Livros do Escritor

Livros do Escritor

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026


... compreendi, muito cedo, que amadurecer é iluminar as iniquidades do mundo…  

in Nuvens passeantes pelas águas

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Hoje o mundo cheira a terra molhada

 


Uma das coisas mais penosas, que ainda tenho de cumprir, é ter de passar duas semanas, durante o Verão, em casa do meu filho, se me pedissem para caracterizar essas duas semanas, suplício é a primeira palavra que me surge, com uma nitidez irrepreensível, pois, como dizia, duas semanas, durante o Verão, nem sei quando isto começou ao certo, julgo que tenha sido depois de o meu marido… Uma punhalada que sinto, com renovado vigor, cada vez que o seu rosto, nome, sentir, voz, gestos, sorrir, ideias, se levantam na minha memória, porque, neste espaço do ontem, também uma parte significativa de mim jaz, e se ergue, a seu lado, para de novo se diluir sob a pesada evidência do ido… Mas, de novo, as tais duas semanas, que me fazem deixar a minha casa, na minha querida terra que me apresentou o mundo, que tão bem conhece o sal do meu rosto, corre pelo pão de cada dia, pela dor de ser, e tão bem que lá estou, com as minhas coisas, os meus afazeres, a fiel companhia dos meus vizinhos, salvo alguns que infelizmente já partiram ao encontro do Criador, com o tempo, vamo-nos despindo de rostos, até que o espaço do viver se torna na aridez de uma noite infinda, como compreendo os velhos largados em lares, vivem num limbo, sem ontem, porque subtraído por incontáveis lamelas de calmantes e analgésicos, sem amanhã, por já sentirem a fria carícia dos dedos da morte pelo rosto, sem hoje, por uma visita que sempre se espera embora nunca chegue, um acto de fé praticado com uma abnegação sem direito a réplica, porém, com um resultado previamente sabido, como compreendo os velhos largados em lares, regresso, contudo, a essas duas semanas, e o que me custa! O meu hoje cabe numa mala, fossem duas ou quatro semanas, apesar de alguma dificuldade, sobretudo de equilíbrio, consigo levá-la, é curioso, há uns anos, havia logo dois ou três cavalheiros que se ofereciam para me levar a mala quando subia para o comboio, agora, mais velha, nem um braço se estende na minha direcção, de facto, até a educação querem que passe de moda… À minha espera, na estação da capital, como sempre, filho, nora e neto. É o meu único filho, sempre fomos muito próximos até que, certa tarde, pelo telefone, me disse, pela primeira vez, o nome dela, logo aí, instantaneamente, sinto-o a recuar um passo, desde então, em relação a mim, abraçou a distância, não sei porquê, na presença dela sinto-o nervoso, parece sentir-se intimidado com quaisquer manifestações de ternura comigo, sua mãe… Houve quem dissesse que eram coisas da minha cabeça, que estava a ficar senil, ciúmes de mãe, por aí fora, mas não, não eram coisas da minha cabeça, eram coisas do meu coração, e o coração não olha o mundo, o coração tacteia-o, poucos percebem isto, o ver, sempre o ver, mas as coisas revelam-se-nos de uma outra forma, é quando nos sentamos a ouvi-las que as compreendemos, talvez sejam os meus cabelos brancos a falar no meu lugar, é possível, porém, não me demovo desta minha convicção, o meu filho não é o mesmo desde que aquela mulher entrou na sua vida… E que dizer da artificialidade dos gestos dela? Tudo numa plasticidade excessiva, digna de palco, às vezes, aquelas vozes ecoam por mim, que são coisas da minha cabeça, que estava a ficar senil, ciúmes de mãe, por aí fora, pois, não sei, ou talvez saiba, afinal, o coração não olha o mundo, o coração tacteia-o. Não posso afirmar que sejam descuidados comigo, longe disso, antes de descer da carruagem, já a minha mala pela mão do meu filho, ela segura-me num braço durante os degraus, o meu neto cumprimenta-me de imediato, anda pelos oito anos, moram num prédio tristonho nos arredores, só cimento e carros, tantas vezes insisti que me cansei (Meu filho, isto não é vida para ninguém! Por que não voltas para ao pé de nós?), ele ria-se, ela já não, a expressão endurecia-se com um traço de desprezo, tudo se jogava naquele espaço inarticulado do silêncio, em que tanto nos dizemos, em que tanto nos gritamos, se aí me demorasse creio que logo ensurdeceria de vez, ocupam um sexto-andar, capituladas as formalidades iniciais, quando se esquecem as máscaras pelos caminhos poeirentos deste mundo, o miúdo revela-se um pequeno tirano, a sua frase mais corrente (Eu quero… Eu queria…) deixa-me com a estranha sensação de estrangeira em terras afinal tão longínquas, quando levanto os olhos para ver a reacção do meu filho, só encontro uma expressão envergonhada, como alguém que ciosamente procurou ocultar um fracasso, não intervenho, quedo-me, da minha varanda, a contemplar a imagem de minha mãe lá longe, num ido de há muito, e, no fundo, de há tão pouco, a sua voz a soletrar-me, numa dicção irrepreensível de tão musical, A menina nunca se esqueça: se faz favor! Quanta saudade, meu Deus! Percebo o aval materno às investidas do pequeno tirano, com aquela expressão plástica, indiciadora de que vai tudo tão mal, mas tão mal, que realmente só resta o plástico, regresso à minha varanda, são só duas semanas, passa rápido, quando der por mim, estarei no comboio de regresso à minha querida terra que me apresentou o mundo, pode ser que um dia, talvez não muito longe, o meu filho tropece numa máscara caída e compreenda que tudo cabe numa mala.

