Livros do Escritor
sábado, 18 de abril de 2026
Por ruas desertas anoitecidas
Por ruas desertas anoitecidas, guio
num sem destino, como se soubesse lá o que isso é, o mundo, volta e meia,
resolve colocar a máscara da felicidade (como se soubesse lá o que isso é),
nunca fui apologista de máscaras, tantas, talvez demasiadas, no labirinto de
nós que desconhecemos, caem na sucessão da voragem dos dias, daí a constância
daquela frase (Nunca pensei que isto
algum dia me acontecesse… Nunca pensei alguma vez responder-lhe assim… Nunca
sonhei que teria de passar por isto… Nunca pensei ter de recorrer a tal coisa…
Nunca pensei…), pois, mas as esquinas da vida ferem-nos, e, enquanto
sangramos, redireccionamos o leme do nosso existir. Continuo por ruas desertas
anoitecidas, à minha volta só luzes, das casas, dos semáforos, dos candeeiros,
e o motor sedento de mudanças, que coloco num automatismo felizmente para mim
despercebido, o único som desta noite, primeira e última do mundo, há qualquer
coisa de irrepetível na noite, talvez por sempre constituir um fim, o regresso
ao lar, a janela que se fecha, a luz que se acende, e uma aparente harmonia
restituída… Até quando?
Olhava a colher trémula, receoso,
contudo, a sua abnegação persistia, diariamente, com a sopa do almoço, com o
doce de pêssego ao lanche, a sopa vespertina, o xarope para a tosse, ela
limitava-se a entreabrir os lábios, sem sequer emitir um som, quanto mais uma
palavra, sorvia na distância, pois há muito partira. Foi numa certa manhã, ela
a queixar-se de dores de cabeça, ele a relativizar, afinal, já habitavam o
Inverno da vida, viviam da magra reforma dele, emissário de desgraças e de tão
poucas graças durante a vida, em determinadas ocasiões, quando a missiva impunha
assinatura do destinatário, nem ousava tocar, preferia escrevinhar que ninguém
atendeu, pelo peso do envelope aprendera a saber-lhe o conteúdo, e cansara-se
de ver rostos desesperados, e quanto mais olhava a terra, sob o peso do saco
dos desencontros alheios, mais colocava a cruz ao lado de Ninguém atendeu… É curioso, as cartas passavam por ele seladas, no
entanto, permitiam-lhe saber a geografia de cada existência. Houve uma história
que o tocou particularmente, sempre soube o porquê, talvez por isso nunca a
tivesse partilhado com ela. É natural, a aprendizagem das dores é a
aprendizagem do silêncio, só assim sobreviveram àquela tarde em que a campainha
num pânico súbito, a contrastar com a indolência da tarde domingueira, ele num
regresso forçado da sesta à sua circunstância, de sofá e jornal caído na
carpete, ela também a desviar os olhos da televisão para a porta, embora o
coração… Pois, o coração nos seus monólogos de profeta, farol do sentir, a
sussurrar-lhe que o filho caído no alcatrão da estrada, correra por uma bola,
apesar da tentativa de travagem, por demais documentada no pavimento, tudo
infrutífero, o murmúrio insistente: É
isto que se passa! É isto que te vão dizer! Prepara-te! Ela num assomo de
esperança Tens a certeza? A resposta
pronta Lamento! Nessa tarde, foi ele
que calou a dissonante campainha, foi ele que recebeu a notícia, foi ele que
ficou lívido e emudecido sob a ombreira da porta, ela nem se levantou,
permanecia de olhar fixo numa moldura que lhe devolvia um sorriso do filho…
