Livros do Escritor

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quinta-feira, 2 de abril de 2026

O chão do mundo

 



Hoje sabia que ninguém me esperava. Um desses dias em que as sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, uma janela que se abre para a paisagem onde não nos queremos ver, apesar de por ali as nossas pegadas, chegamos a duvidar, a certa altura, da nossa existência… Como dizia, não tinha pressa em chegar a casa, ia encontrar o frio gritante do silêncio, que nos murmura incessantemente solidão, e o nosso sentir mais arrefecido que o exterior, pelos passeios, olho gente sentada em cafés, em conversas ridas, não vislumbro, por ali, os silêncios que pousam, quando eu, outrora, tacteava diálogos, nesses momentos, eu partia para as lonjuras que me habitam, de facto, nunca fui de cafés, risadas, festas, danças… Aprendi a disfarçar esta inquilina tristeza, os meus pais anunciavam ao mundo Esta nossa filha é muito concentrada! Eu aquém concentrações, apenas refém de uma tristeza que me tolhia o ser, a minha irmã, ao contrário de mim, sempre convidada para festas, uma inigualável sede de roupas, cachecóis, sapatos, malas, só a ouço em risadas, de vez em quando, sinto-lhe o olhar receoso a seguir-me os passos, enquanto os meus pais, apreensivos com tantas risadas, murmuravam Ao menos, Deus concedeu-nos um filha concentrada… E eu sentia-me tudo menos concentrada, só com ele, sentado diante de mim, esta tristeza afastava-se, como se uma concessão de tréguas, nesses momentos, eu sentia-me parte integrante de qualquer café, não, não chegava às risadas, festas, danças, gostava de ali estar com ele, a sentir a pulsação da cidade lá fora, carros, buzinas, passeios, gente que os caminhava, para mim, rostos inexpressivos, talvez por não me demorar neles, se por aí me detivesse, perceberia que se ocupavam em intrincados cálculos para aportar na margem do mês seguinte, outros pela doença de um filho, ou por um divórcio anunciado, creio que poucos questionam a morte do sonho, substituem este facto pela denominada maturidade, pelo vidro, vejo-os, lá fora, a povoar estradas e passeios, já não se olham, evitam-se num absurdo desumanizante… Como dizia, só com ele, sentado diante de mim, esta tristeza afastava-se, como se uma concessão de tréguas, talvez um sonho se erguesse algures em mim, às vezes, ele, num repente, levantava-se, dava-me a mão, e só parávamos junto ao mar, ali ficávamos, dentro do carro, a eternizar aquele instante em que a luz partia da terra para nos relembrar sonhos caídos… Outras vezes, íamos até aquela discreta pensão, duas travessas à direita do café, demorava, claro, a recuperar a intimidade, falávamos, falávamos, mais ele, como é evidente, sempre preferi ouvir, assim ia a tarde, assim ia a minha vida…