domingo, 18 de janeiro de 2026


 Às vezes, na vida, um tem de pensar por muitos, não obstante a Dor a jusante.

in Nuvens passeantes pelas águas

sábado, 17 de janeiro de 2026

Quem te anoitece os dias?

 


Quando menos esperamos, num acaso do destino, de manhã ou de tarde, até de noite, em escassos segundos, a vida relembra-nos que nunca estivemos ao leme de nada, é estranho, às vezes, sinto-lhe prazer nesse jogo de forças, como se nos espelhasse a real insignificância de sermos, comigo aconteceu há umas semanas, estava nas compras, nem costumo ir àquela superfície que apela a pernas e paciência, nunca gostei da desumanidade desses espaços, contudo, tinha o miúdo na natação, que ali fica perto, algum tempo ainda, um jantar para fazer, resolvi entrar, como dizia, nunca gostei da desumanidade desses espaços, tudo numa artificialidade excessiva, do brilho do chão ao sorriso plástico dos empregados, percebi-a ao fundo de um corredor, estaria a cerca de cinquenta metros, era a zona da decoração doméstica, de um lado, quadros, bibelôs, molduras, velas, umas perfumadas, outras coloridas, caixas, caixinhas, do outro, tolhas, turcos, lençóis, capas de colchão, tudo numa espiral de cores e tamanhos, pela silhueta percebi o fundamento do que se dizia, de facto já se notava, até ia bem adiantada, segurava uma moldura e consagrava-lhe uma ternura atenciosa, percebia-se-lhe o destinatário, mantive-me onde estava, ela longe da minha presença por ali, continuei a observá-la, pois, a silhueta, nisto, eu não via o que olhava, mas sim o que pensava, e eu era números, e uma questão inarticulada e sofrida nascia, numa dolorosa lentidão, pelo meu pensar…

