Há
muito ela falava, com insistência, em regressar ao
local das
primeiras férias juntos, de início, ele relativizou, talvez mais um
capricho, a nostalgia batera-lhe à porta, reacender o que inexoravelmente o
tempo diluiu, a insistência, no entanto, mantinha-se, “Fomos
tão felizes lá! Era tudo mais simples… Lembra-te:
durante esses dias, nem precisávamos do carro para nada! Era só descer a rua e
estávamos na praia… Já reparaste: não enfrentávamos o caos do aeroporto, horas
e horas de espera, passaportes, documentos e mais documentos, malas, avião, basta
uma hora de carro e ali estamos!,” uns instantes de silêncio e recomeçava,
“Fomos tão felizes lá… Era tudo mais simples…,” ainda
apelou ao que se economizava, ele que nunca lidou muito bem com a claustrofobia
de estar, horas e horas, dentro de um cilindro, que mais parece imóvel nas
alturas, lentamente a, por fim, ouvi-la, de outra forma, a dar-lhe a devida
razão, tão raro nestes últimos tempos, “Fomos tão felizes lá… Era tudo mais
simples…,” acordaram, no próximo Verão, rumar ao local das primeiras férias
juntos, ele encarou como uma pausa, para recuperar o
fôlego, do inferno do aeroporto, ainda muitos destinos para cumprir, não
atingira que o Destino sempre nos aguarda, embora já lhe tenha murmurado “O
aeroporto tira-nos anos de vida…,” lá rumaram, numa manhã de Agosto, ao
local das primeiras férias juntos, uma povoação caiada
de branco debruçada sobre o
mar, ela, em verdade, procurava suspender o
tempo, para reencontrar algo que talvez por ali estivesse entre lençóis, areia
e mar, da parte dele já se percebeu, uma pausa, para recuperar o fôlego, do
inferno do aeroporto, ainda muitos destinos para cumprir, quando se tomam as
coisas como certas, a atenção esmorece, este é um erro capital, quantas vezes
não vem a vida, com o seu impetuoso caudal, relembrar este facto? Durante a
viagem falaram de trivialidades, há muito só falavam de trivialidades, havia
uma dor, antiga, que sublimadamente nem ousavam verbalizar, de certa forma, ambos compreendiam o magnetismo que os unia, como se uma inevitabilidade, talvez
fosse ele, em vários momentos, quem mais remou contra esse facto, embora dele
tivesse consciência, daí a sua luta, ela acabou por se acomodar, apesar de não
descurar o seu brilho, não lhe passavam despercebidos certos olhares quando
descia a rua ou noutras circunstâncias, ambos nutriam um carinho muito
particular por esta povoação caiada de branco debruçada sobre o mar, não foi só
o primeiro lugar das férias juntos, a intuição dela sempre lhe ditou: chegaram dois, mas regressaram três, esta convicção
enraizara-se-lhe no ser; chegou a partilhar-lhe, na altura, melodiosamente ao
ouvido, ele apenas sorrisos, para, pouco tempo depois, relembrar-lhe os
imperativos da existência do hoje: o curso, a urgência de um trabalho, o choque
ou desgosto das famílias por tanta imprudência, a escassez de recursos para “chegaram
dois, mas regressaram três,” não, não podia ser, algo teria de se
corrigir, de início, ela prontamente cortou qualquer possibilidade de diálogo,
até o telefone lhe deixou de atender, ameaçou “sim, chegaram dois, mas
regressaram sempre, pelo menos, dois,” neste ponto, ele já se via fora da
equação, porém, ambos compreendiam o magnetismo que os unia, como se uma
inevitabilidade, num Domingo, de manhã, escudado por um
frondoso ramo-de-flores, bateu-lhe à porta, foi o pai dela a abrir, perante
tal cenário, quase não resistia à gargalhada, muito a custo lá se conteve e
disse-lhe para entrar, a filha, ao vê-lo, em pé, na sala, escudado por um
frondoso ramo-de-flores, quase tinha a mesma reacção que o pai, não fosse a
memória de “chegaram dois, mas regressaram três,” o seu rosto coloriu-se
de frieza, ele estendeu-lhe o frondoso ramo-de-flores enquanto dos seus lábios “Aceita,
por favor, como um pedido de desculpas…”, hesitantemente a sua mão ergueu-se
para aceitar, estavam os dois a morrer de amor por dentro, havia somente que
liquidar o orgulho, neste particular, ele foi mais eficaz, deu um passo em
frente e abraçou-a por inteiro, desconheço por quanto tempo assim ficaram, no
meio da sala, a relembrar o magnetismo que os unia, se fosse possível, nesta
manhã de Agosto, durante a viagem para o lugar das primeiras férias juntos,
alguém lhes relembrar esta cena, afigurar-se-lhes-ia de uma longínqua
existência, não por acaso ela procurava suspender o tempo, para reencontrar
algo que talvez por ali estivesse entre lençóis, areia e mar, ele talvez nem se
recorde de, numa manhã de Domingo, lhe tocar à porta coberto com um frondoso
ramo.de-flores, que pena, talvez se esta memória o acompanhasse não perdesse anos
e anos de vida, no aeroporto, a fugir de si mesmo, mais uma curva e já avistam
o contraste da povoação caiada de branco e do azul, que tanto demora o olhar,
daquele mar, ela, num gesto hesitante, como há tantos anos quando recebeu um
frondoso ramo-de-flores, pousou a mão sobre a dele, sentiu felicidade, retribuiu
com um sorriso no olhar…
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