Estou
cansada de lhe repetir: “A continuares assim, vais acabar
sozinha…”; que hei-de fazer? Pois, a questão é essa, argumenta com os seus
valores, o amor-próprio, enfim, o tempo passa e nada de assentar, é a realidade,
ainda me lembro, estava tão enamorada daquele rapaz,
filho de boas famílias, um emprego seguro, não se cansavam
de estar juntos, ele vinha buscá-la à
porta de casa, muito educado, nunca quis subir, compreensível, respeitador da
privacidade alheia, ela, em pressas de descer, ao contrário do
habitual, até se esquecia das chaves, parecia outra, uma novidade ao
nosso olhar, no início nunca há nuvens pelo horizonte, não é verdade?
Aparecem inevitavelmente mais à frente, e vezes demais acabam por turvar todo o
horizonte, confesso ter acreditado que seria desta,
havia uma
luz distinta pelo seu rosto,
não me pergunte porquê, talvez o facto de lhe redireccionar o olhar para
horizontes esquecidos, pois, é possível, bom, como dizia, confesso ter
acreditado que seria desta, havia uma luz distinta pelo seu rosto , não me
pergunte porquê, o tempo a passar e, como sempre, de noite, os fantasmas que
ela carrega a atormentá-la, todos carregamos os nossos, como bem sabe, e a hora
preferencial para nos visitarem é quando pousamos o rosto na almofada, ouvi,
enganei-me, nada ouvi, percebi, não me pergunte como, talvez pelo dedilhar
rápido naquele maldito aparelho que, de forma alguma,
poucos largam, haver algo errado, as primeiras nuvens pousavam no
horizonte, as suas feições assemelhavam-se a uma escultura de gelo, estava em
despedidas, limitei-me a seguir caminho, tinha o jantar ao lume, ela estava à
janela, vi-a de relance, o maldito aparelho que, de
forma alguma, poucos largam, nas mãos, o perfil frio e
pétreo, já lhe vislumbrara tal expressão, desconheço, como é óbvio,
a reacção do outro lado, não havia vozes, apenas dedilhares num rectângulo,
ontem: não se cansavam de estar juntos, ele vinha buscá-la à porta de casa,
muito educado, nunca quis subir, compreensível, respeitador da privacidade
alheia, ela, em pressas de descer, ao contrário do habitual, até se esquecia
das chaves, parecia outra; hoje: o perfil frio e pétreo, nunca a percebi, ou
talvez atirasse para bem longe a minha leitura dos factos: um permanente
ajuste-de-contas com o passado; amanhã: a procura de uma nova e incauta presa;
tornou-se uma caçadora por uma ferida de lá bem atrás, há
uns meses, chegou muito incomodada a casa, percebi-lhe pelos gestos e passos
apressados, depois ouvi-as falar no quarto, a irmã chegou a rir-se, ela não, lá
me chegou aos ouvidos o sucedido, cruzara-se, num destes lugares do hoje, com este último rapaz, filho de boas famílias,
parece até terem apanhado o mesmo elevador, no entanto, ele não lhe dirigiu a
palavra e nem sequer a olhou, ora isto mexeu com a caçadora por uma ferida de
lá bem atrás, se há uns tempos, ele vinha buscá-la à porta de casa, muito
educado, nunca quis subir, compreensível, respeitador da privacidade alheia,
depois foi despachado por um perfil frio e pétreo que dedilhava, com avidez, o
maldito aparelho que, de forma alguma, poucos largam, gostei, assumo, da
sentida indignação dela, há momentos em que a vida nos convoca para crescermos,
tarde ou cedo batem-nos à porta, ela já soma um (e que momento!), mas prossegue
a sua caminhada sob uma anestesia e um delírio de sereia cantante que arrebata
os corações de tolinhos perdidos no labirinto do sentir, eis que, de repente,
se vê confrontada com a indiferença, quem sabe o pior dos sentires, imagine,
num elevador, símbolo da claustrofobia, há uns tempos – não se cansavam de
estar juntos, ele vinha buscá-la à porta de casa, muito educado, nunca quis
subir, compreensível, respeitador da privacidade alheia, ela, em pressas de
descer, ao contrário do habitual, até se esquecia das chaves, parecia outra,
uma novidade ao nosso olhar –, agora, na aparência, dois estranhos, que nem a
voz se conheciam, jamais se tocaram, nunca partilharam sonhos, admirei aquele
rapaz, afirmo-o repetidamente, como o admirei, ainda há homens que sabem onde fica
o orgulho, na altura certa, foi buscá-lo e colocou-o ao seu peito, o destino tratou
de os situar no mesmo elevador, e ele nem, por um segundo, a olhou, uma infeliz
novidade para ela, habituada a olhares famintos e
sedentos, por uma ferida de lá bem atrás, creio que a ascensão do elevador
afigurou-se-lhe uma eternidade, quando nervosa ela começa a mexer os pés,
sempre assim foi, ele impassível, encostado a um dos lados, parece nem ter
pestanejado, olhava um indistinto ponto oblíquo, como se estivesse municiado
para situações assim, afinal, foram os pés que a traíram, precisamente onde
quase todos lhe caíam, de olhares famintos e sedentos, como a vida é estranha,
este seu incessante enlear, se ao menos todos tivessem a capacidade de retirar
alguma conclusão… Eu vi um homem, após uma longa caminhada através de ruínas,
as do sentir, as que mais perduram e ferem a alma, na altura certa, a colocar o
orgulho no seu peito.
Pedro
de Sá
(11/10/24)
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