A aprendizagem das dores é a
aprendizagem do silêncio, chegou tarde e partiu-lhes tão cedo, a vida é isto:
uma soma de incompreensões! Como dizia há pouco, as cartas passavam por ele
seladas, no entanto, permitiam-lhe saber a geografia de cada existência. Houve
uma história que o tocou particularmente, semanas após ter deixado a cruz ao
lado de Ninguém atendeu, o
destinatário era um casal jovem, ela em dificuldades com os degraus, já teria
dobrado o sétimo mês, o rapaz sempre diligente a seu lado, deixou os estudos
para assumir as expensas desta nova fase da vida, de obras a biscates abraçava
prontamente todas as possibilidades, ouvia-se dizer que deixaram o interior
para fugir às más-línguas, e também ao desacordo das famílias na sua união,
seguiram-se envelopes gordos, até que, numa certa manhã, os viu com três malas,
pousadas, à porta do prédio, o bebé ao colo da mãe, andaria pelos dois meses,
antes de depositar as cartas, parou junto deles, Bom dia! Estão de partida? Ambos responderam com uma silenciosa
expressão de derrota, ele não soube o que retorquir, era uma manhã fria, o bebé
soltava espirros regulares, por fim, apenas lhe restou uma questão, a mais
franca possível, Têm para onde ir? O
rapaz Temos de regressar à terra. Levantou
os olhos, sempre de mãos nos bolsos, ele que de obras a biscates abraçava
prontamente todas as possibilidades, encolheu os ombros, e acrescentou Sabe, o que mais me dói é que nem um berço
ainda consegui comprar para o meu filho… Esta frase ressoou-lhe por muito nem um berço ainda consegui comprar para o
meu filho… De novo, aquela evidência: a vida é isto: uma soma de
incompreensões.
De vez em quando, apesar de hoje a
colher trémula na sua mão, da partida dela para uma incompreensão distante, ele
insiste numa frase do ontem As amoras
sabem a Agosto… Por momentos, os lábios dela suavizam-se, como se uma
memória se erguesse na paisagem de si, ele de novo As amoras sabem a Agosto… E tudo talvez seja uma outra coisa.
Por ruas desertas anoitecidas, guio num
sem destino, como se soubesse lá o que isso é, o mundo, volta e meia, resolve
colocar a máscara da felicidade (como se soubesse lá o que isso é), em cada
janela uma história, umas vão a meio, outras já se contaram, a vida é isto: uma
soma de incompreensões, com algumas certezas a que nos agarramos, para assim
nos sabermos (quantas vezes nos largamos no mundo?), e nesta rua deserta
anoitecida, uma frase levanta-se em mim de um ontem tão ontem As amoras sabem a Agosto…
segunda-feira, 13 de abril de 2026
domingo, 12 de abril de 2026
É preciso morrer para ser visto
O que é perder a razão? A primeira vez que me coloquei esta questão foi há muito,
ainda pela mão dos meus pais, sempre que alguém contra-corrente do que se
espera, logo Coitado! Perdeu a razão! Essa
possibilidade, não sei porquê, sempre se me afigurou tão longínqua, mas o
tempo, volta e meia, dá-nos a mão e leva a olhar abismos nunca
pensados, pois, como dizia, ainda pela mão dos meus pais, e, lá por casa, vozes
preocupadas relatavam a história de alguém próximo que perdeu a razão, daí o internamento numa casa de repouso, estranha
mania esta de um povo suavizar as coisas, sempre é mais elegante de que
hospício, bem verdade, mas porquê esta urgência de se contornar a realidade?
