(…) mas sempre esta nossa insistência em confundir desejos com factos, a
frieza da realidade, pois, numa permanente espera pelo nosso regresso do sonho,
em verdade, sonhar talvez seja virar costas à realidade, cada vez me convenço
mais disso, sabe, chegamos a um ponto da vida em que temos mais rostos na
memória do que à nossa volta, mas com o tempo vão-se diluindo, diluindo, até
que só ainda a voz ecoa, indelével, talvez para nos relembrar diálogos
interrompidos.
in Todos os sonhos cumpriram-se, menos o sonhoA Porcachona e o Tintim
Uma questão que recorrentemente me colocam é: “Quando começou a escrever?” Só concebo uma resposta: “Desde que aprendi a olhar o mundo,” curiosamente nunca perguntaram a razão que me levou a preencher centenas e centenas de páginas em branco, pois bem, hoje revelá-la-ei, foi há mais de década e meia, um projecto para uma curta-metragem, o guião entregue a um boneco que ambicionava ter o dom da escrita, destino vilão que não lhe conferiu tal dádiva, apesar disso, abnegou-se em cumprir com a narrativa da curta, até que, certa tarde, sou interpelado por uma das protagonistas “Peço desculpa, mas não vou dizer esta fala! É demasiado ridícula! Não lembra a ninguém! Assim, não vamos a lado nenhum! Por favor, escreva você…,” esta última frase ecoou-me na alma, “Por favor, escreva você…,” como se, desde que caminho por este lado, a aguardasse, “ Por favor, escreva você…”, um chamamento de ordem-superior, diante da obscenidade de uma página em branco, não recuei, as palavras saíram com a...

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