Livros do Escritor

Livros do Escritor

segunda-feira, 27 de abril de 2026

A beata maledicente


 

Há figuras que, de tão obscuras, só nos apercebemos da sua existência pelo lodacento rasto que deixam, assim é a beata maledicente, nem lhe conheço a sonoridade das palavras, o mundo, neste ponto, amanheceu-me, embora arvore, em múltiplas circunstâncias, conhecer-me familiares, pois, tempo a mais e escassez de intelecto desaguam em verborreia sobre a existência dos outros, à superfície mulher de muitos valores, sobretudo religiosos, reitero: à superfície; mais uma papa-hóstias de sacristia, pródiga em cumprir os ritos eclesiásticos: eucaristias, procissões, acções de beneficência, parece, avistada da lonjura, rumo à santidade, até se infiltrou num ramo mais ortodoxo do catolicismo, onde o prefixo “neo” nada augura de bom, como se, alguma vez, estes lá soubessem o que é uma catacumba, o esplendor da hipocrisia, enfim, a figura de Cristo tudo escuda, não se equivoque o leitor, Jesus Cristo é das figuras que mais colhe a minha admiração, daí o meu asco a quem se escude na sua luz para todo o tipo de vilezas e hipocrisias, nem me alongo a inquisições e afins, por ora, basta-me o exemplo da beata maledicente; pagelas, contas rezadas entre dedos, olhar pregado no altar, assumir a dianteira, em procissões, com o marido, um rotundo idoso, igualmente rato de sacristia, ali vão, com folhas de palmeira na mão, hossanas gritadas, jamais sentidas, secundados por dezenas, dos tais que se infiltraram num ramo mais ortodoxo do catolicismo, tudo num delírio de cantorias e rezas, como se, por desígnio divino, fossem os escolhidos, cruz ao peito e filhos a rodos, dois sinais identitários, sem esquecer as cantorias e os retiros, bem disse Cristo, “Deixai-os: são cegos a conduzir cegos,” há, sem dúvida, uma lógica subjacente a estes contextos que permite a aproximação destas figuras, tudo somado, o que dali emerge? Uma beata maledicente! Há uns tempos, aproximou-se de um incauto sob o pretexto de alertar para um hipotético perigo, como ela gosta de falar de um pedestal (às vezes, questiono-me de onde provém tanta carência…), num mundo de sombras, qualquer gesto, de aparente bondade, afigura-se positivo, no entanto, o tempo, esse frio e cruel juiz dos factos da vida, desvelou as reais intenções da beata maledicente: ganhar a confiança daquele peão para o manipular no tabuleiro dos seus interesses… Quem diria? Uma papa-hóstias de sacristia, pródiga em cumprir os ritos eclesiásticos: eucaristias, procissões, acções de beneficência, parece, avistada da lonjura, rumo à santidade; e, pasme-se, pariu oito vezes, pelo menos… Como é possível?! Se assim são os beatos, imagine-se os satânicos! Como já havia referenciado, esta beata é pródiga em verborreia sobre a existência dos outros, muito canta, com uma folha de palmeira na mãozita, à cabeça das procissões, hossanas, mas a Palavra de Cristo é-lhe uma total incógnita, “Não deves julgar”, um dos mais sublimes mandamentos do Nazareno, não foi, de todo, assimilado por esta criatura, reconhecida pelo seu lodacento rasto, aqui chegados, resta questionar: Será escassez intelectual? Ou simplesmente um carácter torpe? De formação está nas misturas químicas, até aí bem distante do Logos, é vê-la a entrar em reuniões, à porta fechada, por corredores sombrios, para debitar informações colhidas a mais incautos, outra das curiosidades desta personagem, não são muitas, convenhamos, está precisamente no facto de ocultar os grisalhos com que o tempo a presenteou, ao contrário de outros elementos femininos da seita a que pertence, que se orgulham de cada grisalho como se uma bênção, desconheço se chegam a cantar hossanas, com uma folha de palmeira na mãozita, para celebrar a sua chegada, pois, é possível que sim, a beata maledicente gosta de passeios, uma forma de contornar o horário laboral, uma praxis sua de há muito, por estes dias, irá a caminho de Madrid, na companhia de uma Porcachona, imagine-se o conteúdo de tais diálogos: uma verborreia de baixo intelecto com os grunhidos enlameados em dejectos de uma Porcachona: nem restará um santinho no altar aquando do regresso… Até deixo uma sugestão: a beata maledicente levar a sua viola, a Porcachona um microfone para emitir os seus grunhidos, e que dupla promissora teríamos, bom, é melhor deixar a folha de palmeira fora da equação, não vá a Porcachona confundir com um dejecto e prontamente engoli-la… Caro leitor, não permita que estas linhas esmoreçam a sua fé, beatas maledicentes há em todos os cultos, que tenham parido oito vezes talvez não haja assim tantas, com tamanha verborreia, de baixo-intelecto, sobre a existência dos outros, também não, mas bem disse Cristo, “Deixai-os: são cegos a conduzir cegos.”

sexta-feira, 24 de abril de 2026

A saudade de um sentir saudoso

 


Quando dei por mim, despia molduras, devolvia-as àquela transparência, quase imaterial, de uma existência indefinível, como se uma janela que o deixasse de ser, foi o que me pareceu na altura. Tudo tão recente, e eu perdida naquele tumulto do meu sentir, vivia uma noite contínua, sem prenúncio de manhãs. É estranho, não é? Essa sensação de uma noite infinda? Mas é o que melhor traduz aquele período da minha vida, não me lembro, durante esses longos e absurdos dias, de ver o sol, talvez já não me recordasse de como olhar as alturas, é possível… Como dizia, quando me regressei, despia molduras, parecia-me, de certa forma, que me negava, me subtraía, não sei porquê, como se me desdobrasse entre o que sou e o que fui, e, ao certo, não me encontrava em nenhum dos lados. Não sei se me faço perceber? Compreendes, não é? Ou talvez não? Que dizes? Estou a aborrecer-te? Se estiver, diz! Por favor! A última coisa que quero é aborrecer alguém com os meus assuntos… Mas aquele dia ainda por aqui, tão nítido, quase ouço cada som desde o amanhecer até que a noite tudo serenou, menos, como sempre acontece, os sentires desordenados, e como o meu por aí andava… Regressámos, na véspera, de duas semanas de praia, já tarde, ele sempre insistiu em gozar as coisas até ao último momento, eu preferia antecipar um pouco, assim permitia organizar-me um pouco, mas os miúdos secundavam-no naquele desejo de permanecer até ao possível, e assim foi, rodámos a fechadura do nosso lar bem depois das dez da noite. Claro que o dia seguinte ainda de férias para ambos, daí a minha estranheza, pela manhã, por não o encontrar a meu lado, pensei que talvez estivesse na cozinha, levantei-me, procurei-o pela casa, três ou quatro divisões não nos levam assim tanto tempo, e nada… Nem vestígios! Liguei-lhe de imediato, só a voz fria e mecânica do atendedor, não sei por que razão, se pelas cores do dia, se pelas sombras do meu pensar, se pelo estranho silêncio àquela hora, não sei, confesso, porém, senti que algo mudara, e de forma irreversível, o frio súbito que me invadia ajudava a materializar esta certeza, de repente, senti-me náufraga, não por ele, claro, mas por mim, ia ao sabor das correntes do meu desespero, a porta do quarto dos miúdos fechada, mesmo assim ouvia-se-lhes a respiração, de facto, ele fizera muito pouco barulho, caso contrário, os miúdos já com a televisão, qualquer coisa servia de pretexto para deixarem a cama, é curioso, há quem diga que só não se recupera o tempo, discordo, eu acrescentaria o entusiasmo, os momentos, e quem fomos, afinal, viver é subtrairmo-nos… O resto já sabes, o apartamento que alugara com a outra, para onde cobardemente fugiu naquela manhã, a guerra instalada pelos bens, os miúdos no meio, coitados, pois, viver é subtrairmo-nos, contudo, ainda hoje fico perplexa pelo momento que escolheu para nos deixar: após o regresso de férias! Confesso que, há uns largos meses, ser-me-ia impossível falar disto assim, e com esta distância, pois, foi penoso aqui chegar, lembras-te da… Pois, sim, essa… Ainda no outro dia a vi, passeio fora, num claro sem destino, logo o comentário do meu mais velho: “O que um homem faz a uma mulher!” Retorqui que se calasse, afinal, o que é que um garoto de doze anos sabe do amor? Mas esta questão não me deixou logo, ficou comigo por mais algum (“O que um homem faz a uma mulher!”), e reflecti na minha expressão diante de um espelho escurecido lá de casa, haveria alguma similitude com a da…? É possível, daí a observação do miúdo, mas o que poderia ele saber do amor? Pouco, sem dúvida, mas talvez percebesse as suas consequências, talvez… Não sabes de quem estou a falar? Então, não estás a ver quem é a… Morava no prédio em frente ao nosso, víamos o marido, aos fins-de-semana, logo pela manhã, de calções, fosse Verão ou Inverno, em animadas correrias pelo bairro, até que correu para bem longe de casa, com a empregada do café, que tem aproximadamente a idade da filha mais velha deles, enfim, como eu agora a compreendo! Uma pessoa dedica a sua vida a outra, para isto! Parece que vivemos uma amarga fantasia, percebes, não é? Repara, consagramo-nos ao outro e, de repente, somos cuspidos da sua vida, como se fôssemos um qualquer acessório descartável, desculpa-me, mas não encontro outras palavras para descrever o que por aqui me vai dentro do peito… E como dói! Por favor, não me perguntes, como já outros fizeram, se é a decepção pelos anos de casados, se é o facto de ser trocada, se foi a traição, se foi nem sequer ter pensado, por um segundo, nos filhos, se tudo isso ao mesmo tempo… Sabes, o que dói mais é ter, neste momento, mais de cinquenta anos e sentir-me uma criança amedrontada por, de repente, o mundo parecer-me um lugar anoitecido. De certa forma, sinto-me vampirizada, ele levou-me os melhores anos de mim, olho, agora, à minha volta com a estranheza de uma criança, mas com a energia de uma idosa. Se isto sucedesse há uma década, enfim, recomeçar ainda seria um horizonte tangível, porém, hoje olho-me ao espelho e estou naquela fase em que me deixo de reconhecer, ou seja, quando o pensar se senta na margem do nosso existir. Bom, desculpa, estou a aborrecer-te com os meus problemas e tu ainda não falaste nada de ti, que dizes? Se ainda penso nele? Como não? Às vezes, ao final da tarde, dou por mim na marquise da sala, como sempre fazia, a olhar para o fundo da rua, à espera de ver os faróis do seu carro, e de noite, como dói, sentir frio o seu lado da cama, talvez por pudor, ou por uma esperança ainda não silenciada, cinjo-me ao meu, quem sabe se, um dia, ele cai em si e percebe o vazio deixado. Levou-me mais de metade da minha vida, agora, uma coisa te garanto, se alguém me vir, de manhã ou de tarde, passeio fora, é porque sei a direcção de cada passo.