Ainda lá por casa, Coitado! Teve um
esgotamento… Logo eu a idealizar uma olímpica tarde de futebol, daí o esgotamento, do alto dos meus oito anos
que mais podia eu conceber? É curioso, hoje raramente ouço falar em esgotamentos, já soa anacrónico, o
vocábulo actual é depressão, quase
virou moda, por tudo e nada arranja-se, com facilidade, uma depressão, da incompetência à impotência
tudo está justificado. Mas regresso àquela história, lá por casa, de alguém
próximo que perdeu a razão, daí o
internamento numa casa de repouso, a génese de tudo foi o coração (Não será
sempre?), talvez tenha corrido demasiado por ela, daí o esgotamento, quando
parecia que, afinal, ela companheira da miragem. Começou a andar enervado,
volta e meia, murros em portas, gritos ao telefone, ausências nas refeições
familiares, os livros arrefecidos a um canto, os semestres, na faculdade,
insensíveis a esgotamentos, e também
creio que a depressões, assim
continuem, sinal de que nem tudo vale, para ela, constituiu um mero
apeadeiro na longa viagem da vida, contudo, ele via-a como a estação final,
quantos equívocos assim ocorrem a cada dia do mundo? Ela deixou de atender o
telefone, e a campainha, diziam-lhe que tinha saído ou que partira de
fim-de-semana, caiu num vazio desesperado, para o preencher, refugiou-se na
fantasia, tudo começou com a insistência por mais um prato à mesa, justificava
que ela viria jantar lá a casa, a princípio, os pais cederam, mas as contínuas
omissões fizeram perceber o pior, numa certa ocasião, ele chegou a esvaziar
várias lamelas, felizmente os seus conhecimentos químicos não eram muito
vastos, daí ter resultado na soma de uma sonolência redobrada com uma ligeira
afectação intestinal. No entanto, o alarme parental tinha soado. Tentaram, como
quase sempre sucede, primeiro, o diálogo (Então?
Achas que ela vale isso? Há mais raparigas no mundo! Estás a destruir a tua
vida por uma tontice… Um dia, vais ver, ainda te vais rir de tudo isto…).
Porém, quando a noite entra na nossa vida, é quase impossível perceber quão
fugaz é a sombra do dia. Ainda dois meses por ali, agora com lamelas
prescritas, volta e meia, aquando das visitas parentais – as únicas que
efectivamente se registaram –, a voz dele quase suplicante Ela ligou? Tem perguntado por mim? Não está, por acaso, aí fora? Os
lábios secos, ostentava uma cor amarelecida, realçada pela brancura do roupão,
como se lá fora a tarde não estivesse no seu esplendor, a voz saía-lhe
arrastada e numa pronúncia de idoso, foram aconselhados a não responder, a
direccionar as conversas noutro sentido, é natural, quando se esgota a
circunstância, devemos partir para outras paragens… Ainda hoje, não sei se ele
recuperou, na totalidade, a razão. Confesso que não acredito. Há coisas que a
vida, simplesmente, nos vai subtraindo. A razão é uma delas. O que é perder a razão? Essa
possibilidade, não sei porquê, sempre se me afigurou tão longínqua, mas o
tempo, volta e meia, dá-nos a mão e leva a olhar abismos nunca
pensados, hoje, a espaços, admito que a maior lucidez reside no adeus à razão. Como se de uma
inevitabilidade se tratasse. Talvez aqui resida a lógica da sobrevivência.
Quando a maioria se esqueceu de olhar os céus, que mais nos resta? Não raras
vezes, invejo quem trocou a razão por
amor, no fundo, tratou-se de uma escolha e nunca de uma perda. A perdê-la,
se é que tal já não me sucedeu, que ao menos fosse por amor, e, se numa tarde,
alguém me encontrar de lábios secos, com uma cor amarelecida, realçada pela
brancura do roupão, com uma voz arrastada e uma pronúncia de idoso a perguntar
(Ela ligou? Tem perguntado por mim? Não
está, por acaso, aí fora?), seria bom sinal, teria escolhido o lado dos
vivos nesta coisa da existência.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
O chão do mundo
Hoje sabia que ninguém me esperava. Um desses dias em que as
sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, uma
janela que se abre para a paisagem onde não nos queremos ver, apesar de por ali
as nossas pegadas, chegamos a duvidar, a certa altura, da nossa existência…
