Livros do Escritor

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sexta-feira, 28 de março de 2025

Já não há matinés

 


Ainda há muita coisa desarrumada em mim, apesar de, à superfície, as coisas parecerem normais, agora que ela voltou, após uma vida, foi o que me pareceu, duas décadas, mas, para mim, soube-me a uma vida, pela compreensão da dor, se é que tal é possível compreender, porém, onde, de facto, tudo começou? Vivíamos praticamente juntos, por outras palavras, partilhávamos leitos em casa dos pais de ambos, já trabalhávamos há algum tempo, não havia fim-de-semana em que o tema do casamento não fosse abordado, um pouco como aqueles objectos que repousam numa prateleira, em preces de discrição, mas logo uma mão demasiado inconveniente lhes pega numa ânsia desassossegada, assim se me afigurava a temática do casamento, de certa forma, parecia que queríamos prolongar a doçura irresponsável do namoro, apesar do apelo da idade ser de leito partilhado num só lar, de preferência pago do nosso bolso, pensamentos em berços e comunhões, no entanto, persistíamos naquela doçura irresponsável, olhava-a, por vezes, numa sempre necessária distância, só assim se deve olhar para compreender, e tantas questões se sucediam por mim, mas uma era omnipresente (O que é amar?), respondia-me de imediato, e logo corria para longe de tais dúvidas angustiantes, ninguém, antes de mim, amou de tal forma, e essa certeza pétrea era-me suficiente, contudo, a vida ensina-nos que só compreendemos a corrente da margem, e, nessa altura, eu deixava-me arrastar na doçura irresponsável do namoro, não vi os primeiros sinais de enfado que ela exteriorizava, nas tardes de Sábado, quando me perguntava Não queres mesmo ir a lado nenhum? Ainda insistia Está um dia tão bonito… Eu a querer ficar em casa, deitado, não me apetecia ver ninguém, ela, ainda, num último esforço Anda! Vamos dar uma volta. Não me apetece nada enfiar-me num quarto da casa dos teus pais. Não temos a mínima privacidade. E já não somos nenhuns miúdos! Dissera tudo, se eu soubesse ouvir, mas não, quis ficar, nesse Sábado, de tarde, tal como em muitos passados, fechado em casa, deitado, com ela a meu lado, muitas vezes só víamos televisão, afinal, vivíamos praticamente juntos, e eu achava que tudo tão certo, seguro, já nada fora do seu lugar, Domingo viria, ela, de novo, Anda! Vamos dar uma volta. Não me apetece nada enfiar-me num quarto da casa dos teus pais. Não temos a mínima privacidade. E já não somos nenhuns miúdos! Mas não me apetecia sair, cansava-me ver sempre as mesmas coisas, se uma semana a correr para o emprego, depois a correr na sofreguidão do regresso a casa, para quê, naqueles dois dias, de sabor a tão pouco, sair? Contentava-me com ela ali, a meu lado, muitas vezes só víamos televisão, afinal, vivíamos praticamente juntos, e eu achava que tudo tão certo, seguro, já nada fora do seu lugar, por norma, partia dela a iniciativa de, desde o início, a timidez sempre esteve ao leme do que eu sou, em certa medida, compreendo o porquê daquele desaguar, no meu leito, há uns anos, afinal, só procura uma baía quem se cansou de mares encapelados, houve vozes ansiosas por dar corpo a histórias, enfim, o habitual do circo humano, não liguei, até me falaram de gravidezes que capitularam com a meta à vista, talvez pela dúvida da fonte, pois, mas nunca me interessei por biografias, só me interessava ela ali, a meu lado, muitas vezes só víamos televisão, as semanas tornavam-se meses, que, por sua vez, originavam trimestres, o tempo lá ia no seu passo, ora de idoso, ora de menino, consoante o nosso olhar, até que, numa sexta-feira, o telefone, ela Amanhã não posso ir aí ter. Vem cá uma prima minha que não conheces… Não, não vale a pena… Deixa… Tenho