Livros do Escritor

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sábado, 10 de janeiro de 2026

Quando o mundo se esquece de nós

 


Ainda me lembro da primeira vez em que esse assunto se interpôs entre nós, foi num Sábado de manhã, ao pequeno-almoço, ele a folhear um desses catálogos de casas deixados na caixa-de-correio, entre a torrada e a caneca de café com leite, uma altura em que até nos estranhamos, é normal, depois de cinco dias sob a tirania dos ponteiros de qualquer relógio que a nossa vista alcance, esta súbita indolência é recebida com estranheza, mas regressemos ao tal assunto, como dizia, Sábado de manhã, o pequeno-almoço, ele a folhear um desses catálogos de casas deixados na caixa-de-correio, entre a torrada e a caneca de café com leite, em verdade, quando falou, ainda o ouvia mastigar despojos da torrada, Já viste quanto custa uma vivenda na província? O mesmo que um apartamentozito de uma assoalhada por aqui! E, repara, até tem algum terreno… Isto, sim, é viver! Parece que nos tornamos senhores do tempo, em vez de seus escravos… Olhei-o, já de pé, estava a arrumar a louça, mas não lhe respondi, pensei, confesso, que se tratava de mais uma das suas incursões diletantes, ainda acrescentou duas ou três frases, já não o ouvia, por fim, para que saísse dali, começava a irritar-me aquele interminável folhear do panfleto publicitário de mais uma imobiliária, pomposamente apelidado de catálogo de casas, disse-lhe Agradecia que fosses dar banho ao miúdo, enquanto eu acabo de arrumar a cozinha, sempre que fazia algo a contragosto, ele cerrava os lábios e olhava para o chão, era uma forma de os impropérios se tornaram inaudíveis e de ninguém perscrutar a sua expressão enfadada, saiu a arrastar os pés, agradeci o silêncio restituído, nisto, reparo na publicidade das casas, que ele tanto apregoou, aberta em cima da mesa, sento-me, de facto, uma vivenda, com duas salas, três casas-de-banho, quatro quartos, seiscentos metros quadrados de terreno, custa o mesmo que este nosso acanhado apartamentozito, uma salita, apenas um quarto, uma casa-de-banho, ainda por cima minúscula, sem direito a banheira, o que eu sonho com um banho de imersão quando chego tarde do trabalho, então à noite, já nem as pernas sinto, como é primeiro-andar, a vista somente alcança o prédio em frente, se o céu quero ver, só olhando as alturas com a cabeça fora da janela, a ideia começou a germinar também em mim… Estávamos juntos há quatro anos, engravidei no decorrer do primeiro, porém, ele já tinha uma filha de oito anos, do seu anterior relacionamento, volta e meia, falava de casamento, pois, mais uma das suas incursões diletantes, gostava que abordasse o tema, não sei porquê, ou talvez saiba, em cada mulher há uma menina que nunca se despediu, mas nunca fez parte dos meus planos, parecia-me o fim de algo, como se retirassem cor a um sonho, um pouco isso, sempre preferi o caminho à berma, contudo, o tema regressava, Não achas que está na altura de nós… Já viste, estamos juntos há quatro anos, bem sei que se trata de um papel, mas acho que é importante dar esse passo… Até para o miúdo, que está quase a fazer três, faria toda a diferença… E sabes que tenho razão. Claro que não é por causa de qualquer tipo de preconceito social, é, antes de mais, por não ter dúvidas sobre o que por ti sinto… Quando ele dizia estas coisas, a menina que nunca de mim se despediu suspirava, mas o fim de algo, como se retirassem cor a um sonho, se caminhávamos tão bem, para quê sentar na berma?

Regressei a mim, já uma vivenda, com duas salas, três casas-de-banho, quatro quartos, seiscentos metros quadrados de terreno, que custava o mesmo que um acanhado apartamentozito, com uma salita, apenas um quarto, uma casa-de-banho, ainda por cima minúscula, sem direito banheira, e o que eu gosto de um banho de imersão quando chego tarde do trabalho, então à noite, nem as pernas sinto, a mudança demorou menos que dois anos, mas fui tudo tão rápido, só com a idade é que percebemos que o tempo acelera e desacelera consoante a geografia de uma existência, desenganem-se os que afirmam a constância do seu fluir, tolos é o que lhes posso dizer, quantas vidas encerra um minuto? Foi quando pousei a última mala, que um pânico mudo de mim se apoderou, ele, com o miúdo às cavalitas, dava ares de um cicerone encantado e percorria as várias divisões da casa, encostei-me à parede a suar, trémula, diante de mim, a visão de um deserto, iria regressar-me noutras ocasiões, mas, sem dúvida, essa foi a primeira, e uma questão formou-se-me no pensar, porém, evolou-se quando caminhava para a fala… A noção de desastre! Quantas vezes, numa vida, esta clarividência? Nascida, neste caso, do baque surdo da última mala no soalho da entrada. Na primeira noite, ele procurou-me, e segredou-me melosamente ao ouvido Temos de celebrar, não achas? Aleguei cansaço, a mudança, a viagem, tudo, felizmente, não insistiu, a luz de cada dia tem a fatalidade de nos devolver o que somos nessa data, a noite, pelo menos, aproxima-nos do que gostaríamos de ser, pois, o sonho, como dizia, nessa primeira manhã, ele quase saltou da cama em cantorias, enaltecia cada pormenor com uma alegria genuína, permaneceu nas faldas do meu terror (diante de mim, a visão de um deserto), felizmente para ele, contudo, o tempo lá pegou na sua mala e decidiu voltar à estrada (quantas vidas encerra um minuto?), à tardinha, quando regressava, sentava-se para ali no quintal (seiscentos metros quadrados de terreno), de cigarro na boca, a olhar a serra por onde a noite já caminhava, via-o pela janela, dominada pelo terror (diante de mim, a visão de um deserto), que imensa saudade quando a vista somente alcançava o prédio em frente, se o céu queria ver, só olhando as alturas com a cabeça fora da janela, aquele rumorejar do trânsito, noite e dia, quase como o sangue das minhas veias, continuei a olhá-lo, sentado, de cigarro na boca, a contemplar a serra por onde a noite já caminhava, ele encontrou-se, eu perdi-me, virei costas ao que sou, compreendi, nesse instante (quantas vidas encerra um minuto?), que já não tínhamos nada a dizer um ao outro, tantos equívocos somados, pois, só com a idade é que percebemos que o tempo acelera e desacelera consoante a geografia de uma existência, e o miúdo… Foi quando levantei a última mala, o soalho a ranger o que me pareceu um tímido adeus, que um sentir de alegria caminhou por mim, a luz de cada dia tem a fatalidade de nos devolver o que somos nessa data, a noite, pelo menos, aproxima-nos do que gostaríamos de ser, pois, o sonho…

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