Não sei porquê, mas olhava para ela, ao fundo do corredor, estaria para aí a uns cinquenta metros, e a imagem dele por ali, de uma outra forma, até para me organizar, não conseguia dissociá-los, já me acusaram de tanta coisa, por causa destas minhas ideias, várias amigas repetidamente (Mas tu és doida? Já viste aos anos que vocês são casados? Que disparate! Vai-te curar, mulher! Continua com essas coisas, continua, que ainda arranjas o teu divórcio… Olha que sinceramente, o teu marido é um santo… Só ele, para aturar esses devaneios… Dá valor ao que tens, e deixa-te de parvoíces…), de certa forma, percebia-lhes a boa-vontade, o que já não é mau por estes dias, quando tudo se apaixonou pela divisão, talvez para assim se engrandecerem, no entanto, não sei porquê, hoje, a contemplar aquela silhueta, a cerca de cinquenta metros, a imagem dele por ali, não sei como explicar, bem sei que estamos juntos há quase dez anos, sob as leis do céu e dos homens, bem sei que o nosso filho, faltam três semanas para fazer oito anos, está na natação, fica aqui perto, sei de tudo isto, mas… A primeira vez que falei nestas coisas, em verdade, foi quando consegui, com palavras, dar corpo a uma angústia que me povoava há demasiado, minha mãe não estranhou, embora o disfarçasse, lembro-me tão bem, a luz de um Outono ainda Verão lá fora pintava a tarde da cidade, concedia-lhe a tonalidade de um tempo que se prolonga na despedida, como um diálogo que se alimenta de olhares no lugar de palavras, era Sábado, ele saíra para o futebol com os amigos, comecei por, a olhar um ponto indeterminado, fingindo arrumar algo, lhe dizer Acho que ele ainda gosta da… Nunca lhe consegui verbalizar o nome, não sei porquê, ou talvez saiba, ainda de pé, minha mãe fixou-me, percebeu o esforço de cada sílaba, era uma mulher que apreciava o esforço de compor em palavras o que, afinal, somos… Retorquiu, Desculpa, mas estás a falar de quem ao certo? Percebi, de imediato, que trazia distância às coisas, afinal, no horizonte tudo se torna relativo, A mãe sabe muito bem de quem estou a falar: do meu marido e da sua primeira... Após esta frase, deixei o ponto indeterminado e desci o meu olhar ao seu rosto, não havia, por ali, sinais de cansaço que é comum encontrarmos naqueles que conhecem este mundo há tanto, não, nada disso, havia apenas uma serena ironia, no fundo, talvez fosse a opção encontrada para se levantar em cada amanhecer, eu continuo em busca da minha, daí esta dificuldade em compor palavras para ilustrar angústias de há muito, Deixa-te de rodeios! Porquê isso agora? Onde foste buscar tal coisa? A voz adensava-se-lhe, era nítido, as sílabas tornavam-se mais pausadas, levantei o meu olhar do seu rosto em busca de um porto de abrigo, longe de recriminações surdas e de críticas inarticuladas, Um dia destes, hás-de conseguir destruir o teu casamento, ouve bem o que te digo! Ele há-de cansar-se de tanta estupidez! Casou-se contigo há dez anos e, mesmo assim, continuas com essas parvoíces… O que queres mais dele? Diz-me! Sabes, és daquelas pessoas que só adensa a sombra… Sempre tiveste um lado invernoso bem latente em ti, desde criança. É curioso, agora que falo nisso, lembro-me tão bem, no Verão tornavas-te taciturna, em monólogos à sombra, enquanto todos em risos e correrias à volta do lago, lembras-te? Pois… Cuidado, é tudo o que te posso dizer. Compreendi o que me queria dizer, era o expectável, o tom condescendente e pedagógico mantinha-se, por vezes, não sei se me reconfortava ou se me exasperava, por isso, avancei Ela está grávida! E, fazendo as contas, ajusta-se àquele período em que ele saiu de casa… Quando discutimos por causa de… Pois, ela desconhecia essa zanga, arrependimento e alívio passaram por mim após este desabafo, mas já era tarde, a frase já não me pertencia, agora era do domínio daquela realidade (a luz de um Outono ainda Verão lá fora pintava a tarde da cidade, concedia-lhe a tonalidade de um tempo que se prolonga na despedida, como um diálogo que se alimenta de olhares no lugar de palavras, era Sábado, ele saíra para o futebol com os amigos), ela preferiu sentar-se, o tempo nunca se esquece de nós, embora façamos tudo para o ignorar, ele é o nosso mais fiel companheiro de viagem e, a qualquer altura, quando menos esperamos, relembra-nos a sua presença, repetiu, várias vezes, a frase para si mesma Ela está grávida! Ela está grávida! Ela está grávida! Levantou-se, tomou a direcção da porta da rua, secundei-a, antes de sair, olhou-me, uma vez mais, como a criança que fui, só mais tarde compreendi que os pais olham os filhos com todas as idades, só mais tarde, tão tarde, e disse-me Minha filha, quando ele chegar casa, abraça-o e repousa o teu rosto no seu peito. Se estiveres bem atenta, todas as dúvidas serão esclarecidas. Sabes, isto de viver não é assim tão complicado, mas só percebemos isso quando o olhar desce sobre a terra.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026



