Livros do Escritor

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sexta-feira, 6 de março de 2026

Finitudes

 


O mais curioso de tudo é que fomos lá juntos, quase parecia uma segunda lua-de-mel, os preparativos, passaportes, a escolha do fim-de-semana, os miúdos com a minha mãe, a viagem, assim que aterrámos, uma chuva miudinha omnipresente, pelo rosto, pelas roupas, ele “Já estou com saudades do nosso sol”, limitei-me à ternura de lhe dar a mão, assim silenciava angústias, ele, como sempre fazia, segurou-a num sentir feito gesto, após o aeroporto, a chegada ao hotel, a chave, elevador, o quarto (talvez alguém se tivesse esquecido de um sonho na almofada, não sei porquê, mas sempre desejei encontrar, nem que fosse por uma vez, um sonho abandonado. Tantas coisas largadas no mundo, mas ninguém se esquece de levar os sonhos consigo!), por fim, abrir malas, só depois, muito depois, um passeio já sob candeeiros iluminados, caminhávamos não pelas ruas novas para o nosso olhar, mas, no fundo, pelas interrogações que o amanhã nos apresentava. Há uns meses, sem nada me dizer, não sei se por afirmação pessoal, se por gozo, aventura, candidatou-se a uma vaga numa empresa de construção no exterior, que oferecia, entre muitas e vantajosas condições, o quádruplo do vencimento, disse-me, depois, que tropeçou no anúncio, contudo, contactaram-no, de imediato, para uma entrevista, da incredulidade inicial passou para um genuíno interesse, nesta fase, começamos a ver-nos dentro do quadro, foi enquanto se descalçava, não escolheu o momento ao acaso, que deixou no ar “Sabes que recebi uma proposta de trabalho do exterior?” Repara como ele colocou a questão… Ocultou apenas os seguintes factos: a candidatura foi de sua iniciativa, sabia das vantajosas condições de trabalho, como auferir o quádruplo do actual ordenado, partiu de uma carência de afirmação, e mais importante que tudo: já se via como parte integrante do quadro; não, não era um mero espectador, olhava-se já como personagem: e aqui reside a diferença entre equívocos e factos… Confesso que, na altura, não dei o devido relevo à sua questão, pois, não escolheu o momento ao acaso, ocupada que estava com o quotidiano, acho que lhe respondi “Olha que bom! Alguém que nos dê o devido valor”, a resposta saiu-me assim, quase como se fosse um cumprimento, uma exigência da educação, se fosse mais atenta, se não desse tanto de mim ao quotidiano, teria reparado que ele levara o triplo do tempo para se descalçar, que a frase lhe saíra a custo, numa naturalidade demasiada que apenas ocultava a teatralidade da situação, que permaneceu sentado de costas, nem ousou virar o rosto, que deu um longo suspiro enquanto lhe respondia com o cumprimento, se fosse mais atenta conheceria, há muito, a diferença entre equívocos e factos.

Como dizia, pois, o passeio sob candeeiros iluminados, caminhávamos não pelas ruas novas para o nosso olhar, mas, no fundo, pelas interrogações que o amanhã nos apresentava, a chuva miudinha não se esquecia de nós, conferia às coisas uma imaterialidade de sonho, parecia que não pisávamos o chão do mundo, quase como se pairássemos sobre as coisas, apenas o frio líquido no rosto nos devolvia à nossa circunstância, um vulto ou outro, com o familiar guarda-chuva, protector de almas, sobre a cabeça, cruzava-se connosco na irrealidade daquele cenário nocturno, com pontos luminosos difusos e contorcidos pela cortina de água, regressámos, partiu de mim, eu não era personagem daquele cenário, tinha a alma desprotegida, chovia-me nas minhas dores, ele, pelo contrário, percebi que não se importava de continuar, só aquando dos primeiros esboços de regresso é que lhe compreendi contrariedade, já era um caminhante imaterial daquele sonho, sem eu saber, talvez algo lhe protegesse a alma. Foi sem surpresa que, no dia seguinte, após a entrevista, me anunciou ter aceitado a oferta de emprego, de novo, cada um caminhava pelas suas paisagens interiores… O resto, já sabes, passados dois meses, regressou, desta vez para ficar, àquela omnipresente chuva miudinha, agora que penso nisso, é curioso, parecia já lhe conhecer os contornos do rosto, ao contrário de mim, ele nunca fechava os olhos, como se lhe conhecesse o gosto, e os miúdos, quando contámos, abraçaram-se-lhe ao pescoço, aqueles lugares onde as palavras não entram, percebes, não é…? Nesses dois meses reaprendemos o namoro. Sabes aqueles objectos que procuramos incessantemente, depois, quando a sua existência há muito ignoramos, num repente, surgem diante de nós, como se nunca tivessem dali partido? Pois, assim foi com aquele estar do namoro, uma ânsia por alguém que encerra em si o Sentido, de um momento para o outro, apesar dos filhos, das fiéis contas na caixa-do-correio, dos anos de permeio, dos silêncios obstinados, das noites de omoplatas, ali estava, no tapete de entrada, como se nunca tivesse partido, renovámos juras de amor, ele “Aos fins-de-semana regresso. Estamos no século XXI! São só duas horas de avião! E a qualidade de vida que vamos garantir aos miúdos, já viste? E quando eu não puder vir, vão vocês ter comigo. Certamente, ainda vamos estar mais horas juntos,” enquanto ele falava, não sei porquê, surgiu-me a imagem da omnipresente chuva miudinha que parecia familiarizada com os contornos do seu rosto, os miúdos não o acompanharam até ao aeroporto, preferi que ficassem com a minha mãe, fomos só nós, uma mala bastou para se levar, não percebi se indiciava pressa de partir ou urgência no regresso, aguardámos sentados pelo  voo, descansei o pensar no seu ombro, enquanto ele calendarizava o futuro de regressos e partidas, e eu que sempre senti uma repulsa visceral por estes lugares de gestos efémeros que se suspendem num para sempre, até que uma voz mecânica anunciou a partida, caminhei a seu lado até onde me fui permitido, não ousei falar, o sentir desarrumado estender-se-ia à minha frágil voz, e no meu céu interior, naquele momento, uma omnipresente chuva miudinha, essa sim conhecia os contornos do meu rosto, abraçámo-nos durante o necessário de um sentir feito gesto, quando me regressei, ele já ia para além de efémeros gestos que se suspendem num para sempre, antes da derradeira porta, olhou para trás, o seu rosto estava como há dois meses, parecia dizer-me “Já estou com saudades do nosso sol”, o meu olhar desceu à mala que bastou para se levar, não percebi se indiciava pressa de partir ou urgência no regresso, é que há tantas coisas largadas no mundo, mas ninguém se esquece de levar os sonhos consigo.


 

domingo, 1 de março de 2026


 

"... estava sentada, num longo e desumanizado corredor, a humanidade, num hospital, só se circunscreve a alguns gestos, não é verdade?"

in Nuvens passeantes pelas águas