sábado, 18 de abril de 2026



 ... quanto mais se corre atrás de palavras, à mesa, maior é a dor escondida nos silêncios…

in Nuvens passeantes pelas águas


 


 

Por ruas desertas anoitecidas

 


Por ruas desertas anoitecidas, guio num sem destino, como se soubesse lá o que isso é, o mundo, volta e meia, resolve colocar a máscara da felicidade (como se soubesse lá o que isso é), nunca fui apologista de máscaras, tantas, talvez demasiadas, no labirinto de nós que desconhecemos, caem na sucessão da voragem dos dias, daí a constância daquela frase (Nunca pensei que isto algum dia me acontecesse… Nunca pensei alguma vez responder-lhe assim… Nunca sonhei que teria de passar por isto… Nunca pensei ter de recorrer a tal coisa… Nunca pensei…), pois, mas as esquinas da vida ferem-nos, e, enquanto sangramos, redireccionamos o leme do nosso existir. Continuo por ruas desertas anoitecidas, à minha volta só luzes, das casas, dos semáforos, dos candeeiros, e o motor sedento de mudanças, que coloco num automatismo felizmente para mim despercebido, o único som desta noite, primeira e última do mundo, há qualquer coisa de irrepetível na noite, talvez por sempre constituir um fim, o regresso ao lar, a janela que se fecha, a luz que se acende, e uma aparente harmonia restituída… Até quando?

Olhava a colher trémula, receoso, contudo, a sua abnegação persistia, diariamente, com a sopa do almoço, com o doce de pêssego ao lanche, a sopa vespertina, o xarope para a tosse, ela limitava-se a entreabrir os lábios, sem sequer emitir um som, quanto mais uma palavra, sorvia na distância, pois há muito partira. Foi numa certa manhã, ela a queixar-se de dores de cabeça, ele a relativizar, afinal, já habitavam o Inverno da vida, viviam da magra reforma dele, emissário de desgraças e de tão poucas graças durante a vida, em determinadas ocasiões, quando a missiva impunha assinatura do destinatário, nem ousava tocar, preferia escrevinhar que ninguém atendeu, pelo peso do envelope aprendera a saber-lhe o conteúdo, e cansara-se de ver rostos desesperados, e quanto mais olhava a terra, sob o peso do saco dos desencontros alheios, mais colocava a cruz ao lado de Ninguém atendeu… É curioso, as cartas passavam por ele seladas, no entanto, permitiam-lhe saber a geografia de cada existência. Houve uma história que o tocou particularmente, sempre soube o porquê, talvez por isso nunca a tivesse partilhado com ela. É natural, a aprendizagem das dores é a aprendizagem do silêncio, só assim sobreviveram àquela tarde em que a campainha num pânico súbito, a contrastar com a indolência da tarde domingueira, ele num regresso forçado da sesta à sua circunstância, de sofá e jornal caído na carpete, ela também a desviar os olhos da televisão para a porta, embora o coração… Pois, o coração nos seus monólogos de profeta, farol do sentir, a sussurrar-lhe que o filho caído no alcatrão da estrada, correra por uma bola, apesar da tentativa de travagem, por demais documentada no pavimento, tudo infrutífero, o murmúrio insistente: É isto que se passa! É isto que te vão dizer! Prepara-te! Ela num assomo de esperança Tens a certeza? A resposta pronta Lamento! Nessa tarde, foi ele que calou a dissonante campainha, foi ele que recebeu a notícia, foi ele que ficou lívido e emudecido sob a ombreira da porta, ela nem se levantou, permanecia de olhar fixo numa moldura que lhe devolvia um sorriso do filho…

A aprendizagem das dores é a aprendizagem do silêncio, chegou tarde e partiu-lhes tão cedo, a vida é isto: uma soma de incompreensões! Como dizia há pouco, as cartas passavam por ele seladas, no entanto, permitiam-lhe saber a geografia de cada existência. Houve uma história que o tocou particularmente, semanas após ter deixado a cruz ao lado de Ninguém atendeu, o destinatário era um casal jovem, ela em dificuldades com os degraus, já teria dobrado o sétimo mês, o rapaz sempre diligente a seu lado, deixou os estudos para assumir as expensas desta nova fase da vida, de obras a biscates abraçava prontamente todas as possibilidades, ouvia-se dizer que deixaram o interior para fugir às más-línguas, e também ao desacordo das famílias na sua união, seguiram-se envelopes gordos, até que, numa certa manhã, os viu com três malas, pousadas, à porta do prédio, o bebé ao colo da mãe, andaria pelos dois meses, antes de depositar as cartas, parou junto deles, Bom dia! Estão de partida? Ambos responderam com uma silenciosa expressão de derrota, ele não soube o que retorquir, era uma manhã fria, o bebé soltava espirros regulares, por fim, apenas lhe restou uma questão, a mais franca possível, Têm para onde ir? O rapaz Temos de regressar à terra. Levantou os olhos, sempre de mãos nos bolsos, ele que de obras a biscates abraçava prontamente todas as possibilidades, encolheu os ombros, e acrescentou Sabe, o que mais me dói é que nem um berço ainda consegui comprar para o meu filho… Esta frase ressoou-lhe por muito nem um berço ainda consegui comprar para o meu filho… De novo, aquela evidência: a vida é isto: uma soma de incompreensões.

De vez em quando, apesar de hoje a colher trémula na sua mão, da partida dela para uma incompreensão distante, ele insiste numa frase do ontem As amoras sabem a Agosto… Por momentos, os lábios dela suavizam-se, como se uma memória se erguesse na paisagem de si, ele de novo As amoras sabem a Agosto… E tudo talvez seja uma outra coisa.