 ... nunca te esqueças disto: A infelicidade é o produto mais transaccionável do mundo!

in Nuvens passeantes pelas águas

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026



 ... no fundo, o espectáculo do mundo é o de uma fuga permanente, cada um foge de si, na procura de uma incerteza, como se aí residisse a propalada felicidade...

in Nuvens passeantes pelas águas

sábado, 10 de janeiro de 2026

Quando o mundo se esquece de nós

 


Ainda me lembro da primeira vez em que esse assunto se interpôs entre nós, foi num Sábado de manhã, ao pequeno-almoço, ele a folhear um desses catálogos de casas deixados na caixa-de-correio, entre a torrada e a caneca de café com leite, uma altura em que até nos estranhamos, é normal, depois de cinco dias sob a tirania dos ponteiros de qualquer relógio que a nossa vista alcance, esta súbita indolência é recebida com estranheza, mas regressemos ao tal assunto, como dizia, Sábado de manhã, o pequeno-almoço, ele a folhear um desses catálogos de casas deixados na caixa-de-correio, entre a torrada e a caneca de café com leite, em verdade, quando falou, ainda o ouvia mastigar despojos da torrada, Já viste quanto custa uma vivenda na província? O mesmo que um apartamentozito de uma assoalhada por aqui! E, repara, até tem algum terreno… Isto, sim, é viver! Parece que nos tornamos senhores do tempo, em vez de seus escravos… Olhei-o, já de pé, estava a arrumar a louça, mas não lhe respondi, pensei, confesso, que se tratava de mais uma das suas incursões diletantes, ainda acrescentou duas ou três frases, já não o ouvia, por fim, para que saísse dali, começava a irritar-me aquele interminável folhear do panfleto publicitário de mais uma imobiliária, pomposamente apelidado de catálogo de casas, disse-lhe Agradecia que fosses dar banho ao miúdo, enquanto eu acabo de arrumar a cozinha, sempre que fazia algo a contragosto, ele cerrava os lábios e olhava para o chão, era uma forma de os impropérios se tornaram inaudíveis e de ninguém perscrutar a sua expressão enfadada, saiu a arrastar os pés, agradeci o silêncio restituído, nisto, reparo na publicidade das casas, que ele tanto apregoou, aberta em cima da mesa, sento-me, de facto, uma vivenda, com duas salas, três casas-de-banho, quatro quartos, seiscentos metros quadrados de terreno, custa o mesmo que este nosso acanhado apartamentozito, uma salita, apenas um quarto, uma casa-de-banho, ainda por cima minúscula, sem direito a banheira, o que eu sonho com um banho de imersão quando chego tarde do trabalho, então à noite, já nem as pernas sinto, como é primeiro-andar, a vista somente alcança o prédio em frente, se o céu quero ver, só olhando as alturas com a cabeça fora da janela, a ideia começou a germinar também em mim… Estávamos juntos há quatro anos, engravidei no decorrer do primeiro, porém, ele já tinha uma filha de oito anos, do seu anterior relacionamento, volta e meia, falava de casamento, pois, mais uma das suas incursões diletantes, gostava que abordasse o tema, não sei porquê, ou talvez saiba, em cada mulher há uma menina que nunca se despediu, mas nunca fez parte dos meus planos, parecia-me o fim de algo, como se retirassem cor a um sonho, um pouco isso, sempre preferi o caminho à berma, contudo, o tema regressava, Não achas que está na altura de nós… Já viste, estamos juntos há quatro anos, bem sei que se trata de um papel, mas acho que é importante dar esse passo… Até para o miúdo, que está quase a fazer três, faria toda a diferença… E sabes que tenho razão. Claro que não é por causa de qualquer tipo de preconceito social, é, antes de mais, por não ter dúvidas sobre o que por ti sinto… Quando ele dizia estas coisas, a menina que nunca de mim se despediu suspirava, mas o fim de algo, como se retirassem cor a um sonho, se caminhávamos tão bem, para quê sentar na berma?

