Àquela tão matinal hora, a sala quase despovoada, dois vultos apenas, um debruçado sobre a alienação do hoje, confesso já nem indignação sentir, apenas dó, até pela crescente dívida com as cervicais, e não só, o outro sentado, numa das mesas, o écran iluminava-lhe o rosto, absorta, pois, era uma, a premir teclas num galope crescente, eu ainda não refeito do divórcio, abrupto e repentino, com o sono, olhava, algures entre o espanto e a incompreensão, aquela figura, como era possível, àquela tão matinal hora, possuir energia para dedilhar tão furiosamente um teclado, por educação lá me saiu um “Bom-dia” sumido, ambos responderam no mesmo tom, a hora não era para mais, abeirei-me das janelas voltadas para o nascer do mundo, aquele, sim, era o meu écran, a realidade no seu renovar de uma sempre adiada esperança, apesar de há muito conhecer este facto, não me canso de olhar a ascensão da luz e a derrota das trevas, uma linha de um difuso alaranjado, na lonjura, lentamente erguia-se esbatendo as poucas estrelas ainda tremeluzentes, olhar horizontes sempre me levou para longe da minha circunstância, daí o meu fascínio pela lonjura, nas minhas costas o dedilhar mantinha-se, nem virei o rosto para ver se o outro ainda debruçado sobre a alienação do hoje, uma questão, vinda de parte incógnita, nasceu-me: Estará a palavra a morrer? Ali estávamos três, àquela tão matinal hora, a noite ainda a pegar na sua mala para deixar o palco, só o dedilhar no teclado não permitia que o silêncio nos sufocasse, e um ou outro riso apatetado do que se debruçava para a alienação do hoje, de novo Estará a palavra a morrer? Desceu-me tristeza, lá fora a vida ressurgia como se o ontem jamais por aqui caminhasse, onde não havia vultos debruçados sobre alienações, este pensamento povoa-me e simultaneamente a tristeza adensa-se-me, somos três, numa sala, nesta manhã outonal, e apenas trocámos um sumido “Bom-dia,” aquando da minha chegada, estou aqui há mais de dez minutos, e somente trocámos um sumido “Bom-dia,” creio que perdemos a capacidade de nos dizermos, ou não faltará muito para este facto, se há algo de fascinante neste espaço é o horizonte contemplado, sou o único, de costas voltadas para a sala, a perder-me com horizontes, sempre me levou para longe da minha circunstância, daí o meu fascínio pela lonjura, de repente, o dedilhar cessa, o meu espírito agradece, ouço-a a abrir o fecho da mala para arrumar o aparelho, quase visualizo a cena, mas mantenho-me de costas voltadas, a linha de um difuso alaranjado gradualmente decresce para um amarelo-vivo que tudo ilumina em volta, parece um grito da própria vida, cada vez mais se ouvem gritos emudecidos, angústias soterradas sob maquilhagem ou sorrisos-plásticos, o dedilhar furioso, que há pouco cessou, é um exemplo: aquela mulher, numa tão matinal hora, que mensagem redigia e para quem? Não lhe vi a expressão, apenas ouvi a fúria e pressa nas teclas, uma urgência de aquietar algo, de silenciar uma incómoda voz, de deixar para trás, antes enfrentar um novo dia de indesejado trabalho, uma inquietante sombra, quantas sombras trazemos connosco? Pois, uma questão que poucos terão verbalizado: quantas sombras trazemos connosco? Daí não me cansar de ver a ascensão da luz e a derrota das trevas, olhar horizontes sempre me levou para longe da minha circunstância, daí o meu fascínio pela lonjura, percebo a chegada de novas vozes, algumas num excesso histriónico para tão matinal hora, resolvo deixar o horizonte contemplado, a magia diluiu-se com a ascensão da demasia luminosa, talvez o sublime resida nos “entretantos,” naquele espaço entre um “adeus” e a “promessa de algo,” foi o que concluí, a sala já somava mais de uma dezena, resolvo sair, encaminho-me para a porta, reparo que, do dedilhar incessante, ela agora numa luta sem tréguas para enfiar o computador na mala, o vazio de uma aliança gritava-se-lhe do anelar esquerdo, interrompe os bruscos movimentos para calar o sentir que ameaçava se precipitar pela sua face, a questão regressa-me: Estará a palavra a morrer?
(20/10/24)
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