Há figuras que, de tão obscuras, só nos
apercebemos da sua existência pelo lodacento rasto que deixam, assim é a beata
maledicente, nem lhe conheço a sonoridade das palavras, o mundo, neste ponto,
amanheceu-me, embora arvore, em múltiplas circunstâncias, conhecer-me
familiares, pois, tempo a mais e escassez de intelecto desaguam em verborreia
sobre a existência dos outros, à superfície mulher de muitos valores, sobretudo
religiosos, reitero: à superfície; mais uma papa-hóstias de sacristia, pródiga
em cumprir os ritos eclesiásticos: eucaristias, procissões, acções de
beneficência, parece, avistada da lonjura, rumo à santidade, até se infiltrou
num ramo mais ortodoxo do catolicismo, onde o prefixo “neo” nada augura de bom, como se, alguma vez,
estes lá soubessem o que é uma catacumba, o esplendor da hipocrisia, enfim, a
figura de Cristo tudo escuda, não se equivoque o leitor, Jesus Cristo é das
figuras que mais colhe a minha admiração, daí o meu asco a quem se escude na
sua luz para todo o tipo de vilezas e hipocrisias, nem me alongo a inquisições
e afins, por ora, basta-me o exemplo da beata maledicente; pagelas, contas
rezadas entre dedos, olhar pregado no altar, assumir a dianteira, em procissões,
com o marido, um rotundo idoso, igualmente rato de sacristia, ali vão, com
folhas de palmeira na mão, hossanas gritadas, jamais sentidas, secundados por
dezenas, dos tais que se infiltraram num ramo mais ortodoxo do catolicismo,
tudo num delírio de cantorias e rezas, como se, por desígnio divino, fossem os
escolhidos, cruz ao peito e filhos a rodos, dois sinais identitários, sem
esquecer as cantorias e os retiros, bem disse Cristo, “Deixai-os: são cegos
a conduzir cegos,” há, sem dúvida, uma
lógica subjacente a estes contextos que permite a aproximação destas figuras,
tudo somado, o que dali emerge? Uma beata maledicente! Há uns tempos,
aproximou-se de um incauto sob o pretexto de alertar para um hipotético perigo,
como ela gosta de falar de um pedestal (às vezes, questiono-me de onde provém
tanta carência…), num mundo de sombras, qualquer gesto, de aparente bondade, afigura-se
positivo, no entanto, o tempo, esse frio e cruel juiz dos factos da vida,
desvelou as reais intenções da beata maledicente: ganhar a confiança daquele
peão para o manipular no tabuleiro dos seus interesses… Quem diria? Uma
papa-hóstias de sacristia, pródiga em cumprir os ritos eclesiásticos:
eucaristias, procissões, acções de beneficência, parece, avistada da lonjura,
rumo à santidade; e, pasme-se, pariu oito vezes, pelo menos… Como é possível?!
Se assim são os beatos, imagine-se os satânicos! Como já havia referenciado,
esta beata é pródiga em verborreia sobre a existência dos outros, muito canta,
com uma folha de palmeira na mãozita, à cabeça das procissões, hossanas, mas a
Palavra de Cristo é-lhe uma total incógnita, “Não deves julgar”, um dos mais sublimes mandamentos do
Nazareno, não foi, de todo, assimilado por esta criatura, reconhecida pelo seu lodacento
rasto, aqui chegados, resta questionar: Será escassez intelectual? Ou simplesmente
um carácter torpe? De formação está nas misturas químicas, até aí bem distante
do Logos, é vê-la a entrar em reuniões,
à porta fechada, por corredores sombrios, para debitar informações colhidas a
mais incautos, outra das curiosidades desta personagem, não são muitas,
convenhamos, está precisamente no facto de ocultar os grisalhos com que o tempo
a presenteou, ao contrário de outros elementos femininos da seita a que
pertence, que se orgulham de cada grisalho como se uma bênção, desconheço se
chegam a cantar hossanas, com uma folha de palmeira na mãozita, para celebrar a
sua chegada, pois, é possível que sim, a beata maledicente gosta de passeios,
uma forma de contornar o horário laboral, uma praxis sua de há muito, por estes
dias, irá a caminho de Madrid, na companhia de uma Porcachona, imagine-se o
conteúdo de tais diálogos: uma verborreia de baixo intelecto com os grunhidos
enlameados em dejectos de uma Porcachona: nem restará um santinho no altar
aquando do regresso… Até deixo uma sugestão: a beata maledicente levar a sua
viola, a Porcachona um microfone para emitir os seus grunhidos, e que dupla
promissora teríamos, bom, é melhor deixar a folha de palmeira fora da equação,
não vá a Porcachona confundir com um dejecto e prontamente engoli-la… Caro
leitor, não permita que estas linhas esmoreçam a sua fé, beatas maledicentes há
em todos os cultos, que tenham parido oito vezes talvez não haja assim tantas,
com tamanha verborreia, de baixo-intelecto, sobre a existência dos outros,
também não, mas bem disse Cristo, “Deixai-os: são cegos a conduzir cegos.”
segunda-feira, 27 de abril de 2026
A beata maledicente
domingo, 26 de abril de 2026
sexta-feira, 24 de abril de 2026
A saudade de um sentir saudoso
Quando dei por mim, despia
molduras, devolvia-as àquela transparência, quase imaterial, de uma existência
indefinível, como se uma janela que o deixasse de ser, foi o que me pareceu na
altura. Tudo tão recente, e eu perdida naquele tumulto do meu sentir, vivia uma
noite contínua, sem prenúncio de manhãs. É estranho, não é? Essa sensação de
uma noite infinda? Mas é o que melhor traduz aquele período da minha vida, não
me lembro, durante esses longos e absurdos dias, de ver o sol, talvez já não me
recordasse de como olhar as alturas, é possível… Como dizia, quando me
regressei, despia molduras, parecia-me, de certa forma, que me negava, me
subtraía, não sei porquê, como se me desdobrasse entre o que sou e o que fui,
e, ao certo, não me encontrava em nenhum dos lados. Não sei se me faço
perceber? Compreendes, não é? Ou talvez não? Que dizes? Estou a aborrecer-te?
Se estiver, diz! Por favor! A última coisa que quero é aborrecer alguém com os
meus assuntos… Mas aquele dia ainda por aqui, tão nítido, quase ouço cada som
desde o amanhecer até que a noite tudo serenou, menos, como sempre acontece, os
sentires desordenados, e como o meu por aí andava… Regressámos, na véspera, de
duas semanas de praia, já tarde, ele sempre insistiu em gozar as coisas até ao
último momento, eu preferia antecipar um pouco, assim permitia organizar-me um
pouco, mas os miúdos secundavam-no naquele desejo de permanecer até ao
possível, e assim foi, rodámos a fechadura do nosso lar bem depois das dez da
noite. Claro que o dia seguinte ainda de férias para ambos, daí a minha
estranheza, pela manhã, por não o encontrar a meu lado, pensei que talvez
estivesse na cozinha, levantei-me, procurei-o pela casa, três ou quatro
divisões não nos levam assim tanto tempo, e nada… Nem vestígios! Liguei-lhe de
imediato, só a voz fria e mecânica do atendedor, não sei por que razão, se
pelas cores do dia, se pelas sombras do meu pensar, se pelo estranho silêncio
àquela hora, não sei, confesso, porém, senti que algo mudara, e de forma
irreversível, o frio súbito que me invadia ajudava a materializar esta certeza,
de repente, senti-me náufraga, não por ele, claro, mas por mim, ia ao sabor das
correntes do meu desespero, a porta do quarto dos miúdos fechada, mesmo assim
ouvia-se-lhes a respiração, de facto, ele fizera muito pouco barulho, caso
contrário, os miúdos já com a televisão, qualquer coisa servia de pretexto para
deixarem a cama, é curioso, há quem diga que só não se recupera o tempo,
discordo, eu acrescentaria o entusiasmo, os momentos, e quem fomos, afinal,
viver é subtrairmo-nos… O resto já sabes, o apartamento que alugara com a
outra, para onde cobardemente fugiu naquela manhã, a guerra instalada pelos
bens, os miúdos no meio, coitados, pois, viver é subtrairmo-nos, contudo, ainda
hoje fico perplexa pelo momento que escolheu para nos deixar: após o regresso
de férias! Confesso que, há uns largos meses, ser-me-ia impossível falar disto
assim, e com esta distância, pois, foi penoso aqui chegar, lembras-te da… Pois,
sim, essa… Ainda no outro dia a vi, passeio fora, num claro sem destino, logo o
comentário do meu mais velho: “O que um homem faz a uma mulher!” Retorqui que
se calasse, afinal, o que é que um garoto de doze anos sabe do amor? Mas esta
questão não me deixou logo, ficou comigo por mais algum (“O que um homem faz a
uma mulher!”), e reflecti na minha expressão diante de um espelho escurecido lá
de casa, haveria alguma similitude com a da…? É possível, daí a observação do
miúdo, mas o que poderia ele saber do amor? Pouco, sem dúvida, mas talvez
percebesse as suas consequências, talvez… Não sabes de quem estou a falar?
