Livros do Escritor

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domingo, 4 de janeiro de 2026

Da Cobardia (ou a Porcachona e o Tintim III)


 

Hoje encerro a trilogia sobre estas ridículas figuras, a Porcachona e o Tintim, a cobardia do supracitado título não é um acaso, após as duas anteriores crónicas, onde, convenhamos, estas personagens tão bem foram retratadas em toda a sua esplendorosa mesquinhez, como se mais tivessem para oferecer ao mundo, reuniram-se para tomar medidas, impunha-se um contra-ataque, mas como…? Escrever? Pois, o Tintim, esse boneco de andar bamboleante, com o livrito debaixo da sovaqueira, tentou por múltiplas vezes articular frases sobre folhas-em-branco, o resultado final, enfim, apenas uma dolorosa pobreza, guardou a frustração para si, é necessária nobreza para assumir as fraquezas, a vida, inclemente, apontou-lhe a margem de leitor, em verdade, não lhe fora concedido engenho para mais, daí o omnipresente livrito debaixo da sovaqueira, assim que o mercado chama as ovelhitas, lá vai o boneco, atrás do rebanho, para, no dia seguinte, preencher a sovaqueira com o último ditame, por conseguinte, escrever muito para além das suas diminutas capacidades, a Porcachona, então, escrever só se fosse para comédia alheia, não, por aí o caminho nitidamente vedado, confrontar o autor também não se lhes afigurou possível, são de essência cobarde, tudo pelas costas, maledicência, conluios, inveja, sublinhe-se, uma vez mais, o boneco ambicionava ser escritor, a Porcachona é simplesmente uma frustrada, que se aproxima a largos passos dos sessenta, percebe que já ninguém lhe pega, pariu duas vezes, embora, pela volumetria das ancas, se afigure a génese de uma pocilga, e o que podia fazer o boneco, com aqueles descarnados membros, tamanho só acumula na cintura, até o cocuruto, há muito, em obscena nudez, para aguçar a fantasia do leitor: imaginem um boneco, carequinha, de andar bamboleante, redondinho, apesar de uma camisa largueirona na desesperada tentativa de calar este facto, aproximar-se de alguém e, num sumido tom de aviso, “Veja lá se quer levar um tabefe…”; pois, não, a coisa não poderia ser por aí, onde o Tintim conseguiria arrojo para tal, uma vez que a sua testosterona é proporcional aos escassos grisalhos sobre o cocuruto, um contra-ataque público também não seria boa ideia, são de essência cobarde, tudo pelas costas, maledicência, conluios, inveja, e a Porcachona já foi avisada “Ten mucho cuidadito, Porcachona, el mundo es pequenito,” a coisa teria de ser mais subterrânea, são criaturas das sombras, íntimas de ratazanas e outras tais, uma mensagem por uma dessas actuais redes-privadas, ora nem mais, mas quem escreve? Aqui a Porcachonha, de forma lesta, ofereceu-se, o boneco ainda ponderou, mas receou que, se fosse o primeiro a levantar-se, todos ficariam a olhar para o seu andar bamboleante, vivemos, sem dúvida, tempos onde a intolerância impera, há algum mal que, na locomoção, alguém goste de sobressair as ancas? Sinceramente, abaixo os preconceitos, deixem o Tintim dar às ancas, até fez um casamento interessante, na vida há que sopesar muito bem as escolhas, umas ancas bamboleantes, pelo menos, são garantia de uns passitos de dança na direcção certa, ela proprietária de uma casa a Sul, assim sendo, permitem que, todos os Verões, o nosso boneco fique morenito, não por acaso, prudente como é, já adquiriu múltiplos chapéus, aquele cocuruto em obscena nudez, apesar da celeridade com que se voluntariou, a Porcachona logo se debateu com a sua total falência para articular palavras, nem insultar por escrito lhe foi possível, compreende-se, é uma Porcachona, mais não lhe é exigível, neste particular, os tempos correram a seu favor, uma Porcachona não sabe jogar limpo, quem vive da e na imundície a mais não pode aspirar, lá se valeu do actual substituto do intelecto humano, no seu caso nem se pode denominar de substituto, uma vez ser totalmente desprovida de intelecto, em última instância, e bem vistas as coisas, não foi das suas jogadas mais abjectas, buscou o que não possui: inteligência; no dia seguinte, em júbilo, pô-la a correr na tal rede-privada, claro que houve o cuidado de não estar assinada, a memória de um aviso “Ten mucho cuidadito, Porcachona, el mundo es pequenito,” o boneco, prudente como é, também declinou assinar, não fosse alguém arranjar-lhe um novo andar, só quem, de facto, padece de total ignorância, julga que estas coisas ficam em privado, um pombo-correio, com nome de azeiteira, despeitado, enviou para um sujeito, com a esperança de que este o fizesse chegar ao visado, coitadinha, julgou todos por si, como resposta “Eu não sou pombo-correio, tem aqui o contacto de quem por direito”, o pombo-correio, de nome azeiteira, também é cobarde, tudo pelas costas, maledicência, conluios, inveja, são criaturas das sombras, íntimas de ratazanas e outras tais, a somar a tudo isto há favores, muitos favores, três anitos de contrato seguidos para garantia permanente do pãozito na mesa, assim se estabelece a obediência cega destes acéfalos, claro que nada enviou, pudera, esta é a realidade dos nebulosos tempos que atravessamos, onde a Cobardia é o único Norte possível aos miseráveis acéfalos, toda a minha escrita é  pública e assinada, pois quem nasce com coluna-vertebral não sabe rastejar.

Pedro de Sá


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