Por ruas desertas anoitecidas, guio num sem destino, como se soubesse lá o que isso é, o mundo, volta e meia, resolve colocar a máscara da felicidade (como se soubesse lá o que isso é), em cada janela uma história, umas vão a meio, outras já se contaram, a vida é isto: uma soma de incompreensões, com algumas certezas a que nos agarramos, para assim nos sabermos (quantas vezes nos largamos no mundo?), e nesta rua deserta anoitecida, uma frase levanta-se em mim de um ontem tão ontem As amoras sabem a Agosto…

segunda-feira, 13 de abril de 2026


 

Concluí, há uns tempos, que uma mulher se apaixona pela criança que o homem foi e não pelo adulto do hoje…

in Nuvens passeantes pelas águas


 

domingo, 12 de abril de 2026

É preciso morrer para ser visto

 


O que é perder a razão? A primeira vez que me coloquei esta questão foi há muito, ainda pela mão dos meus pais, sempre que alguém contra-corrente do que se espera, logo Coitado! Perdeu a razão! Essa possibilidade, não sei porquê, sempre se me afigurou tão longínqua, mas o tempo, volta e meia, dá-nos a mão e leva a olhar abismos nunca pensados, pois, como dizia, ainda pela mão dos meus pais, e, lá por casa, vozes preocupadas relatavam a história de alguém próximo que perdeu a razão, daí o internamento numa casa de repouso, estranha mania esta de um povo suavizar as coisas, sempre é mais elegante de que hospício, bem verdade, mas porquê esta urgência de se contornar a realidade? Ainda lá por casa, Coitado! Teve um esgotamento… Logo eu a idealizar uma olímpica tarde de futebol, daí o esgotamento, do alto dos meus oito anos que mais podia eu conceber? É curioso, hoje raramente ouço falar em esgotamentos, já soa anacrónico, o vocábulo actual é depressão, quase virou moda, por tudo e nada arranja-se, com facilidade, uma depressão, da incompetência à impotência tudo está justificado. Mas regresso àquela história, lá por casa, de alguém próximo que perdeu a razão, daí o internamento numa casa de repouso, a génese de tudo foi o coração (Não será sempre?), talvez tenha corrido demasiado por ela, daí o esgotamento, quando parecia que, afinal, ela companheira da miragem. Começou a andar enervado, volta e meia, murros em portas, gritos ao telefone, ausências nas refeições familiares, os livros arrefecidos a um canto, os semestres, na faculdade, insensíveis a esgotamentos, e também creio que a depressões, assim continuem, sinal de que nem tudo vale, para ela, constituiu um mero apeadeiro na longa viagem da vida, contudo, ele via-a como a estação final, quantos equívocos assim ocorrem a cada dia do mundo? Ela deixou de atender o telefone, e a campainha, diziam-lhe que tinha saído ou que partira de fim-de-semana, caiu num vazio desesperado, para o preencher, refugiou-se na fantasia, tudo começou com a insistência por mais um prato à mesa, justificava que ela viria jantar lá a casa, a princípio, os pais cederam, mas as contínuas omissões fizeram perceber o pior, numa certa ocasião, ele chegou a esvaziar várias lamelas, felizmente os seus conhecimentos químicos não eram muito vastos, daí ter resultado na soma de uma sonolência redobrada com uma ligeira afectação intestinal. No entanto, o alarme parental tinha soado. Tentaram, como quase sempre sucede, primeiro, o diálogo (Então? Achas que ela vale isso? Há mais raparigas no mundo! Estás a destruir a tua vida por uma tontice… Um dia, vais ver, ainda te vais rir de tudo isto…). Porém, quando a noite entra na nossa vida, é quase impossível perceber quão fugaz é a sombra do dia. Ainda dois meses por ali, agora com lamelas prescritas, volta e meia, aquando das visitas parentais – as únicas que efectivamente se registaram –, a voz dele quase suplicante Ela ligou? Tem perguntado por mim? Não está, por acaso, aí fora? Os lábios secos, ostentava uma cor amarelecida, realçada pela brancura do roupão, como se lá fora a tarde não estivesse no seu esplendor, a voz saía-lhe arrastada e numa pronúncia de idoso, foram aconselhados a não responder, a direccionar as conversas noutro sentido, é natural, quando se esgota a circunstância, devemos partir para outras paragens… Ainda hoje, não sei se ele recuperou, na totalidade, a razão. Confesso que não acredito. Há coisas que a vida, simplesmente, nos vai subtraindo. A razão é uma delas. O que é perder a razão? Essa possibilidade, não sei porquê, sempre se me afigurou tão longínqua, mas o tempo, volta e meia, dá-nos a mão e leva a olhar abismos nunca pensados, hoje, a espaços, admito que a maior lucidez reside no adeus à razão. Como se de uma inevitabilidade se tratasse. Talvez aqui resida a lógica da sobrevivência. Quando a maioria se esqueceu de olhar os céus, que mais nos resta? Não raras vezes, invejo quem trocou a razão por amor, no fundo, tratou-se de uma escolha e nunca de uma perda. A perdê-la, se é que tal já não me sucedeu, que ao menos fosse por amor, e, se numa tarde, alguém me encontrar de lábios secos, com uma cor amarelecida, realçada pela brancura do roupão, com uma voz arrastada e uma pronúncia de idoso a perguntar (Ela ligou? Tem perguntado por mim? Não está, por acaso, aí fora?), seria bom sinal, teria escolhido o lado dos vivos nesta coisa da existência.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

O chão do mundo

 



Hoje sabia que ninguém me esperava. Um desses dias em que as sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, uma janela que se abre para a paisagem onde não nos queremos ver, apesar de por ali as nossas pegadas, chegamos a duvidar, a certa altura, da nossa existência… Como dizia, não tinha pressa em chegar a casa, ia encontrar o frio gritante do silêncio, que nos murmura incessantemente solidão, e o nosso sentir mais arrefecido que o exterior, pelos passeios, olho gente sentada em cafés, em conversas ridas, não vislumbro, por ali, os silêncios que pousam, quando eu, outrora, tacteava diálogos, nesses momentos, eu partia para as lonjuras que me habitam, de facto, nunca fui de cafés, risadas, festas, danças… Aprendi a disfarçar esta inquilina tristeza, os meus pais anunciavam ao mundo Esta nossa filha é muito concentrada! Eu aquém concentrações, apenas refém de uma tristeza que me tolhia o ser, a minha irmã, ao contrário de mim, sempre convidada para festas, uma inigualável sede de roupas, cachecóis, sapatos, malas, só a ouço em risadas, de vez em quando, sinto-lhe o olhar receoso a seguir-me os passos, enquanto os meus pais, apreensivos com tantas risadas, murmuravam Ao menos, Deus concedeu-nos um filha concentrada… E eu sentia-me tudo menos concentrada, só com ele, sentado diante de mim, esta tristeza afastava-se, como se uma concessão de tréguas, nesses momentos, eu sentia-me parte integrante de qualquer café, não, não chegava às risadas, festas, danças, gostava de ali estar com ele, a sentir a pulsação da cidade lá fora, carros, buzinas, passeios, gente que os caminhava, para mim, rostos inexpressivos, talvez por não me demorar neles, se por aí me detivesse, perceberia que se ocupavam em intrincados cálculos para aportar na margem do mês seguinte, outros pela doença de um filho, ou por um divórcio anunciado, creio que poucos questionam a morte do sonho, substituem este facto pela denominada maturidade, pelo vidro, vejo-os, lá fora, a povoar estradas e passeios, já não se olham, evitam-se num absurdo desumanizante… Como dizia, só com ele, sentado diante de mim, esta tristeza afastava-se, como se uma concessão de tréguas, talvez um sonho se erguesse algures em mim, às vezes, ele, num repente, levantava-se, dava-me a mão, e só parávamos junto ao mar, ali ficávamos, dentro do carro, a eternizar aquele instante em que a luz partia da terra para nos relembrar sonhos caídos… Outras vezes, íamos até aquela discreta pensão, duas travessas à direita do café, demorava, claro, a recuperar a intimidade, falávamos, falávamos, mais ele, como é evidente, sempre preferi ouvir, assim ia a tarde, assim ia a minha vida…