Então, não estás a ver quem é a… Morava no prédio em frente ao nosso, víamos o
marido, aos fins-de-semana, logo pela manhã, de calções, fosse Verão ou
Inverno, em animadas correrias pelo bairro, até que correu para bem longe de
casa, com a empregada do café, que tem aproximadamente a idade da filha mais
velha deles, enfim, como eu agora a compreendo! Uma pessoa dedica a sua vida a
outra, para isto! Parece que vivemos uma amarga fantasia, percebes, não é?
Repara, consagramo-nos ao outro e, de repente, somos cuspidos da sua vida, como
se fôssemos um qualquer acessório descartável, desculpa-me, mas não encontro
outras palavras para descrever o que por aqui me vai dentro do peito… E como
dói! Por favor, não me perguntes, como já outros fizeram, se é a decepção pelos
anos de casados, se é o facto de ser trocada, se foi a traição, se foi nem
sequer ter pensado, por um segundo, nos filhos, se tudo isso ao mesmo tempo…
Sabes, o que dói mais é ter, neste momento, mais de cinquenta anos e sentir-me
uma criança amedrontada por, de repente, o mundo parecer-me um lugar
anoitecido. De certa forma, sinto-me vampirizada, ele levou-me os melhores anos
de mim, olho, agora, à minha volta com a estranheza de uma criança, mas com a
energia de uma idosa. Se isto sucedesse há uma década, enfim, recomeçar ainda
seria um horizonte tangível, porém, hoje olho-me ao espelho e estou naquela
fase em que me deixo de reconhecer, ou seja, quando o pensar se senta na margem
do nosso existir. Bom, desculpa, estou a aborrecer-te com os meus problemas e
tu ainda não falaste nada de ti, que dizes? Se ainda penso nele? Como não? Às
vezes, ao final da tarde, dou por mim na marquise da sala, como sempre fazia, a
olhar para o fundo da rua, à espera de ver os faróis do seu carro, e de noite,
como dói, sentir frio o seu lado da cama, talvez por pudor, ou por uma
esperança ainda não silenciada, cinjo-me ao meu, quem sabe se, um dia, ele cai
em si e percebe o vazio deixado. Levou-me mais de metade da minha vida, agora,
uma coisa te garanto, se alguém me vir, de manhã ou de tarde, passeio fora, é
porque sei a direcção de cada passo.
sábado, 18 de abril de 2026
Por ruas desertas anoitecidas
Por ruas desertas anoitecidas, guio
num sem destino, como se soubesse lá o que isso é, o mundo, volta e meia,
resolve colocar a máscara da felicidade (como se soubesse lá o que isso é),
nunca fui apologista de máscaras, tantas, talvez demasiadas, no labirinto de
nós que desconhecemos, caem na sucessão da voragem dos dias, daí a constância
daquela frase (Nunca pensei que isto
algum dia me acontecesse… Nunca pensei alguma vez responder-lhe assim… Nunca
sonhei que teria de passar por isto… Nunca pensei ter de recorrer a tal coisa…
Nunca pensei…), pois, mas as esquinas da vida ferem-nos, e, enquanto
sangramos, redireccionamos o leme do nosso existir. Continuo por ruas desertas
anoitecidas, à minha volta só luzes, das casas, dos semáforos, dos candeeiros,
e o motor sedento de mudanças, que coloco num automatismo felizmente para mim
despercebido, o único som desta noite, primeira e última do mundo, há qualquer
coisa de irrepetível na noite, talvez por sempre constituir um fim, o regresso
ao lar, a janela que se fecha, a luz que se acende, e uma aparente harmonia
restituída… Até quando?
Olhava a colher trémula, receoso,
contudo, a sua abnegação persistia, diariamente, com a sopa do almoço, com o
doce de pêssego ao lanche, a sopa vespertina, o xarope para a tosse, ela
limitava-se a entreabrir os lábios, sem sequer emitir um som, quanto mais uma
palavra, sorvia na distância, pois há muito partira. Foi numa certa manhã, ela
a queixar-se de dores de cabeça, ele a relativizar, afinal, já habitavam o
Inverno da vida, viviam da magra reforma dele, emissário de desgraças e de tão
poucas graças durante a vida, em determinadas ocasiões, quando a missiva impunha
assinatura do destinatário, nem ousava tocar, preferia escrevinhar que ninguém
atendeu, pelo peso do envelope aprendera a saber-lhe o conteúdo, e cansara-se
de ver rostos desesperados, e quanto mais olhava a terra, sob o peso do saco
dos desencontros alheios, mais colocava a cruz ao lado de Ninguém atendeu… É curioso, as cartas passavam por ele seladas, no
entanto, permitiam-lhe saber a geografia de cada existência. Houve uma história
que o tocou particularmente, sempre soube o porquê, talvez por isso nunca a
tivesse partilhado com ela. É natural, a aprendizagem das dores é a
aprendizagem do silêncio, só assim sobreviveram àquela tarde em que a campainha
num pânico súbito, a contrastar com a indolência da tarde domingueira, ele num
regresso forçado da sesta à sua circunstância, de sofá e jornal caído na
carpete, ela também a desviar os olhos da televisão para a porta, embora o
coração… Pois, o coração nos seus monólogos de profeta, farol do sentir, a
sussurrar-lhe que o filho caído no alcatrão da estrada, correra por uma bola,
apesar da tentativa de travagem, por demais documentada no pavimento, tudo
infrutífero, o murmúrio insistente: É
isto que se passa! É isto que te vão dizer! Prepara-te! Ela num assomo de
esperança Tens a certeza? A resposta
pronta Lamento! Nessa tarde, foi ele
que calou a dissonante campainha, foi ele que recebeu a notícia, foi ele que
ficou lívido e emudecido sob a ombreira da porta, ela nem se levantou,
permanecia de olhar fixo numa moldura que lhe devolvia um sorriso do filho…
A aprendizagem das dores é a
aprendizagem do silêncio, chegou tarde e partiu-lhes tão cedo, a vida é isto:
uma soma de incompreensões! Como dizia há pouco, as cartas passavam por ele
seladas, no entanto, permitiam-lhe saber a geografia de cada existência. Houve
uma história que o tocou particularmente, semanas após ter deixado a cruz ao
lado de Ninguém atendeu, o
destinatário era um casal jovem, ela em dificuldades com os degraus, já teria
dobrado o sétimo mês, o rapaz sempre diligente a seu lado, deixou os estudos
para assumir as expensas desta nova fase da vida, de obras a biscates abraçava
prontamente todas as possibilidades, ouvia-se dizer que deixaram o interior
para fugir às más-línguas, e também ao desacordo das famílias na sua união,
seguiram-se envelopes gordos, até que, numa certa manhã, os viu com três malas,
pousadas, à porta do prédio, o bebé ao colo da mãe, andaria pelos dois meses,
antes de depositar as cartas, parou junto deles, Bom dia! Estão de partida? Ambos responderam com uma silenciosa
expressão de derrota, ele não soube o que retorquir, era uma manhã fria, o bebé
soltava espirros regulares, por fim, apenas lhe restou uma questão, a mais
franca possível, Têm para onde ir? O
rapaz Temos de regressar à terra. Levantou
os olhos, sempre de mãos nos bolsos, ele que de obras a biscates abraçava
prontamente todas as possibilidades, encolheu os ombros, e acrescentou Sabe, o que mais me dói é que nem um berço
ainda consegui comprar para o meu filho… Esta frase ressoou-lhe por muito nem um berço ainda consegui comprar para o
meu filho… De novo, aquela evidência: a vida é isto: uma soma de
incompreensões.
