Livros do Escritor

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sexta-feira, 18 de outubro de 2024

De mãos dadas só nos passos da memória

 


Não sei porquê, mas sinto a censura, não a percebo, não a ouço, não a olho, apenas e só a sinto, naquele indizível a que só alguns acedem, nunca percebi se é um privilégio ou uma condenação, após o almoço, quando as sombras ameaçam tomar-me a casa, um rés-do-chão no subúrbio, desde já sublinho que não a trocava por palácio algum, é a minha casa, no fundo, a minha segunda pele, há, pelo menos, quarenta anos… Quarenta anos, sempre ouvi os mais velhos gastarem a expressão parece que foi ontem, mas nenhuma outra me ocorre para melhor ilustrar este sentir desamparado e de espanto face à vida, de facto, parece que foi ontem, ele ainda renitente Rés-do-chão… Não achas perigoso? Pelo menos, o primeiro-andar… Talvez tivesse razão, no entanto, as pernas da nossa carteira só ali chegavam, o que ainda trago dessa altura foi a alegria desmedida quando pendurei os cortinados, por mim escolhidos, na sala, realmente, acho que foi a única coisa que escapou ao crivo de pais e sogros, mas isto foi há tanto, numa altura em que olhávamos o outro nos olhos e proferíamos, com uma expressão sorridente, um audível bom dia ou boa tarde, porque, à noite, meninas ou senhoras dignas confinavam-se ao seu lar, na altura, verbalizava interiormente o meu repúdio por tais convenções, hoje, com o que vejo, a minha imensa saudade, de novo, a expressão gasta, parece que foi ontem, quarenta anos, nesse tempo, após o almoço, nem sinal de sombras a invadir-me a casa, parecia que, no mundo, tudo estava no seu lugar, só que o tempo passou e ultimamente parece ter acelerado em demasia, já não afasto os cortinados de agora para ver a rua, se o fizesse, apenas sombras das alturas cinzentas erigidas à nossa volta, como dizia, após o almoço, uma sopinha de feijão-verde, sem batata, as forças não chegam para as trazer do mercado e a bolsa ainda menos, um pão com marmelada, felizmente, para mim, o apetite tem acompanhado os passos da carteira, quando as sombras ameaçam tomar-me a casa, um rés-do-chão no subúrbio, desde já sublinho que não a trocava por palácio algum, é a minha casa, no fundo, a minha segunda pele, há, pelo menos, quarenta anos, desço a rua e vou visitá-lo, as vizinhas e a censura pressentida, sempre a pior, a mais vil, como se o seu sentir pelos maridos fosse mais nobre que o meu, fiz o que considerei melhor para ambos, para ele ter os cuidados devidos, e para que eu ainda por cá ande para o visitar todos os dias, magro como estava, uma sopinha de feijão-verde, sem batata, e um pão com marmelada não seriam suficientes, consegui, quase por milagre, um lugar para ele, sei que é bem tratado, mesmo assim, zelo para que nada lhe falte, asseio, comida, paz, parece pouco, mas é tudo, e uma vida para perceber isto, há dias em que olha daquela distância incógnita, nem uma palavra lhe sai, confesso que me fere, fere-me de uma forma, não sei como explicar, como se uma derrota muito subterrânea, que só nos a percebemos, como se nos alvejassem num órgão-vital e padecêssemos perante a impassibilidade alheia, e, ao fim de quarenta anos, parece que foi ontem, a partilhar sonhos e lágrimas, dói, e de que forma, nas funduras de nós, olha-me como se fosse mais uma qualquer ali na sala, quando antes, e não há tanto tempo assim, o seu olhar, onde estivéssemos, quando se derramava sobre mim, adormecia-me o pensar para ser apenas sentir, e o mundo tornava-se uma distância imensa, como se a razão de tudo fôssemos nós dois, ali passo as tardes, a seu lado, aconselharam-me a falar-lhe ininterruptamente, de nós, do filho, coitado, emigrado há três anos, e o que me custa falar-lhe disto, se antes o meu repúdio por certas convenções, hoje, com o que vejo, a minha imensa saudade, mas cansei-me antes da primeira palavra, optei pelo gesto, é muito antigo que pelo fruto se conhece a árvore, daí que me julgue certa, volta e meia, quedo-me a olhá-lo demoradamente, e espero que, nesses instantes, ele me dê um vislumbre da direcção dessa incógnita parte que o retém, às vezes parece-me vê-lo a acenar, então, corro para a janela, na sala, do nosso rés-do-chão, abro os cortinados por mim escolhidos, realmente, acho que foi a única coisa que escapou ao crivo de pais e sogros, nem sinal de sombras a invadir-me a casa, parece que, no mundo, tudo está no seu lugar, e vejo-o, no passeio, chegado do trabalho, a sorrir-me, como se a razão de tudo fôssemos nós dois, com um gelado em cada mão, apresso-me a ir ao seu encontro, de facto, parece que foi ontem…

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