Caminhavam
desencontrados, embora na mesma direcção, o extremo do
molhe, onde
um banco para assistir ao nascer da noite, ele numa passada
vagarosa, hesitante, como se aguardasse ela,
primeiro, no banco, a segurança de se saber esperado, uma desavença (o
quê?) fê-los caminhar
desencontrados,
tantas são as fontes da discórdia, ela parou a meio, virada para
Oeste, olhos nas águas, a brisa entardecida ondulou-lhe uma melena, ele fingiu
não reparar, não asfixiava palavras, mas sentires, o orgulho a nortear-lhe os
passos, daí o caminhar desencontrado, os olhos dela nas águas, nenhum pousava o
orgulho, há poucas coisas piores do que morrer de amor por dentro em troca da
esterilidade do orgulho exterior, calar o sentir para suster a altivez, num
repente, após levantar os olhos da água, ela regressa, passa por ele como se
lhe invisível fosse, compreende-se-lhe um vislumbre de a seguir, talvez o
orgulho, num derradeiro instante, o imobilizasse, em desespero olha o extremo
do molhe, onde um banco para assistir ao nascer da noite, por fim, ela já uma
ausência, agora é o olhar dele a encontrar as águas, ambos, como é evidente,
sabem o que os fez caminhar desencontrados, não alcança, desta vez, o banco
onde se assiste ao nascer da noite, pouco depois, acabou por também se ir
embora, o olhar caído a espelhar que nada saiu como esperava, não há assim
tanta coisa que faça um casal caminhar desencontrado, uma gaivota levantou vôo
ao perceber a chegada estridente de uma criança a pedalar o triciclo, a mãe não
se distanciava um passo, quase corria para o acompanhar, imobilizaram-se a meio
do molhe, a criança deixou o triciclo e correu para abraçar a mãe, teria dois
ou três anos, a mulher pegou-lhe ao colo e apontou extremo
do molhe, onde
um banco para assistir ao nascer da noite, a criança passou a
mãozita pela face, onde um traço salgado corria, da mãe, a mulher ainda deu um
passo em frente, hesitou, deu outro, em direcção ao extremo do molhe, onde um
banco para assistir ao nascer da noite, lentamente coloca o filho no triciclo e
inicia o regresso, a criança, agora, pedala ao ritmo da passada materna, nem vestígios
da chegada estridente que fez uma gaivota levantar o seu vôo sobre as águas,
talvez retorne assim que o molhe em silêncio, entra um casal de velhos, ela ligeiramente à frente, parece guiar-lhe os passos, ele segue-a numa obediência
quase infantil, numa infinita confiança de jamais correr riscos, passos curtos
embora seguros, não, nunca chegam ao extremo do molhe, onde um banco para
assistir ao nascer da noite, a velhota continua ligeiramente à frente, fala-lhe
ininterruptamente, o olhar ausente dele parece não ouvi-la, talvez seja só uma impressão,
interrompem a arrastada marcha também a meio, é possível que ela levantasse a
memória de quando, naquele exacto ponto, ele, a seus pés, lhe erguia o símbolo de amor e compromisso, ela, por todos os meios, a
contorcer-se para disfarçar as faces ruborizadas, até que, se inclinou para lhe
murmurar “Sim, aceito,” passaram pouco mais de cinco décadas,
todos os finais de tarde, desde que o tempo permita, descem a rua, ela ligeiramente
à frente, parece guiar-lhe os passos, as suas palavras a iluminar este e outros
momentos da sua história, a única que lhes importa, o resto apenas uma ilusão de
entretenimentos, ele, no entanto, devorado pelo esquecimento, um vazio caminhante,
uma ruína, onde o interior somente vegetação rala desprovida de qualquer beleza, o
olhar de ambos nas águas, o espanto de mais de cinco décadas passadas, as águas
parecem sempre as de ontem, a expressão dele, nesses instantes, suaviza-se, parece
rejuvenescer, olha-a com um brilho que, pois, é isso, fá-la ruborizar, não fosse
o facto de, no seu anelar-esquerdo, figurar o símbolo de amor e compromisso, não haveria duvidas de que, uma
vez mais, ele se ajoelharia para o erguer à sua altura, uma repentina brisa
relembra a chegada da noite, ela aproveita para lhe endireitar o cachecol, iniciam
os passos do lar, mais uma vez, a velha ligeiramente à frente, antes dos seus olhares
se despedirem das águas, as falanges dele, com uma enérgica ternura, relembram
as dela que as águas parecem sempre as de ontem, recua um passo, assim vão os
dois, amparados, rumo à única janela iluminada da noite, para trás fica o
molhe, onde uma gaivota assiste, de um
certo banco, à serenidade de um fim.
Livros do Escritor
segunda-feira, 11 de novembro de 2024
Serenidade
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