O que nos guarda o amanhã? Esta
questão acompanha o homem desde o seu primeiro passo por estes lados, hoje ela
vive num quartito alugado em casa de uma conhecida,
antes chamava-lhe amiga, hoje nem pensar, é sabido que familiaridade rima
com hostilidade, se antes, com a distância, amigas, hoje apenas se suportam,
uma precisa do quartito, a outra da renda proporcionada pelo mesmo, assim
sempre se amparam, não obstante as invectivas silenciadas, quando ousa
debruçar-se sobre a janela do passado, ela e o marido,
de mão-dada, aos Domingos, em passeios por Sintra, ele chegava a
segredar-lhe “Nenhuma te chega
aos calcanhares! Nenhuma te chega aos calcanhares!”, em momentos assim, ela sentia tactear os céus, agora, num quartito alugado em casa
de uma conhecida, antes chamava-lhe amiga, o momento alto do seu dia é a
ginástica, só tem de atravessar a rua, há lá outras a partilhar a sua
circunstância: os maridos partiram, na viagem-final, e elas por aqui ficaram,
num desamparo sentido; costumam ir antes da hora de almoço, ela e a conhecida,
antes chamava-lhe amiga, era dois ou três anos mais velha, embora, aos seus
olhos, parecesse haver, no mínimo, uma década, a
separá-las, e a ginástica, o momento alto do seu dia, só o comprovava, ela
fazia todos os aparelhos, chegava até a dançar, para espanto dos presentes e do
responsável, enquanto a outra se limitava a arrastar, de exercício em exercício,
como se de uma Via-Sacra se tratasse, num desses efusivos momentos de dança, não lhe passou despercebido o olhar-guloso do responsável,
um jovem da sua idade, afinal, a idade é só um número, com um
porte-atlético considerável para tal soma do tempo, não fosse o responsável
pelo espaço-desportivo, não, não era impressão sua ou uma efabulação por há
tanto não sentir o calor masculino, não lhe passou despercebido o olhar-guloso
do responsável, a verdade é que andou dias e dias a matutar naquele olhar
lascivo que lhe percorreu as linhas, talvez por simultaneamente lhe aquecer o
sentir, afinal Sintra é uma miragem, de um passado tão, mas tão, lá atrás, por
vezes tem de apelar aos esforços da imaginação para o reerguer, e à frase que a
fazia tactear os céus “Nenhuma te chega aos
calcanhares! Nenhuma te chega aos calcanhares!”, as suas danças, entre
exercícios, multiplicaram-se, tinha de confirmar a gula de um olhar, já que a
inveja das outras há muito um facto consumado, nem linhas, nem energia,
problema delas, de certa forma, aquele olhar fê-la dançar (há quanto não se
sentia assim?), como se lhe murmurasse, à sua maneira, “Nenhuma te chega
aos calcanhares! Nenhuma te chega aos calcanhares!”, durante uma das suas
esfuziantes danças, aproximou-se dele, estava vigilante, num dos cantos da
sala, estendeu-lhe as mãos, para lhe acompanhar os passos embalados pela
melodia, que, em verdade, só ecoava em si, contudo, ele sorriu e permaneceu
onde estava, ela leu-lhe uma timidez em flagrante contraste com a gula do
olhar, nesses breves segundos, tomou uma
decisão, não, não podia
adiar mais, se ele reticente, vencido pela timidez ou pela responsabilidade
profissional, teria de ser ela a dar o primeiro passo, nesse dia, quando
regressava a casa com a conhecida, antes chamava-lhe amiga, sob o pretexto de
algo esquecido, regressou, ele ainda lá estava, sozinho, a ultimar pormenores
para o fecho durante a hora de almoço, guiada por um calor súbito e demasiado,
ela sentiu-se impelida a extinguir definitivamente as labaredas daquele
guloso-olhar, entrou, de forma sorrateira, e subiu para o balneário-feminino, só o factor surpresa poderia derrubar tamanha
timidez, foi a sua conclusão, aí chegada, desnudou-se da cintura para cima, o resto
viria por acréscimo, e gritou o seu nome, ouviu uns barulhos em baixo seguidos
de um galope escada acima, não podia estar mais correcta, aí vinha ele ao seu
encontro, como se, desde a primeira vez que o seu olhar salivou perante tais
linhas, ansiasse por este momento, a verdadeira dança seguir-se-ia dentro de
momentos, fechou os olhos e entreabriu os lábios, agradeceu, em súplica, nesses
instantes, não haver, em si, vestígios de Sintra, ela e o marido, de mão-dada,
aos Domingos, em passeios, o calor ameaçava asfixiá-la, há tanto lhe falta alguém
que a faça tactear os céus, ele bate à porta, apesar do galope escada acima,
confirmou a sua timidez, sabia que, àquela hora, só lá estariam os dois, como
se tudo convergisse para o seu encontro, não, não podia esperar mais, ela
correu para a porta, abriu-a, estendeu-lhe a mão e puxou-o para dentro, do lado
dele, a incredulidade da situação: uma idosa, com os seios a tactear o umbigo,
a avançar, de língua de fora, ao seu encontro, num gesto irreflectido, ergueu
as mãos, como se em defesa, quase gritou “Desculpe, mas nem mais um passo!”,
em verdade, quanto ele não daria para vivenciar tal constrangimento, há
coisas, nesta vida, que nem adicionam, nem subtraem, são aquelas que nada
ensinam, esta foi uma das tais, recuou, sempre de mãos levantadas, e saiu; do
lado dela, é um homem às antigas, digno, com valores, antes de qualquer coisa,
quer convidar-me para um passeio, em Sintra, de mãos-dadas, pois, é isso,
afinal, sempre vou tactear novamente os céus, agora, quando sair, ele está a
preparar-se para me murmurar ao ouvido: “Nenhuma te chega aos calcanhares!
Nenhuma te chega aos calcanhares!”
Pedro de Sá
(08/06/24)
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