Como dizia, não tinha pressa em chegar a casa, ia encontrar o frio gritante do
silêncio, que nos murmura incessantemente solidão,
e o nosso sentir mais arrefecido que o exterior, pelos passeios, olho gente
sentada em cafés, em conversas ridas, não vislumbro, por ali, os silêncios que
pousam, quando eu, outrora, tacteava diálogos, nesses momentos, eu partia para
as lonjuras que me habitam, de facto, nunca fui de cafés, risadas, festas,
danças… Aprendi a disfarçar esta inquilina tristeza, os meus pais anunciavam ao
mundo Esta nossa filha é muito
concentrada! Eu aquém concentrações, apenas refém de uma tristeza que me
tolhia o ser, a minha irmã, ao contrário de mim, sempre convidada para festas,
uma inigualável sede de roupas, cachecóis, sapatos, malas, só a ouço em
risadas, de vez em quando, sinto-lhe o olhar receoso a seguir-me os passos,
enquanto os meus pais, apreensivos com tantas risadas, murmuravam Ao menos, Deus concedeu-nos um filha
concentrada… E eu sentia-me tudo menos concentrada, só com ele, sentado
diante de mim, esta tristeza afastava-se, como se uma concessão de tréguas,
nesses momentos, eu sentia-me parte integrante de qualquer café, não, não
chegava às risadas, festas, danças, gostava de ali estar com ele, a sentir a
pulsação da cidade lá fora, carros, buzinas, passeios, gente que os caminhava,
para mim, rostos inexpressivos, talvez por não me demorar neles, se por aí me detivesse,
perceberia que se ocupavam em intrincados cálculos para aportar na margem do
mês seguinte, outros pela doença de um filho, ou por um divórcio anunciado,
creio que poucos questionam a morte do sonho, substituem este facto pela
denominada maturidade, pelo vidro,
vejo-os, lá fora, a povoar estradas e passeios, já não se olham, evitam-se num
absurdo desumanizante… Como dizia, só com ele, sentado diante de mim, esta
tristeza afastava-se, como se uma concessão de tréguas, talvez um sonho se
erguesse algures em mim, às vezes, ele, num repente, levantava-se, dava-me a
mão, e só parávamos junto ao mar, ali ficávamos, dentro do carro, a eternizar
aquele instante em que a luz partia da terra para nos relembrar sonhos caídos…
Outras vezes, íamos até aquela discreta pensão, duas travessas à direita do
café, demorava, claro, a recuperar a intimidade, falávamos, falávamos, mais
ele, como é evidente, sempre preferi ouvir, assim ia a tarde, assim ia a minha
vida…
Hoje sei que ninguém me espera. Um desses dias em que as
sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado,
nunca concebi, confesso, apaixonar-me por um homem casado, muito menos assumir
o papel da outra, a palavra amante sempre
me soou mal, meus pais, coitados, de mim diziam Esta nossa filha é muito concentrada! Mal sabiam, coitados, mas que
podia eu fazer? Para ajudar com as contas caseiras, enquanto estudava,
trabalhei na recepção de uma clínica veterinária, foi lá que nos conhecemos,
lembro-me tão bem da primeira vez que o vi, é um desses momentos a que regresso
múltiplas vezes, tinha um rafeiro de médio porte, assim que entrou, sabia-lhe a
voz, é tão estranho, quando se abeirou do balcão, já a tristeza partira de mim,
nessa semana, regressou por mais duas ou três ocasiões, o cão tinha sido
atropelado, embora não fosse grave, o anelar preenchido não me passou ao lado,
porém, algo me impelia na sua direcção, talvez a súbita ligeireza por largar o
fardo de uma vida (Esta nossa filha é
muito concentrada!), a tristeza que me tolhia o ser, ele também se
demorava, cada vez mais, do outro lado do balcão, por norma, era o último
cliente, queixava-se de falta de tempo, sempre o trabalho, percebi que lhe
seguia as pisadas académicas, ajudou, claro, a solidificar as pontes de
diálogo, uma noite, com o pretexto da caminhada nocturna do cão, deixou-me à
porta, outras se seguiram, algo, agora mais forte, continuava a impelir-me na
sua direcção, apesar do objecto amarelecido exibido no anelar, de um filho na
primária, de não haver vislumbres, em palavras ou actos, de algum dia partir
daquela ilha, ainda assim, eu continuava a caminhar a seu lado, pelo restituído
