Livros do Escritor

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sábado, 17 de janeiro de 2026

Quem te anoitece os dias?

 


Quando menos esperamos, num acaso do destino, de manhã ou de tarde, até de noite, em escassos segundos, a vida relembra-nos que nunca estivemos ao leme de nada, é estranho, às vezes, sinto-lhe prazer nesse jogo de forças, como se nos espelhasse a real insignificância de sermos, comigo aconteceu há umas semanas, estava nas compras, nem costumo ir àquela superfície que apela a pernas e paciência, nunca gostei da desumanidade desses espaços, contudo, tinha o miúdo na natação, que ali fica perto, algum tempo ainda, um jantar para fazer, resolvi entrar, como dizia, nunca gostei da desumanidade desses espaços, tudo numa artificialidade excessiva, do brilho do chão ao sorriso plástico dos empregados, percebi-a ao fundo de um corredor, estaria a cerca de cinquenta metros, era a zona da decoração doméstica, de um lado, quadros, bibelôs, molduras, velas, umas perfumadas, outras coloridas, caixas, caixinhas, do outro, tolhas, turcos, lençóis, capas de colchão, tudo numa espiral de cores e tamanhos, pela silhueta percebi o fundamento do que se dizia, de facto já se notava, até ia bem adiantada, segurava uma moldura e consagrava-lhe uma ternura atenciosa, percebia-se-lhe o destinatário, mantive-me onde estava, ela longe da minha presença por ali, continuei a observá-la, pois, a silhueta, nisto, eu não via o que olhava, mas sim o que pensava, e eu era números, e uma questão inarticulada e sofrida nascia, numa dolorosa lentidão, pelo meu pensar…

Não sei porquê, mas olhava para ela, ao fundo do corredor, estaria para aí a uns cinquenta metros, e a imagem dele por ali, de uma outra forma, até para me organizar, não conseguia dissociá-los, já me acusaram de tanta coisa, por causa destas minhas ideias, várias amigas repetidamente (Mas tu és doida? Já viste aos anos que vocês são casados? Que disparate! Vai-te curar, mulher! Continua com essas coisas, continua, que ainda arranjas o teu divórcio… Olha que sinceramente, o teu marido é um santo… Só ele, para aturar esses devaneios… Dá valor ao que tens, e deixa-te de parvoíces…), de certa forma, percebia-lhes a boa-vontade, o que já não é mau por estes dias, quando tudo se apaixonou pela divisão, talvez para assim se engrandecerem, no entanto, não sei porquê, hoje, a contemplar aquela silhueta, a cerca de cinquenta metros, a imagem dele por ali, não sei como explicar, bem sei que estamos juntos há quase dez anos, sob as leis do céu e dos homens, bem sei que o nosso filho, faltam três semanas para fazer oito anos, está na natação, fica aqui perto, sei de tudo isto, mas… A primeira vez que falei nestas coisas, em verdade, foi quando consegui, com palavras, dar corpo a uma angústia que me povoava há demasiado, minha mãe não estranhou, embora o disfarçasse, lembro-me tão bem, a luz de um Outono ainda Verão lá fora pintava a tarde da cidade, concedia-lhe a tonalidade de um tempo que se prolonga na despedida, como um diálogo que se alimenta de olhares no lugar de palavras, era Sábado, ele saíra para o futebol com os amigos, comecei por, a olhar um ponto indeterminado, fingindo arrumar algo, lhe dizer Acho que ele ainda gosta da… Nunca lhe consegui verbalizar o nome, não sei porquê, ou talvez saiba, ainda de pé, minha mãe fixou-me, percebeu o esforço de cada sílaba, era uma mulher que apreciava o esforço de compor em palavras o que, afinal, somos… Retorquiu, Desculpa, mas estás a falar de quem ao certo? Percebi, de imediato, que trazia distância às coisas, afinal, no horizonte tudo se torna relativo, A mãe sabe muito bem de quem estou a falar: do meu marido e da sua primeira... Após esta frase, deixei o ponto indeterminado e desci o meu olhar ao seu rosto, não havia, por ali, sinais de cansaço que é comum encontrarmos naqueles que conhecem este mundo há tanto, não, nada disso, havia apenas uma serena ironia, no fundo, talvez fosse a opção encontrada para se levantar em cada amanhecer, eu continuo em busca da minha, daí esta dificuldade em compor palavras para ilustrar angústias de há muito, Deixa-te de rodeios! Porquê isso agora? Onde foste buscar tal coisa? A voz adensava-se-lhe, era nítido, as sílabas tornavam-se mais pausadas, levantei o meu olhar do seu rosto em busca de um porto de abrigo, longe de recriminações surdas e de críticas inarticuladas, Um dia destes, hás-de conseguir destruir o teu casamento, ouve bem o que te digo! Ele há-de cansar-se de tanta estupidez! Casou-se contigo há dez anos e, mesmo assim, continuas com essas parvoíces… O que queres mais dele? Diz-me! Sabes, és daquelas pessoas que só adensa a sombra… Sempre tiveste um lado invernoso bem latente em ti, desde criança. É curioso, agora que falo nisso, lembro-me tão bem, no Verão tornavas-te taciturna, em monólogos à sombra, enquanto todos em risos e correrias à volta do lago, lembras-te? Pois… Cuidado, é tudo o que te posso dizer. Compreendi o que me queria dizer, era o expectável, o tom condescendente e pedagógico mantinha-se, por vezes, não sei se me reconfortava ou se me exasperava, por isso, avancei Ela está grávida! E, fazendo as contas, ajusta-se àquele período em que ele saiu de casa… Quando discutimos por causa de… Pois, ela desconhecia essa zanga, arrependimento e alívio passaram por mim após este desabafo, mas já era tarde, a frase já não me pertencia, agora era do domínio daquela realidade (a luz de um Outono ainda Verão lá fora pintava a tarde da cidade, concedia-lhe a tonalidade de um tempo que se prolonga na despedida, como um diálogo que se alimenta de olhares no lugar de palavras, era Sábado, ele saíra para o futebol com os amigos), ela preferiu sentar-se, o tempo nunca se esquece de nós, embora façamos tudo para o ignorar, ele é o nosso mais fiel companheiro de viagem e, a qualquer altura, quando menos esperamos, relembra-nos a sua presença, repetiu, várias vezes, a frase para si mesma Ela está grávida! Ela está grávida! Ela está grávida! Levantou-se, tomou a direcção da porta da rua, secundei-a, antes de sair, olhou-me, uma vez mais, como a criança que fui, só mais tarde compreendi que os pais olham os filhos com todas as idades, só mais tarde, tão tarde, e disse-me Minha filha, quando ele chegar casa, abraça-o e repousa o teu rosto no seu peito. Se estiveres bem atenta, todas as dúvidas serão esclarecidas. Sabes, isto de viver não é assim tão complicado, mas só percebemos isso quando o olhar desce sobre a terra.

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