in Nuvens passeantes pelas águas

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Hoje o mundo cheira a terra molhada

 


Uma das coisas mais penosas, que ainda tenho de cumprir, é ter de passar duas semanas, durante o Verão, em casa do meu filho, se me pedissem para caracterizar essas duas semanas, suplício é a primeira palavra que me surge, com uma nitidez irrepreensível, pois, como dizia, duas semanas, durante o Verão, nem sei quando isto começou ao certo, julgo que tenha sido depois de o meu marido… Uma punhalada que sinto, com renovado vigor, cada vez que o seu rosto, nome, sentir, voz, gestos, sorrir, ideias, se levantam na minha memória, porque, neste espaço do ontem, também uma parte significativa de mim jaz, e se ergue, a seu lado, para de novo se diluir sob a pesada evidência do ido… Mas, de novo, as tais duas semanas, que me fazem deixar a minha casa, na minha querida terra que me apresentou o mundo, que tão bem conhece o sal do meu rosto, corre pelo pão de cada dia, pela dor de ser, e tão bem que lá estou, com as minhas coisas, os meus afazeres, a fiel companhia dos meus vizinhos, salvo alguns que infelizmente já partiram ao encontro do Criador, com o tempo, vamo-nos despindo de rostos, até que o espaço do viver se torna na aridez de uma noite infinda, como compreendo os velhos largados em lares, vivem num limbo, sem ontem, porque subtraído por incontáveis lamelas de calmantes e analgésicos, sem amanhã, por já sentirem a fria carícia dos dedos da morte pelo rosto, sem hoje, por uma visita que sempre se espera embora nunca chegue, um acto de fé praticado com uma abnegação sem direito a réplica, porém, com um resultado previamente sabido, como compreendo os velhos largados em lares, regresso, contudo, a essas duas semanas, e o que me custa! O meu hoje cabe numa mala, fossem duas ou quatro semanas, apesar de alguma dificuldade, sobretudo de equilíbrio, consigo levá-la, é curioso, há uns anos, havia logo dois ou três cavalheiros que se ofereciam para me levar a mala quando subia para o comboio, agora, mais velha, nem um braço se estende na minha direcção, de facto, até a educação querem que passe de moda… À minha espera, na estação da capital, como sempre, filho, nora e neto. É o meu único filho, sempre fomos muito próximos até que, certa tarde, pelo telefone, me disse, pela primeira vez, o nome dela, logo aí, instantaneamente, sinto-o a recuar um passo, desde então, em relação a mim, abraçou a distância, não sei porquê, na presença dela sinto-o nervoso, parece sentir-se intimidado com quaisquer manifestações de ternura comigo, sua mãe… Houve quem dissesse que eram coisas da minha cabeça, que estava a ficar senil, ciúmes de mãe, por aí fora, mas não, não eram coisas da minha cabeça, eram coisas do meu coração, e o coração não olha o mundo, o coração tacteia-o, poucos percebem isto, o ver, sempre o ver, mas as coisas revelam-se-nos de uma outra forma, é quando nos sentamos a ouvi-las que as compreendemos, talvez sejam os meus cabelos brancos a falar no meu lugar, é possível, porém, não me demovo desta minha convicção, o meu filho não é o mesmo desde que aquela mulher entrou na sua vida… E que dizer da artificialidade dos gestos dela? Tudo numa plasticidade excessiva, digna de palco, às vezes, aquelas vozes ecoam por mim, que são coisas da minha cabeça, que estava a ficar senil, ciúmes de mãe, por aí fora, pois, não sei, ou talvez saiba, afinal, o coração não olha o mundo, o coração tacteia-o. Não posso afirmar que sejam descuidados comigo, longe disso, antes de descer da carruagem, já a minha mala pela mão do meu filho, ela segura-me num braço durante os degraus, o meu neto cumprimenta-me de imediato, anda pelos oito anos, moram num prédio tristonho nos arredores, só cimento e carros, tantas vezes insisti que me cansei (Meu filho, isto não é vida para ninguém! Por que não voltas para ao pé de nós?), ele ria-se, ela já não, a expressão endurecia-se com um traço de desprezo, tudo se jogava naquele espaço inarticulado do silêncio, em que tanto nos dizemos, em que tanto nos gritamos, se aí me demorasse creio que logo ensurdeceria de vez, ocupam um sexto-andar, capituladas as formalidades iniciais, quando se esquecem as máscaras pelos caminhos poeirentos deste mundo, o miúdo revela-se um pequeno tirano, a sua frase mais corrente (Eu quero… Eu queria…) deixa-me com a estranha sensação de estrangeira em terras afinal tão longínquas, quando levanto os olhos para ver a reacção do meu filho, só encontro uma expressão envergonhada, como alguém que ciosamente procurou ocultar um fracasso, não intervenho, quedo-me, da minha varanda, a contemplar a imagem de minha mãe lá longe, num ido de há muito, e, no fundo, de há tão pouco, a sua voz a soletrar-me, numa dicção irrepreensível de tão musical, A menina nunca se esqueça: se faz favor! Quanta saudade, meu Deus! Percebo o aval materno às investidas do pequeno tirano, com aquela expressão plástica, indiciadora de que vai tudo tão mal, mas tão mal, que realmente só resta o plástico, regresso à minha varanda, são só duas semanas, passa rápido, quando der por mim, estarei no comboio de regresso à minha querida terra que me apresentou o mundo, pode ser que um dia, talvez não muito longe, o meu filho tropece numa máscara caída e compreenda que tudo cabe numa mala.

