Livros do Escritor

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domingo, 3 de novembro de 2024

Passagens nocturnas


 

Acordou com o berço em tumulto, antes de abrir os olhos, já um pé, no soalho, relembrava-lhe Inverno, nem hesitou, seguiu-se o outro, e dois ou três passos até ao berço, ali estava, nesse momento, o seu universo, bastou os lábios pela testa para se aperceber da febre galopante, nem forças para o choro, havia cuidados prementes que urgiam, olhou para o outro lado da sua cama, deitado de bruços, boca aberta, assemelhava-se a um suíno, uma imediata resolução clarificou-se-lhe: não valia a pena despertá-lo! Vestiu um longo casaco, mudou o calçado, agasalhou o máximo que pôde a criança, e saiu para a noite do Inverno, àquela hora, de um dia de semana, na aparência tudo dormia, os carros pareciam brotar a cada passo, o deles ficara na rua de baixo, já somava duas décadas, nem vislumbres de mudança, os bolsos mal davam para a manutenção na oficina, sempre que uma luz nova, por este ou aquele motivo, ele em impropérios raivosos ou murros no volante, como se daí proviesse o desejado milagre de bolsos fartos e de luzes caladas,  serpenteou, com o filho nos braços, entre viaturas, a adrenalina escudou-a do frio e fê-la estugar o passo, o sono ficara na almofada assim que o berço em tumulto, ao jantar, pela apatia, previra que o filho acolhia a primeira gripe daquele Inverno, ainda lhe falou nisso, a atenção dele, no entanto, com um qualquer jogo da bola, aquando do namoro não se apercebera da sua paixão pela bola, representamos tanto, pensou ela, talvez demasiado, escondemo-nos e escondemo-nos para quê? Para, numa noite de Inverno, compreender a inutilidade que, a seu lado, dorme, de boca aberta, e ronca como um suíno, se o acordasse, saberia, de antemão, o rosário de desculpas para a dissuadir de, àquela hora, sair com o bebé nos braços (“Deixa-te de coisas! Lá estás tu a ver filmes! Não tem febre nenhuma! Descansa, deixa-nos dormir, amanhã verás que está tudo bem! Deve ser uma gripezita de nada! Normal nesta altura do ano…”), pois, não valia, de todo, a pena acordá-lo, depois de colocar o filho, na cadeirinha, no banco traseiro, sentiu o frio do momento assim que pousou os dedos no volante, só nesse instante compreendeu que saíra para a noite do Inverno, à primeira o carro não pegou, o frio não tolhia só os pensantes, as máquinas também se ressentiam, foi à segunda tentativa, a luz da reserva iluminou-lhe o rosto, afinal, havia luzes no seu horizonte, soltou uma longuíssima expiração, não se recorda de pegar no carro sem visualizar aquela desesperante luz amarela, parecia gritar-lhe a insuficiência dos bolsos, calculou o que restava de combustível e simultaneamente a distância, de ida e volta, até às urgências mais próximas, o filho emudecido no banco traseiro, ela desesperada com a situação, ensonada, sozinha na noite do Inverno, passada a adrenalina, o frio ameaçava engoli-la, dentro de quatro horas, o seu despertador relembra-lhe que o Inferno não é um lugar tão longe assim, ainda tem de realizar cálculos matemáticos especulativos para saber se consegue ir e regressar, àquela hora, de um dia de semana, encolheu os ombros e confiou que sim, ao contrário do habitual encontrou um lugar próximo da entrada, talvez pouca gente por ali, o porteiro, dentro da sua gaiola, lia ou folheava, no hoje ler é um verbo em crescente desuso, um jornal, não fosse o seu desespero com a apatia do filho, e ter-se-ia espantado com o facto de o porteiro não estar agarrado ao maldito rectângulo destes dias, quão raro isso é, disse ao que vinha, ele prontamente indica-lhe o óbvio: a luminosa e simultaneamente funesta entrada a cinquenta metros; para lé se dirige com o filho nos braços, não sabe a razão, mas pareceu-lhe mais leve, assim que percepciona a multidão ali dentro, nem uma cadeira vazia, mesmo as paredes, segundo recurso para quem vai enfrentar a espera, com escassíssimos espaços vazios onde se encostar, uma cacofonia de espirros e tosse, instintivamente cobriu, com suavidade, o rosto do filho, na aparência tudo dormia, como as coisas mudam no espaço do viver, ali parecia meio-dia, o retirar da senha, o enfrentar da espera, o cansaço a traduzir-se numa crescente dor-de-cabeça, permaneceu próxima da entrada, por ali o ar ia-se renovando, meia-hora depois, o seu número pelo altifalante, nem se apercebeu de que já respondia, numa mecanicidade crescente, a números de cartão, mais números de outros cartões, estranhou a ausência de questões pelo nome (Quando passámos a ser apenas um número?), perguntou-se, “A pediatria está sobrecarregada… Quanto tempo? Mais de três horas! Segundo-piso, corredor do lado direito… À entrada tem uma máquina-de-café, também há aqui outra, do lado…”, deixou de a ouvir, dentro de quatro horas, o seu despertador relembra-lhe que o Inferno não é um lugar tão longe assim, desvela o rosto do filho, que a olha com uma indizível ternura, como se fosse a única luz do mundo.

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