Livros do Escritor

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sábado, 8 de junho de 2024

Aqui me tens só para ti


 

O que nos guarda o amanhã? Esta questão acompanha o homem desde o seu primeiro passo por estes lados, hoje ela vive num quartito alugado em casa de uma conhecida, antes chamava-lhe amiga, hoje nem pensar, é sabido que familiaridade rima com hostilidade, se antes, com a distância, amigas, hoje apenas se suportam, uma precisa do quartito, a outra da renda proporcionada pelo mesmo, assim sempre se amparam, não obstante as invectivas silenciadas, quando ousa debruçar-se sobre a janela do passado, ela e o marido, de mão-dada, aos Domingos, em passeios por Sintra, ele chegava a segredar-lhe Nenhuma te chega aos calcanhares! Nenhuma te chega aos calcanhares!”, em momentos assim, ela sentia tactear os céus, agora, num quartito alugado em casa de uma conhecida, antes chamava-lhe amiga, o momento alto do seu dia é a ginástica, só tem de atravessar a rua, há lá outras a partilhar a sua circunstância: os maridos partiram, na viagem-final, e elas por aqui ficaram, num desamparo sentido; costumam ir antes da hora de almoço, ela e a conhecida, antes chamava-lhe amiga, era dois ou três anos mais velha, embora, aos seus olhos, parecesse haver, no mínimo, uma década, a separá-las, e a ginástica, o momento alto do seu dia, só o comprovava, ela fazia todos os aparelhos, chegava até a dançar, para espanto dos presentes e do responsável, enquanto a outra se limitava a arrastar, de exercício em exercício, como se de uma Via-Sacra se tratasse, num desses efusivos momentos de dança, não lhe passou despercebido o olhar-guloso do responsável, um jovem da sua idade, afinal, a idade é só um número, com um porte-atlético considerável para tal soma do tempo, não fosse o responsável pelo espaço-desportivo, não, não era impressão sua ou uma efabulação por há tanto não sentir o calor masculino, não lhe passou despercebido o olhar-guloso do responsável, a verdade é que andou dias e dias a matutar naquele olhar lascivo que lhe percorreu as linhas, talvez por simultaneamente lhe aquecer o sentir, afinal Sintra é uma miragem, de um passado tão, mas tão, lá atrás, por vezes tem de apelar aos esforços da imaginação para o reerguer, e à frase que a fazia tactear os céus “Nenhuma te chega aos calcanhares! Nenhuma te chega aos calcanhares!”, as suas danças, entre exercícios, multiplicaram-se, tinha de confirmar a gula de um olhar, já que a inveja das outras há muito um facto consumado, nem linhas, nem energia, problema delas, de certa forma, aquele olhar fê-la dançar (há quanto não se sentia assim?), como se lhe murmurasse, à sua maneira, “Nenhuma te chega aos calcanhares! Nenhuma te chega aos calcanhares!”, durante uma das suas esfuziantes danças, aproximou-se dele, estava vigilante, num dos cantos da sala, estendeu-lhe as mãos, para lhe acompanhar os passos embalados pela melodia, que, em verdade, só ecoava em si, contudo, ele sorriu e permaneceu onde estava, ela leu-lhe uma timidez em flagrante contraste com a gula do olhar,  nesses breves segundos, tomou uma decisão, não, não podia adiar mais, se ele reticente, vencido pela timidez ou pela responsabilidade profissional, teria de ser ela a dar o primeiro passo, nesse dia, quando regressava a casa com a conhecida, antes chamava-lhe amiga, sob o pretexto de algo esquecido, regressou, ele ainda lá estava, sozinho, a ultimar pormenores para o fecho durante a hora de almoço, guiada por um calor súbito e demasiado, ela sentiu-se impelida a extinguir definitivamente as labaredas daquele guloso-olhar, entrou, de forma sorrateira, e subiu para o balneário-feminino,  só o factor surpresa poderia derrubar tamanha timidez, foi a sua conclusão, aí chegada, desnudou-se da cintura para cima, o resto viria por acréscimo, e gritou o seu nome, ouviu uns barulhos em baixo seguidos de um galope escada acima, não podia estar mais correcta, aí vinha ele ao seu encontro, como se, desde a primeira vez que o seu olhar salivou perante tais linhas, ansiasse por este momento, a verdadeira dança seguir-se-ia dentro de momentos, fechou os olhos e entreabriu os lábios, agradeceu, em súplica, nesses instantes, não haver, em si, vestígios de Sintra, ela e o marido, de mão-dada, aos Domingos, em passeios, o calor ameaçava asfixiá-la, há tanto lhe falta alguém que a faça tactear os céus, ele bate à porta, apesar do galope escada acima, confirmou a sua timidez, sabia que, àquela hora, só lá estariam os dois, como se tudo convergisse para o seu encontro, não, não podia esperar mais, ela correu para a porta, abriu-a, estendeu-lhe a mão e puxou-o para dentro, do lado dele, a incredulidade da situação: uma idosa, com os seios a tactear o umbigo, a avançar, de língua de fora, ao seu encontro, num gesto irreflectido, ergueu as mãos, como se em defesa, quase gritou “Desculpe, mas nem mais um passo!”, em verdade, quanto ele não daria para vivenciar tal constrangimento, há coisas, nesta vida, que nem adicionam, nem subtraem, são aquelas que nada ensinam, esta foi uma das tais, recuou, sempre de mãos levantadas, e saiu; do lado dela, é um homem às antigas, digno, com valores, antes de qualquer coisa, quer convidar-me para um passeio, em Sintra, de mãos-dadas, pois, é isso, afinal, sempre vou tactear novamente os céus, agora, quando sair, ele está a preparar-se para me murmurar ao ouvido: “Nenhuma te chega aos calcanhares! Nenhuma te chega aos calcanhares!”

Pedro de Sá

(08/06/24)

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