domingo, 18 de janeiro de 2026


 Às vezes, na vida, um tem de pensar por muitos, não obstante a Dor a jusante.

in Nuvens passeantes pelas águas

sábado, 17 de janeiro de 2026

Quem te anoitece os dias?

 


Quando menos esperamos, num acaso do destino, de manhã ou de tarde, até de noite, em escassos segundos, a vida relembra-nos que nunca estivemos ao leme de nada, é estranho, às vezes, sinto-lhe prazer nesse jogo de forças, como se nos espelhasse a real insignificância de sermos, comigo aconteceu há umas semanas, estava nas compras, nem costumo ir àquela superfície que apela a pernas e paciência, nunca gostei da desumanidade desses espaços, contudo, tinha o miúdo na natação, que ali fica perto, algum tempo ainda, um jantar para fazer, resolvi entrar, como dizia, nunca gostei da desumanidade desses espaços, tudo numa artificialidade excessiva, do brilho do chão ao sorriso plástico dos empregados, percebi-a ao fundo de um corredor, estaria a cerca de cinquenta metros, era a zona da decoração doméstica, de um lado, quadros, bibelôs, molduras, velas, umas perfumadas, outras coloridas, caixas, caixinhas, do outro, tolhas, turcos, lençóis, capas de colchão, tudo numa espiral de cores e tamanhos, pela silhueta percebi o fundamento do que se dizia, de facto já se notava, até ia bem adiantada, segurava uma moldura e consagrava-lhe uma ternura atenciosa, percebia-se-lhe o destinatário, mantive-me onde estava, ela longe da minha presença por ali, continuei a observá-la, pois, a silhueta, nisto, eu não via o que olhava, mas sim o que pensava, e eu era números, e uma questão inarticulada e sofrida nascia, numa dolorosa lentidão, pelo meu pensar…