Hoje sei que ninguém me espera. Um desses dias em que as sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, nunca concebi, confesso, apaixonar-me por um homem casado, muito menos assumir o papel da outra, a palavra amante sempre me soou mal, meus pais, coitados, de mim diziam Esta nossa filha é muito concentrada! Mal sabiam, coitados, mas que podia eu fazer? Para ajudar com as contas caseiras, enquanto estudava, trabalhei na recepção de uma clínica veterinária, foi lá que nos conhecemos, lembro-me tão bem da primeira vez que o vi, é um desses momentos a que regresso múltiplas vezes, tinha um rafeiro de médio porte, assim que entrou, sabia-lhe a voz, é tão estranho, quando se abeirou do balcão, já a tristeza partira de mim, nessa semana, regressou por mais duas ou três ocasiões, o cão tinha sido atropelado, embora não fosse grave, o anelar preenchido não me passou ao lado, porém, algo me impelia na sua direcção, talvez a súbita ligeireza por largar o fardo de uma vida (Esta nossa filha é muito concentrada!), a tristeza que me tolhia o ser, ele também se demorava, cada vez mais, do outro lado do balcão, por norma, era o último cliente, queixava-se de falta de tempo, sempre o trabalho, percebi que lhe seguia as pisadas académicas, ajudou, claro, a solidificar as pontes de diálogo, uma noite, com o pretexto da caminhada nocturna do cão, deixou-me à porta, outras se seguiram, algo, agora mais forte, continuava a impelir-me na sua direcção, apesar do objecto amarelecido exibido no anelar, de um filho na primária, de não haver vislumbres, em palavras ou actos, de algum dia partir daquela ilha, ainda assim, eu continuava a caminhar a seu lado, pelo restituído sabor da noite, as afinidades académicas pois, e a súbita ligeireza, quantas vezes largamos o fardo de uma vida? Hoje, tanto tempo depois, continuo desencontrada da palavra arrependimento, não sei se é positivo, não sei, confesso, nunca fui de ideias gerais, a mulher dele, a certa altura, criou uma ideia de nós, apenas isso, nunca a materializou, desconfiar é isso mesmo, formar uma ideia sem lhe encontrar um corpo, tivemos as nossas cautelas, como é evidente, no meu caso, queria apenas que a tristeza se mantivesse na soleira da porta, claro que, volta e meia, acabava por entrar, nos períodos festivos, nas férias grandes, nunca soube o que é isso a seu lado, e doía-me nas minhas funduras a solidão desamparada de me saber assim, com o tempo, os meus pais Esta nossa filha é muito concentrada! Só tem olhos para os livros… Já não sei se diziam isto para se convencerem, se para iludir os outros, a minha irmã de casamento marcado, não obstante as festas, uma inigualável sede de roupas, de cachecóis, de sapatos, de malas, as infindáveis risadas, eu aquém destes cenários, certa vez uma tia ousou E tu, minha filha? Quando é que chega a tua vez? Olha que filhos depois dos 30… Logo o meu pai vociferou Esta nossa filha é muito concentrada! Só tem olhos para os livros… Acho que nem ele já acreditava. O tempo continuou o seu caminho, após o curso, vários empregos até estabilizar, entretanto, um sobrinho, de vez em quando, com a desculpa de um congresso para a mulher, partíamos de fim-de-semana, doía-me não poder apresentá-lo aos meus, contudo, dessa forma, era como se pisasse uma paisagem só minha. Andaria o meu sobrinho aí pelos doze, quando, numa manhã, a voz dele tão distinta do que conhecia, arrastava-se, ao telefone, como se numa espera pelo pensar, falou-me em almoçarmos naquele restaurantezito discreto, onde íamos habitualmente, disse que sim, mas logo a inquietude ao leme do que sou, aquele arrastar de voz, tão próximo do soletrar, insisti Mas passa-se alguma coisa? Ele, impassível, quase numa anestesia, Falamos ao almoço… E custou a chegar a hora desse almoço, entrei e sentei-me na mesa habitual, esperei uns doze minutos, por fim, ele, curvado, com um semblante de derrota, disse-me Vem, falamos ali fora, acedi, confirmou-se o pior cenário, num exame, para a mulher, teria de retirar um peito, e, mesmo assim, sem garantias, acrescentou Não podemos continuar… Baixou o olhar, antes de terminar a frase, não regressámos para a mesa, ainda não tínhamos pedido, abraçámo-nos pudicamente, dei-lhe um beijo na face, enquanto ele me segredava, numa doçura suplicante, Espero que compreendas… Partimos em direcções opostas, creio que, nesta vida, raramente caminhámos rumo ao mesmo horizonte…

Hoje sei que ninguém me espera. Um desses dias em que as sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, uma janela que se abre para a paisagem onde não nos queremos ver, entretanto, o meu pai deixou-nos, faz agora pouco mais de um ano, sempre aquele terrível inimigo que nos dilacera por dentro, e que ninguém aparentemente quer derrotar (a quem interessará tal força?), felizmente ainda conheceu a neta, pois, fui novamente tia, desta vez, de uma linda menina, tem agora oito aninhos, a minha mãe refugiou-se no serviço paroquial, reforma e viuvez não são boas conselheiras, e eu para aqui ando, faz dez anos aquele púdico abraço. Nunca mais nos vimos. Nunca mais soube nada dele. De certa forma, foi o único final possível. E admirei o seu gesto de regressar inteiro naquela hora. Houve tanta nobreza nesse momento. Desde então, regressou a minha velha companheira de viagem, recebi-a com indiferença, foi discreta na sua reentrada, está para ali, no seu canto, e não me incomoda, chego a casa, não acendo logo a luz, nalguns gestos sinto os passos do tempo, é natural, dele só resta uma fotografia, nem está à vista, hoje, tanto tempo depois, continuo desencontrada da palavra arrependimento, basta-me relembrar aquele instante em que a luz partia da terra para nos relembrar sonhos caídos…

quarta-feira, 1 de abril de 2026


"No fim de contas, são poucos a ter o dom de alterar a direcção do nosso caminhar, de nos desconstruírem convicções, de, num repente, nos colocarem face a um dos actos mais radicais da existência: virar costas a tudo o que edificámos para contemplar o seu rosto, nem que seja por mais um entardecer…"

in Nuvens passeantes pelas águas

sábado, 28 de março de 2026

Quando me for embora que horas serão?

 



Nada disto claramente escapou à mulher do colega, mais nova e atraente, até achei, por breves instantes, que me lia os pensamentos, receei, por exemplo, que me perguntasse: Ainda deve muito da louça? Já viu, a taxa de juro do visa é um autêntico roubo… E a senhora da limpeza teve cá um trabalho! Também não lhe dá jeito comer de pé… Pois, estas ridículas modas, não é? Pensamentos, assim, reconfortavam-me, afinal, dá algum jeito comer de pé? Entretanto, a campainha, uma vez mais, pela casa, agora a colega com o marido, eu, de novo, à porta para os receber, estes já os conhecia, conforme previ, a colega com uma indumentária balizada algures entre os anos oitenta e as sombras estáticas de um passeio cosmopolita, tudo para maquilhar uma ruralidade que ameaçava irromper a cada gesto, sílaba, olhar, nunca compreendi esta urgência de renegar o ontem, o marido, sempre dois ou três passos atrás, um sujeito alto, anafado, com gestos ensonados, nele, porém, a ruralidade era palpitante, se me perguntassem qual a sua profissão, desassombradamente diria taxista, havia nele uma qualquer urgência por se sentar, como se fosse a sua posição natural, o seu horizonte temático também não era muito vasto, oscilava entre, claro, a bola e motores, embora, pasme-se, fosse bancário, o que também não lhe era abonatório, mas daí a inferência pela sua posição natural, após deixá-los entrar e fechar a porta, não me escapou as posições tomadas no terreno, o taxista sentou-se no sofá, olhar bovino na televisão enquanto lhe enchia o copo, a rural da mulher foi ter com a minha à cozinha, quase ignorou a mulher do colega, mais nova e atraente, apenas se salvou o imperativo da educação, dediquei-me a colorir copos que teimavam na transparência, particularmente o do taxista, entretanto, percebi na mulher do colega uma crescente insatisfação, falavam em surdina, mas certas frases chegaram-me Não devia ter vindo… Eu sabia! Já viste, a cara que estas duas me fizeram? Parece que estão a fazer um frete! E há quanto tempo estão as duas para ali na cozinha? Devem estar a dizer das boas… Sinceramente, para que é que me vim aqui enfiar? Só tu, para me meteres num filme destes! Primeira e última, acredita! Onde já se viu uma coisa assim? Ela nem se digna a fazer sala! Coitada, está tudo tão artificial que se esqueceu de dar alma às coisas! Da comida à decoração, tudo sabe a plástico! Pelos gestos e expressões, o colega procurava, como podia, acalmá-la, aproximei-me deles e gracejei qualquer coisa, pareceram-me ambos razoáveis, retribuíram igualmente com uma piada, eu próprio comecei a inquietar-me com a demora daquelas duas na cozinha, por breves instantes, invejei aquele olhar bovino que contemplava a televisão, num estar para além de tudo, enquanto transparecia, uma vez mais, o copo, creio que se lhe perguntasse onde estava a rural da mulher, ele não sabia e tão pouco se importava… Como disse há pouco, invejei aquele olhar bovino, num estar para além de tudo. Por fim, elas deixaram a cozinha, povoaram a mesa com o propósito deste serão, não sei porquê, mas uma imagem da infância levantou-se diante do meu pensar, a lareira da minha avó, quando as suas mãos pousavam os frutos da sua manhã de labor, e uma frase, dita há pouco em surdina, regressa-me está tudo tão artificial que se esqueceu de dar alma às coisas! De facto, daquelas travessas não emanava qualquer aroma (Da comida à decoração, tudo sabe a plástico!),  porém, da cozinha da minha avó, lá longe, na aldeia, o mundo ficava bem mais perfumado… Elas resolveram estabelecer um diálogo muito particular, achei despropositado, o colega ainda tentou um princípio de conversa, o que se lhe compreendia em distracção compensava com uma fortíssima dose intuitiva, daí que os seus esforços, por uma hipotética conversa, não tivessem passado exactamente de um princípio de intenções, talvez começasse a vislumbrar, pelo soalho, as máscaras caídas das colegas, é possível, poucas são as mulheres que gostam de sombras, sobretudo de mulheres mais novas e atraentes, neste ponto, confesso que me chocou o facto de nenhuma delas disfarçar o azedume, nem a educação sobreviveu, nem a etiqueta, nada, apenas o meu espanto silenciado pela estranha que olhava diante de mim, malgrado dormir com ela há mais de quinze anos… Por fim, os miúdos, em poses e modos robóticos, assim que entraram, o meu olhar procurou o rosto da mulher do colega, mais nova e atraente, li-lhe somente indulgência perante aqueles gestos teatralmente contidos, até no tom de voz se denotava obediência a um guião escrito por outra mão, dei, de repente, por mim a pensar Porquê tudo isto? Quanto de nós está nesta sala? Tão pouco, tão pouco… Acho que nem os pés chegaram a entrar. Partimos para tão longe, assim que a hora deste absurdo jantar chegou, que deixámos para aqui os corpos à pressa, desengonçados, desanimados, entregues a uma lenta corrente sem prenúncio de uma qualquer foz amanhecida… De novo aquela frase está tudo tão artificial que se esqueceu de dar alma às coisas! O colega e a mulher, mais nova e atraente, encaminharam-se para a porta, de certa forma, na velocidade dos seus gestos e na opacidade das suas expressões, percebia-se o cansaço de segurar as máscaras, começavam a ceder, adeuses de ocasião e, por fim, partiram, percebi-lhes leveza na passada, elas nem à porta vieram para se despedir, regressei à sala, o taxista já ressonava, elas continuavam em sussurros indignados pela mulher do colega, mais nova e atraente, os miúdos no quarto com o vício do hoje, olho as travessas, praticamente intactas, mas tão vazias de alma… Imagino o colega, com a sua mulher, mais nova e atraente, a parar numa rulote, cada um a pedir o seu hambúrguer, depois, enquanto os ombros se tacteiam, olham o mar e saboreiam a inesperada refeição, talvez ainda haja tempo para um beijo quente e renovar juras de amor, talvez… Pelo menos, era o que eu faria, enquanto, lá longe, na aldeia, o mundo ficava bem mais perfumado…          

