Quando
menos esperamos, num acaso do destino, de manhã ou de tarde, até de noite, em
escassos segundos, a vida relembra-nos que nunca estivemos ao leme de nada, é
estranho, às vezes, sinto-lhe prazer nesse jogo de forças, como se nos
espelhasse a real insignificância de sermos, comigo aconteceu há umas semanas,
estava nas compras, nem costumo ir àquela superfície que apela a pernas e
paciência, nunca gostei da desumanidade desses espaços, contudo, tinha o miúdo
na natação, que ali fica perto, algum tempo ainda, um jantar para fazer, resolvi
entrar, como dizia, nunca gostei da desumanidade desses espaços, tudo numa
artificialidade excessiva, do brilho do chão ao sorriso plástico dos
empregados, percebi-a ao fundo de um corredor, estaria a cerca de cinquenta
metros, era a zona da decoração doméstica, de um lado, quadros, bibelôs,
molduras, velas, umas perfumadas, outras coloridas, caixas, caixinhas, do
outro, tolhas, turcos, lençóis, capas de colchão, tudo numa espiral de cores e
tamanhos, pela silhueta percebi o fundamento do que se dizia, de facto já se
notava, até ia bem adiantada, segurava uma moldura e consagrava-lhe uma ternura
atenciosa, percebia-se-lhe o destinatário, mantive-me onde estava, ela longe da
minha presença por ali, continuei a observá-la, pois, a silhueta, nisto, eu não
via o que olhava, mas sim o que pensava, e eu era números, e uma questão
inarticulada e sofrida nascia, numa dolorosa lentidão, pelo meu pensar…
Não
sei porquê, mas olhava para ela, ao fundo do corredor, estaria para aí a uns
cinquenta metros, e a imagem dele por ali, de uma outra forma, até para me
organizar, não conseguia dissociá-los, já me acusaram de tanta coisa, por causa
destas minhas ideias, várias amigas repetidamente (Mas tu és doida? Já viste aos anos que vocês são casados? Que
disparate! Vai-te curar, mulher! Continua com essas coisas, continua, que ainda
arranjas o teu divórcio… Olha que sinceramente, o teu marido é um santo… Só
ele, para aturar esses devaneios… Dá valor ao que tens, e deixa-te de
parvoíces…), de certa forma, percebia-lhes a boa-vontade, o que já não é
mau por estes dias, quando tudo se apaixonou pela divisão, talvez para assim se
engrandecerem, no entanto, não sei porquê, hoje, a contemplar aquela silhueta,
a cerca de cinquenta metros, a imagem dele por ali, não sei como explicar, bem
sei que estamos juntos há quase dez anos, sob as leis do céu e dos homens, bem
sei que o nosso filho, faltam três semanas para fazer oito anos, está na
natação, fica aqui perto, sei de tudo isto, mas… A primeira vez que falei
nestas coisas, em verdade, foi quando consegui, com palavras, dar corpo a uma
angústia que me povoava há demasiado, minha mãe não estranhou, embora o
disfarçasse, lembro-me tão bem, a luz de um Outono ainda Verão lá fora pintava
a tarde da cidade, concedia-lhe a tonalidade de um tempo que se prolonga na
despedida, como um diálogo que se alimenta de olhares no lugar de palavras, era
Sábado, ele saíra para o futebol com os amigos, comecei por, a olhar um ponto
indeterminado, fingindo arrumar algo, lhe dizer Acho que ele ainda gosta da… Nunca lhe consegui verbalizar o nome,
não sei porquê, ou talvez saiba, ainda de pé, minha mãe fixou-me, percebeu o
esforço de cada sílaba, era uma mulher que apreciava o esforço de compor em
palavras o que, afinal, somos… Retorquiu, Desculpa,
mas estás a falar de quem ao certo? Percebi, de imediato, que trazia
distância às coisas, afinal, no horizonte tudo se torna relativo, A mãe sabe muito bem de quem estou a falar:
do meu marido e da sua primeira... Após esta frase, deixei o ponto
indeterminado e desci o meu olhar ao seu rosto, não havia, por ali, sinais de
cansaço que é comum encontrarmos naqueles que conhecem este mundo há tanto,
não, nada disso, havia apenas uma serena ironia, no fundo, talvez fosse a opção
encontrada para se levantar em cada amanhecer, eu continuo em busca da minha,
daí esta dificuldade em compor palavras para ilustrar angústias de há muito, Deixa-te de rodeios! Porquê isso agora? Onde
foste buscar tal coisa? A voz adensava-se-lhe, era nítido, as sílabas
tornavam-se mais pausadas, levantei o meu olhar do seu rosto em busca de um
porto de abrigo, longe de recriminações surdas e de críticas inarticuladas, Um dia destes, hás-de conseguir destruir o
teu casamento, ouve bem o que te digo! Ele há-de cansar-se de tanta estupidez!
Casou-se contigo há dez anos e, mesmo assim, continuas com essas parvoíces… O
que queres mais dele? Diz-me! Sabes, és daquelas pessoas que só adensa a
sombra… Sempre tiveste um lado invernoso bem latente em ti, desde criança. É
curioso, agora que falo nisso, lembro-me tão bem, no Verão tornavas-te
taciturna, em monólogos à sombra, enquanto todos em risos e correrias à volta
do lago, lembras-te? Pois… Cuidado, é tudo o que te posso dizer. Compreendi
o que me queria dizer, era o expectável, o tom condescendente e pedagógico
mantinha-se, por vezes, não sei se me reconfortava ou se me exasperava, por
isso, avancei Ela está grávida! E,
fazendo as contas, ajusta-se àquele período em que ele saiu de casa… Quando
discutimos por causa de… Pois, ela desconhecia essa zanga, arrependimento e
alívio passaram por mim após este desabafo, mas já era tarde, a frase já não me
pertencia, agora era do domínio daquela realidade (a luz de um Outono ainda
Verão lá fora pintava a tarde da cidade, concedia-lhe a tonalidade de um tempo
que se prolonga na despedida, como um diálogo que se alimenta de olhares no
lugar de palavras, era Sábado, ele saíra para o futebol com os amigos), ela
preferiu sentar-se, o tempo nunca se esquece de nós, embora façamos tudo para o
ignorar, ele é o nosso mais fiel companheiro de viagem e, a qualquer altura,
quando menos esperamos, relembra-nos a sua presença, repetiu, várias vezes, a
frase para si mesma Ela está grávida! Ela
está grávida! Ela está grávida! Levantou-se, tomou a direcção da porta da
rua, secundei-a, antes de sair, olhou-me, uma vez mais, como a criança que fui,
só mais tarde compreendi que os pais olham os filhos com todas as idades, só
mais tarde, tão tarde, e disse-me Minha
filha, quando ele chegar casa, abraça-o e repousa o teu rosto no seu peito. Se
estiveres bem atenta, todas as dúvidas serão esclarecidas. Sabes, isto de viver
não é assim tão complicado, mas só percebemos isso quando o olhar desce sobre a
terra.
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