Algures entre o alívio e a compaixão,
olhei o avolumar de viaturas em redor daquele edifício
disforme, sem rasgos para o
exterior, numa evidente ameaça de opacidade, parecia tudo engolir em volta, um
monstro insaciável que se alimentava de qualquer resquício de vida, já por ali
caminhei, olho, daqui, esse outro “eu” sem
saudade, até com dó, trocar o céu do mundo pela
artificialidade de candeeiros, horizontes azuis ou verdes por cartazes onde se
lê, em garrafais letras, “Promoções”
ou “Saldos”, a ânsia por mais aquilo, uma peça-de-roupa ou
mais uns ténis, ela perdida entre vestidos, blusas, calças, sapatos, sedenta na
procura de algo que lhe parecia escapar entre a floresta de cabides e a
montanha de roupa acumulada, falo disto como se numa outra existência e,
afinal, há tão pouco, demorei a compreender, como
demorei, que o prazer dali retirado restringia-se somente ao acto de
aquisição, de outro modo, àquele fugaz instante em que o dinheiro sai da minha
conta e viaja sofregamente para outra carteira, esse outro “eu”, como
todos que aqui ainda não aportaram, contente e apatetado por somar um produto que, de todo, não precisava, há qualquer coisa
de inebriante nisto de somar,
quem sabe se pelo facto de a subtracção na conta, nesse momento, ainda
não ser tangível, dentro daquele edifício disforme, sem rasgos para o exterior,
numa evidente ameaça de opacidade, parecia tudo engolir em volta, sacos pela
mão conferem um estatuto de altivez, materialização de um desejo comum a todos
que percorrem aqueles extensos e largos corredores em busca de algo que, de
todo, não precisam, mas há qualquer coisa de inebriante nisto de somar, demorei
a compreender, como demorei, incautos insectos apanhados numa teia que vai tanto
além da sua parca intelecção, em alguns compreende-se-lhes os bolsos tão aquém
da volumetria dos sacos, seguem a sua marcha numa vertiginosa alienação
sustentada pelo pecúlio de meses ainda não chegados, um dos aspectos que mais
me fascinava era o olhar detectivesco dela, e de outras por mim observadas, a
examinar uma insignificantíssima peça-de-roupa, como se por ali o Sentido da
existência ou quiçá o próprio Graal, felizmente sempre houve cambiantes, nesta
caminha, onde sempre estive muito aquém,
a avidez do olhar a percorrer o objecto sustido pelas mãos, de seguida o
inflexível guião de perguntas (“Gostas? Achas que me fica bem? Diz lá: o
que te parece? Achas que experimente? Não tenho nenhuma igual, pois não? Não
sei se noutra côr…”), para fatalmente terminar com mais uma visita ao
provador, uma dezena, no mínimo, de minutos, entre despir, vestir, olhar-se no
espelho, sair, a dúvida-existencial que decide o percurso de uma existência: “Diz
lá: achas que me fica mesmo bem?”; antes que pudesse verbalizar uma sílaba, “Eu
vou levar!”, pois, o percurso de uma existência estava em jogo, não se podia
facilitar, havia radicais decisões a tomar, com o tempo, comecei a
asfixiar dentro daqueles edifícios
disformes, sem rasgos para o exterior, numa evidente ameaça de opacidade,
pareciam tudo engolir em volta, por fim, concluí a
enormíssima estupidez de somar um produto que, de todo, não precisava e de
trocar o céu do mundo pela artificialidade de candeeiros, horizontes azuis ou
verdes por cartazes onde se lê, em garrafais letras, “Promoções” ou “Saldos”, ainda
sinto, ao olhar aquele edifício disforme, sem rasgos para o exterior, numa
evidente ameaça de opacidade, a asfixia de antes, por aqui ainda lateja, creio
que jamais me abandonará, a indelével marca da infelicidade, um estigma na
alma, pela cega insistência em calar uma asfixia pressentida, à minha frente,
agora, um horizonte de verde parece tanger o azul das alturas, para trás ficou
o avolumar de viaturas em redor daquele edifício disforme, sem rasgos para o exterior, numa evidente
ameaça de opacidade, expiro longamente, talvez ela distante dos passos do meu
pensar, espero que sim, para quê partilhar, agora, tão nocturnas passagens,
ignoro se alguém, tal como nós, concluiu a enormíssima estupidez de somar um
produto que, de todo, não precisava e de trocar o céu do mundo pela
artificialidade de candeeiros, horizontes azuis ou verdes por cartazes onde se
lê, em garrafais letras, “Promoções” ou “Saldos”, doravante, só
procuro, no olhar da mulher que estiver a meu lado, avidez em contemplar um
horizonte que nos harmonize o respirar.
Pedro de Sá
(27/10/24)
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.