terça-feira, 24 de março de 2026

Que horas serão quando me for embora?

 


Ainda não tinha tirado a chave do bolso, já o cheiro da comida por todo o lado, e barulho de panelas, louça, quase instintivamente olho o relógio, pouco passava das dezassete, contudo, ela nisto, passou-me, confesso, a ideia de virar costas e sentar-me placidamente a uma esplanada na companhia de um cigarro e de memórias, há quanto me foge um momento assim? Talvez há demasiado… Regresso-me e já a chave a cumprir-se, logo ela Até que enfim! Mas não sabes que dia é hoje? Não fiques para aí parado! Tira o casaco e vem ajudar-me… Anda! Despacha-te! Não te esqueças que, daqui a nada, tens de ir buscar os miúdos à escola… Ela debitou mais frases, muitas mais, não, não lhe ouvi um Boa tarde, nem sequer um singelo Como estás? Ou então Como foi o teu dia? Nada! Só me ficou o Despacha-te! Eu, que ainda há pouco, pensava em virar costas e sentar-me placidamente a uma esplanada na companhia de um cigarro e de memórias, a verdade é que chegamos a um momento na vida e, simplesmente, deixamo-nos ir na corrente, não resistimos, não procuramos sofregamente a margem, nem sequer gritamos por socorro, nada, apenas e só deixamo-nos ir, há quem conteste esta opção, está no seu direito, porém, não me parece muito avisado, sobretudo em termos de saúde, qualquer tentativa de resistir a esta corrente é malogro certo… Ela estava num estado muito próximo da histeria, ora se virava para o fogão, ora a aprumar as louças e talheres do repasto vespertino, ora em mim para mais ordens e instruções, opto por ir buscar os miúdos à escola, assim que uma brisa entardecida pelo meu rosto, inspiro o momento, quase me senti numa esplanada na companhia de um cigarro e de memórias. Quando regressei com os miúdos (não sei porquê, mas sempre que a porta de casa diante de mim, um sentir de derrota invade-me. Sempre assim foi. Não sei de onde provém, como se ali me aguardasse, apenas e só… Às vezes, penso que talvez a minha morada seja noutras paragens, daí a minha genuína estranheza por este regressar, que talvez não passe, afinal, de um apeadeiro nesta minha caminhada…), ainda o cheiro da comida por todo o lado, mas o barulho de panelas, louça, cessara, antes de entrarmos, relembrei-lhes calma e ponderação, afinal, aproximava-se a hora do tão ansiado jantar, reparei na mesa já posta, com as inevitáveis velas de cheiro acesas, na sala, ouvi a água a correr, ela no duche, em cima da cama, dispusera a sua indumentária, não sei porquê, mas aquelas peças de roupa, despidas da sua antropomorfia, enterneceram-me, talvez por serem uma extensão de si mesma, fiquei a olhá-las, e apesar de a água continuar a ouvir-se, de lhe perceber cada gesto ao lavar-se, primeiro, sempre, o cabelo, só depois o corpo, pareceu-me que ela já habitava as roupas, ou talvez fosse o contrário, por fim, saiu, compreendi que a minha calma a irritava, atirou logo Não te vais arranjar? Já viste as horas? Espero que tenhas dito aos miúdos que não os quero na sala… Anuí a tudo, pois, a verdade é que chegamos a um momento na vida e, simplesmente, deixamo-nos ir na corrente, não resistimos, não procuramos sofregamente a margem, nem sequer gritamos por socorro, nada, apenas e só deixamo-nos ir, percebi que ela optara por uma discrição elegante em termos de roupa, pormenores que ainda lhe apreciava, às vezes, não sei porquê, quando me debruçava sobre nós, de longe, quem sabe se de uma esplanada na companhia de um cigarro e de memórias, surgia-me a imagem de dois náufragos, num bote, algures em mar-alto, condenados a entenderem-se se almejam a sobrevivência, procedeu, antes da hora das visitas, a uma última e minuciosa vistoria a cada canto da casa, enquanto isso, ocupei-me das bebidas, pouco antes das vinte, a campainha, convidara dois colegas e respectivos cônjuges, se me questionassem o porquê, ao certo, deste jantar, não saberia o que responder, não se comemorava nada, não havia quaisquer motivos de gratidão, saudade ainda menos, mas, o que é certo, é que o elevador já no nosso patamar, o colega e a mulher a saírem, fui que abri a porta, ela, de rompante, postou-se a meu lado, olhei-a com discrição, percebi-lhe o esforço por uma expressão de simpatia, tantos anos a amanhecer e anoitecer a seu lado, que melhor garantia no desvelar de uma artificialidade demasiada numa expressão? A artificialidade, regra geral, caminha próxima da hostilidade, neste caso, compreendi que se direccionava à mulher do colega, talvez o facto de ser mais nova e atraente constituísse motivo mais que suficiente. Por um brevíssimo instante, antes da formalidade dos cumprimentos, creio que todos compreendemos a frieza do palco sobre o qual caminhávamos. O silêncio evidenciava ainda mais as hostilidades contidas, assim, decidi-me por um sonoro cumprimento, eles retribuíram, percebi que a mulher do colega, mais nova e atraente, entrou com uma relutância felina, como se sopesasse cada gesto em território hostil, entraram para a sala, acompanhei-os, sob o manto da discrição, captaram cada pormenor, a mesa já posta, com as inevitáveis velas de cheiro acesas, a louça que ainda estamos a pagar pelo visa, as cadeiras encostadas a uma parede, para ser um jantar às modernas, cada um vai-se servindo e come de prato na mão, assim uma coisa inovadora de partilha de ideias, confesso que desconheço onde ela vai beber estes novos ritos, apenas sou confrontado com os factos (ela, para mim, limita-se a dizer laconicamente: Mas não sabes que agora é assim que se faz? Já não se recebe ninguém sentado à mesa! Estás mesmo ultrapassado!), enquanto debitava estes ditames de pacotilha, a sua voz assumia aquela particular entoação algures situada entre um cabeleireiro e o café em frente onde vão secar o verniz das unhas, já me habituara a estes momentos, obedeciam a um guião cansado, cada gesto e sílaba numa cadência de tão ontem, e eu entre o sorrir e um grito alucinado, do chão aos vidros da janela, tudo num brilho exemplar, por momentos, confesso, cheguei-me a questionar se esta era a minha casa, tal a ordem, tal a impessoalidade que descera sobre as coisas… Nada disto claramente escapou à mulher do colega, mais nova e atraente, até achei, por breves instantes, que me lia os pensamentos, receei, por exemplo, que me perguntasse: Ainda deve muito da louça? Já viu, a taxa de juro do visa é um autêntico roubo… E a senhora da limpeza teve cá um trabalho! Também não lhe dá jeito comer de pé… Pois, estas ridículas modas, não é? Pensamentos assim reconfortavam-me, afinal, dá algum jeito comer de pé? Entretanto, a campainha, de novo, pela casa…

sábado, 21 de março de 2026

 