De vez em quando, apesar de hoje a
colher trémula na sua mão, da partida dela para uma incompreensão distante, ele
insiste numa frase do ontem As amoras
sabem a Agosto… Por momentos, os lábios dela suavizam-se, como se uma
memória se erguesse na paisagem de si, ele de novo As amoras sabem a Agosto… E tudo talvez seja uma outra coisa.
Por ruas desertas anoitecidas, guio num
sem destino, como se soubesse lá o que isso é, o mundo, volta e meia, resolve
colocar a máscara da felicidade (como se soubesse lá o que isso é), em cada
janela uma história, umas vão a meio, outras já se contaram, a vida é isto: uma
soma de incompreensões, com algumas certezas a que nos agarramos, para assim
nos sabermos (quantas vezes nos largamos no mundo?), e nesta rua deserta
anoitecida, uma frase levanta-se em mim de um ontem tão ontem As amoras sabem a Agosto…
segunda-feira, 13 de abril de 2026
domingo, 12 de abril de 2026
É preciso morrer para ser visto
O que é perder a razão? A primeira vez que me coloquei esta questão foi há muito,
ainda pela mão dos meus pais, sempre que alguém contra-corrente do que se
espera, logo Coitado! Perdeu a razão! Essa
possibilidade, não sei porquê, sempre se me afigurou tão longínqua, mas o
tempo, volta e meia, dá-nos a mão e leva a olhar abismos nunca
pensados, pois, como dizia, ainda pela mão dos meus pais, e, lá por casa, vozes
preocupadas relatavam a história de alguém próximo que perdeu a razão, daí o internamento numa casa de repouso, estranha
mania esta de um povo suavizar as coisas, sempre é mais elegante de que
hospício, bem verdade, mas porquê esta urgência de se contornar a realidade?
Ainda lá por casa, Coitado! Teve um
esgotamento… Logo eu a idealizar uma olímpica tarde de futebol, daí o esgotamento, do alto dos meus oito anos
que mais podia eu conceber? É curioso, hoje raramente ouço falar em esgotamentos, já soa anacrónico, o
vocábulo actual é depressão, quase
virou moda, por tudo e nada arranja-se, com facilidade, uma depressão, da incompetência à impotência
tudo está justificado. Mas regresso àquela história, lá por casa, de alguém
próximo que perdeu a razão, daí o
internamento numa casa de repouso, a génese de tudo foi o coração (Não será
sempre?), talvez tenha corrido demasiado por ela, daí o esgotamento, quando
parecia que, afinal, ela companheira da miragem. Começou a andar enervado,
volta e meia, murros em portas, gritos ao telefone, ausências nas refeições
familiares, os livros arrefecidos a um canto, os semestres, na faculdade,
insensíveis a esgotamentos, e também
creio que a depressões, assim
continuem, sinal de que nem tudo vale, para ela, constituiu um mero
apeadeiro na longa viagem da vida, contudo, ele via-a como a estação final,
quantos equívocos assim ocorrem a cada dia do mundo? Ela deixou de atender o
telefone, e a campainha, diziam-lhe que tinha saído ou que partira de
fim-de-semana, caiu num vazio desesperado, para o preencher, refugiou-se na
fantasia, tudo começou com a insistência por mais um prato à mesa, justificava
que ela viria jantar lá a casa, a princípio, os pais cederam, mas as contínuas
omissões fizeram perceber o pior, numa certa ocasião, ele chegou a esvaziar
várias lamelas, felizmente os seus conhecimentos químicos não eram muito
vastos, daí ter resultado na soma de uma sonolência redobrada com uma ligeira
afectação intestinal. No entanto, o alarme parental tinha soado. Tentaram, como
quase sempre sucede, primeiro, o diálogo (Então?
Achas que ela vale isso? Há mais raparigas no mundo! Estás a destruir a tua
vida por uma tontice… Um dia, vais ver, ainda te vais rir de tudo isto…).
Porém, quando a noite entra na nossa vida, é quase impossível perceber quão
fugaz é a sombra do dia. Ainda dois meses por ali, agora com lamelas
prescritas, volta e meia, aquando das visitas parentais – as únicas que
efectivamente se registaram –, a voz dele quase suplicante Ela ligou? Tem perguntado por mim? Não está, por acaso, aí fora? Os
lábios secos, ostentava uma cor amarelecida, realçada pela brancura do roupão,
como se lá fora a tarde não estivesse no seu esplendor, a voz saía-lhe
arrastada e numa pronúncia de idoso, foram aconselhados a não responder, a
direccionar as conversas noutro sentido, é natural, quando se esgota a
circunstância, devemos partir para outras paragens… Ainda hoje, não sei se ele
recuperou, na totalidade, a razão. Confesso que não acredito. Há coisas que a
vida, simplesmente, nos vai subtraindo. A razão é uma delas. O que é perder a razão? Essa
possibilidade, não sei porquê, sempre se me afigurou tão longínqua, mas o
tempo, volta e meia, dá-nos a mão e leva a olhar abismos nunca
pensados, hoje, a espaços, admito que a maior lucidez reside no adeus à razão. Como se de uma
inevitabilidade se tratasse. Talvez aqui resida a lógica da sobrevivência.
Quando a maioria se esqueceu de olhar os céus, que mais nos resta? Não raras
vezes, invejo quem trocou a razão por
amor, no fundo, tratou-se de uma escolha e nunca de uma perda. A perdê-la,
se é que tal já não me sucedeu, que ao menos fosse por amor, e, se numa tarde,
alguém me encontrar de lábios secos, com uma cor amarelecida, realçada pela
brancura do roupão, com uma voz arrastada e uma pronúncia de idoso a perguntar
(Ela ligou? Tem perguntado por mim? Não
está, por acaso, aí fora?), seria bom sinal, teria escolhido o lado dos
vivos nesta coisa da existência.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
O chão do mundo
Hoje sabia que ninguém me esperava. Um desses dias em que as
sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, uma
janela que se abre para a paisagem onde não nos queremos ver, apesar de por ali
as nossas pegadas, chegamos a duvidar, a certa altura, da nossa existência…
Como dizia, não tinha pressa em chegar a casa, ia encontrar o frio gritante do
silêncio, que nos murmura incessantemente solidão,
e o nosso sentir mais arrefecido que o exterior, pelos passeios, olho gente
sentada em cafés, em conversas ridas, não vislumbro, por ali, os silêncios que
pousam, quando eu, outrora, tacteava diálogos, nesses momentos, eu partia para
as lonjuras que me habitam, de facto, nunca fui de cafés, risadas, festas,
danças… Aprendi a disfarçar esta inquilina tristeza, os meus pais anunciavam ao
mundo Esta nossa filha é muito
concentrada! Eu aquém concentrações, apenas refém de uma tristeza que me
tolhia o ser, a minha irmã, ao contrário de mim, sempre convidada para festas,
uma inigualável sede de roupas, cachecóis, sapatos, malas, só a ouço em
risadas, de vez em quando, sinto-lhe o olhar receoso a seguir-me os passos,
enquanto os meus pais, apreensivos com tantas risadas, murmuravam Ao menos, Deus concedeu-nos um filha
concentrada… E eu sentia-me tudo menos concentrada, só com ele, sentado
diante de mim, esta tristeza afastava-se, como se uma concessão de tréguas,
nesses momentos, eu sentia-me parte integrante de qualquer café, não, não
chegava às risadas, festas, danças, gostava de ali estar com ele, a sentir a
pulsação da cidade lá fora, carros, buzinas, passeios, gente que os caminhava,
para mim, rostos inexpressivos, talvez por não me demorar neles, se por aí me detivesse,