Não sei porquê, mas olhava para ela, ao fundo do corredor, estaria para aí a uns cinquenta metros, e a imagem dele por ali, de uma outra forma, até para me organizar, não conseguia dissociá-los, já me acusaram de tanta coisa, por causa destas minhas ideias, várias amigas repetidamente (Mas tu és doida? Já viste aos anos que vocês são casados? Que disparate! Vai-te curar, mulher! Continua com essas coisas, continua, que ainda arranjas o teu divórcio… Olha que sinceramente, o teu marido é um santo… Só ele, para aturar esses devaneios… Dá valor ao que tens, e deixa-te de parvoíces…), de certa forma, percebia-lhes a boa-vontade, o que já não é mau por estes dias, quando tudo se apaixonou pela divisão, talvez para assim se engrandecerem, no entanto, não sei porquê, hoje, a contemplar aquela silhueta, a cerca de cinquenta metros, a imagem dele por ali, não sei como explicar, bem sei que estamos juntos há quase dez anos, sob as leis do céu e dos homens, bem sei que o nosso filho, faltam três semanas para fazer oito anos, está na natação, fica aqui perto, sei de tudo isto, mas… A primeira vez que falei nestas coisas, em verdade, foi quando consegui, com palavras, dar corpo a uma angústia que me povoava há demasiado, minha mãe não estranhou, embora o disfarçasse, lembro-me tão bem, a luz de um Outono ainda Verão lá fora pintava a tarde da cidade, concedia-lhe a tonalidade de um tempo que se prolonga na despedida, como um diálogo que se alimenta de olhares no lugar de palavras, era Sábado, ele saíra para o futebol com os amigos, comecei por, a olhar um ponto indeterminado, fingindo arrumar algo, lhe dizer Acho que ele ainda gosta da… Nunca lhe consegui verbalizar o nome, não sei porquê, ou talvez saiba, ainda de pé, minha mãe fixou-me, percebeu o esforço de cada sílaba, era uma mulher que apreciava o esforço de compor em palavras o que, afinal, somos… Retorquiu, Desculpa, mas estás a falar de quem ao certo? Percebi, de imediato, que trazia distância às coisas, afinal, no horizonte tudo se torna relativo, A mãe sabe muito bem de quem estou a falar: do meu marido e da sua primeira... Após esta frase, deixei o ponto indeterminado e desci o meu olhar ao seu rosto, não havia, por ali, sinais de cansaço que é comum encontrarmos naqueles que conhecem este mundo há tanto, não, nada disso, havia apenas uma serena ironia, no fundo, talvez fosse a opção encontrada para se levantar em cada amanhecer, eu continuo em busca da minha, daí esta dificuldade em compor palavras para ilustrar angústias de há muito, Deixa-te de rodeios! Porquê isso agora? Onde foste buscar tal coisa? A voz adensava-se-lhe, era nítido, as sílabas tornavam-se mais pausadas, levantei o meu olhar do seu rosto em busca de um porto de abrigo, longe de recriminações surdas e de críticas inarticuladas, Um dia destes, hás-de conseguir destruir o teu casamento, ouve bem o que te digo! Ele há-de cansar-se de tanta estupidez! Casou-se contigo há dez anos e, mesmo assim, continuas com essas parvoíces… O que queres mais dele? Diz-me! Sabes, és daquelas pessoas que só adensa a sombra… Sempre tiveste um lado invernoso bem latente em ti, desde criança. É curioso, agora que falo nisso, lembro-me tão bem, no Verão tornavas-te taciturna, em monólogos à sombra, enquanto todos em risos e correrias à volta do lago, lembras-te? Pois… Cuidado, é tudo o que te posso dizer. Compreendi o que me queria dizer, era o expectável, o tom condescendente e pedagógico mantinha-se, por vezes, não sei se me reconfortava ou se me exasperava, por isso, avancei Ela está grávida! E, fazendo as contas, ajusta-se àquele período em que ele saiu de casa… Quando discutimos por causa de… Pois, ela desconhecia essa zanga, arrependimento e alívio passaram por mim após este desabafo, mas já era tarde, a frase já não me pertencia, agora era do domínio daquela realidade (a luz de um Outono ainda Verão lá fora pintava a tarde da cidade, concedia-lhe a tonalidade de um tempo que se prolonga na despedida, como um diálogo que se alimenta de olhares no lugar de palavras, era Sábado, ele saíra para o futebol com os amigos), ela preferiu sentar-se, o tempo nunca se esquece de nós, embora façamos tudo para o ignorar, ele é o nosso mais fiel companheiro de viagem e, a qualquer altura, quando menos esperamos, relembra-nos a sua presença, repetiu, várias vezes, a frase para si mesma Ela está grávida! Ela está grávida! Ela está grávida! Levantou-se, tomou a direcção da porta da rua, secundei-a, antes de sair, olhou-me, uma vez mais, como a criança que fui, só mais tarde compreendi que os pais olham os filhos com todas as idades, só mais tarde, tão tarde, e disse-me Minha filha, quando ele chegar casa, abraça-o e repousa o teu rosto no seu peito. Se estiveres bem atenta, todas as dúvidas serão esclarecidas. Sabes, isto de viver não é assim tão complicado, mas só percebemos isso quando o olhar desce sobre a terra.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026