Inicio a compreensão do tempo: só importa o que, no fim, perdura em nós…

in Nuvens passeantes pelas águas

domingo, 15 de março de 2026

A porcachona e o tintim – epílogo

 





A pedido de muitos leitores, irei hoje esclarecer por onde andam estas funestas personagens e seus párias, desde já, como é evidente, não caminham por lugares muito ensolarados, não fossem personagens obscuras, a montante destas linhas pontifica um imperativo ético – de alertar incautos que se venham a cruzar com estas sinistras figuras –, bem como satisfazer a curiosidade dos leitores, de outro modo, confesso que nem uma sílaba gizaria, quanto às últimas da porcachona, parece que anda a grunhir muito pelas costas, o bugs bunny (recordam-se?) também caiu nesse erro, e a coisa correu-lhe mal, quase ficava com uma cenourita entalada algures, por conseguinte, é salutar para a porcachona (grunhe baixinho, muito baixinho, porcachona) e sua pocilga que ponham o único neurónio em movimento para não terminarem entalados algures pelos caminhos do mundo, fica o conselho, seria igualmente positivo que andasse com o focinho mais sorridente, quem nasce divorciado da beleza, pelo menos, que sorria, se a este aspecto somarmos as toneladas acumuladas com os anos, nada resta, em verdade, para um homem, a porcachona, de facto, é o primeiro passo para a homossexualidade, quem, no seu perfeito juízo, lhe pegaria? Se, por exemplo, sucedesse a tragédia de me deparar com a porcachona despida, lesto seria a cobri-la, creio que o trauma de tal imagem até induziria impotência, meu Deus, os estragos que a porcachona pode causar – arrepiante!!! Os complexos pelo baixíssimo intelecto – elevadas só a maledicência e a cobardia, ah, e as toneladas, claro, as toneladas – levam-na a grunhir alto perante os demais, só um acéfalo conseguia ouvir um grunhido até ao fim, quanto mais um conjunto, entre o seu público acéfalo está o nosso tintim, pois, esse mesmo, de caminhar bamboleante, a reprimida homossexualidade, talvez um dia alguém lhe dê o desejado beliscão nas nalgas, e fique corado de tanta felicidade, a camisa larga o suficiente para ocultar o crescente barrigão, os três pentelhos brancos no cocuruto, e a barbita pálida, quiçá inspirado no velho da Longa Vida, a abolacharem ainda mais a esférica carantonha, o caminho destes dois tamanhos frustrados inevitavelmente acabaria por se cruzar, é ver a porcachona grunhir, grunhir e grunhir, e o tintim, atrás dela, em hossanas, confrangedor, se ao menos a porcachona lhe desse o ambicionado beliscão nas nádegas bamboleantes, não podia cair-lhe em cima, coitadinho do tintim, nem um segundo resistia, embora fosse um severo meio de desbloquear a reprimida homossexualidade, quem sabe, à vista de um avanço da porcachona, o tintim procurasse o tão desejado colo onde pousar as suas nádegas bamboleantes, por ali pululam outras sinistras figuras conhecidas, a ratazana, agora sem bandolete, outro drama, a rainha do pedaço, com os óculos no cimo da tola, julga que, com esse artefacto, espanta as rugas em crescendo, a obesa de nome azeiteira, o pombo-correio do lugar, até chegou do sul, veja-se bem, para se sentar cada uma precisa, no mínimo, de duas cadeiras, tal a dimensão das nalgas, a menopausa é uma coisa tramada, uma questão transversal, ao atentar no focinho destas aberrações, é: Qual foi a última vez que tactearam os céus? Se é que algum desgraçado lá as conduziu… Se houve, foi há muito, há demasiado, tais as expressões cinzentas, azedas, até masculinizadas, a menopausa é uma coisa tramada, crescem para todos os lados, no entanto, o intelecto subsiste minúsculo, grandessíssimas FRUSTRADAS estas aberrações andantes, até suscita dó ouvir o exíguo vocabulário, onde a muleta “prontos” surge, de forma salvífica, a pontuar-lhes as boçalidades emitidas, frustradas físicas e intelectualmente: a coisa só podia descambar em complexos estampados no focinho e nos gestos; por ali cirandam, em torno da porcachona, o tintim, com o seu estrogéneo em alta, em coscuvilhices ora com uma, ora com outra, apesar de incessantemente o seu olhar, maroto e ardente, procurar um matulão que lhe dê o tão ansiado beliscão nas nádegas bamboleantes, se as menopausas ambulantes e FRUSTRADAS ansiassem por um beliscão, só se requisitassem uma retroescavadora, com a dimensão daquelas nalgas seria a única possibilidade de sentirem algo, há uns dias até mandaram uma menopausa, outra aberração, bem adiantada, cuja carantonha parecia um mapa de estradas, tal a profusão de rugas, dar um recadito mal-amanhado, o interlocutor, da aberração rugosa, deixou-a sozinha a debitar alarvidades, não fosse a burra-enrugada, com um pouco de atenção, julgar-se gente, por ali também pontifica o manguinhas-de-alpacas, de casaquinho de bombazina, com penteado à primeira-comunhão, esse pouco aparece entre as menopausas ambulantes e FRUSTRADAS, embora cumpra qualquer coordenada por ali emitida, esse é uma figurinha rasteirinha, estéril, frases ocas e deveras superficiais, apesar da falsidade, suada por cada poro, não passar despercebida a quem sabe olhar o mundo há muito, sem qualquer conteúdo, basta atentar no anacronismo da indumentária e de lhe perdurar o penteado com que saiu de casa para a primeira-comunhão, caros leitores, espero que a vossa curiosidade, com estas linhas, sempre públicas, quem nasce com Coluna-Vertebral não sabe rastejar, fique saciada sobre o paradeiro da porcachona, tintim e seus párias, genuínas aberrações caminhantes pelo mundo. 