perceberia que se ocupavam em intrincados cálculos para aportar na margem do
mês seguinte, outros pela doença de um filho, ou por um divórcio anunciado,
creio que poucos questionam a morte do sonho, substituem este facto pela
denominada maturidade, pelo vidro,
vejo-os, lá fora, a povoar estradas e passeios, já não se olham, evitam-se num
absurdo desumanizante… Como dizia, só com ele, sentado diante de mim, esta
tristeza afastava-se, como se uma concessão de tréguas, talvez um sonho se
erguesse algures em mim, às vezes, ele, num repente, levantava-se, dava-me a
mão, e só parávamos junto ao mar, ali ficávamos, dentro do carro, a eternizar
aquele instante em que a luz partia da terra para nos relembrar sonhos caídos…
Outras vezes, íamos até aquela discreta pensão, duas travessas à direita do
café, demorava, claro, a recuperar a intimidade, falávamos, falávamos, mais
ele, como é evidente, sempre preferi ouvir, assim ia a tarde, assim ia a minha
vida…
Hoje sei que ninguém me espera. Um desses dias em que as
sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado,
nunca concebi, confesso, apaixonar-me por um homem casado, muito menos assumir
o papel da outra, a palavra amante sempre
me soou mal, meus pais, coitados, de mim diziam Esta nossa filha é muito concentrada! Mal sabiam, coitados, mas que
podia eu fazer? Para ajudar com as contas caseiras, enquanto estudava,
trabalhei na recepção de uma clínica veterinária, foi lá que nos conhecemos,
lembro-me tão bem da primeira vez que o vi, é um desses momentos a que regresso
múltiplas vezes, tinha um rafeiro de médio porte, assim que entrou, sabia-lhe a
voz, é tão estranho, quando se abeirou do balcão, já a tristeza partira de mim,
nessa semana, regressou por mais duas ou três ocasiões, o cão tinha sido
atropelado, embora não fosse grave, o anelar preenchido não me passou ao lado,
porém, algo me impelia na sua direcção, talvez a súbita ligeireza por largar o
fardo de uma vida (Esta nossa filha é
muito concentrada!), a tristeza que me tolhia o ser, ele também se
demorava, cada vez mais, do outro lado do balcão, por norma, era o último
cliente, queixava-se de falta de tempo, sempre o trabalho, percebi que lhe
seguia as pisadas académicas, ajudou, claro, a solidificar as pontes de
diálogo, uma noite, com o pretexto da caminhada nocturna do cão, deixou-me à
porta, outras se seguiram, algo, agora mais forte, continuava a impelir-me na
sua direcção, apesar do objecto amarelecido exibido no anelar, de um filho na
primária, de não haver vislumbres, em palavras ou actos, de algum dia partir
daquela ilha, ainda assim, eu continuava a caminhar a seu lado, pelo restituído
sabor da noite, as afinidades académicas pois, e a súbita ligeireza, quantas
vezes largamos o fardo de uma vida? Hoje, tanto tempo depois, continuo
desencontrada da palavra arrependimento, não sei se é positivo, não sei,
confesso, nunca fui de ideias gerais, a mulher dele, a certa altura, criou uma
ideia de nós, apenas isso, nunca a materializou, desconfiar é isso mesmo,
formar uma ideia sem lhe encontrar um corpo, tivemos as nossas cautelas, como é
evidente, no meu caso, queria apenas que a tristeza se mantivesse na soleira da
porta, claro que, volta e meia, acabava por entrar, nos períodos festivos, nas
férias grandes, nunca soube o que é isso a seu lado, e doía-me nas minhas
funduras a solidão desamparada de me saber assim, com o tempo, os meus pais Esta nossa filha é muito concentrada! Só tem olhos para os livros… Já não sei
se diziam isto para se convencerem, se para iludir os outros, a minha irmã de
casamento marcado, não obstante as festas, uma inigualável sede de roupas, de
cachecóis, de sapatos, de malas, as infindáveis risadas, eu aquém destes
cenários, certa vez uma tia ousou E tu,
minha filha? Quando é que chega a tua vez? Olha que filhos depois dos 30… Logo
o meu pai vociferou Esta nossa filha é
muito concentrada! Só tem olhos para
os livros… Acho que nem ele já acreditava. O tempo continuou o seu caminho,
após o curso, vários empregos até estabilizar, entretanto, um sobrinho, de vez
em quando, com a desculpa de um congresso para a mulher, partíamos de
fim-de-semana, doía-me não poder apresentá-lo aos meus, contudo, dessa forma,
era como se pisasse uma paisagem só minha. Andaria o meu sobrinho aí pelos
doze, quando, numa manhã, a voz dele tão distinta do que conhecia,
arrastava-se, ao telefone, como se numa espera pelo pensar, falou-me em
almoçarmos naquele restaurantezito discreto, onde íamos habitualmente, disse
que sim, mas logo a inquietude ao leme do que sou, aquele arrastar de voz, tão
próximo do soletrar, insisti Mas passa-se
alguma coisa? Ele, impassível, quase numa anestesia, Falamos ao almoço… E custou a chegar a hora desse almoço, entrei e
sentei-me na mesa habitual, esperei uns doze minutos, por fim, ele, curvado,
com um semblante de derrota, disse-me Vem,
falamos ali fora, acedi, confirmou-se o pior cenário, num exame, para a
mulher, teria de retirar um peito, e, mesmo assim, sem garantias, acrescentou Não podemos continuar… Baixou o olhar,
antes de terminar a frase, não regressámos para a mesa, ainda não tínhamos
pedido, abraçámo-nos pudicamente, dei-lhe um beijo na face, enquanto ele me
segredava, numa doçura suplicante, Espero
que compreendas… Partimos em direcções opostas, creio que, nesta vida,
raramente caminhámos rumo ao mesmo horizonte…
Hoje sei que ninguém me espera. Um desses dias em que as
sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, uma
janela que se abre para a paisagem onde não nos queremos ver, entretanto, o meu
pai deixou-nos, faz agora pouco mais de um ano, sempre aquele terrível inimigo
que nos dilacera por dentro, e que ninguém aparentemente quer derrotar (a quem interessará tal força?),
felizmente ainda conheceu a neta, pois, fui novamente tia, desta vez, de uma
linda menina, tem agora oito aninhos, a minha mãe refugiou-se no serviço
paroquial, reforma e viuvez não são boas conselheiras, e eu para aqui ando, faz
dez anos aquele púdico abraço. Nunca mais nos vimos. Nunca mais soube nada
dele. De certa forma, foi o único final possível. E admirei o seu gesto de
regressar inteiro naquela hora. Houve tanta nobreza nesse momento. Desde então,
regressou a minha velha companheira de viagem, recebi-a com indiferença, foi
discreta na sua reentrada, está para ali, no seu canto, e não me incomoda,
chego a casa, não acendo logo a luz, nalguns gestos sinto os passos do tempo, é
natural, dele só resta uma fotografia, nem está à vista, hoje, tanto tempo
depois, continuo desencontrada da palavra arrependimento, basta-me relembrar
aquele instante em que a luz partia da terra para nos relembrar sonhos caídos…
quarta-feira, 1 de abril de 2026
"No fim
de contas, são poucos a ter o dom de alterar a direcção do nosso caminhar, de
nos desconstruírem convicções, de, num repente, nos colocarem face a um dos
actos mais radicais da existência: virar costas a tudo o que edificámos para
contemplar o seu rosto, nem que seja por mais um entardecer…"
in Nuvens passeantes pelas águas
sábado, 28 de março de 2026
Quando me for embora que horas serão?
