Livros do Escritor

Livros do Escritor

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Falem-me de geopolítica


 

Desde muito cedo, um dos chavões mais repetidos por meus pais era: Vê lá se ficas um homem! Vê lá se ficas um homem!” Repito, desde muito cedo, eu para ali ficava, a ruminar a frase (“Vê lá se ficas um homem!”), embora sempre aquém, talvez, do desígnio paterno, em verdade, creio que nem eles o alcançavam, saía-lhes com a naturalidade possível do contexto em que se lhes impunha chamar a atenção por qualquer coisa, e, claro, restaurar a sua autoridade, esta introdução não é aleatória, vem precisamente ao encontro da figura a quem hoje dedico estas linhas, nem por acaso partilhamos a mesma paixão clubística, era vê-lo, aquando das vitórias, em risos, as habituais larachas aos adeptos adversários, o imperativo desdém, enfim, o habitual prato-completo destes contextos, não raras vezes até se apresenta vestido, com ar triunfal, com a camisola do vitorioso, porém, as vitórias começaram a escassear e o título foi para um adversário, desde então, nem vislumbres de risos, das habituais larachas aos adeptos adversários, do imperativo desdém, pois, o habitual prato-completo destes contextos, e de se apresentar vestido, com ar triunfal, com a camisola do vitorioso, como eu o compreendo, não partilhássemos a mesma paixão clubística, há uns dias, sucede que o adepto de um clube adversário, com quem mantinha uma deveras relação cordial, sublinhe-se, ousou, em risos, lançar-lhe uma laracha, desde então, só foi contemplado com mutismo, semblante carregado e costas, uma das piores coisas, da vida em sociedade, é indubitavelmente o fenómeno dos mal-entendidos, neste particular, e por honestidade intelectual, releve-se a generosidade de uma boa-alma que se lançou na dolorosa empreitada de esclarecer o porquê de mutismo, semblante carregado e costas, quando antes uma deveras relação cordial, a resposta não tardou, no fundo, parecia aguardar pela questão para, por fim, desabar: “O quê? Não falar com esse?! Mas estamos a brincar ou quê? Tanta coisa séria a acontecer no mundo e vem-me falar de bola?! Mas está a gozar??? Com uma guerra a decorrer, preocupa-se com coisas de putos?! Falem-me de geopolítica, ouviste? Falem-me de geopolítica! Eu tenho três licenciaturas! Falo de qualquer assunto com quem quiser: Filosofia, Literatura, Religião… Três licenciaturas! Falem-me de geopolítica! Agora, de bola, sinceramente…” Tinha, por hábito, agarrar o braço do interlocutor, como se para dar mais ênfase a cada sílaba proferida, essa boa-alma que o interpelou foi, desde logo, acometida de uma dúvida: no espaço daquela conversa, quantas mais licenciaturas havia tirado? Uma questão pertinente, atendendo a tão demiúrgica personagem… Seguiu-se o espanto se, de facto, quem tanto apelou a que “Falem-me de geopolítica! Falem-me de geopolítica!”, seria o mesmo que, há umas semanas, aquando das vitórias, em risos, as habituais larachas aos adeptos adversários, o imperativo desdém, pois, o habitual prato-completo destes contextos, não raras vezes até se apresenta vestido, com ar triunfal, com a camisola do vitorioso, como as coisas mudam no espaço do viver… Em verdade, essa boa-alma, cumprido o seu papel conciliador e de emissário da paz, ficou deveras confusa, persistiu, durante uns dias, de calculadora na mão, a estimar quantas mais licenciaturas a demiúrgica personagem teria somado… Que fenómeno! De facto, como é possível ser importunada com minudências como a bola! Há sujeitos que jamais conseguem tanger, quanto mais vislumbrar, o sublime da existência, é o caso desse adepto de um clube rival a importunar o nosso demiurgo, quantas licenciaturas lhe foram vedadas só nesse espaço de aborrecimento? Desde então, quando lhe falam de bola, responde com pérolas como: “Estou-me a c…!” Maravilhoso, eloquente, confesso que daria para mais uma tese, pelo menos o título de uma: “Estou-me a c…!” Desde muito cedo, um dos chavões mais repetidos por meus pais era: “Vê lá se ficas um homem! Vê lá se ficas um homem!” Repito, desde muito cedo, eu para ali ficava, a ruminar a frase (“Vê lá se ficas um homem!”), hoje já não estou aquém, responderia: “Falem-me de geopolítica! Falem-me de geopolítica!” Creio que deixaria os meus pais em espanto, e se, durante essa sua perplexidade, somasse, no mínimo, três licenciaturas, atingiria o zénite, afinal, nunca houve questões sem resposta, pode ser que o meu clube dê a volta, e, num certo lugar deste mundo, alguém volte a ser visto engalanado com a camisola do vitorioso.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.