de lhe mostrar Lisboa. Ias-te aborrecer de morte. Não, não vale a pena… Fica sossegado, afinal, amanhã é Sábado, e tu gostas de ficar com a tua televisão… Por isso, deixa-te estar e não te preocupes… Quando chegar a casa, ligo-te, não lhe conhecia primos, muito menos fora de Lisboa, percebia-se-lhe uma pressa na entoação, como o viajante que receia perder o embarque, algures uma voz sussurrava-me que ela se preparava para zarpar rumo a mar-alto, procurei logo silenciá-la, mas insistia, não a consegui calar, apesar da televisão, da tarde de Sábado, eu deitado, mas ela não a meu lado, nessa noite, não sei se chegou a casa, apenas percebi que o meu telefone permaneceu no silêncio crescente da minha angústia, Domingo, assim que a hora me pareceu apropriada, quando as casas dos vizinhos já exalavam torradas e café, eu com o auscultador encostado à orelha, enquanto um som arrastado me dizia que um telefone por mim desejado se fazia anunciar, até que o som arrastado se precipitou na intermitência por ninguém ter acorrido, insisti, insisti, nem pensar em desistir, insisti de novo, tudo se precipitava numa exasperante intermitência, resolvi ir bater-lhe à porta, assim foi, na rua percebi o carro dos pais, apesar da campainha, vezes repetidas, a porta do prédio numa fria indiferença metálica, regressei a casa, essa tarde de Domingo, apesar do sol, pareceu-me uma imensa noite, fechei-me no quarto, assim fiquei, mas a televisão desligada, agarrei-me, para os dias seguintes, a uma ruína de orgulho, se assim se pode dizer, dias depois, tão longos para o sentir que me habitava, pouco antes do jantar, o telefone, não consegui disfarçar a sofreguidão, corri de imediato ao seu encontro, meus pais entreolharam-se no silêncio da compreensão, era ela, desta feita, numa entoação demasiado pausada, falava-me de dúvidas, de incertezas, do cansaço pelos Sábados, de tarde, fechados em casa, cortei a conversa, ainda hoje me surpreendo pelo arrojo Conheceste alguém? Afinal já conhecia, e eu também, um amigo do irmão, advogado, parece que gostava de viajar, não, Sábados de tarde sempre fora, de um lado para o outro, desconhecia por inteiro a grelha televisiva, cama só de noite e parece que dormia pouco, pois, e há muito que tinha a sua casa, de novo, agarrei-me a uma ruína de orgulho Tens a certeza? A resposta dela, Sim, soube-me a mil golpes, uma forma de inocência acabara de se me morrer, num último fôlego, disse-lhe Felicidades…

Quantos rostos saem e entram nas nossas vidas? Os que partem na derradeira viagem, permanecem em nós, regra geral, consoante o legado da memória, com uma dignidade intocável, os outros, os rostos da circunstância, enfim, acabam por sucumbir ao momento, outros se sucedem neste incessante dia após dia apelidado de existência, e ainda há os que nos ferem de vazio, os tais que nos retiram, friamente, uma forma de ver o mundo, o rosto dela demorou vinte e dois anos a reentrar na minha vida…

Entrou, de bicicleta na mão, na minha loja de reparações de, isso mesmo, bicicletas, os Sábados, de tarde, fechado em casa, a ver televisão, deixaram de ter um sentido, ainda hoje não sei se foi de propósito, creio que sim, achei curioso a familiaridade com que me tratou, parecia retomar um diálogo algures interrompido, confesso que me soube bem, enquanto ela falava, parecia que uma parte de mim se reconstruía, sem me aperceber, caminhávamos passeio fora, apesar dos seus três filhos, do ainda marido advogado, que já não viaja assim tanto, parece que semeou demasiadas dívidas, às quais somou um desfalque, percebo agora o porquê da bicicleta, de uma certa resignação pela face, antes de se despedir, olhou-me e disse Amanhã é Sábado, não é? 

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