Nada disto claramente escapou à mulher do
colega, mais nova e atraente, até achei, por breves instantes, que me lia os
pensamentos, receei, por exemplo, que me perguntasse: Ainda deve muito da louça? Já viu, a taxa de juro do visa é um
autêntico roubo… E a senhora da limpeza teve cá um trabalho! Também não lhe dá
jeito comer de pé… Pois, estas ridículas modas, não é? Pensamentos, assim,
reconfortavam-me, afinal, dá algum jeito comer de pé? Entretanto, a campainha,
uma vez mais, pela casa, agora a colega com o marido, eu, de novo, à porta para
os receber, estes já os conhecia, conforme previ, a colega com uma indumentária
balizada algures entre os anos oitenta e as sombras estáticas de um passeio
cosmopolita, tudo para maquilhar uma ruralidade que ameaçava irromper a cada
gesto, sílaba, olhar, nunca compreendi esta urgência de renegar o ontem, o
marido, sempre dois ou três passos atrás, um sujeito alto, anafado, com gestos
ensonados, nele, porém, a ruralidade era palpitante, se me perguntassem qual a
sua profissão, desassombradamente diria taxista, havia nele uma qualquer
urgência por se sentar, como se fosse a sua posição natural, o seu horizonte
temático também não era muito vasto, oscilava entre, claro, a bola e motores,
embora, pasme-se, fosse bancário, o que também não lhe era abonatório, mas daí
a inferência pela sua posição natural, após deixá-los entrar e fechar a porta,
não me escapou as posições tomadas no terreno, o taxista sentou-se no sofá,
olhar bovino na televisão enquanto lhe enchia o copo, a rural da mulher foi ter
com a minha à cozinha, quase ignorou a mulher do colega, mais nova e atraente,
apenas se salvou o imperativo da educação, dediquei-me a colorir copos que
teimavam na transparência, particularmente o do taxista, entretanto, percebi na
mulher do colega uma crescente insatisfação, falavam em surdina, mas certas
frases chegaram-me Não devia ter vindo…
Eu sabia! Já viste, a cara que estas duas me fizeram? Parece que estão a fazer
um frete! E há quanto tempo estão as duas para ali na cozinha? Devem estar a
dizer das boas… Sinceramente, para que é que me vim aqui enfiar? Só tu, para me
meteres num filme destes! Primeira e última, acredita! Onde já se viu uma coisa
assim? Ela nem se digna a fazer sala! Coitada, está tudo tão artificial que se esqueceu
de dar alma às coisas! Da comida à decoração, tudo sabe a plástico! Pelos
gestos e expressões, o colega procurava, como podia, acalmá-la, aproximei-me
deles e gracejei qualquer coisa, pareceram-me ambos razoáveis, retribuíram
igualmente com uma piada, eu próprio comecei a inquietar-me com a demora
daquelas duas na cozinha, por breves instantes, invejei aquele olhar bovino que
contemplava a televisão, num estar para além de tudo, enquanto transparecia,
uma vez mais, o copo, creio que se lhe perguntasse onde estava a rural da
mulher, ele não sabia e tão pouco se importava… Como disse há pouco, invejei
aquele olhar bovino, num estar para além de tudo. Por fim, elas deixaram a
cozinha, povoaram a mesa com o propósito deste serão, não sei porquê, mas uma imagem
da infância levantou-se diante do meu pensar, a lareira da minha avó, quando as
suas mãos pousavam os frutos da sua manhã de labor, e uma frase, dita há pouco
em surdina, regressa-me está tudo tão
artificial que se esqueceu de dar alma às coisas! De facto, daquelas
travessas não emanava qualquer aroma (Da comida à decoração, tudo sabe a plástico!), porém, da cozinha da minha avó, lá longe, na
aldeia, o mundo ficava bem mais perfumado… Elas resolveram estabelecer um
diálogo muito particular, achei despropositado, o colega ainda tentou um
princípio de conversa, o que se lhe compreendia em distracção compensava com
uma fortíssima dose intuitiva, daí que os seus esforços, por uma hipotética
conversa, não tivessem passado exactamente de um princípio de intenções, talvez
começasse a vislumbrar, pelo soalho, as máscaras caídas das colegas, é
possível, poucas são as mulheres que gostam de sombras, sobretudo de mulheres
mais novas e atraentes, neste ponto, confesso que me chocou o facto de nenhuma
delas disfarçar o azedume, nem a educação sobreviveu, nem a etiqueta, nada,
apenas o meu espanto silenciado pela estranha que olhava diante de mim,
malgrado dormir com ela há mais de quinze anos… Por fim, os miúdos, em poses e
modos robóticos, assim que entraram, o meu olhar procurou o rosto da mulher do
colega, mais nova e atraente, li-lhe somente indulgência perante aqueles gestos
teatralmente contidos, até no tom de voz se denotava obediência a um guião
escrito por outra mão, dei, de repente, por mim a pensar Porquê tudo isto? Quanto de nós está nesta sala? Tão pouco, tão pouco…
Acho que nem os pés chegaram a entrar. Partimos para tão longe, assim que a
hora deste absurdo jantar chegou, que deixámos para aqui os corpos à pressa,
desengonçados, desanimados, entregues a uma lenta corrente sem prenúncio de uma
qualquer foz amanhecida… De novo aquela frase está tudo tão artificial que se esqueceu de dar alma às coisas! O
colega e a mulher, mais nova e atraente, encaminharam-se para a porta, de certa
forma, na velocidade dos seus gestos e na opacidade das suas expressões,
percebia-se o cansaço de segurar as máscaras, começavam a ceder, adeuses de
ocasião e, por fim, partiram, percebi-lhes leveza na passada, elas nem à porta
vieram para se despedir, regressei à sala, o taxista já ressonava, elas
continuavam em sussurros indignados pela mulher do colega, mais nova e
atraente, os miúdos no quarto com o vício do hoje, olho as travessas,
praticamente intactas, mas tão vazias de alma… Imagino o colega, com a sua
mulher, mais nova e atraente, a parar numa rulote, cada um a pedir o seu
hambúrguer, depois, enquanto os ombros se tacteiam, olham o mar e saboreiam a
inesperada refeição, talvez ainda haja tempo para um beijo quente e renovar
juras de amor, talvez… Pelo menos, era o que eu faria, enquanto, lá longe, na
aldeia, o mundo ficava bem mais perfumado…
sexta-feira, 27 de março de 2026
terça-feira, 24 de março de 2026
Que horas serão quando me for embora?
Ainda
não tinha tirado a chave do bolso, já o cheiro da comida por todo o lado, e
barulho de panelas, louça, quase instintivamente olho o relógio, pouco passava
das dezassete, contudo, ela nisto, passou-me, confesso, a ideia de virar costas
e sentar-me placidamente a uma esplanada na companhia de um cigarro e de
memórias, há quanto me foge um momento assim? Talvez há demasiado… Regresso-me
e já a chave a cumprir-se, logo ela Até
que enfim! Mas não sabes que dia é
hoje? Não fiques para aí parado! Tira o casaco e vem ajudar-me… Anda!
