Ainda
há muita coisa desarrumada em mim, apesar de, à superfície, as coisas parecerem
normais, agora que ela voltou, após uma vida, foi o que me pareceu, duas
décadas, mas, para mim, soube-me a uma vida, pela compreensão da dor, se é que
tal é possível compreender, porém, onde, de facto, tudo começou? Vivíamos
praticamente juntos, por outras palavras, partilhávamos leitos em casa dos pais
de ambos, já trabalhávamos há algum tempo, não havia fim-de-semana em que o
tema do casamento não fosse abordado, um pouco como aqueles objectos que
repousam numa prateleira, em preces de discrição, mas logo uma mão demasiado
inconveniente lhes pega numa ânsia desassossegada, assim se me afigurava a
temática do casamento, de certa forma, parecia que queríamos prolongar a doçura
irresponsável do namoro, apesar do apelo da idade ser de leito partilhado num
só lar, de preferência pago do nosso bolso, pensamentos em berços e comunhões,
no entanto, persistíamos naquela doçura irresponsável, olhava-a, por vezes,
numa sempre necessária distância, só assim se deve olhar para compreender, e
tantas questões se sucediam por mim, mas uma era omnipresente (O que é amar?), respondia-me de
imediato, e logo corria para longe de tais dúvidas angustiantes, ninguém, antes
de mim, amou de tal forma, e essa certeza pétrea era-me suficiente, contudo, a
vida ensina-nos que só compreendemos a corrente da margem, e, nessa altura, eu
deixava-me arrastar na doçura irresponsável do namoro, não vi os primeiros
sinais de enfado que ela exteriorizava, nas tardes de Sábado, quando me
perguntava Não queres mesmo ir a lado
nenhum? Ainda insistia Está um dia
tão bonito… Eu a querer ficar em casa, deitado, não me apetecia ver
ninguém, ela, ainda, num último esforço Anda!
Vamos dar uma volta. Não me apetece nada enfiar-me num quarto da casa dos teus
pais. Não temos a mínima privacidade. E já não somos nenhuns miúdos! Dissera
tudo, se eu soubesse ouvir, mas não, quis ficar, nesse Sábado, de tarde, tal
como em muitos passados, fechado em casa, deitado, com ela a meu lado, muitas
vezes só víamos televisão, afinal, vivíamos praticamente juntos, e eu achava
que tudo tão certo, seguro, já nada fora do seu lugar, Domingo viria, ela, de
novo, Anda! Vamos dar uma volta. Não me
apetece nada enfiar-me num quarto da casa dos teus pais. Não temos a mínima
privacidade. E já não somos nenhuns miúdos! Mas não me apetecia sair,
cansava-me ver sempre as mesmas coisas, se uma semana a correr para o emprego,
depois a correr na sofreguidão do regresso a casa, para quê, naqueles dois
dias, de sabor a tão pouco, sair? Contentava-me com ela ali, a meu lado, muitas
vezes só víamos televisão, afinal, vivíamos praticamente juntos, e eu achava
que tudo tão certo, seguro, já nada fora do seu lugar, por norma, partia dela a
iniciativa de, desde o início, a timidez sempre esteve ao leme do que eu sou,
em certa medida, compreendo o porquê daquele desaguar, no meu leito, há uns anos,
afinal, só procura uma baía quem se cansou de mares encapelados, houve vozes
ansiosas por dar corpo a histórias, enfim, o habitual do circo humano, não
liguei, até me falaram de gravidezes que capitularam com a meta à vista, talvez
pela dúvida da fonte, pois, mas nunca me interessei por biografias, só me
interessava ela ali, a meu lado, muitas vezes só víamos televisão, as semanas
tornavam-se meses, que, por sua vez, originavam trimestres, o tempo lá ia no
seu passo, ora de idoso, ora de menino, consoante o nosso olhar, até que, numa
sexta-feira, o telefone, ela Amanhã não
posso ir aí ter. Vem cá uma prima minha que não conheces… Não, não vale a pena…
Deixa… Tenho de lhe mostrar Lisboa. Ias-te aborrecer de morte. Não, não vale a
pena… Fica sossegado, afinal, amanhã é Sábado, e tu gostas de ficar com a tua
televisão… Por isso, deixa-te estar e não te preocupes… Quando chegar a casa,
ligo-te, não lhe conhecia primos, muito menos fora de Lisboa,
percebia-se-lhe uma pressa na entoação, como o viajante que receia perder o
embarque, algures uma voz sussurrava-me que ela se preparava para zarpar rumo a
mar-alto, procurei logo silenciá-la, mas insistia, não a consegui calar, apesar
da televisão, da tarde de Sábado, eu deitado, mas ela não a meu lado, nessa
noite, não sei se chegou a casa, apenas percebi que o meu telefone permaneceu
no silêncio crescente da minha angústia, Domingo, assim que a hora me pareceu
apropriada, quando as casas dos vizinhos já exalavam torradas e café, eu com o
auscultador encostado à orelha, enquanto um som arrastado me dizia que um
telefone por mim desejado se fazia anunciar, até que o som arrastado se
precipitou na intermitência por ninguém ter acorrido, insisti, insisti, nem
pensar em desistir, insisti de novo, tudo se precipitava numa exasperante
intermitência, resolvi ir bater-lhe à porta, assim foi, na rua percebi o carro
dos pais, apesar da campainha, vezes repetidas, a porta do prédio numa fria
indiferença metálica, regressei a casa, essa tarde de Domingo, apesar do sol,
pareceu-me uma imensa noite, fechei-me no quarto, assim fiquei, mas a televisão
desligada, agarrei-me, para os dias seguintes, a uma ruína de orgulho, se assim
se pode dizer, dias depois, tão longos para o sentir que me habitava, pouco
antes do jantar, o telefone, não consegui disfarçar a sofreguidão, corri de
imediato ao seu encontro, meus pais entreolharam-se no silêncio da compreensão,
era ela, desta feita, numa entoação demasiado pausada, falava-me de dúvidas, de
incertezas, do cansaço pelos Sábados, de tarde, fechados em casa, cortei a
conversa, ainda hoje me surpreendo pelo arrojo Conheceste alguém? Afinal já conhecia, e eu também, um amigo do
irmão, advogado, parece que gostava de viajar, não, Sábados de tarde sempre
fora, de um lado para o outro, desconhecia por inteiro a grelha televisiva,
cama só de noite e parece que dormia pouco, pois, e há muito que tinha a sua
casa, de novo, agarrei-me a uma ruína de orgulho Tens a certeza? A resposta dela, Sim, soube-me a mil golpes, uma forma de inocência acabara de se me
morrer, num último fôlego, disse-lhe Felicidades…
Quantos
rostos saem e entram nas nossas vidas? Os que partem na derradeira viagem,
permanecem em nós, regra geral, consoante o legado da memória, com uma
dignidade intocável, os outros, os rostos da circunstância, enfim, acabam por
sucumbir ao momento, outros se sucedem neste incessante dia após dia apelidado
de existência, e ainda há os que nos ferem de vazio, os tais que nos retiram,
friamente, uma forma de ver o mundo, o rosto dela demorou vinte e dois anos a
reentrar na minha vida…
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