Desde
muito cedo, um dos chavões mais repetidos por meus pais era: “Vê lá se ficas um homem! Vê lá se ficas
um homem!” Repito, desde muito cedo, eu para ali ficava, a ruminar a frase (“Vê
lá se ficas um homem!”), embora sempre aquém, talvez, do desígnio paterno, em verdade,
creio que nem eles o alcançavam, saía-lhes com a naturalidade possível do
contexto em que se lhes impunha chamar a atenção por qualquer coisa, e, claro,
restaurar a sua autoridade, esta introdução não é aleatória, vem precisamente
ao encontro da figura a quem hoje dedico estas linhas, nem por acaso
partilhamos a mesma paixão clubística, era vê-lo, aquando
das vitórias, em risos,
as habituais larachas aos adeptos adversários, o imperativo desdém, enfim, o
habitual prato-completo destes contextos, não raras vezes até se apresenta
vestido, com ar triunfal, com a camisola do vitorioso, porém, as vitórias começaram a
escassear e o título foi para um adversário, desde então, nem vislumbres de
risos, das habituais larachas aos adeptos adversários, do imperativo desdém, pois,
o habitual prato-completo destes contextos, e de se apresentar vestido, com ar
triunfal, com a camisola do vitorioso, como eu o compreendo, não partilhássemos
a mesma paixão clubística, há uns dias, sucede que o adepto de um clube
adversário, com quem mantinha uma deveras relação
cordial, sublinhe-se, ousou, em risos, lançar-lhe uma laracha, desde então,
só foi contemplado com mutismo, semblante carregado e
costas, uma das piores coisas, da vida em sociedade, é indubitavelmente o
fenómeno dos mal-entendidos, neste particular, e por honestidade intelectual,
releve-se a generosidade de uma boa-alma que se lançou na dolorosa empreitada
de esclarecer o porquê de mutismo, semblante carregado e costas, quando antes
uma deveras relação cordial, a resposta não tardou, no fundo, parecia aguardar
pela questão para, por fim, desabar: “O quê? Não falar com esse?! Mas estamos a brincar ou quê?
Tanta coisa séria a acontecer no mundo e vem-me falar de bola?! Mas está a
gozar??? Com uma guerra a decorrer, preocupa-se com coisas de putos?! Falem-me
de geopolítica, ouviste? Falem-me de geopolítica! Eu
tenho três licenciaturas! Falo de qualquer assunto com quem quiser: Filosofia,
Literatura, Religião… Três licenciaturas! Falem-me de
geopolítica! Agora, de bola, sinceramente…” Tinha, por hábito, agarrar o
braço do interlocutor, como se para dar mais ênfase a cada sílaba proferida,
essa boa-alma que o interpelou foi, desde logo, acometida de uma dúvida: no
espaço daquela conversa, quantas mais licenciaturas havia tirado? Uma questão
pertinente, atendendo a tão demiúrgica personagem… Seguiu-se o espanto se, de
facto, quem tanto apelou a que “Falem-me de geopolítica! Falem-me de
geopolítica!”, seria o mesmo que, há umas semanas, aquando das vitórias, em
risos, as habituais larachas aos adeptos adversários, o imperativo desdém, pois,
o habitual prato-completo destes contextos, não raras vezes até se apresenta
vestido, com ar triunfal, com a camisola do vitorioso, como as coisas mudam no
espaço do viver… Em verdade, essa boa-alma, cumprido o seu papel conciliador e
de emissário da paz, ficou deveras confusa, persistiu, durante uns dias, de
calculadora na mão, a estimar quantas mais licenciaturas a demiúrgica personagem
teria somado… Que fenómeno! De facto, como é possível ser importunada com
minudências como a bola! Há sujeitos que jamais conseguem tanger, quanto mais
vislumbrar, o sublime da existência, é o caso desse adepto de um clube rival a
importunar o nosso demiurgo, quantas licenciaturas lhe foram vedadas só nesse
espaço de aborrecimento? Desde então, quando lhe falam de bola, responde com
pérolas como: “Estou-me a c…!” Maravilhoso,
eloquente, confesso que daria para mais uma tese, pelo menos o título de uma: “Estou-me
a c…!” Desde muito cedo, um dos chavões mais repetidos por meus pais era: “Vê
lá se ficas um homem! Vê lá se ficas um homem!” Repito, desde muito cedo, eu
para ali ficava, a ruminar a frase (“Vê lá se ficas um homem!”), hoje já
não estou aquém, responderia: “Falem-me de geopolítica! Falem-me de
geopolítica!” Creio que deixaria os meus pais em espanto, e se, durante essa
sua perplexidade, somasse, no mínimo, três licenciaturas, atingiria o zénite,
afinal, nunca houve questões sem resposta, pode ser que o meu clube dê a volta,
e, num certo lugar deste mundo, alguém volte a ser visto engalanado com a
camisola do vitorioso.
Livros do Escritor
segunda-feira, 3 de junho de 2024
Falem-me de geopolítica
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