Despacha-te! Não te esqueças que, daqui a nada, tens de ir buscar os miúdos à
escola… Ela debitou mais frases, muitas mais, não, não lhe ouvi um Boa tarde, nem sequer um singelo Como estás? Ou então Como foi o teu dia? Nada! Só me ficou o Despacha-te! Eu, que ainda há pouco, pensava em virar costas e sentar-me
placidamente a uma esplanada na companhia de um cigarro e de memórias, a
verdade é que chegamos a um momento na vida e, simplesmente, deixamo-nos ir na
corrente, não resistimos, não procuramos sofregamente a margem, nem sequer
gritamos por socorro, nada, apenas e só deixamo-nos ir, há quem conteste esta
opção, está no seu direito, porém, não me parece muito avisado, sobretudo em
termos de saúde, qualquer tentativa de resistir a esta corrente é malogro
certo… Ela estava num estado muito próximo da histeria, ora se virava para o
fogão, ora a aprumar as louças e talheres do repasto vespertino, ora em mim
para mais ordens e instruções, opto por ir buscar os miúdos à escola, assim que
uma brisa entardecida pelo meu rosto, inspiro o momento, quase me senti numa
esplanada na companhia de um cigarro e de memórias. Quando regressei com os
miúdos (não sei porquê, mas sempre que a porta de casa diante de mim, um sentir
de derrota invade-me. Sempre assim foi. Não sei de onde provém, como se ali me
aguardasse, apenas e só… Às vezes, penso que talvez a minha morada seja noutras
paragens, daí a minha genuína estranheza por este regressar, que talvez não passe,
afinal, de um apeadeiro nesta minha caminhada…), ainda o cheiro da comida por
todo o lado, mas o barulho de panelas, louça, cessara, antes de entrarmos,
relembrei-lhes calma e ponderação, afinal, aproximava-se a hora do tão ansiado
jantar, reparei na mesa já posta, com as inevitáveis velas de cheiro acesas, na
sala, ouvi a água a correr, ela no duche, em cima da cama, dispusera a sua
indumentária, não sei porquê, mas aquelas peças de roupa, despidas da sua
antropomorfia, enterneceram-me, talvez por serem uma extensão de si mesma,
fiquei a olhá-las, e apesar de a água continuar a ouvir-se, de lhe perceber
cada gesto ao lavar-se, primeiro, sempre, o cabelo, só depois o corpo,
pareceu-me que ela já habitava as roupas, ou talvez fosse o contrário, por fim,
saiu, compreendi que a minha calma a irritava, atirou logo Não te vais arranjar? Já viste as horas? Espero que tenhas dito aos
miúdos que não os quero na sala… Anuí a tudo, pois, a verdade é que
chegamos a um momento na vida e, simplesmente, deixamo-nos ir na corrente, não
resistimos, não procuramos sofregamente a margem, nem sequer gritamos por
socorro, nada, apenas e só deixamo-nos ir, percebi que ela optara por uma
discrição elegante em termos de roupa, pormenores que ainda lhe apreciava, às
vezes, não sei porquê, quando me debruçava sobre nós, de longe, quem sabe se de
uma esplanada na companhia de um cigarro e de memórias, surgia-me a imagem de
dois náufragos, num bote, algures em mar-alto, condenados a entenderem-se se
almejam a sobrevivência, procedeu, antes da hora das visitas, a uma última e
minuciosa vistoria a cada canto da casa, enquanto isso, ocupei-me das bebidas,
pouco antes das vinte, a campainha, convidara dois colegas e respectivos
cônjuges, se me questionassem o porquê, ao certo, deste jantar, não saberia o
que responder, não se comemorava nada, não havia quaisquer motivos de gratidão,
saudade ainda menos, mas, o que é certo, é que o elevador já no nosso patamar,
o colega e a mulher a saírem, fui que abri a porta, ela, de rompante, postou-se
a meu lado, olhei-a com discrição, percebi-lhe o esforço por uma expressão de
simpatia, tantos anos a amanhecer e anoitecer a seu lado, que melhor garantia
no desvelar de uma artificialidade demasiada numa expressão? A artificialidade,
regra geral, caminha próxima da hostilidade, neste caso, compreendi que se
direccionava à mulher do colega, talvez o facto de ser mais nova e atraente
constituísse motivo mais que suficiente. Por um brevíssimo instante, antes da
formalidade dos cumprimentos, creio que todos compreendemos a frieza do palco
sobre o qual caminhávamos. O silêncio evidenciava ainda mais as hostilidades
contidas, assim, decidi-me por um sonoro cumprimento, eles retribuíram, percebi
que a mulher do colega, mais nova e atraente, entrou com uma relutância felina,
como se sopesasse cada gesto em território hostil, entraram para a sala,
acompanhei-os, sob o manto da discrição, captaram cada pormenor, a mesa já
posta, com as inevitáveis velas de cheiro acesas, a louça que ainda estamos a
pagar pelo visa, as cadeiras encostadas a uma parede, para ser um jantar às
modernas, cada um vai-se servindo e come de prato na mão, assim uma coisa
inovadora de partilha de ideias, confesso que desconheço onde ela vai beber
estes novos ritos, apenas sou confrontado com os factos (ela, para mim,
limita-se a dizer laconicamente: Mas não
sabes que agora é assim que se faz? Já não se recebe ninguém sentado à mesa!
Estás mesmo ultrapassado!), enquanto debitava estes ditames de pacotilha, a
sua voz assumia aquela particular entoação algures situada entre um
cabeleireiro e o café em frente onde vão secar o verniz das unhas, já me
habituara a estes momentos, obedeciam a um guião cansado, cada gesto e sílaba
numa cadência de tão ontem, e eu entre o sorrir e um grito alucinado, do chão
aos vidros da janela, tudo num brilho exemplar, por momentos, confesso,
cheguei-me a questionar se esta era a minha casa, tal a ordem, tal a
impessoalidade que descera sobre as coisas… Nada disto claramente escapou à
mulher do colega, mais nova e atraente, até achei, por breves instantes, que me
lia os pensamentos, receei, por exemplo, que me perguntasse: Ainda deve muito da louça? Já viu, a taxa de
juro do visa é um autêntico roubo… E a senhora da limpeza teve cá um trabalho!
Também não lhe dá jeito comer de pé… Pois, estas ridículas modas, não é? Pensamentos
assim reconfortavam-me, afinal, dá algum jeito comer de pé? Entretanto, a
campainha, de novo, pela casa…
sábado, 21 de março de 2026
domingo, 15 de março de 2026
A porcachona e o tintim – epílogo
A pedido de muitos leitores, irei hoje esclarecer por onde andam estas funestas personagens e seus párias, desde já, como é evidente, não caminham por lugares muito ensolarados, não fossem personagens obscuras, a montante destas linhas pontifica um imperativo ético – de alertar incautos que se venham a cruzar com estas sinistras figuras –, bem como satisfazer a curiosidade dos leitores, de outro modo, confesso que nem uma sílaba gizaria, quanto às últimas da porcachona, parece que anda a grunhir muito pelas costas, o bugs bunny (recordam-se?) também caiu nesse erro, e a coisa correu-lhe mal, quase ficava com uma cenourita entalada algures, por conseguinte, é salutar para a porcachona (grunhe baixinho, muito baixinho, porcachona) e sua pocilga que ponham o único neurónio em movimento para não terminarem entalados algures pelos caminhos do mundo, fica o conselho, seria igualmente positivo que andasse com o focinho mais sorridente, quem nasce divorciado da beleza, pelo menos, que sorria, se a este aspecto somarmos as toneladas acumuladas com os anos, nada resta, em verdade, para um homem, a porcachona, de facto, é o primeiro passo para a homossexualidade, quem, no seu perfeito juízo, lhe pegaria? Se, por exemplo, sucedesse a tragédia de me deparar com a porcachona despida, lesto seria a cobri-la, creio que o trauma de tal imagem até induziria impotência, meu Deus, os estragos que a porcachona pode causar – arrepiante!!! Os complexos pelo baixíssimo intelecto – elevadas só a maledicência e a cobardia, ah, e as toneladas, claro, as toneladas – levam-na a grunhir alto perante os demais, só um acéfalo conseguia ouvir um grunhido até ao fim, quanto mais um conjunto, entre o seu público acéfalo está o nosso tintim, pois, esse mesmo, de caminhar bamboleante, a reprimida homossexualidade, talvez um dia alguém lhe dê o desejado beliscão nas nalgas, e fique corado de tanta felicidade, a camisa larga o suficiente para ocultar o crescente barrigão, os três pentelhos brancos no cocuruto, e a barbita pálida, quiçá inspirado no velho da Longa Vida, a abolacharem ainda mais a esférica carantonha, o caminho destes dois tamanhos frustrados inevitavelmente acabaria por se cruzar, é ver a porcachona grunhir, grunhir e grunhir, e o tintim, atrás dela, em hossanas, confrangedor, se ao menos a porcachona lhe desse o ambicionado beliscão nas nádegas bamboleantes, não podia cair-lhe em cima, coitadinho do tintim, nem um segundo resistia, embora fosse um severo meio de desbloquear a reprimida homossexualidade, quem sabe, à vista de um avanço da porcachona, o tintim procurasse o tão desejado colo onde