sexta-feira, 13 de março de 2026

Uma marquesa a caminho de Tavira


A maior parte do tempo esquecemo-nos de viver o presente, preocupações, sonhos por realizar, cansaço, a voragem do dia-a-dia, enfim, o drama da vida contemporânea, no entanto, só quando um facto, iniludível e dramático, se anuncia no amanhã, é que fincamos os pés no presente, saboreando cada instante, como se o futuro apenas uma ilusão, há décadas que ocupava, através de um subaluguer, uma salita, se assim se pode denominar uma divisão, de oito metros quadrados, numa cave, quase inteiramente ocupada por uma marquesa, onde mitigava dores articulares, endireitava colunas e derramava o seu “saber”, bom, este último conceito é, sem qualquer dúvida, bastante controverso, não por acaso era conhecido como o Mestre, havia quem, de facto, se deitasse na marquesa só para ouvir as suas histórias, únicas, inolvidáveis, dignas de figurar em qualquer compêndio de actos de bravura, as más-línguas, como é evidente, escarneciam e questionavam a sua veracidade, pura inveja, nada mais, quem, no seu perfeito juízo, ousava colocar em causa a palavra do Mestre? Desde a travessia do Tejo, na foz, debaixo de água em apneia, às incursões aéreas, em território inimigo, durante a guerra colonial, enquanto piloto, ou realizar elevações, durante uma tarde inteira, para gáudio dos espectadores que se avolumaram com o decorrer das horas, tudo em palmas e espanto perante aquele titã descido dos céus, sem esquecer os múltiplos corações despedaçados e suspirantes que foi deixando à sua passagem, a verdade é que muitas chegavam cambaleantes e curvadas, num dramático esforço lá desciam a escada e, como se por milagre, volvida menos de uma hora, era vê-las renascidas, alegres e a correr escada acima, se alguém, má-língua ou não, ousa escarnecer e questionar a veracidade destes factos, estou cá eu para categoricamente os asseverar, quando algo lhe desagradava, com a sua voz arrastada e cavernosa, invocava um camarada de armas, “Cheira mal… Cheira muito mal…”, certo dia foi confrontado com a notícia de que a sua marquesa teria de abandonar a divisão, de oito metros quadrados, numa cave, pensou “Cheira mal… Cheira muito mal…”, mas não verbalizou, o espaço ia para trespasse, ironia do destino seria também para mitigar dores articulares e endireitar colunas, inferiu, desde logo, que os seus préstimos seriam mais do que imprescindíveis, como podem testemunhar as dezenas, perdão, centenas, que chegavam cambaleantes e curvadas, num dramático esforço lá desciam a escada e, como se por milagre, volvida menos de uma hora, era vê-las renascidas, alegres e a correr escada acima, continuou os seus afazeres, na salita, de oito metros quadrados, quase totalmente preenchida com a marquesa, a questão do encerramento do espaço não era tema de conversa, de forma tácita foi remetida para o silêncio, mediante quem se deitava na marquesa escolhia o tema das suas narrativas, ora a incansável história da travessia em apneia, ora enumerava os milhares de livros lidos, o pai detentor de uma biblioteca só com rival na de Alexandria, se alguém mais ousado colocasse uma questão específica sobre determinado autor, fungava uma vez, duas, ainda uma terceira, e sua voz arrastada e cavernosa logo “Esta contractura tem de ser debelada…,” quem, perante este alerta, “Esta contractura tem de ser debelada…,” ousaria lembrar-se de um autor e das suas obras? A atenção, de imediato, focada na génese das tão incómodas dores, se, desde cedo, o Mestre se viu perante tão rica e sumptuosa biblioteca, é natural o seu vastíssimo conhecimento, só o seu pai detinha seis licenciaturas, quatro mestrados e três doutoramentos, ou quatro doutoramentos, três mestrados, pois, talvez fosse por aí, os seus três irmãos todos engenheiros destacadíssimos em diferentes áreas, ele simplesmente o Mestre, tudo estava dito, nem uma sílaba a mais, já antevendo crises climáticas e numa medida deveras ecológica, passou a realizar a sua higiene nos balneários daquele espaço, escusava assim de gastar água em casa, o ambiente não podia estar mais grato, o tempo, esse estranho que incessantemente nos ilude, passou, até que, sempre mais cedo que o expectável, o dono do espaço alerta-o de que, no dia seguinte, teriam de retirar tudo, uma fungadela, duas, ainda uma terceira, e “Cheira mal… Cheira muito mal…”, à sua frente apenas vislumbrou um conformado e sofrido encolher de ombros, como décadas se evolam num instante?! Na manhã seguinte, alguns curiosos se avolumaram à porta a assistir à retirada das mobílias e para um derradeiro adeus, a verdade é que, desde sempre, se ilumina uma luz interior aquando da desgraça alheia, o homem e os seus paradoxos, começou cedo o trabalho, a manhã já ia alta quando só faltava retirar a marquesa da salita, se assim se pode denominar uma divisão, de oito metros quadrados, numa cave, bateram à porta, como resposta “Cheira mal… Cheira muito mal…”, uma segunda vez, como resposta, de novo, “Cheira mal… Cheira muito mal…”, dez minutos, vinte, chamaram o antigo arrendatário para intervir, a porta permanecia fechada, uma hora, uma hora e meia, perante tal intransigência, viram-se forçados a arrombá-la, incrédulos ficaram perante o cenário encontrado: o Mestre amarrara-se à marquesa; houve gritos, súplicas, a notícia subiu mais rápido as escadas do que as pacientes do Mestre, na rua já comentavam, a multidão duplicou à porta, uns minutos depois, triplicou, tudo numa crescente ansiedade para ver o desfecho, uma hora depois, dois indivíduos saíram com a marquesa onde permanecia o Mestre amarrado, houve palmas, gritos, choro, clamor, incentivos, aclamações, o povo num frenesim à vista do Mestre amarrado à marquesa, só quando a agitação serenou um pouco, a marquesa foi colocada, uns metros acima da porta, no passeio, o povo, de imediato, acorreu, um jovem aproximou-se e disse algo, o Mestre, ainda amarrado à marquesa, olhou-o e, com notória assertividade, disse-lhe: “Oh jovem, a falar com o Mestre, com as mãos nos bolsos?!”

segunda-feira, 9 de março de 2026


 

... as grandes lições da existência gravam-se sempre mais na alma do que na carne...

in Nuvens passeantes pelas águas

sexta-feira, 6 de março de 2026

Finitudes

 


O mais curioso de tudo é que fomos lá juntos, quase parecia uma segunda lua-de-mel, os preparativos, passaportes, a escolha do fim-de-semana, os miúdos com a minha mãe, a viagem, assim que aterrámos, uma chuva miudinha omnipresente, pelo rosto, pelas roupas, ele “Já estou com saudades do nosso sol”, limitei-me à ternura de lhe dar a mão, assim silenciava angústias, ele, como sempre fazia, segurou-a num sentir feito gesto, após o aeroporto, a chegada ao hotel, a chave, elevador, o quarto (talvez alguém se tivesse esquecido de um sonho na almofada, não sei porquê, mas sempre desejei encontrar, nem que fosse por uma vez, um sonho abandonado. Tantas coisas largadas no mundo, mas ninguém se esquece de levar os sonhos consigo!), por fim, abrir malas, só depois, muito depois, um passeio já sob candeeiros iluminados, caminhávamos não pelas ruas novas para o nosso olhar, mas, no fundo, pelas interrogações que o amanhã nos apresentava. Há uns meses, sem nada me dizer, não sei se por afirmação pessoal, se por gozo, aventura, candidatou-se a uma vaga numa empresa de construção no exterior, que oferecia, entre muitas e vantajosas condições, o quádruplo do vencimento, disse-me, depois, que tropeçou no anúncio, contudo, contactaram-no, de imediato, para uma entrevista, da incredulidade inicial passou para um genuíno interesse, nesta fase, começamos a ver-nos dentro do quadro, foi enquanto se descalçava, não escolheu o momento ao acaso, que deixou no ar “Sabes que recebi uma proposta de trabalho do exterior?” Repara como ele colocou a questão… Ocultou apenas os seguintes factos: a candidatura foi de sua iniciativa, sabia das vantajosas condições de trabalho, como auferir o quádruplo do actual ordenado, partiu de uma carência de afirmação, e mais importante que tudo: já se via como parte integrante do quadro; não, não era um mero espectador, olhava-se já como personagem: e aqui reside a diferença entre equívocos e factos… Confesso que, na altura, não dei o devido relevo à sua questão, pois, não escolheu o momento ao acaso, ocupada que estava com o quotidiano, acho que lhe respondi “Olha que bom! Alguém que nos dê o devido valor”, a resposta saiu-me assim, quase como se fosse um cumprimento, uma exigência da educação, se fosse mais atenta, se não desse tanto de mim ao quotidiano, teria reparado que ele levara o triplo do tempo para se descalçar, que a frase lhe saíra a custo, numa naturalidade demasiada que apenas ocultava a teatralidade da situação, que permaneceu sentado de costas, nem ousou virar o rosto, que deu um longo suspiro enquanto lhe respondia com o cumprimento, se fosse mais atenta conheceria, há muito, a diferença entre equívocos e factos.

Como dizia, pois, o passeio sob candeeiros iluminados, caminhávamos não pelas ruas novas para o nosso olhar, mas, no fundo, pelas interrogações que o amanhã nos apresentava, a chuva miudinha não se esquecia de nós, conferia às coisas uma imaterialidade de sonho, parecia que não pisávamos o chão do mundo, quase como se pairássemos sobre as coisas, apenas o frio líquido no rosto nos devolvia à nossa circunstância, um vulto ou outro, com o familiar guarda-chuva, protector de almas, sobre a cabeça, cruzava-se connosco na irrealidade daquele cenário nocturno, com pontos luminosos difusos e contorcidos pela cortina de água, regressámos, partiu de mim, eu não era personagem daquele cenário, tinha a alma desprotegida, chovia-me nas minhas dores, ele, pelo contrário, percebi que não se importava de continuar, só aquando dos primeiros esboços de regresso é que lhe compreendi contrariedade, já era um caminhante imaterial daquele sonho, sem eu saber, talvez algo lhe protegesse a alma. Foi sem surpresa que, no dia seguinte, após a entrevista, me anunciou ter aceitado a oferta de emprego, de novo, cada um caminhava pelas suas paisagens interiores… O resto, já sabes, passados dois meses, regressou, desta vez para ficar, àquela omnipresente chuva miudinha, agora que penso nisso, é curioso, parecia já lhe conhecer os contornos do rosto, ao contrário de mim, ele nunca fechava os olhos, como se lhe conhecesse o gosto, e os miúdos, quando contámos, abraçaram-se-lhe ao pescoço, aqueles lugares onde as palavras não entram, percebes, não é…? Nesses dois meses reaprendemos o namoro. Sabes aqueles objectos que procuramos incessantemente, depois, quando a sua existência há muito ignoramos, num repente, surgem diante de nós, como se nunca tivessem dali partido? Pois, assim foi com aquele estar do namoro, uma ânsia por alguém que encerra em si o Sentido, de um momento para o outro, apesar dos filhos, das fiéis contas na caixa-do-correio, dos anos de permeio, dos silêncios obstinados, das noites de omoplatas, ali estava, no tapete de entrada, como se nunca tivesse partido, renovámos juras de amor, ele “Aos fins-de-semana regresso. Estamos no século XXI! São só duas horas de avião! E a qualidade de vida que vamos garantir aos miúdos, já viste? E quando eu não puder vir, vão vocês ter comigo. Certamente, ainda vamos estar mais horas juntos,” enquanto ele falava, não sei porquê, surgiu-me a imagem da omnipresente chuva miudinha que parecia familiarizada com os contornos do seu rosto, os miúdos não o acompanharam até ao aeroporto, preferi que ficassem com a minha mãe, fomos só nós, uma mala bastou para se levar, não percebi se indiciava pressa de partir ou urgência no regresso, aguardámos sentados pelo  voo, descansei o pensar no seu ombro, enquanto ele calendarizava o futuro de regressos e partidas, e eu que sempre senti uma repulsa visceral por estes lugares de gestos efémeros que se suspendem num para sempre, até que uma voz mecânica anunciou a partida, caminhei a seu lado até onde me fui permitido, não ousei falar, o sentir desarrumado estender-se-ia à minha frágil voz, e no meu céu interior, naquele momento, uma omnipresente chuva miudinha, essa sim conhecia os contornos do meu rosto, abraçámo-nos durante o necessário de um sentir feito gesto, quando me regressei, ele já ia para além de efémeros gestos que se suspendem num para sempre, antes da derradeira porta, olhou para trás, o seu rosto estava como há dois meses, parecia dizer-me “Já estou com saudades do nosso sol”, o meu olhar desceu à mala que bastou para se levar, não percebi se indiciava pressa de partir ou urgência no regresso, é que há tantas coisas largadas no mundo, mas ninguém se esquece de levar os sonhos consigo.


