Se eu esperava outra coisa de ti? O que é que te parece? Vieste com
falinhas mansas, ao início, falavas disto e daquilo, reparei, não penses que
isso me passou em branco, não penses isso, que só te enganas a ti, na pausa
forçada antes de falares, mau sinal, muito mau sinal, isto cá para nós,
filtravas palavras ou pensamentos? Provavelmente, os dois, eu bem sabia que
evitavas aquele vocabulário com aroma a matrecos e tremoços, no qual eras tão
fértil, de pensamentos também não se podia esperar grandes elucubrações, por
isso, ative-me à esperança, de, pelo menos, haver sinceridade, achei graça
quando, logo ao início, naquele teu jeito desajeitado, a convidares-me para um
copo, logo a mim, que nunca me haviam convidado para um copo, geralmente era
para um café, eu, claro, até por fruto da educação, declinei, com uma desculpa
sustentável, o teu primeiro arrojo, porém, com o olhar convidei-te a uma
segunda tentativa, não o percebeste, confesso que apreciei essa tua genuína
inabilidade nos meandros labirínticos do ser feminino, a segunda vez que lá
fui, é verdade, digo-to sem pejo, o carro não tinha nada, a história do barulho
do motor, quando acelerava, foi a desculpa que se me afigurou mais sustentável
para te rever, mesmo assim, e pelo interesse que demonstraste logo que o capô
subiu, acho que caíste, eu enternecida a olhar-te compenetrado nas tuas
funções, com aquele orgulho de quem está ciente do seu dever, naquele momento,
fosses um cirurgião, um militar, um desportista, o teu semblante seria o mesmo,
por fim, arriscaste “Pois é… Pois é… Isto vai levar mais tempo… Sabe, temos de
desmontar aqui umas peças…”, eu já não ouvi mais, sustive-te o olhar à espera
de que tu, agora, arriscasses um “Não quer, por acaso, neste entretanto, ir ali
comigo beber um copo?”, claro que nada disseste, não sei como, mas o ir beber
um copo concretizou-se, às vezes focamo-nos tanto no objectivo, que nos
esquecemos de como lá chegámos, e, na maior parte dos casos, isso é o
principal: a memória do caminho; estava naquela fase, confesso, em que
aguentava tudo menos estar sozinha, percebes isso, não é? Doeu-me tanto, ainda
recordo aquela tarde como se há pouco, e já lá vão uns bons anos, eu a chegar a
casa, mais cedo que o habitual, não aguentava mais uma dor de cabeça que não me
largava, era uma tarde de Maio com um calor de Julho, a pousar as chaves na
mesinha de entrada, ouço uns sons familiares mas simultaneamente estranhos,
talvez por provirem de um outro, uma parte de mim percebe de imediato enquanto
outra me empurrava para a fonte das onomatopeias ofegantes numa teimosa
incredulidade, era uma casa pequena, juntáramo-nos há pouco, é compreensível
que, nessa fase, não ambicionássemos a mais, só queríamos um tecto para
respirar juntos, falávamos de filhos como se falássemos de reencarnações
futuras, mas, como dizia, cedi à teimosa incredulidade, nem precisei de abrir a
porta do quarto, estava escancarada, roupa pelo chão, nem o estore tiveram o
cuidado de descer, isto foi uma coisa que me chocou, não sei porquê, como se o
meu pensar encalhasse neste pormenor, é que ainda não tínhamos comprado
cortinas e varão para o quarto, e sempre que estávamos juntos, durante o dia,
até partia dele esse cuidado, “Vamos baixar um pouco estore. Os vizinhos do
prédio daqui da frente ainda nos veem…”, sempre tão cauteloso, quase púdico, e
depois… É isso, percebes, não é? Encalhei nesse pormenor, nem o estore tiveram
o cuidado de descer, o resto, vomitou-se-me do pensar, claro que perceberam a
minha presença, saí logo, é curioso, ao contrário dos filmes, ele não correu
atrás de mim a gritar o meu nome, acho, até, que permaneceram no quarto por
algum tempo a avaliar os estragos, deparei-me com a única e habitual opção
nestes casos, cheguei à rua dos meus pais ao mesmo tempo que a camioneta do
lixo, uma bela metáfora para a minha vida, pensei, confesso que fiz de
propósito para chegar depois do jantar, não quis sermões, nem recapitular
histórias antigas, ainda me lembro de meu pai a dizer, quando o conheceu, “Não
gosto de indivíduos com aperto de mão frouxo! Ouve-me bem! É mau indício! São
dissimulados…”, e, claro, iniciava um incessante debitar de inferências,
felizmente, nessa noite, só se limitou a baixar o jornal para me saudar,
percebeu-me a mala na mão, mas nada disse, acho que ruminou qualquer coisa para
si, apenas e só, eu procurei agradecer com os olhos, creio que percebeu, nos
dias seguintes, claro, ele procurou falar-me através de todas as formas
possíveis do hoje, achei graça que, em todas, empregava o ”falar
civilizadamente”, quando, da última vez que o vi, só emitia onomatopeias
ofegantes, e nem o estore tiveram o cuidado de descer, felizmente, conseguimos
vender a casa por um preço justo, o resto, já sabes, achei que, se te
apresentasse ao meu pai, ele iria gostar de um aperto de mão viril, e eu, que
nunca me dei bem comigo própria, a passar cada vez mais tempo na minha
companhia, isto não podia estar a correr pior, mas, não sei se te recordas,
sempre te sublinhei a minha educação, e quando, depois do copo, a tua mão
marota, num gritante contraste com a tua genuína inabilidade nos meandros
labirínticos do ser feminino, a avaliar-me as nádegas numa total
descontextualização, de repente, diante de mim, a imagem de um estore levantado
numa tarde de Maio com um calor de Julho, nesse momento, em que deixei definitivamente
a tua mão pendurada a olhar o passeio, percebi que teria de fazer as pazes
comigo própria, afinal, teria de passar mais tempo na minha companhia, se
aprender a fazer isto, talvez aí, é possível que sim, talvez não tenha de
regressar à rua dos meus pais ao mesmo tempo que a camioneta do lixo.
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