 ... nunca te esqueças disto: A infelicidade é o produto mais transaccionável do mundo!

in Nuvens passeantes pelas águas

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026



 ... no fundo, o espectáculo do mundo é o de uma fuga permanente, cada um foge de si, na procura de uma incerteza, como se aí residisse a propalada felicidade...

in Nuvens passeantes pelas águas

sábado, 10 de janeiro de 2026

Quando o mundo se esquece de nós

 


Ainda me lembro da primeira vez em que esse assunto se interpôs entre nós, foi num Sábado de manhã, ao pequeno-almoço, ele a folhear um desses catálogos de casas deixados na caixa-de-correio, entre a torrada e a caneca de café com leite, uma altura em que até nos estranhamos, é normal, depois de cinco dias sob a tirania dos ponteiros de qualquer relógio que a nossa vista alcance, esta súbita indolência é recebida com estranheza, mas regressemos ao tal assunto, como dizia, Sábado de manhã, o pequeno-almoço, ele a folhear um desses catálogos de casas deixados na caixa-de-correio, entre a torrada e a caneca de café com leite, em verdade, quando falou, ainda o ouvia mastigar despojos da torrada, Já viste quanto custa uma vivenda na província? O mesmo que um apartamentozito de uma assoalhada por aqui! E, repara, até tem algum terreno… Isto, sim, é viver! Parece que nos tornamos senhores do tempo, em vez de seus escravos… Olhei-o, já de pé, estava a arrumar a louça, mas não lhe respondi, pensei, confesso, que se tratava de mais uma das suas incursões diletantes, ainda acrescentou duas ou três frases, já não o ouvia, por fim, para que saísse dali, começava a irritar-me aquele interminável folhear do panfleto publicitário de mais uma imobiliária, pomposamente apelidado de catálogo de casas, disse-lhe Agradecia que fosses dar banho ao miúdo, enquanto eu acabo de arrumar a cozinha, sempre que fazia algo a contragosto, ele cerrava os lábios e olhava para o chão, era uma forma de os impropérios se tornaram inaudíveis e de ninguém perscrutar a sua expressão enfadada, saiu a arrastar os pés, agradeci o silêncio restituído, nisto, reparo na publicidade das casas, que ele tanto apregoou, aberta em cima da mesa, sento-me, de facto, uma vivenda, com duas salas, três casas-de-banho, quatro quartos, seiscentos metros quadrados de terreno, custa o mesmo que este nosso acanhado apartamentozito, uma salita, apenas um quarto, uma casa-de-banho, ainda por cima minúscula, sem direito a banheira, o que eu sonho com um banho de imersão quando chego tarde do trabalho, então à noite, já nem as pernas sinto, como é primeiro-andar, a vista somente alcança o prédio em frente, se o céu quero ver, só olhando as alturas com a cabeça fora da janela, a ideia começou a germinar também em mim… Estávamos juntos há quatro anos, engravidei no decorrer do primeiro, porém, ele já tinha uma filha de oito anos, do seu anterior relacionamento, volta e meia, falava de casamento, pois, mais uma das suas incursões diletantes, gostava que abordasse o tema, não sei porquê, ou talvez saiba, em cada mulher há uma menina que nunca se despediu, mas nunca fez parte dos meus planos, parecia-me o fim de algo, como se retirassem cor a um sonho, um pouco isso, sempre preferi o caminho à berma, contudo, o tema regressava, Não achas que está na altura de nós… Já viste, estamos juntos há quatro anos, bem sei que se trata de um papel, mas acho que é importante dar esse passo… Até para o miúdo, que está quase a fazer três, faria toda a diferença… E sabes que tenho razão. Claro que não é por causa de qualquer tipo de preconceito social, é, antes de mais, por não ter dúvidas sobre o que por ti sinto… Quando ele dizia estas coisas, a menina que nunca de mim se despediu suspirava, mas o fim de algo, como se retirassem cor a um sonho, se caminhávamos tão bem, para quê sentar na berma?