Regressei a mim, já uma vivenda, com duas salas, três casas-de-banho, quatro quartos, seiscentos metros quadrados de terreno, que custava o mesmo que um acanhado apartamentozito, com uma salita, apenas um quarto, uma casa-de-banho, ainda por cima minúscula, sem direito banheira, e o que eu gosto de um banho de imersão quando chego tarde do trabalho, então à noite, nem as pernas sinto, a mudança demorou menos que dois anos, mas fui tudo tão rápido, só com a idade é que percebemos que o tempo acelera e desacelera consoante a geografia de uma existência, desenganem-se os que afirmam a constância do seu fluir, tolos é o que lhes posso dizer, quantas vidas encerra um minuto? Foi quando pousei a última mala, que um pânico mudo de mim se apoderou, ele, com o miúdo às cavalitas, dava ares de um cicerone encantado e percorria as várias divisões da casa, encostei-me à parede a suar, trémula, diante de mim, a visão de um deserto, iria regressar-me noutras ocasiões, mas, sem dúvida, essa foi a primeira, e uma questão formou-se-me no pensar, porém, evolou-se quando caminhava para a fala… A noção de desastre! Quantas vezes, numa vida, esta clarividência? Nascida, neste caso, do baque surdo da última mala no soalho da entrada. Na primeira noite, ele procurou-me, e segredou-me melosamente ao ouvido Temos de celebrar, não achas? Aleguei cansaço, a mudança, a viagem, tudo, felizmente, não insistiu, a luz de cada dia tem a fatalidade de nos devolver o que somos nessa data, a noite, pelo menos, aproxima-nos do que gostaríamos de ser, pois, o sonho, como dizia, nessa primeira manhã, ele quase saltou da cama em cantorias, enaltecia cada pormenor com uma alegria genuína, permaneceu nas faldas do meu terror (diante de mim, a visão de um deserto), felizmente para ele, contudo, o tempo lá pegou na sua mala e decidiu voltar à estrada (quantas vidas encerra um minuto?), à tardinha, quando regressava, sentava-se para ali no quintal (seiscentos metros quadrados de terreno), de cigarro na boca, a olhar a serra por onde a noite já caminhava, via-o pela janela, dominada pelo terror (diante de mim, a visão de um deserto), que imensa saudade quando a vista somente alcançava o prédio em frente, se o céu queria ver, só olhando as alturas com a cabeça fora da janela, aquele rumorejar do trânsito, noite e dia, quase como o sangue das minhas veias, continuei a olhá-lo, sentado, de cigarro na boca, a contemplar a serra por onde a noite já caminhava, ele encontrou-se, eu perdi-me, virei costas ao que sou, compreendi, nesse instante (quantas vidas encerra um minuto?), que já não tínhamos nada a dizer um ao outro, tantos equívocos somados, pois, só com a idade é que percebemos que o tempo acelera e desacelera consoante a geografia de uma existência, e o miúdo… Foi quando levantei a última mala, o soalho a ranger o que me pareceu um tímido adeus, que um sentir de alegria caminhou por mim, a luz de cada dia tem a fatalidade de nos devolver o que somos nessa data, a noite, pelo menos, aproxima-nos do que gostaríamos de ser, pois, o sonho…


 

domingo, 4 de janeiro de 2026

Da Cobardia (ou a Porcachona e o Tintim III)


 