Hoje sei que ninguém me espera. Um desses dias em que as sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, nunca concebi, confesso, apaixonar-me por um homem casado, muito menos assumir o papel da outra, a palavra amante sempre me soou mal, meus pais, coitados, de mim diziam Esta nossa filha é muito concentrada! Mal sabiam, coitados, mas que podia eu fazer? Para ajudar com as contas caseiras, enquanto estudava, trabalhei na recepção de uma clínica veterinária, foi lá que nos conhecemos, lembro-me tão bem da primeira vez que o vi, é um desses momentos a que regresso múltiplas vezes, tinha um rafeiro de médio porte, assim que entrou, sabia-lhe a voz, é tão estranho, quando se abeirou do balcão, já a tristeza partira de mim, nessa semana, regressou por mais duas ou três ocasiões, o cão tinha sido atropelado, embora não fosse grave, o anelar preenchido não me passou ao lado, porém, algo me impelia na sua direcção, talvez a súbita ligeireza por largar o fardo de uma vida (Esta nossa filha é muito concentrada!), a tristeza que me tolhia o ser, ele também se demorava, cada vez mais, do outro lado do balcão, por norma, era o último cliente, queixava-se de falta de tempo, sempre o trabalho, percebi que lhe seguia as pisadas académicas, ajudou, claro, a solidificar as pontes de diálogo, uma noite, com o pretexto da caminhada nocturna do cão, deixou-me à porta, outras se seguiram, algo, agora mais forte, continuava a impelir-me na sua direcção, apesar do objecto amarelecido exibido no anelar, de um filho na primária, de não haver vislumbres, em palavras ou actos, de algum dia partir daquela ilha, ainda assim, eu continuava a caminhar a seu lado, pelo restituído sabor da noite, as afinidades académicas pois, e a súbita ligeireza, quantas vezes largamos o fardo de uma vida? Hoje, tanto tempo depois, continuo desencontrada da palavra arrependimento, não sei se é positivo, não sei, confesso, nunca fui de ideias gerais, a mulher dele, a certa altura, criou uma ideia de nós, apenas isso, nunca a materializou, desconfiar é isso mesmo, formar uma ideia sem lhe encontrar um corpo, tivemos as nossas cautelas, como é evidente, no meu caso, queria apenas que a tristeza se mantivesse na soleira da porta, claro que, volta e meia, acabava por entrar, nos períodos festivos, nas férias grandes, nunca soube o que é isso a seu lado, e doía-me nas minhas funduras a solidão desamparada de me saber assim, com o tempo, os meus pais Esta nossa filha é muito concentrada! Só tem olhos para os livros… Já não sei se diziam isto para se convencerem, se para iludir os outros, a minha irmã de casamento marcado, não obstante as festas, uma inigualável sede de roupas, de cachecóis, de sapatos, de malas, as infindáveis risadas, eu aquém destes cenários, certa vez uma tia ousou E tu, minha filha? Quando é que chega a tua vez? Olha que filhos depois dos 30… Logo o meu pai vociferou Esta nossa filha é muito concentrada! Só tem olhos para os livros… Acho que nem ele já acreditava. O tempo continuou o seu caminho, após o curso, vários empregos até estabilizar, entretanto, um sobrinho, de vez em quando, com a desculpa de um congresso para a mulher, partíamos de fim-de-semana, doía-me não poder apresentá-lo aos meus, contudo, dessa forma, era como se pisasse uma paisagem só minha. Andaria o meu sobrinho aí pelos doze, quando, numa manhã, a voz dele tão distinta do que conhecia, arrastava-se, ao telefone, como se numa espera pelo pensar, falou-me em almoçarmos naquele restaurantezito discreto, onde íamos habitualmente, disse que sim, mas logo a inquietude ao leme do que sou, aquele arrastar de voz, tão próximo do soletrar, insisti Mas passa-se alguma coisa? Ele, impassível, quase numa anestesia, Falamos ao almoço… E custou a chegar a hora desse almoço, entrei e sentei-me na mesa habitual, esperei uns doze minutos, por fim, ele, curvado, com um semblante de derrota, disse-me Vem, falamos ali fora, acedi, confirmou-se o pior cenário, num exame, para a mulher, teria de retirar um peito, e, mesmo assim, sem garantias, acrescentou Não podemos continuar… Baixou o olhar, antes de terminar a frase, não regressámos para a mesa, ainda não tínhamos pedido, abraçámo-nos pudicamente, dei-lhe um beijo na face, enquanto ele me segredava, numa doçura suplicante, Espero que compreendas… Partimos em direcções opostas, creio que, nesta vida, raramente caminhámos rumo ao mesmo horizonte…

Hoje sei que ninguém me espera. Um desses dias em que as sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, uma janela que se abre para a paisagem onde não nos queremos ver, entretanto, o meu pai deixou-nos, faz agora pouco mais de um ano, sempre aquele terrível inimigo que nos dilacera por dentro, e que ninguém aparentemente quer derrotar (a quem interessará tal força?), felizmente ainda conheceu a neta, pois, fui novamente tia, desta vez, de uma linda menina, tem agora oito aninhos, a minha mãe refugiou-se no serviço paroquial, reforma e viuvez não são boas conselheiras, e eu para aqui ando, faz dez anos aquele púdico abraço. Nunca mais nos vimos. Nunca mais soube nada dele. De certa forma, foi o único final possível. E admirei o seu gesto de regressar inteiro naquela hora. Houve tanta nobreza nesse momento. Desde então, regressou a minha velha companheira de viagem, recebi-a com indiferença, foi discreta na sua reentrada, está para ali, no seu canto, e não me incomoda, chego a casa, não acendo logo a luz, nalguns gestos sinto os passos do tempo, é natural, dele só resta uma fotografia, nem está à vista, hoje, tanto tempo depois, continuo desencontrada da palavra arrependimento, basta-me relembrar aquele instante em que a luz partia da terra para nos relembrar sonhos caídos…

quarta-feira, 1 de abril de 2026


"No fim de contas, são poucos a ter o dom de alterar a direcção do nosso caminhar, de nos desconstruírem convicções, de, num repente, nos colocarem face a um dos actos mais radicais da existência: virar costas a tudo o que edificámos para contemplar o seu rosto, nem que seja por mais um entardecer…"

in Nuvens passeantes pelas águas