Regressei a mim, já uma vivenda, com duas salas, três casas-de-banho, quatro quartos, seiscentos metros quadrados de terreno, que custava o mesmo que um acanhado apartamentozito, com uma salita, apenas um quarto, uma casa-de-banho, ainda por cima minúscula, sem direito banheira, e o que eu gosto de um banho de imersão quando chego tarde do trabalho, então à noite, nem as pernas sinto, a mudança demorou menos que dois anos, mas fui tudo tão rápido, só com a idade é que percebemos que o tempo acelera e desacelera consoante a geografia de uma existência, desenganem-se os que afirmam a constância do seu fluir, tolos é o que lhes posso dizer, quantas vidas encerra um minuto? Foi quando pousei a última mala, que um pânico mudo de mim se apoderou, ele, com o miúdo às cavalitas, dava ares de um cicerone encantado e percorria as várias divisões da casa, encostei-me à parede a suar, trémula, diante de mim, a visão de um deserto, iria regressar-me noutras ocasiões, mas, sem dúvida, essa foi a primeira, e uma questão formou-se-me no pensar, porém, evolou-se quando caminhava para a fala… A noção de desastre! Quantas vezes, numa vida, esta clarividência? Nascida, neste caso, do baque surdo da última mala no soalho da entrada. Na primeira noite, ele procurou-me, e segredou-me melosamente ao ouvido Temos de celebrar, não achas? Aleguei cansaço, a mudança, a viagem, tudo, felizmente, não insistiu, a luz de cada dia tem a fatalidade de nos devolver o que somos nessa data, a noite, pelo menos, aproxima-nos do que gostaríamos de ser, pois, o sonho, como dizia, nessa primeira manhã, ele quase saltou da cama em cantorias, enaltecia cada pormenor com uma alegria genuína, permaneceu nas faldas do meu terror (diante de mim, a visão de um deserto), felizmente para ele, contudo, o tempo lá pegou na sua mala e decidiu voltar à estrada (quantas vidas encerra um minuto?), à tardinha, quando regressava, sentava-se para ali no quintal (seiscentos metros quadrados de terreno), de cigarro na boca, a olhar a serra por onde a noite já caminhava, via-o pela janela, dominada pelo terror (diante de mim, a visão de um deserto), que imensa saudade quando a vista somente alcançava o prédio em frente, se o céu queria ver, só olhando as alturas com a cabeça fora da janela, aquele rumorejar do trânsito, noite e dia, quase como o sangue das minhas veias, continuei a olhá-lo, sentado, de cigarro na boca, a contemplar a serra por onde a noite já caminhava, ele encontrou-se, eu perdi-me, virei costas ao que sou, compreendi, nesse instante (quantas vidas encerra um minuto?), que já não tínhamos nada a dizer um ao outro, tantos equívocos somados, pois, só com a idade é que percebemos que o tempo acelera e desacelera consoante a geografia de uma existência, e o miúdo… Foi quando levantei a última mala, o soalho a ranger o que me pareceu um tímido adeus, que um sentir de alegria caminhou por mim, a luz de cada dia tem a fatalidade de nos devolver o que somos nessa data, a noite, pelo menos, aproxima-nos do que gostaríamos de ser, pois, o sonho…