Livros do Escritor

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domingo, 27 de outubro de 2024

A migração das almas

 


Algures entre o alívio e a compaixão, olhei o avolumar de viaturas em redor daquele edifício disforme, sem rasgos para o exterior, numa evidente ameaça de opacidade, parecia tudo engolir em volta, um monstro insaciável que se alimentava de qualquer resquício de vida, já por ali caminhei, olho, daqui, esse outro “eu” sem saudade, até com dó, trocar o céu do mundo pela artificialidade de candeeiros, horizontes azuis ou verdes por cartazes onde se lê, em garrafais letras, “Promoções” ou “Saldos”, a ânsia por mais aquilo, uma peça-de-roupa ou mais uns ténis, ela perdida entre vestidos, blusas, calças, sapatos, sedenta na procura de algo que lhe parecia escapar entre a floresta de cabides e a montanha de roupa acumulada, falo disto como se numa outra existência e, afinal, há tão pouco, demorei a compreender, como demorei, que o prazer dali retirado restringia-se somente ao acto de aquisição, de outro modo, àquele fugaz instante em que o dinheiro sai da minha conta e viaja sofregamente para outra carteira, esse outro “eu”, como todos que aqui ainda não aportaram, contente e apatetado por somar um produto que, de todo, não precisava, há qualquer coisa de inebriante nisto de somar, quem sabe se pelo facto de a subtracção na conta, nesse momento, ainda não ser tangível, dentro daquele edifício disforme, sem rasgos para o exterior, numa evidente ameaça de opacidade, parecia tudo engolir em volta, sacos pela mão conferem um estatuto de altivez, materialização de um desejo comum a todos que percorrem aqueles extensos e largos corredores em busca de algo que, de todo, não precisam, mas há qualquer coisa de inebriante nisto de somar, demorei a compreender, como demorei, incautos insectos apanhados numa teia que vai tanto além da sua parca intelecção, em alguns compreende-se-lhes os bolsos tão aquém da volumetria dos sacos, seguem a sua marcha numa vertiginosa alienação sustentada pelo pecúlio de meses ainda não chegados, um dos aspectos que mais me fascinava era o olhar detectivesco dela, e de outras por mim observadas, a examinar uma insignificantíssima peça-de-roupa, como se por ali o Sentido da existência ou quiçá o próprio Graal, felizmente sempre houve cambiantes, nesta caminha, onde sempre estive muito aquém,  a avidez do olhar a percorrer o objecto sustido pelas mãos, de seguida o inflexível guião de perguntas (“Gostas? Achas que me fica bem? Diz lá: o que te parece? Achas que experimente? Não tenho nenhuma igual, pois não? Não sei se noutra côr…”), para fatalmente terminar com mais uma visita ao provador, uma dezena, no mínimo, de minutos, entre despir, vestir, olhar-se no espelho, sair, a dúvida-existencial que decide o percurso de uma existência: “Diz lá: achas que me fica mesmo bem?”; antes que pudesse verbalizar uma sílaba, “Eu vou levar!”, pois, o percurso de uma existência estava em jogo, não se podia facilitar, havia radicais decisões a tomar, com o tempo, comecei a asfixiar  dentro daqueles edifícios disformes, sem rasgos para o exterior, numa evidente ameaça de opacidade, pareciam tudo engolir em volta, por fim, concluí a enormíssima estupidez de somar um produto que, de todo, não precisava e de trocar o céu do mundo pela artificialidade de candeeiros, horizontes azuis ou verdes por cartazes onde se lê, em garrafais letras, “Promoções” ou “Saldos”, ainda sinto, ao olhar aquele edifício disforme, sem rasgos para o exterior, numa evidente ameaça de opacidade, a asfixia de antes, por aqui ainda lateja, creio que jamais me abandonará, a indelével marca da infelicidade, um estigma na alma, pela cega insistência em calar uma asfixia pressentida, à minha frente, agora, um horizonte de verde parece tanger o azul das alturas, para trás ficou o avolumar de viaturas em redor daquele edifício disforme,  sem rasgos para o exterior, numa evidente ameaça de opacidade, expiro longamente, talvez ela distante dos passos do meu pensar, espero que sim, para quê partilhar, agora, tão nocturnas passagens, ignoro se alguém, tal como nós, concluiu a enormíssima estupidez de somar um produto que, de todo, não precisava e de trocar o céu do mundo pela artificialidade de candeeiros, horizontes azuis ou verdes por cartazes onde se lê, em garrafais letras, “Promoções” ou “Saldos”, doravante, só procuro, no olhar da mulher que estiver a meu lado, avidez em contemplar um horizonte que nos harmonize o respirar.

Pedro de Sá

(27/10/24)

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