Tu lembras-te de quando nós dois, pela tardinha, deitados, confessávamos
sonhos? Os meus caminhavam pelo mundo, com um passo seguro, os teus, hoje acho
graça, na altura comecei em preocupações, acho que nem a este mundo pertenciam,
vivias uma fantasia, mas quem te podia censurar? Estavas na altura das
fantasias, eu deixava-te falar, às vezes, com uma indulgência de silêncio e
anuências, os meus dedos no labirinto dos teus cabelos, tu perdido nessas
ilusões de amanhãs sonhados, quando a saudade de mim te fazia regressar ao
aqui, sempre me interroguei, passa-nos tanta coisa pela cabeça, não é verdade?
Às vezes, penso que nos dizemos tão pouco, que acabamos por falar sempre do
mesmo, mas, já me lembro, pois, dizia eu, que sempre me interroguei quem sentia
mais amor pelo outro, como se isso fosse mensurável, não é? Porém, era povoada
por pensamentos assim, nada podia fazer, olhava-te em busca de uma resposta, e
ficava confortada por compreender a beleza da questão (sempre me interroguei
quem sentia mais amor pelo outro?), quando te contava os meus sonhos, com
vistas de rés-do-chão, percebia-te algum desalento, talvez desilusão mesmo,
contudo, que podia fazer? Sonhava em terminar o curso, um emprego estável,
casa, filhos, fins-de-semana de pipocas e cinema em família, por vezes, levar
os filhos a visitar os avós, rever os álbuns de fotos de família, não sei
porquê, mas sempre achei importante que os mais novos percebessem que os mais
velhos já foram outros, e nem sempre neve sobre as suas cabeças, quando terminava,
tu olhavas-me atomizado, como se te acabasse de relatar um hediondo pesadelo,
abraçavas-me, parecias querer proteger-me de mim mesma, de certa forma, tinhas
razão, os teus sonhos passavam pelo cinema, carreira desportiva, ir para a
América, o que é isso comparado com uma vista de rés-do-chão, terminar o curso,
um emprego estável, casa, filhos, fins-de-semana de pipocas e cinema em
família, por vezes, levar os filhos a visitar os avós, de facto, eu estava
errada, de sonhos percebias tu, e eras honesto na tua confissão, eu não falava
de sonhos, mas de vida, do que queria para amanhã, e hoje, quando olho para
trás, que saudade de quando nós dois, pela tardinha, deitados, confessávamos
sonhos, os lençóis encapelados pela tormenta do nosso sentir, o calor ainda em
nós e a toda à nossa volta, a respiração que tardava em se harmonizar, o
estore, para baixo, a filtrar a tarde lá fora, como se nós, ali, habitássemos
na ilha última das nossas coisas, quando me olhavas, depois de, nada dizias,
não era preciso, e tu sabia-lo, nesses segundos, de novo, em mim, aquela
extenuada questão (sempre me interroguei quem sentia mais amor pelo outro?), à
tua maneira, conseguiste pegar-me na mão, e de forma decidida, como sempre o
foste, ensinar-me as alturas do sonho, afinal, é preciso tão pouco, basta um
estore, para baixo, a filtrar a tarde lá fora, e eis a nossa ilha criada,
rodeada pelos lençóis encapelados do nosso sentir, há uns tempos, já não me
lembro a que propósito, tínhamos ido, com os miúdos, visitar os avós, rever os
álbuns de fotos de família, percebes com certeza, e o teu nome surgiu, assim,
do nada, nem me lembro de que assunto se falava, desculpa, fui incorrecta, o
teu nome nunca pode surgir do nada, tu foste-me o tudo, e quando a vida te
venceu, no teu caso, e é uma crença muito minha, não foi a morte que te levou,
foi o excesso de vida, há pessoas para quem existir não basta, tu és uma delas,
como estava a dizer, o teu nome surgiu e, logo em mim, a tua voz, o meu nome
melodiado com aquele teu jeito, a minha mão pela tua, logo eu a sentir-me
única, a habitar, de novo, na ilha última das nossas coisas, desculpa-me se te
desiludi, sabes que nunca me ajeitei muito a sair deste rés-do-chão, e
deixaste-me tão perdida, já foi há tanto, percebi-lhe incómodo aquando do teu nome,
não, não penses nisso, é um bom homem, também um habitante dos pisos térreos,
deu-me dois filhos, sim, terminei o curso, arranjei um emprego estável, casa,
ele gosta de fins-de-semana de pipocas e cinema em família, por vezes, como
hoje, levamos os filhos a visitar os avós, sinto-me constrangida a falar nisso,
não queria, mas tu devias saber, melhor que ninguém, que o coração de uma mulher só tem uma
Primavera, e se soubesses que saudade de quando nós dois, pela tardinha,
deitados, confessávamos sonhos, os lençóis encapelados pela tormenta do nosso
sentir, o calor ainda em nós e a toda à nossa volta, a respiração que tardava
em se harmonizar, o estore, para baixo, a filtrar a tarde lá fora, nunca mais,
na minha vida, um estore, para baixo, a filtrar a tarde lá fora, nunca mais, já
agora, antes que os meus dedos se percam, de vez, no labirinto dos teus
cabelos, diz-me uma coisa: quem sente mais amor pelo outro?
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