Ainda
me lembro da primeira vez em que esse assunto se interpôs entre nós, foi num
Sábado de manhã, ao pequeno-almoço, ele a folhear um desses catálogos de casas
deixados na caixa-de-correio, entre a torrada e a caneca de café com leite, uma
altura em que até nos estranhamos, é normal, depois de cinco dias sob a tirania
dos ponteiros de qualquer relógio que a nossa vista alcance, esta súbita
indolência é recebida com estranheza, mas regressemos ao tal assunto, como
dizia, Sábado de manhã, o pequeno-almoço, ele a folhear um desses catálogos de
casas deixados na caixa-de-correio, entre a torrada e a caneca de café com
leite, em verdade, quando falou, ainda o ouvia mastigar despojos da torrada, Já viste quanto custa uma vivenda na
província? O mesmo que um apartamentozito de uma assoalhada por aqui! E,
repara, até tem algum terreno… Isto, sim, é viver! Parece que nos tornamos
senhores do tempo, em vez de seus escravos… Olhei-o, já de pé, estava a
arrumar a louça, mas não lhe respondi, pensei, confesso, que se tratava de mais
uma das suas incursões diletantes, ainda acrescentou duas ou três frases, já
não o ouvia, por fim, para que saísse dali, começava a irritar-me aquele interminável
folhear do panfleto publicitário de mais uma imobiliária, pomposamente
apelidado de catálogo de casas, disse-lhe Agradecia
que fosses dar banho ao miúdo, enquanto eu acabo de arrumar a cozinha, sempre
que fazia algo a contragosto, ele cerrava os lábios e olhava para o chão, era
uma forma de os impropérios se tornaram inaudíveis e de ninguém perscrutar a
sua expressão enfadada, saiu a arrastar os pés, agradeci o silêncio restituído,
nisto, reparo na publicidade das casas, que ele tanto apregoou, aberta em cima
da mesa, sento-me, de facto, uma vivenda, com duas salas, três casas-de-banho,
quatro quartos, seiscentos metros quadrados de terreno, custa o mesmo que este
nosso acanhado apartamentozito, uma salita, apenas um quarto, uma
casa-de-banho, ainda por cima minúscula, sem direito a banheira, o que eu sonho
com um banho de imersão quando chego tarde do trabalho, então à noite, já nem
as pernas sinto, como é primeiro-andar, a vista somente alcança o prédio em
frente, se o céu quero ver, só olhando as alturas com a cabeça fora da janela,
a ideia começou a germinar também em mim… Estávamos juntos há quatro anos,
engravidei no decorrer do primeiro, porém, ele já tinha uma filha de oito anos,
do seu anterior relacionamento, volta e meia, falava de casamento, pois, mais
uma das suas incursões diletantes, gostava que abordasse o tema, não sei
porquê, ou talvez saiba, em cada mulher há uma menina que nunca se despediu,
mas nunca fez parte dos meus planos, parecia-me o fim de algo, como se
retirassem cor a um sonho, um pouco isso, sempre preferi o caminho à berma,
contudo, o tema regressava, Não achas que
está na altura de nós… Já viste, estamos juntos há quatro anos, bem sei que se
trata de um papel, mas acho que é importante dar esse passo… Até para o miúdo,
que está quase a fazer três, faria toda a diferença… E sabes que tenho razão.
Claro que não é por causa de qualquer tipo de preconceito social, é, antes de
mais, por não ter dúvidas sobre o que por ti sinto… Quando ele dizia estas
coisas, a menina que nunca de mim se despediu suspirava, mas o fim de algo,
como se retirassem cor a um sonho, se caminhávamos tão bem, para quê sentar na
berma?
Regressei
a mim, já uma vivenda, com duas salas, três casas-de-banho, quatro quartos,
seiscentos metros quadrados de terreno, que custava o mesmo que um acanhado
apartamentozito, com uma salita, apenas um quarto, uma casa-de-banho, ainda por
cima minúscula, sem direito banheira, e o que eu gosto de um banho de imersão
quando chego tarde do trabalho, então à noite, nem as pernas sinto, a mudança
demorou menos que dois anos, mas fui tudo tão rápido, só com a idade é que
percebemos que o tempo acelera e desacelera consoante a geografia de uma
existência, desenganem-se os que afirmam a constância do seu fluir, tolos é o
que lhes posso dizer, quantas vidas encerra um minuto? Foi quando pousei a
última mala, que um pânico mudo de mim se apoderou, ele, com o miúdo às
cavalitas, dava ares de um cicerone encantado e percorria as várias divisões da
casa, encostei-me à parede a suar, trémula, diante de mim, a visão de um deserto, iria regressar-me noutras ocasiões, mas, sem
dúvida, essa foi a primeira, e uma questão formou-se-me no pensar, porém,
evolou-se quando caminhava para a fala… A noção de desastre! Quantas vezes,
numa vida, esta clarividência? Nascida, neste caso, do baque surdo da última
mala no soalho da entrada. Na primeira noite, ele procurou-me, e segredou-me
melosamente ao ouvido Temos de celebrar,
não achas? Aleguei cansaço, a mudança, a viagem, tudo, felizmente, não
insistiu, a luz de cada dia tem a fatalidade de nos devolver o que somos nessa
data, a noite, pelo menos, aproxima-nos do que gostaríamos de ser, pois, o
sonho, como dizia, nessa primeira manhã, ele quase saltou da cama em cantorias,
enaltecia cada pormenor com uma alegria genuína, permaneceu nas faldas do meu
terror (diante de mim, a visão de um
deserto), felizmente para ele, contudo, o tempo lá pegou na sua mala e
decidiu voltar à estrada (quantas vidas
encerra um minuto?), à tardinha, quando regressava, sentava-se para ali no
quintal (seiscentos metros quadrados de
terreno), de cigarro na boca, a olhar a serra por onde a noite já
caminhava, via-o pela janela, dominada pelo terror (diante de mim, a visão de um deserto), que imensa
saudade quando a vista somente alcançava o prédio em frente, se o céu queria
ver, só olhando as alturas com a cabeça fora da janela, aquele rumorejar do
trânsito, noite e dia, quase como o sangue das minhas veias, continuei a
olhá-lo, sentado, de cigarro na boca, a contemplar a serra por onde a noite já
caminhava, ele encontrou-se, eu perdi-me, virei costas ao que sou, compreendi,
nesse instante (quantas vidas encerra um
minuto?), que já não tínhamos nada a dizer um ao outro, tantos equívocos
somados, pois, só com a idade é que percebemos que o tempo acelera e desacelera
consoante a geografia de uma existência, e o miúdo… Foi quando levantei a
última mala, o soalho a ranger o que me pareceu um tímido adeus, que um sentir de alegria caminhou por mim, a luz de cada dia
tem a fatalidade de nos devolver o que somos nessa data, a noite, pelo menos,
aproxima-nos do que gostaríamos de ser, pois, o sonho…

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