Acordou com o berço
em tumulto, antes de abrir os olhos, já um pé, no soalho, relembrava-lhe
Inverno, nem hesitou, seguiu-se o outro, e dois ou três passos até ao berço,
ali estava, nesse momento, o seu universo, bastou os lábios pela testa para se
aperceber da febre galopante, nem forças para o choro, havia cuidados prementes
que urgiam, olhou para o outro lado da sua cama, deitado de bruços, boca
aberta, assemelhava-se a um suíno, uma imediata resolução clarificou-se-lhe:
não valia a pena despertá-lo! Vestiu um longo casaco, mudou o calçado,
agasalhou o máximo que pôde a criança, e saiu para a
noite do Inverno, àquela hora, de um dia de semana,
na aparência tudo dormia, os carros pareciam
brotar a cada passo, o deles ficara na rua de baixo, já somava duas décadas,
nem vislumbres de mudança, os bolsos mal davam para a manutenção na oficina,
sempre que uma luz nova, por este ou aquele motivo, ele em impropérios raivosos
ou murros no volante, como se daí proviesse o desejado milagre de bolsos fartos
e de luzes caladas, serpenteou, com o
filho nos braços, entre viaturas, a adrenalina escudou-a do frio e fê-la
estugar o passo, o sono ficara na almofada assim que o berço em tumulto, ao
jantar, pela apatia, previra que o filho acolhia a primeira gripe daquele
Inverno, ainda lhe falou nisso, a atenção dele, no entanto, com um qualquer
jogo da bola, aquando do namoro não se apercebera da sua paixão pela bola,
representamos tanto, pensou ela, talvez demasiado, escondemo-nos e
escondemo-nos para quê? Para, numa noite de Inverno, compreender a inutilidade
que, a seu lado, dorme, de boca aberta, e ronca como um suíno, se o acordasse,
saberia, de antemão, o rosário de desculpas para a dissuadir de, àquela hora,
sair com o bebé nos braços (“Deixa-te de coisas! Lá estás tu a ver filmes! Não tem febre
nenhuma! Descansa, deixa-nos dormir, amanhã verás que está tudo bem! Deve ser
uma gripezita de nada! Normal nesta altura do ano…”), pois, não valia, de
todo, a pena acordá-lo, depois de colocar o filho, na cadeirinha, no banco traseiro,
sentiu o frio do momento assim que pousou os dedos no volante, só nesse
instante compreendeu que saíra para a noite do Inverno, à primeira o carro não
pegou, o frio não tolhia só os pensantes, as máquinas também se ressentiam, foi
à segunda tentativa, a luz da reserva iluminou-lhe o rosto, afinal, havia luzes
no seu horizonte, soltou uma longuíssima expiração, não se recorda de pegar no
carro sem visualizar aquela desesperante luz amarela, parecia gritar-lhe a
insuficiência dos bolsos, calculou o que restava de combustível e
simultaneamente a distância, de ida e volta, até às urgências mais próximas, o
filho emudecido no banco traseiro, ela desesperada com a situação, ensonada,
sozinha na noite do Inverno, passada a adrenalina, o frio ameaçava engoli-la, dentro de quatro horas, o seu despertador relembra-lhe que
o Inferno não é um lugar tão longe assim, ainda tem de realizar cálculos
matemáticos especulativos para saber se consegue ir e regressar, àquela hora,
de um dia de semana, encolheu os ombros e confiou que sim, ao contrário do
habitual encontrou um lugar próximo da entrada, talvez pouca gente por ali, o
porteiro, dentro da sua gaiola, lia ou folheava, no hoje ler é um verbo em
crescente desuso, um jornal, não fosse o seu desespero com a apatia do filho, e
ter-se-ia espantado com o facto de o porteiro não estar agarrado ao maldito
rectângulo destes dias, quão raro isso é, disse ao que vinha, ele prontamente
indica-lhe o óbvio: a luminosa e simultaneamente funesta entrada a cinquenta
metros; para lé se dirige com o filho nos braços, não sabe a razão, mas
pareceu-lhe mais leve, assim que percepciona a multidão ali dentro, nem uma
cadeira vazia, mesmo as paredes, segundo recurso para quem vai enfrentar a
espera, com escassíssimos espaços vazios onde se encostar, uma cacofonia de
espirros e tosse, instintivamente cobriu, com suavidade, o rosto do filho, na
aparência tudo dormia, como as coisas mudam no espaço do viver, ali parecia
meio-dia, o retirar da senha, o enfrentar da espera, o cansaço a traduzir-se
numa crescente dor-de-cabeça, permaneceu próxima da entrada, por ali o ar ia-se
renovando, meia-hora depois, o seu número pelo altifalante, nem se apercebeu de
que já respondia, numa mecanicidade crescente, a números de cartão, mais
números de outros cartões, estranhou a ausência de questões pelo nome (Quando passámos
a ser apenas um número?), perguntou-se, “A pediatria está sobrecarregada…
Quanto tempo? Mais de três horas! Segundo-piso, corredor do lado direito… À
entrada tem uma máquina-de-café, também há aqui outra, do lado…”, deixou de
a ouvir, dentro de quatro horas, o seu despertador relembra-lhe que o Inferno
não é um lugar tão longe assim, desvela o rosto do filho, que a olha com uma
indizível ternura, como se fosse a única luz do mundo.
Livros do Escritor
domingo, 3 de novembro de 2024
Passagens nocturnas
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