Não sei se cheguei a dormir,
andei por ali, entre o cá e o lá, entre o estar ao leme do meu pensar e o
abandonar-me aos caprichos do sono, que mais não faz do que levantar a carpete
da nossa consciência, ora me virava para um lado, ora para outro, ele, a meu
lado, nem se mexia, apenas a respiração, num compasso pesado, indiciava os
caminhos, pelo menos, do sono, não sei se abrira as portas do sonho, nunca mo
dissera, olhei as luzes vermelhas em cima da minha mesa-de-cabeceira, para ver
se podia prolongar a esperança de me abandonar, nem que fosse por mais um
pouco, aos caprichos do lado de lá, percebi que me restavam vinte e oito
minutos até que as luzes começassem a tremeluzir e o aparelho a gritar numa
urgência de ave caída, resolvi levantar-me, não, não valia a pena insistir, ora
me virava para um lado, ora para outro, e o sono uma repetida miragem de Verão,
saí do quarto, também não valia a pena acordá-lo, afinal, sai de casa quatro
horas depois, vesti-me na sala como sempre fazia desde que tenho este trabalho,
uma chávena de café com leite que me soube a pressa, há tanto que a comida não
tinha outro sabor, uma carcaça com manteiga, no meio de tudo, casaco, cachecol,
abri e fechei a porta num devagar contrastante com os meus intentos, mas a hora
era de silêncios e repousos, só eu e o mundo num face a face, como se não
houvesse outras almas neste intermédio de qualquer coisa a que alguns chamam
vida, de novo a carcaça, ou o que dela restava, desci os dois andares, saí para
a ainda fria noite do mundo, do outro lado da rua, a minha vizinha e colega já
me aguardava, acenou-me, hoje foi ela a esperar-me, regra geral, esse papel
pertence-me, atravessei a rua ao seu encontro, contudo, decidi não sublinhar
este facto, iniciava logo o relato das peripécias da véspera, coitada,
juntou-se há três anos a um tipo que passa mais de metade do ano desempregado,
até ouvi dizer que se ajeita bem com as madeiras, porém, diz-se, lá no bairro,
em conversas de escada e de portas entreabertas, que deve o valor de uma casa a
gente muito pouco recomendável, por causa de umas apostas clandestinas, desde
então, álcool e mais álcool, volta e meia, os gritos dela, do outro lado da
rua, chegam-me a casa, cansei-me de lhe dizer que há coisas degradantes, mas
logo se socorre da memória, e fala-me, por vezes demasiado explicitamente, das
tardes de suor e gemidos dos fins-de-semana, e como ele, nesses instantes, se
revela um verdadeiro cavalheiro, “Sabes, nem parece o mesmo… Não tem nada a
ver! Acreditas que até já me levou, por mais que uma vez, o pequeno-almoço à
cama? Pois é… É só para tu veres! Algum dia deixava um homem destes? Nunca!”,
neste ponto, nem lhe relembro aquele dente que quase perdia, ainda abanou por
dois dias, além de, durante pelo menos cerca de uma semana, o zumbir do ouvido
esquerdo, um efeito da descontrolada mão dele, às vezes, confesso, acho que ela
até gosta, os ciúmes, pois, um pretexto tão dúbio, que tudo explica menos uma
breve ausência de amor, uma daquelas brevidades que chega a durar, em alguns
casos, toda uma vida, preferia, claro, a minha situação, a memória de um calor
ido, volta e meia, uns reacendimentos nos fins-de semana, afinal, que resta aos
pobres fazer nos tempos livres? Se ao menos a nossa situação fosse diferente,
talvez um filho, mas ele não estabiliza, eu ainda menos, o tempo só o vemos
quando somamos anos e paramos, de repente, para os contar, e passamos grande
parte a queixarmo-nos da vida, um belo dia, talvez por cansaço, ela vira-nos
costas e percebemos que já é tarde, àquela hora, em que a noite começa a fazer
a mala, só nós as duas no autocarro, o trajecto até ao cais dura cerca de
quinze minutos, apanhamos sempre o primeiro barco, vai para dez meses, não me
posso queixar, ao menos pude escolher, quando os meus pais “Tens de estudar,
minha filha! Não queres ser alguém na vida? Aproveita esta oportunidade! Olha
que um dia vais querer e aí perceberás que já é tarde”, neste último ponto,
enganaram-se, desde há dez meses que é demasiado cedo, a cidade, diante dos
meus olhos, dorme como se fosse um espaço longe do pecado, da dor, onde todos
tivessem o seu lugar, as ruas iluminadas reflectem a madrugada, volta e meia,
umas luzes velozes que logo se diluem, parecia-nos uma declaração de vida, pela
ponte, à nossa esquerda, também poucos carros, de certa forma, parecia que tudo
estava suspenso, como se aguardasse uma qualquer coisa, talvez fosse isso que
melhor traduzisse o ser da madrugada, esqueci-me de dizer que a minha colega
ainda não se calara, por esta altura dissertava sobre uma qualquer doença da mãe
que vivia lá para os lados de Viseu, acho que foi isso que ouvi, somente anuía,
assim ela não pedia que lhe respondesse, o que era óptimo para mim, podia dar
galope ao meu pensar, e tentar compreender como, desde há dez meses, apanho o
primeiro barco rumo a Lisboa, como vivo com um homem, num minúsculo apartamento
da margem Sul, que nem vestígios de ternura me suscita, dizem que, no fim, pelo
menos fica a ternura pelo que foi, eu já nem isso, não que ele alguma vez tenha
sido grosseiro ou incorrecto, nada disso, apenas as coisas são o que são, e eu
olho de frente a indiferença que lhe sinto, aproximo-me nesta madrugada, vai
para dez meses, de um trabalho que igualmente desprezo, limpeza de sucursais
bancárias antes da abertura, há tanto que de fragrâncias só conheço a
esterilidade aromática de detergentes, conversas só de escada e de portas
entreabertas sobre tardes de suor e gemidos de fins-de-semana, ainda por cima
dos outros, não sei que escolha, pensamento, ou frase, me fez estar hoje aqui,
e vai para dez meses, de primeiro barco da madrugada, a sentir o frio que se
levanta das águas pela face, não, não sei, à minha volta, tudo parece suspenso,
como se aguardasse uma qualquer coisa, talvez seja isso que melhor traduz o que vai dentro do
meu peito.
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