Livros do Escritor

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domingo, 9 de junho de 2024

Os irmãos Chihuahua


 

Hoje resolvi dedicar estas linhas aos irmãos chihuahua, perguntar-se-á o leitor: quem, afinal, são os irmãos chihuahua? São dois gémeos, nem por acaso tiraram o mesmo curso, nem por acaso seguiram a mesma profissão, o tempo e a vida lá ajudaram a distingui-los: um inchou, inchou, o outro manteve-se esquálido… Bom, tenho de ir mais devagar, nem o contexto destas duas criaturas apresentei, conheci, há uma década, o chihuahua-esquálido, achei graça ao sujeito, fazia do politicamente incorrecto o seu estandarte, isso agradou-me, há muito que, essa forma tirânica de nos vigiarmos mutuamente, me causava um asco visceral, o sujeito lá debitava as suas baboseiras, com um aparente à-vontade, talvez por ninguém lhe dar crédito, vivia sozinho, não obstante ter dobrado meio-século de existência, sempre nutri compaixão pelos sós, a sua fragilidade gritava-se-lhe na descoordenação-motora, para além, claro, da extrema magreza, todavia, volta e meia, era vê-lo elevar a voz por uma qualquer causa, risível a figura, apenas e só, um chihuahua-enraivecido a rosnar atrás de um qualquer portão, limitava-me a rir, apenas e só, era habitual chegar, sobretudo de tarde, ao trabalho, vermelhusco e alegre, a frustração lá teria de ser olvidada, e uns copitos são a viagem mais rápida e barata para o efeito, certa vez, contaram-me que, na rua, se exaltou com um taxista, na altura, confesso a minha apreensão, se alguém atingisse aquela amostrazita de homem, durante semanas não ouviríamos o politicamente incorrecto, afirmava-se através de uma falsa generosidade e pelas leituras, fazia gáudio em andar sempre com um livro debaixo do braço (bem diz o povo: “Um BURRO carregado de livros é um doutor”), no entanto, se instado a discorrer sobre uma temática, o verbo não lhe fluía – a Retórica é uma qualidade inata – e o seu egozito é inversamente proporcional à sua volumetria, a verdade é que só tinha algum palco aquando das baboseiras, mesmo aí com uma generosa dose de compaixão, a certa altura, enamorou-se de uma colega casada, apesar de muitos duvidarem da sua real orientação, havia quem desconfiasse daquele andar trôpego, de uma segura distância, apercebi-me da total inabilidade do nosso chihuahua para o elemento feminino, esta, claro, foi-se aproveitando da sua falsa generosidade, uma sujeita fútil e completamente estéril de ideias, o chihuahua não a largava, mas como é sabido jamais mordeu, profissionalmente é mais um frustrado que para ali anda num ontem sempre igual ao amanhã, neste ponto só me questiono: Como se pode exercer uma profissão onde o elemento central é precisamente a Retórica?! E o verbo que jamais lhe flui, saliva a cada sílaba, cospe a cada palavra emitida, o chihuahua-gordo, que inchou, inchou, ao longo da vida, num certo momento, lá conseguiu escapar-se das funções que também o obrigavam a fazer uso da Retórica, com este felizmente pouco contacto tive, embora fosse o bastante para aferir a escassez de carácter, como dizia, escapou das funções que também o obrigavam a fazer uso da Retórica, e foi para um lugar onde avaliava aqueles que jamais ousaram fugir do uso da Retórica, aqui chegado, só posso concluir que o Sentido há muito partiu deste lugar: um incapaz a avaliar os capazes?! As palavras fogem-me… Alguém, das relações do chihuahua-bêbedo, ao aperceber-se de que era um incapaz a avaliar os capazes, tratou de o meter na ordem, o chihuahua-gordo, tal como o irmão-vermelhusco, só rosnava, e sempre atrás de um portão, contudo, o bêbedo tomou as dores do irmão e cortou relações com o tal que se apercebera de que era um incapaz a avaliar os capazes, a vida lá vai ensinando quem deve ou não continuar a sua marcha a nosso lado, sei que se riu, pela infantilidade do gesto do chihuahua-bêbedo, por, no fim de contas, nenhum livro lhe ter ensinado que era um incapaz a avaliar os capazes, que o factor sanguíneo nem tudo justifica, que a sua figura só suscita compaixão, que não se alcança o coração de uma mulher com falsa generosidade, com um verbo que jamais lhe flui, a salivar a cada sílaba, e a cuspir após cada palavra emitida, talvez ainda não tenha encontrado os livros certos, embora seja sabido que são os livros que nos encontram, é possível que, quando este lhe batesse à porta, estivesse distraído a debitar baboseiras para se esquecer de si.

(09/06/24)

 

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