pousar as suas nádegas bamboleantes, por ali pululam outras sinistras figuras conhecidas, a ratazana, agora sem bandolete, outro drama, a rainha do pedaço, com os óculos no cimo da tola, julga que, com esse artefacto, espanta as rugas em crescendo, a obesa de nome azeiteira, o pombo-correio do lugar, até chegou do sul, veja-se bem, para se sentar cada uma precisa, no mínimo, de duas cadeiras, tal a dimensão das nalgas, a menopausa é uma coisa tramada, uma questão transversal, ao atentar no focinho destas aberrações, é: Qual foi a última vez que tactearam os céus? Se é que algum desgraçado lá as conduziu… Se houve, foi há muito, há demasiado, tais as expressões cinzentas, azedas, até masculinizadas, a menopausa é uma coisa tramada, crescem para todos os lados, no entanto, o intelecto subsiste minúsculo, grandessíssimas FRUSTRADAS estas aberrações andantes, até suscita dó ouvir o exíguo vocabulário, onde a muleta “prontos” surge, de forma salvífica, a pontuar-lhes as boçalidades emitidas, frustradas físicas e intelectualmente: a coisa só podia descambar em complexos estampados no focinho e nos gestos; por ali cirandam, em torno da porcachona, o tintim, com o seu estrogéneo em alta, em coscuvilhices ora com uma, ora com outra, apesar de incessantemente o seu olhar, maroto e ardente, procurar um matulão que lhe dê o tão ansiado beliscão nas nádegas bamboleantes, se as menopausas ambulantes e FRUSTRADAS ansiassem por um beliscão, só se requisitassem uma retroescavadora, com a dimensão daquelas nalgas seria a única possibilidade de sentirem algo, há uns dias até mandaram uma menopausa, outra aberração, bem adiantada, cuja carantonha parecia um mapa de estradas, tal a profusão de rugas, dar um recadito mal-amanhado, o interlocutor, da aberração rugosa, deixou-a sozinha a debitar alarvidades, não fosse a burra-enrugada, com um pouco de atenção, julgar-se gente, por ali também pontifica o manguinhas-de-alpacas, de casaquinho de bombazina, com penteado à primeira-comunhão, esse pouco aparece entre as menopausas ambulantes e FRUSTRADAS, embora cumpra qualquer coordenada por ali emitida, esse é uma figurinha rasteirinha, estéril, frases ocas e deveras superficiais, apesar da falsidade, suada por cada poro, não passar despercebida a quem sabe olhar o mundo há muito, sem qualquer conteúdo, basta atentar no anacronismo da indumentária e de lhe perdurar o penteado com que saiu de casa para a primeira-comunhão, caros leitores, espero que a vossa curiosidade, com estas linhas, sempre públicas, quem nasce com Coluna-Vertebral não sabe rastejar, fique saciada sobre o paradeiro da porcachona, tintim e seus párias, genuínas aberrações caminhantes pelo mundo.
sexta-feira, 13 de março de 2026
Uma marquesa a caminho de Tavira
A maior parte do tempo esquecemo-nos de viver
o presente, preocupações, sonhos por realizar, cansaço, a voragem do dia-a-dia,
enfim, o drama da vida contemporânea, no entanto, só quando um facto,
iniludível e dramático, se anuncia no amanhã, é que fincamos os pés no
presente, saboreando cada instante, como se o futuro apenas uma ilusão, há
décadas que ocupava, através de um subaluguer, uma salita, se assim se pode
denominar uma divisão, de oito metros quadrados, numa cave, quase inteiramente
ocupada por uma marquesa, onde mitigava dores articulares, endireitava colunas
e derramava o seu “saber”, bom,
este último conceito é, sem qualquer dúvida, bastante controverso, não por acaso era
conhecido como o Mestre, havia quem, de facto, se deitasse na marquesa só para
ouvir as suas histórias, únicas, inolvidáveis, dignas de figurar em qualquer
compêndio de actos de bravura, as más-línguas, como é evidente, escarneciam e
questionavam a sua veracidade, pura inveja, nada mais, quem, no seu perfeito
juízo, ousava colocar em causa a palavra do Mestre? Desde a travessia do Tejo,
na foz, debaixo de água em apneia, às incursões aéreas, em território inimigo,
durante a guerra colonial, enquanto piloto, ou realizar elevações, durante uma
tarde inteira, para gáudio dos espectadores que se avolumaram com o decorrer
das horas, tudo em palmas e espanto perante aquele titã descido dos céus, sem
esquecer os múltiplos corações despedaçados e suspirantes que foi deixando à
sua passagem, a verdade é que muitas chegavam cambaleantes e curvadas, num
dramático esforço lá desciam a escada e, como se por milagre, volvida menos de
uma hora, era vê-las renascidas, alegres e a correr escada acima, se alguém,
má-língua ou não, ousa escarnecer e questionar a veracidade destes factos, estou
cá eu para categoricamente os asseverar, quando algo lhe desagradava, com a sua
voz arrastada e cavernosa, invocava um camarada de armas, “Cheira mal…
Cheira muito mal…”, certo dia foi
confrontado com a notícia de que a sua marquesa teria de abandonar a divisão,
de oito metros quadrados, numa cave, pensou “Cheira mal… Cheira muito
mal…”, mas não verbalizou, o espaço ia
para trespasse, ironia do destino seria também para mitigar dores articulares e
endireitar colunas, inferiu, desde logo, que os seus préstimos seriam mais do
que imprescindíveis, como podem testemunhar as dezenas, perdão, centenas, que chegavam
cambaleantes e curvadas, num dramático esforço lá desciam a escada e, como se
por milagre, volvida menos de uma hora, era vê-las renascidas, alegres e a
correr escada acima, continuou os seus afazeres, na salita, de oito metros
quadrados, quase totalmente preenchida com a marquesa, a questão do
encerramento do espaço não era tema de conversa, de forma tácita foi remetida
para o silêncio, mediante quem se deitava na marquesa escolhia o tema das suas
narrativas, ora a incansável história da travessia em apneia, ora enumerava os
milhares de livros lidos, o pai detentor de uma biblioteca só com rival na de
Alexandria, se alguém mais ousado colocasse uma questão específica sobre
determinado autor, fungava uma vez, duas, ainda uma terceira, e sua voz
arrastada e cavernosa logo “Esta contractura tem de ser debelada…,” quem, perante este alerta, “Esta
contractura tem de ser debelada…,” ousaria
lembrar-se de um autor e das suas obras? A atenção, de imediato, focada na
génese das tão incómodas dores, se, desde cedo, o Mestre se viu perante tão
rica e sumptuosa biblioteca, é natural o seu vastíssimo conhecimento, só o seu
pai detinha seis licenciaturas, quatro mestrados e três doutoramentos, ou
quatro doutoramentos, três mestrados, pois, talvez fosse por aí, os seus três
irmãos todos engenheiros destacadíssimos em diferentes áreas, ele simplesmente
o Mestre, tudo estava dito, nem uma sílaba a mais, já antevendo crises
climáticas e numa medida deveras ecológica, passou a realizar a sua higiene nos
balneários daquele espaço, escusava assim de gastar água em casa, o ambiente
não podia estar mais grato, o tempo, esse estranho que incessantemente nos
ilude, passou, até que, sempre mais cedo que o expectável, o dono do espaço alerta-o de que, no
dia seguinte, teriam de retirar tudo, uma fungadela, duas, ainda uma terceira,
e “Cheira mal… Cheira muito mal…”, à
sua frente apenas vislumbrou um conformado e sofrido encolher de ombros, como
décadas se evolam num instante?! Na manhã seguinte, alguns curiosos se avolumaram
à porta a assistir à retirada das mobílias e para um derradeiro adeus, a
verdade é que, desde sempre, se ilumina uma luz interior aquando da desgraça
alheia, o homem e os seus paradoxos, começou cedo o trabalho, a manhã já ia
alta quando só faltava retirar a marquesa da salita, se assim se pode denominar
uma divisão, de oito metros quadrados, numa cave, bateram à porta, como
resposta “Cheira mal… Cheira muito mal…”, uma segunda vez, como resposta, de novo, “Cheira mal… Cheira muito
mal…”, dez minutos, vinte, chamaram o
antigo arrendatário para intervir, a porta permanecia fechada, uma hora, uma
hora e meia, perante tal intransigência, viram-se forçados a arrombá-la, incrédulos
ficaram perante o cenário encontrado: o Mestre amarrara-se à marquesa; houve
gritos, súplicas, a notícia subiu mais rápido as escadas do que as pacientes do
Mestre, na rua já comentavam, a multidão duplicou à porta, uns minutos depois,
triplicou, tudo numa crescente ansiedade para ver o desfecho, uma hora depois,
dois indivíduos saíram com a marquesa onde permanecia o Mestre amarrado, houve
palmas, gritos, choro, clamor, incentivos, aclamações, o povo num frenesim à
vista do Mestre amarrado à marquesa, só quando a agitação serenou um pouco, a
marquesa foi colocada, uns metros acima da porta, no passeio, o povo, de
imediato, acorreu, um jovem aproximou-se e disse algo, o Mestre, ainda amarrado
à marquesa, olhou-o e, com notória assertividade, disse-lhe: “Oh jovem, a
falar com o Mestre, com as mãos nos bolsos?!”