sabor da noite, as afinidades académicas pois, e a súbita ligeireza, quantas
vezes largamos o fardo de uma vida? Hoje, tanto tempo depois, continuo
desencontrada da palavra arrependimento, não sei se é positivo, não sei,
confesso, nunca fui de ideias gerais, a mulher dele, a certa altura, criou uma
ideia de nós, apenas isso, nunca a materializou, desconfiar é isso mesmo,
formar uma ideia sem lhe encontrar um corpo, tivemos as nossas cautelas, como é
evidente, no meu caso, queria apenas que a tristeza se mantivesse na soleira da
porta, claro que, volta e meia, acabava por entrar, nos períodos festivos, nas
férias grandes, nunca soube o que é isso a seu lado, e doía-me nas minhas
funduras a solidão desamparada de me saber assim, com o tempo, os meus pais Esta nossa filha é muito concentrada! Só tem olhos para os livros… Já não sei
se diziam isto para se convencerem, se para iludir os outros, a minha irmã de
casamento marcado, não obstante as festas, uma inigualável sede de roupas, de
cachecóis, de sapatos, de malas, as infindáveis risadas, eu aquém destes
cenários, certa vez uma tia ousou E tu,
minha filha? Quando é que chega a tua vez? Olha que filhos depois dos 30… Logo
o meu pai vociferou Esta nossa filha é
muito concentrada! Só tem olhos para
os livros… Acho que nem ele já acreditava. O tempo continuou o seu caminho,
após o curso, vários empregos até estabilizar, entretanto, um sobrinho, de vez
em quando, com a desculpa de um congresso para a mulher, partíamos de
fim-de-semana, doía-me não poder apresentá-lo aos meus, contudo, dessa forma,
era como se pisasse uma paisagem só minha. Andaria o meu sobrinho aí pelos
doze, quando, numa manhã, a voz dele tão distinta do que conhecia,
arrastava-se, ao telefone, como se numa espera pelo pensar, falou-me em
almoçarmos naquele restaurantezito discreto, onde íamos habitualmente, disse
que sim, mas logo a inquietude ao leme do que sou, aquele arrastar de voz, tão
próximo do soletrar, insisti Mas passa-se
alguma coisa? Ele, impassível, quase numa anestesia, Falamos ao almoço… E custou a chegar a hora desse almoço, entrei e
sentei-me na mesa habitual, esperei uns doze minutos, por fim, ele, curvado,
com um semblante de derrota, disse-me Vem,
falamos ali fora, acedi, confirmou-se o pior cenário, num exame, para a
mulher, teria de retirar um peito, e, mesmo assim, sem garantias, acrescentou Não podemos continuar… Baixou o olhar,
antes de terminar a frase, não regressámos para a mesa, ainda não tínhamos
pedido, abraçámo-nos pudicamente, dei-lhe um beijo na face, enquanto ele me
segredava, numa doçura suplicante, Espero
que compreendas… Partimos em direcções opostas, creio que, nesta vida,
raramente caminhámos rumo ao mesmo horizonte…
Hoje sei que ninguém me espera. Um desses dias em que as
sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, uma
janela que se abre para a paisagem onde não nos queremos ver, entretanto, o meu
pai deixou-nos, faz agora pouco mais de um ano, sempre aquele terrível inimigo
que nos dilacera por dentro, e que ninguém aparentemente quer derrotar (a quem interessará tal força?),
felizmente ainda conheceu a neta, pois, fui novamente tia, desta vez, de uma
linda menina, tem agora oito aninhos, a minha mãe refugiou-se no serviço
paroquial, reforma e viuvez não são boas conselheiras, e eu para aqui ando, faz
dez anos aquele púdico abraço. Nunca mais nos vimos. Nunca mais soube nada
dele. De certa forma, foi o único final possível. E admirei o seu gesto de
regressar inteiro naquela hora. Houve tanta nobreza nesse momento. Desde então,
regressou a minha velha companheira de viagem, recebi-a com indiferença, foi
discreta na sua reentrada, está para ali, no seu canto, e não me incomoda,
chego a casa, não acendo logo a luz, nalguns gestos sinto os passos do tempo, é
natural, dele só resta uma fotografia, nem está à vista, hoje, tanto tempo
depois, continuo desencontrada da palavra arrependimento, basta-me relembrar
aquele instante em que a luz partia da terra para nos relembrar sonhos caídos…