Hoje encerro a trilogia sobre estas ridículas figuras, a Porcachona e o Tintim, a cobardia do supracitado título não é um acaso, após as duas anteriores crónicas, onde, convenhamos, estas personagens tão bem foram retratadas em toda a sua esplendorosa mesquinhez, como se mais tivessem para oferecer ao mundo, reuniram-se para tomar medidas, impunha-se um contra-ataque, mas como…? Escrever? Pois, o Tintim, esse boneco de andar bamboleante, com o livrito debaixo da sovaqueira, tentou por múltiplas vezes articular frases sobre folhas-em-branco, o resultado final, enfim, apenas uma dolorosa pobreza, guardou a frustração para si, é necessária nobreza para assumir as fraquezas, a vida, inclemente, apontou-lhe a margem de leitor, em verdade, não lhe fora concedido engenho para mais, daí o omnipresente livrito debaixo da sovaqueira, assim que o mercado chama as ovelhitas, lá vai o boneco, atrás do rebanho, para, no dia seguinte, preencher a sovaqueira com o último ditame, por conseguinte, escrever muito para além das suas diminutas capacidades, a Porcachona, então, escrever só se fosse para comédia alheia, não, por aí o caminho nitidamente vedado, confrontar o autor também não se lhes afigurou possível, são de essência cobarde, tudo pelas costas, maledicência, conluios, inveja, sublinhe-se, uma vez mais, o boneco ambicionava ser escritor, a Porcachona é simplesmente uma frustrada, que se aproxima a largos passos dos sessenta, percebe que já ninguém lhe pega, pariu duas vezes, embora, pela volumetria das ancas, se afigure a génese de uma pocilga, e o que podia fazer o boneco, com aqueles descarnados membros, tamanho só acumula na cintura, até o cocuruto, há muito, em obscena nudez, para aguçar a fantasia do leitor: imaginem um boneco, carequinha, de andar bamboleante, redondinho, apesar de uma camisa largueirona na desesperada tentativa de calar este facto, aproximar-se de alguém e, num sumido tom de aviso, “Veja lá se quer levar um tabefe…”; pois, não, a coisa não poderia ser por aí, onde o Tintim conseguiria arrojo para tal, uma vez que a sua testosterona é proporcional aos escassos grisalhos sobre o cocuruto, um contra-ataque público também não seria boa ideia, são de essência cobarde, tudo pelas costas, maledicência, conluios, inveja, e a Porcachona já foi avisada “Ten mucho cuidadito, Porcachona, el mundo es pequenito,” a coisa teria de ser mais subterrânea, são criaturas das sombras, íntimas de ratazanas e outras tais, uma mensagem por uma dessas actuais redes-privadas, ora nem mais, mas quem escreve? Aqui a Porcachonha, de forma lesta, ofereceu-se, o boneco ainda ponderou, mas receou que, se fosse o primeiro a levantar-se, todos ficariam a olhar para o seu andar bamboleante, vivemos, sem dúvida, tempos onde a intolerância impera, há algum mal que, na locomoção, alguém goste de sobressair as ancas? Sinceramente, abaixo os preconceitos, deixem o Tintim dar às ancas, até fez um casamento interessante, na vida há que sopesar muito bem as escolhas, umas ancas bamboleantes, pelo menos, são garantia de uns passitos de dança na direcção certa, ela proprietária de uma casa a Sul, assim sendo, permitem que, todos os Verões, o nosso boneco fique morenito, não por acaso, prudente como é, já adquiriu múltiplos chapéus, aquele cocuruto em obscena nudez, apesar da celeridade com que se voluntariou, a Porcachona logo se debateu com a sua total falência para articular palavras, nem insultar por escrito lhe foi possível, compreende-se, é uma Porcachona, mais não lhe é exigível, neste particular, os tempos correram a seu favor, uma Porcachona não sabe jogar limpo, quem vive da e na imundície a mais não pode aspirar, lá se valeu do actual substituto do intelecto humano, no seu caso nem se pode denominar de substituto, uma vez ser totalmente desprovida de intelecto, em última instância, e bem vistas as coisas, não foi das suas jogadas mais abjectas, buscou o que não possui: inteligência; no dia seguinte, em júbilo, pô-la a correr na tal rede-privada, claro que houve o cuidado de não estar assinada, a memória de um aviso “Ten mucho cuidadito, Porcachona, el mundo es pequenito,” o boneco, prudente como é, também declinou assinar, não fosse alguém arranjar-lhe um novo andar, só quem, de facto, padece de total ignorância, julga que estas coisas ficam em privado, um pombo-correio, com nome de azeiteira, despeitado, enviou para um sujeito, com a esperança de que este o fizesse chegar ao visado, coitadinha, julgou todos por si, como resposta “Eu não sou pombo-correio, tem aqui o contacto de quem por direito”, o pombo-correio, de nome azeiteira, também é cobarde, tudo pelas costas, maledicência, conluios, inveja, são criaturas das sombras, íntimas de ratazanas e outras tais, a somar a tudo isto há favores, muitos favores, três anitos de contrato seguidos para garantia permanente do pãozito na mesa, assim se estabelece a obediência cega destes acéfalos, claro que nada enviou, pudera, esta é a realidade dos nebulosos tempos que atravessamos, onde a Cobardia é o único Norte possível aos miseráveis acéfalos, toda a minha escrita é  pública e assinada, pois quem nasce com coluna-vertebral não sabe rastejar.

Pedro de Sá