Livros do Escritor

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sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Ontem cruzei-me com um estranho na rua…

 


Não sei se cheguei a dormir, andei por ali, entre o cá e o lá, entre o estar ao leme do meu pensar e o abandonar-me aos caprichos do sono, que mais não faz do que levantar a carpete da nossa consciência, ora me virava para um lado, ora para outro, ele, a meu lado, nem se mexia, apenas a respiração, num compasso pesado, indiciava os caminhos, pelo menos, do sono, não sei se abrira as portas do sonho, nunca mo dissera, olhei as luzes vermelhas em cima da minha mesa-de-cabeceira, para ver se podia prolongar a esperança de me abandonar, nem que fosse por mais um pouco, aos caprichos do lado de lá, percebi que me restavam vinte e oito minutos até que as luzes começassem a tremeluzir e o aparelho a gritar numa urgência de ave caída, resolvi levantar-me, não, não valia a pena insistir, ora me virava para um lado, ora para outro, e o sono uma repetida miragem de Verão, saí do quarto, também não valia a pena acordá-lo, afinal, sai de casa quatro horas depois, vesti-me na sala como sempre fazia desde que tenho este trabalho, uma chávena de café com leite que me soube a pressa, há tanto que a comida não tinha outro sabor, uma carcaça com manteiga, no meio de tudo, casaco, cachecol, abri e fechei a porta num devagar contrastante com os meus intentos, mas a hora era de silêncios e repousos, só eu e o mundo num face a face, como se não houvesse outras almas neste intermédio de qualquer coisa a que alguns chamam vida, de novo a carcaça, ou o que dela restava, desci os dois andares, saí para a ainda fria noite do mundo, do outro lado da rua, a minha vizinha e colega já me aguardava, acenou-me, hoje foi ela a esperar-me, regra geral, esse papel pertence-me, atravessei a rua ao seu encontro, contudo, decidi não sublinhar este facto, iniciava logo o relato das peripécias da véspera, coitada, juntou-se há três anos a um tipo que passa mais de metade do ano desempregado, até ouvi dizer que se ajeita bem com as madeiras, porém, diz-se, lá no bairro, em conversas de escada e de portas entreabertas, que deve o valor de uma casa a gente muito pouco recomendável, por causa de umas apostas clandestinas, desde então, álcool e mais álcool, volta e meia, os gritos dela, do outro lado da rua, chegam-me a casa, cansei-me de lhe dizer que há coisas degradantes, mas logo se socorre da memória, e fala-me, por vezes demasiado explicitamente, das tardes de suor e gemidos dos fins-de-semana, e como ele, nesses instantes, se revela um verdadeiro cavalheiro, “Sabes, nem parece o mesmo… Não tem nada a ver! Acreditas que até já me levou, por mais que uma vez, o pequeno-almoço à cama? Pois é… É só para tu veres! Algum dia deixava um homem destes? Nunca!”, neste ponto, nem lhe relembro aquele dente que quase perdia, ainda abanou por dois dias, além de, durante pelo menos cerca de uma semana, o zumbir do ouvido esquerdo, um efeito da descontrolada mão dele, às vezes, confesso, acho que ela até gosta, os ciúmes, pois, um pretexto tão dúbio, que tudo explica menos uma breve ausência de amor, uma daquelas brevidades que chega a durar, em alguns casos, toda uma vida, preferia, claro, a minha situação, a memória de um calor ido, volta e meia, uns reacendimentos nos fins-de semana, afinal, que resta aos pobres fazer nos tempos livres? Se ao menos a nossa situação fosse diferente, talvez um filho, mas ele não estabiliza, eu ainda menos, o tempo só o vemos quando somamos anos e paramos, de repente, para os contar, e passamos grande parte a queixarmo-nos da vida, um belo dia, talvez por cansaço, ela vira-nos costas e percebemos que já é tarde, àquela hora, em que a noite começa a fazer a mala, só nós as duas no autocarro, o trajecto até ao cais dura cerca de quinze minutos, apanhamos sempre o primeiro barco, vai para dez meses, não me posso queixar, ao menos pude escolher, quando os meus pais “Tens de estudar, minha filha! Não queres ser alguém na vida? Aproveita esta oportunidade! Olha que um dia vais querer e aí perceberás que já é tarde”, neste último ponto, enganaram-se, desde há dez meses que é demasiado cedo, a cidade, diante dos meus olhos, dorme como se fosse um espaço longe do pecado, da dor, onde todos tivessem o seu lugar, as ruas iluminadas reflectem a madrugada, volta e meia, umas luzes velozes que logo se diluem, parecia-nos uma declaração de vida, pela ponte, à nossa esquerda, também poucos carros, de certa forma, parecia que tudo estava suspenso, como se aguardasse uma qualquer coisa, talvez fosse isso que melhor traduzisse o ser da madrugada, esqueci-me de dizer que a minha colega ainda não se calara, por esta altura dissertava sobre uma qualquer doença da mãe que vivia lá para os lados de Viseu, acho que foi isso que ouvi, somente anuía, assim ela não pedia que lhe respondesse, o que era óptimo para mim, podia dar galope ao meu pensar, e tentar compreender como, desde há dez meses, apanho o primeiro barco rumo a Lisboa, como vivo com um homem, num minúsculo apartamento da margem Sul, que nem vestígios de ternura me suscita, dizem que, no fim, pelo menos fica a ternura pelo que foi, eu já nem isso, não que ele alguma vez tenha sido grosseiro ou incorrecto, nada disso, apenas as coisas são o que são, e eu olho de frente a indiferença que lhe sinto, aproximo-me nesta madrugada, vai para dez meses, de um trabalho que igualmente desprezo, limpeza de sucursais bancárias antes da abertura, há tanto que de fragrâncias só conheço a esterilidade aromática de detergentes, conversas só de escada e de portas entreabertas sobre tardes de suor e gemidos de fins-de-semana, ainda por cima dos outros, não sei que escolha, pensamento, ou frase, me fez estar hoje aqui, e vai para dez meses, de primeiro barco da madrugada, a sentir o frio que se levanta das águas pela face, não, não sei, à minha volta, tudo parece suspenso, como se aguardasse uma qualquer coisa, talvez seja  isso que melhor traduz o que vai dentro do meu peito.

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