Desculpe, se me dirijo a si desta forma, mas não encontrei outra, e,
sabe, há algum tempo que lhe queria dizer, bom, acho que sabe, sinto que, de
certa forma, você também sente, sim, lembra-se no outro dia, lá no café, estava
a servir-me, enquanto a sua mão, com a chávena, num movimento descendente em
direcção à mesa, eu a desejar que o mundo se esquecesse de nós, a sentir o seu
perfume, porventura barato, mas sempre honrado, nisto, os nossos olhares a
encontrarem-se, e uma linguagem além-palavra, no fundo, quanto dissemos de nós
naquele instante, eu acho que lhe disse tudo, você também algumas coisas, uma
súbita sombra de timidez pelo seu rosto, eu a distanciar-me de mim, a perder-me
nesse novo continente que era a sua face, você, apesar da timidez, permanecia
na honra de me suster o olhar, por fim, eu, receoso de me perder por completo,
declinei, mas num regresso, como raras vezes sucede nesta sucessão de dias sem
porquê, há quem lhe chame vida, enriquecido, nisto, apercebo-me de que se
afasta, por favor, não me pergunte como, mas, sim, os seus passos, cada vez
mais distantes, ressoaram invernosos em mim, procuro, à minha volta, por algo
flutuante, encontro um jornal, nem vi se tinha a data condizente, limitei-me a
abri-lo, nem sei já onde, apenas uma distante sensação de que ainda estava à
superfície, porque há muito que submergira a um sentir de fonte incógnita, e,
sim, inesperada, talvez nunca estejamos preparados, por inteiro, para acolher a
bússola dos sentimentos, por outras palavras, quem nos dita os caminhos do
mundo, porque, por vezes, temos de contrariar o vento da realidade, que nos
arrefece o interior, mas, desculpe, estou a divagar, permita-me que lhe fale
das vezes que a observo pela montra, a sua forma de andar, como se pertencesse
a outros contextos, muito distantes de um palco de mesas e cadeiras
estridentes, eu sei que foi moldada para outros cenários, captei-lhe, mais do
que uma vez, vestígios de cansaço pelo rosto e gestos, talvez uma febre no seu
filho, desculpe, mas tive de me informar, espero que não me leve a mal, sei que
tem sete anos, e sabemos como as crianças adoecem, sobretudo as de hoje,
sintéticas como o seu mundo, assim que uma brisa lhes relembra horizonte cedem
à vertigem, também sei do seu companheiro, acho, até, que me chegou a fazer uma
revisão ao carro, naquela oficina ali ao fundo da alameda, isto antes da filha
mais nova do patrão, dos passeios de mota, ela sempre tão quente, você, na
altura, sentada no mundo da maternidade, um dia, a moto perdeu a memória desta
rua, há quem fale que circula, hoje, pelos algarves, ainda com a mesma
velocidade, não lhe pode levar a mal, coitado, ele era susceptível a gripes,
daí a receptividade aos calores, ainda me lembro de ele espirrar, com a chave
do meu carro na mão, antes do orçamento, sei que se esqueceu das obrigações, ao
menos deixou um nome ao pequeno, olhe que há muitos que nem isso, esqueça-o,
perdoe-lhe, tem-se aguentado assim, portanto olhe o amanhã, e, por falar em
futuro, gostaria de lhe servir, num movimento descendente em direcção a uma
mesa, um café, e, assim, talvez o seu rosto e gestos se aquietassem, e talvez
se, em verdade, o mundo se esquecesse de nós, a sentir o seu perfume,
porventura barato, mas sempre honrado, eu lhe murmurasse a linguagem do meu
olhar.
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