Não sei porquê, mas sinto a censura,
não a percebo, não a ouço, não a olho, apenas e só a sinto, naquele indizível a
que só alguns acedem, nunca percebi se é um privilégio ou uma condenação, após
o almoço, quando as sombras ameaçam tomar-me a casa, um rés-do-chão no
subúrbio, desde já sublinho que não a trocava por palácio algum, é a minha
casa, no fundo, a minha segunda pele, há, pelo menos, quarenta anos… Quarenta
anos, sempre ouvi os mais velhos gastarem a expressão parece que foi ontem, mas nenhuma outra me ocorre para melhor
ilustrar este sentir desamparado e de espanto face à vida, de facto, parece que foi ontem, ele ainda
renitente Rés-do-chão… Não achas
perigoso? Pelo menos, o primeiro-andar… Talvez tivesse razão, no entanto,
as pernas da nossa carteira só ali chegavam, o que ainda trago dessa altura foi
a alegria desmedida quando pendurei os cortinados, por mim escolhidos, na sala,
realmente, acho que foi a única coisa que escapou ao crivo de pais e sogros, mas
isto foi há tanto, numa altura em que olhávamos o outro nos olhos e proferíamos,
com uma expressão sorridente, um audível bom
dia ou boa tarde, porque, à
noite, meninas ou senhoras dignas confinavam-se ao seu lar, na altura,
verbalizava interiormente o meu repúdio por tais convenções, hoje, com o que
vejo, a minha imensa saudade, de novo, a expressão gasta, parece que foi ontem, quarenta anos, nesse tempo, após o almoço,
nem sinal de sombras a invadir-me a casa, parecia que, no mundo, tudo estava no
seu lugar, só que o tempo passou e ultimamente parece ter acelerado em demasia,
já não afasto os cortinados de agora para ver a rua, se o fizesse, apenas
sombras das alturas cinzentas erigidas à nossa volta, como dizia, após o
almoço, uma sopinha de feijão-verde, sem batata, as forças não chegam para as
trazer do mercado e a bolsa ainda menos, um pão com marmelada, felizmente, para
mim, o apetite tem acompanhado os passos da carteira, quando as sombras ameaçam
tomar-me a casa, um rés-do-chão no subúrbio, desde já sublinho que não a
trocava por palácio algum, é a minha casa, no fundo, a minha segunda pele, há,
pelo menos, quarenta anos, desço a rua e vou visitá-lo, as vizinhas e a censura
pressentida, sempre a pior, a mais vil, como se o seu sentir pelos maridos
fosse mais nobre que o meu, fiz o que considerei melhor para ambos, para ele
ter os cuidados devidos, e para que eu ainda por cá ande para o visitar todos
os dias, magro como estava, uma sopinha de feijão-verde, sem batata, e um pão
com marmelada não seriam suficientes, consegui, quase por milagre, um lugar
para ele, sei que é bem tratado, mesmo assim, zelo para que nada lhe falte,
asseio, comida, paz, parece pouco, mas é tudo, e uma vida para perceber isto,
há dias em que olha daquela distância incógnita, nem uma palavra lhe sai,
confesso que me fere, fere-me de uma forma, não sei como explicar, como se uma
derrota muito subterrânea, que só nos a percebemos, como se nos alvejassem num
órgão-vital e padecêssemos perante a impassibilidade alheia, e, ao fim de
quarenta anos, parece que foi ontem,
a partilhar sonhos e lágrimas, dói, e de que forma, nas funduras de nós,
olha-me como se fosse mais uma qualquer ali na sala, quando antes, e não há
tanto tempo assim, o seu olhar, onde estivéssemos, quando se derramava sobre
mim, adormecia-me o pensar para ser apenas sentir, e o mundo tornava-se uma
distância imensa, como se a razão de tudo fôssemos nós dois, ali passo as
tardes, a seu lado, aconselharam-me a falar-lhe ininterruptamente, de nós, do
filho, coitado, emigrado há três anos, e o que me custa falar-lhe disto, se
antes o meu repúdio por certas convenções, hoje, com o que vejo, a minha imensa
saudade, mas cansei-me antes da primeira palavra, optei pelo gesto, é muito
antigo que pelo fruto se conhece a
árvore, daí que me julgue certa, volta e meia, quedo-me a olhá-lo
demoradamente, e espero que, nesses instantes, ele me dê um vislumbre da
direcção dessa incógnita parte que o retém, às vezes parece-me vê-lo a acenar,
então, corro para a janela, na sala, do nosso rés-do-chão, abro os cortinados
por mim escolhidos, realmente, acho que foi a única coisa que escapou ao crivo
de pais e sogros, nem sinal de sombras a invadir-me a casa, parece que, no
mundo, tudo está no seu lugar, e vejo-o, no passeio, chegado do trabalho, a
sorrir-me, como se a razão de tudo fôssemos nós dois, com um gelado em cada
mão, apresso-me a ir ao seu encontro, de facto, parece que foi ontem…
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