Livros do Escritor

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sábado, 12 de outubro de 2024

Indiferença


 

Estou cansada de lhe repetir: “A continuares assim, vais acabar sozinha…”; que hei-de fazer? Pois, a questão é essa, argumenta com os seus valores, o amor-próprio, enfim, o tempo passa e nada de assentar, é a realidade, ainda me lembro, estava tão enamorada daquele rapaz, filho de boas famílias, um emprego seguro, não se cansavam de estar juntos, ele vinha buscá-la à porta de casa, muito educado, nunca quis subir, compreensível, respeitador da privacidade alheia, ela, em pressas de descer, ao contrário do habitual, até se esquecia das chaves, parecia outra, uma novidade ao nosso olhar, no início nunca há nuvens pelo horizonte, não é verdade? Aparecem inevitavelmente mais à frente, e vezes demais acabam por turvar todo o horizonte, confesso ter acreditado que seria desta, havia uma luz distinta pelo seu rosto, não me pergunte porquê, talvez o facto de lhe redireccionar o olhar para horizontes esquecidos, pois, é possível, bom, como dizia, confesso ter acreditado que seria desta, havia uma luz distinta pelo seu rosto , não me pergunte porquê, o tempo a passar e, como sempre, de noite, os fantasmas que ela carrega a atormentá-la, todos carregamos os nossos, como bem sabe, e a hora preferencial para nos visitarem é quando pousamos o rosto na almofada, ouvi, enganei-me, nada ouvi, percebi, não me pergunte como, talvez pelo dedilhar rápido naquele maldito aparelho que, de forma alguma, poucos largam, haver algo errado, as primeiras nuvens pousavam no horizonte, as suas feições assemelhavam-se a uma escultura de gelo, estava em despedidas, limitei-me a seguir caminho, tinha o jantar ao lume, ela estava à janela, vi-a de relance, o maldito aparelho que, de forma alguma, poucos largam, nas mãos, o perfil frio e pétreo, já lhe vislumbrara tal expressão, desconheço, como é óbvio, a reacção do outro lado, não havia vozes, apenas dedilhares num rectângulo, ontem: não se cansavam de estar juntos, ele vinha buscá-la à porta de casa, muito educado, nunca quis subir, compreensível, respeitador da privacidade alheia, ela, em pressas de descer, ao contrário do habitual, até se esquecia das chaves, parecia outra; hoje: o perfil frio e pétreo, nunca a percebi, ou talvez atirasse para bem longe a minha leitura dos factos: um permanente ajuste-de-contas com o passado; amanhã: a procura de uma nova e incauta presa; tornou-se uma caçadora por uma ferida de lá bem atrás, há uns meses, chegou muito incomodada a casa, percebi-lhe pelos gestos e passos apressados, depois ouvi-as falar no quarto, a irmã chegou a rir-se, ela não, lá me chegou aos ouvidos o sucedido, cruzara-se, num destes lugares do hoje, com  este último rapaz, filho de boas famílias, parece até terem apanhado o mesmo elevador, no entanto, ele não lhe dirigiu a palavra e nem sequer a olhou, ora isto mexeu com a caçadora por uma ferida de lá bem atrás, se há uns tempos, ele vinha buscá-la à porta de casa, muito educado, nunca quis subir, compreensível, respeitador da privacidade alheia, depois foi despachado por um perfil frio e pétreo que dedilhava, com avidez, o maldito aparelho que, de forma alguma, poucos largam, gostei, assumo, da sentida indignação dela, há momentos em que a vida nos convoca para crescermos, tarde ou cedo batem-nos à porta, ela já soma um (e que momento!), mas prossegue a sua caminhada sob uma anestesia e um delírio de sereia cantante que arrebata os corações de tolinhos perdidos no labirinto do sentir, eis que, de repente, se vê confrontada com a indiferença, quem sabe o pior dos sentires, imagine, num elevador, símbolo da claustrofobia, há uns tempos – não se cansavam de estar juntos, ele vinha buscá-la à porta de casa, muito educado, nunca quis subir, compreensível, respeitador da privacidade alheia, ela, em pressas de descer, ao contrário do habitual, até se esquecia das chaves, parecia outra, uma novidade ao nosso olhar –, agora, na aparência, dois estranhos, que nem a voz se conheciam, jamais se tocaram, nunca partilharam sonhos, admirei aquele rapaz, afirmo-o repetidamente, como o admirei, ainda há homens que sabem onde fica o orgulho, na altura certa, foi buscá-lo e colocou-o ao seu peito, o destino tratou de os situar no mesmo elevador, e ele nem, por um segundo, a olhou, uma infeliz novidade para ela, habituada a olhares famintos e sedentos, por uma ferida de lá bem atrás, creio que a ascensão do elevador afigurou-se-lhe uma eternidade, quando nervosa ela começa a mexer os pés, sempre assim foi, ele impassível, encostado a um dos lados, parece nem ter pestanejado, olhava um indistinto ponto oblíquo, como se estivesse municiado para situações assim, afinal, foram os pés que a traíram, precisamente onde quase todos lhe caíam, de olhares famintos e sedentos, como a vida é estranha, este seu incessante enlear, se ao menos todos tivessem a capacidade de retirar alguma conclusão… Eu vi um homem, após uma longa caminhada através de ruínas, as do sentir, as que mais perduram e ferem a alma, na altura certa, a colocar o orgulho no seu peito.

Pedro de Sá

(11/10/24)

 

 

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