 

domingo, 1 de março de 2026


 

"... estava sentada, num longo e desumanizado corredor, a humanidade, num hospital, só se circunscreve a alguns gestos, não é verdade?"

in Nuvens passeantes pelas águas

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Se regressar, espero lá nos encontrarmos

 


Não sei porquê, de repente, o meu olhar em lentos passos pelo seu rosto àquela hora, devia a tarde estar no auge, ou talvez já caminhasse um adeus, ele sentado à janela, na cadeira do costume, sempre com a rua, ou talvez não, pousei o que me ocupava o momento (e penso que mais vezes devia ter pousado o que tanto me ocupou os momentos…), enterneci-me com a expressão que ostentava, o menino do ontem e o velho do hoje num duelo para ver quem ocupava mais espaço naquele rosto, não se apercebeu de que pousara o que me ocupava o momento para o olhar, a luz de adeus do exterior, não sei porquê, inclinava as coisas a favor do menino do ontem, os cabelos de prata tornavam-se dourados, os sulcos da vida impressos na face tornavam-se difusos no jogo de sombras daquela hora, aproximei-me, não se apercebeu, sempre a rua, talvez aí procurasse o menino do ontem, estendi-lhe a mão e encaminhei-o para dentro, a dificuldade em se levantar acentuava-se, ainda há uns dias, a nossa mais velha A mãe tem de se mentalizar o que é melhor para todos. Qualquer dia, dá cabo da sua saúde também… Isto assim é que não pode continuar! Acha que o pai daria pela diferença, nesta fase, de estar em casa ou num lar? Sinceramente, devia poupar-se… Desde cedo, percebi a proximidade entre palavras e lâminas, quase lhes sinto uma certa consanguinidade, por uns momentos, detive-me a olhá-la pelo lado do ontem, talvez por saber que ajuda a suavizar as coisas, dessa janela, via-a às cavalitas do pai, a insistir, nas manhãs de escola, quase em birra, para que fosse o pai a levá-la à escola, e aquela noite, antes de jantar, eu sabia de antemão do que se tratava, a campainha, disse-lhe para descer e ajudar o pai com as compras, lá em baixo deparou-se com um carro novo, assim que a viu, o pai atirou-lhe as chaves, ela entre a incredulidade e uma alegria irreprimível, quase o sufocou com um daqueles abraços sem amanhã. A irmã, bem mais nova, não se conteve Quando for mais velha, também vou ter um, não é? Não tardámos com o Sim. Veio numa fase em que, de certa forma, já estávamos acomodados, a sua chegada fez-nos despertar para a existência, como se revivêssemos um período há muito ido. Mas a mais velha, talvez pelas exigências da idade, ou do temperamento, exigia-nos mais cuidados. Sempre que pensava nas diferenças entre elas, a imagem da minha vizinha com os dedos estendidos e a frase recorrente a ilustrar Pois é, os filhos são como os dedos da mão, têm a mesma origem, mas são todos diferentes. Nunca se esqueça disto! Anos depois, a mais velha, claro, exigia-nos mais cuidados, trocou o curso por um súbito casamento e uma maternidade quase imposta, não gostámos da sua escolha, mas sabíamos, de antemão, que, neste particular, escolher estava além do nosso jardim, respeitámos, claro, embora isso não quisesse dizer que aceitássemos, certa noite, levou o sujeito lá a casa, teria mais uns dez anos que ela, um divórcio às costas, dois filhos reféns desse outrora lar, sobrevivia pelo ramo imobiliário, denotava-se pelo discurso tiques de vendedor, assim que o vi, confesso, desagradou-me, o mesmo sucedeu com o pai, bastou darmos as mãos, enquanto eles entravam, para nos percebermos… Desde o fato profusamente coçado, à pasta de gel que reflectia candeeiros, aos despojos de acne de uma juventude sofrível que lhe pontuavam o rosto, à artificialidade dos gestos e modos que indiciavam somente um carácter sem chão, de facto, não, não gostámos da sua escolha, ainda hoje, quando, num acaso da vida, regresso a estes momentos, não é difícil, basta olhar o rosto do meu neto, questiono o que levou minha filha a olhar aquele sujeito, o miúdo, coitado, sempre o mantivemos fora desta arena de sentires desordenados, embora lhe reconhecesse, em certos traços de carácter, a herança paterna, talvez na verbosidade, muitas vezes, de assuntos onde estava tão aquém… O curso esfumou-se, o filho ficou, o sujeito partiu, foi reflectir candeeiros para outras paragens, o resultado expectável, não houve censuras, recriminações, nada, quando a campainha soou mais pesada, parecia anunciar o filho e as malas que ela trazia, o pai limitou-se a abrir-lhe a porta com uma expressão ternurenta, preferiu calar-se a dizer algo desajustado, eu não consegui, assim que as malas e o miúdo sob a luz do candeeiro da entrada, não me contive Pois… Pois, de falta de aviso não te podes queixar… Estava escrito! Só não viu, quem não quis, não ousou ripostar, no fundo, ela sabia de que lado estava a razão, e apesar de orgulhosa, a sobrevivência impunha-se. A irmã não se manifestou, estava naquela fase da vida em que a manhã compreende que se torna tarde. Não se seguiram tempos fáceis, porém, ela não permitiu que o miúdo se tornasse em mais uma despesa nossa, empregou-se, apesar da insistência paterna para que retomasse o curso, respondia laconicamente Agora é impossível! Tenho um filho. E sou eu que tenho de lhe pôr o pão de cada dia na mesa. Tínhamos orgulho pela assumpção da responsabilidade, contudo, havia em nós simultaneamente uma dor inconfessada pelo curso abandonado e por uma existência inconclusa: sempre que a olhávamos, víamos duas pessoas: a real e a sonhada; a que é, e a que podia ter sido. Ela também o sentia, daí a pressa constante, nos gestos e palavras, sempre que na nossa presença. É sabido que, pelo menos, vivemos duas vidas: a pensada e a vivida. Somos plurais, é um facto. Foi o pai que a fez reaprender a lentidão dos gestos e palavras, quando se aproximou do neto, lhe aligeirou, com o seu saber, o fardo de existir, e, por fim, fê-la sorrir, como um caminho que, sem saber muito bem porquê, nos esquecemos ou deixámos de usar por uma qualquer súbita conveniência…

Desde cedo, percebi a proximidade entre palavras e lâminas, quase lhes sinto uma certa consanguinidade, por uns momentos, detive-me a olhá-la pelo lado do ontem, talvez por saber que ajuda a suavizar as coisas, mas não, pelo contrário, como é que ela ousa Acha que o pai daria pela diferença, nesta fase, de estar em casa ou num lar? Sinceramente, devia poupar-se… Depois de, numa outra vida, foi tão ontem que assim me parece, com uma infinita paciência o pai tê-la feito reaprender a lentidão dos gestos e palavras, quando se aproximou do neto, lhe aligeirou, com o seu saber, o fardo de existir, e, por fim, fê-la sorrir, como um caminho que, sem saber muito bem porquê, nos esquecemos ou deixámos de usar por uma qualquer súbita conveniência… Hoje vejo uma sombra do homem que foi, mas, pelo menos uma vez por dia, através de um olhar, um gesto, um sorriso, a sombra dilui-se e ele ressurge, como se não houvesse ontem, como se nunca tivesse partido, e isso para mim é mais que suficiente.