quarta-feira, 11 de março de 2026
segunda-feira, 9 de março de 2026
sexta-feira, 6 de março de 2026
Finitudes
O mais curioso de tudo é que fomos lá juntos, quase parecia uma segunda lua-de-mel, os preparativos, passaportes, a escolha do fim-de-semana, os miúdos com a minha mãe, a viagem, assim que aterrámos, uma chuva miudinha omnipresente, pelo rosto, pelas roupas, ele “Já estou com saudades do nosso sol”, limitei-me à ternura de lhe dar a mão, assim silenciava angústias, ele, como sempre fazia, segurou-a num sentir feito gesto, após o aeroporto, a chegada ao hotel, a chave, elevador, o quarto (talvez alguém se tivesse esquecido de um sonho na almofada, não sei porquê, mas sempre desejei encontrar, nem que fosse por uma vez, um sonho abandonado. Tantas coisas largadas no mundo, mas ninguém se esquece de levar os sonhos consigo!), por fim, abrir malas, só depois, muito depois, um passeio já sob candeeiros iluminados, caminhávamos não pelas ruas novas para o nosso olhar, mas, no fundo, pelas interrogações que o amanhã nos apresentava. Há uns meses, sem nada me dizer, não sei se por afirmação pessoal, se por gozo, aventura, candidatou-se a uma vaga numa empresa de construção no exterior, que oferecia, entre muitas e vantajosas condições, o quádruplo do vencimento, disse-me, depois, que tropeçou no anúncio, contudo, contactaram-no, de imediato, para uma entrevista, da incredulidade inicial passou para um genuíno interesse, nesta fase, começamos a ver-nos dentro do quadro, foi enquanto se descalçava, não escolheu o momento ao acaso, que deixou no ar “Sabes que recebi uma proposta de trabalho do exterior?” Repara como ele colocou a questão… Ocultou apenas os seguintes factos: a candidatura foi de sua iniciativa, sabia das vantajosas condições de trabalho, como auferir o quádruplo do actual ordenado, partiu de uma carência de afirmação, e mais importante que tudo: já se via como parte integrante do quadro; não, não era um mero espectador, olhava-se já como personagem: e aqui reside a diferença entre equívocos e factos… Confesso que, na altura, não dei o devido relevo à sua questão, pois, não escolheu o momento ao acaso, ocupada que estava com o quotidiano, acho que lhe respondi “Olha que bom! Alguém que nos dê o devido valor”, a resposta saiu-me assim, quase como se fosse um cumprimento, uma exigência da educação, se fosse mais atenta, se não desse tanto de mim ao quotidiano, teria reparado que ele levara o triplo do tempo para se descalçar, que a frase lhe saíra a custo, numa naturalidade demasiada que apenas ocultava a teatralidade da situação, que permaneceu sentado de costas, nem ousou virar o rosto, que deu um longo suspiro enquanto lhe respondia com o cumprimento, se fosse mais atenta conheceria, há muito, a diferença entre equívocos e factos.
Como
dizia, pois, o passeio sob candeeiros iluminados, caminhávamos não pelas ruas
novas para o nosso olhar, mas, no fundo, pelas interrogações que o amanhã nos
apresentava, a chuva miudinha não se esquecia de nós, conferia às coisas uma
imaterialidade de sonho, parecia que não pisávamos o chão do mundo, quase como
se pairássemos sobre as coisas, apenas o frio líquido no rosto nos devolvia à
nossa circunstância, um vulto ou outro, com o familiar guarda-chuva, protector
de almas, sobre a cabeça, cruzava-se connosco na irrealidade daquele cenário
nocturno, com pontos luminosos difusos e contorcidos pela cortina de água,
regressámos, partiu de mim, eu não era personagem daquele cenário, tinha a alma
desprotegida, chovia-me nas minhas dores, ele, pelo contrário, percebi que não
se importava de continuar, só aquando dos primeiros esboços de regresso é que
lhe compreendi contrariedade, já era um caminhante imaterial daquele sonho, sem
eu saber, talvez algo lhe protegesse a alma. Foi sem surpresa que, no dia
seguinte, após a entrevista, me anunciou ter aceitado a oferta de emprego, de
novo, cada um caminhava pelas suas paisagens interiores… O resto, já sabes,
passados dois meses, regressou, desta vez para ficar, àquela omnipresente chuva
miudinha, agora que penso nisso, é curioso, parecia já lhe conhecer os
contornos do rosto, ao contrário de mim, ele nunca fechava os olhos, como se
lhe conhecesse o gosto, e os miúdos, quando contámos, abraçaram-se-lhe ao
pescoço, aqueles lugares onde as palavras não entram, percebes, não é…? Nesses
dois meses reaprendemos o namoro. Sabes aqueles objectos que procuramos
incessantemente, depois, quando a sua existência há muito ignoramos, num
repente, surgem diante de nós, como se nunca tivessem dali partido? Pois, assim
foi com aquele estar do namoro, uma ânsia por alguém que encerra em si o
Sentido, de um momento para o outro, apesar dos filhos, das fiéis contas na
caixa-do-correio, dos anos de permeio, dos silêncios obstinados, das noites de
omoplatas, ali estava, no tapete de entrada, como se nunca tivesse partido,
renovámos juras de amor, ele “Aos fins-de-semana regresso. Estamos no século
XXI! São só duas horas de avião! E a qualidade de vida que vamos garantir aos
miúdos, já viste? E quando eu não puder vir, vão vocês ter comigo. Certamente,
ainda vamos estar mais horas juntos,” enquanto ele falava, não sei porquê,
surgiu-me a imagem da omnipresente chuva miudinha que parecia familiarizada com
os contornos do seu rosto, os miúdos não o acompanharam até ao aeroporto,
preferi que ficassem com a minha mãe, fomos só nós, uma mala bastou para se
levar, não percebi se indiciava pressa de partir ou urgência no regresso,
aguardámos sentados pelo voo, descansei
o pensar no seu ombro, enquanto ele calendarizava o futuro de regressos e
partidas, e eu que sempre senti uma repulsa visceral por estes lugares de
gestos efémeros que se suspendem num para sempre, até que uma voz mecânica
anunciou a partida, caminhei a seu lado até onde me fui permitido, não ousei
falar, o sentir desarrumado estender-se-ia à minha frágil voz, e no meu céu
interior, naquele momento, uma omnipresente chuva miudinha, essa sim conhecia
os contornos do meu rosto, abraçámo-nos durante o necessário de um sentir feito
gesto, quando me regressei, ele já ia para além de efémeros gestos que se
suspendem num para sempre, antes da derradeira porta, olhou para trás, o seu
rosto estava como há dois meses, parecia dizer-me “Já estou com saudades do
nosso sol”, o meu olhar desceu à mala que bastou para se levar, não percebi se
indiciava pressa de partir ou urgência no regresso, é que há tantas coisas
largadas no mundo, mas ninguém se esquece de levar os sonhos consigo.
quarta-feira, 4 de março de 2026
domingo, 1 de março de 2026
sábado, 28 de fevereiro de 2026
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Se regressar, espero lá nos encontrarmos
Não
sei porquê, de repente, o meu olhar em lentos passos pelo seu rosto àquela
hora, devia a tarde estar no auge, ou talvez já caminhasse um adeus, ele
sentado à janela, na cadeira do costume, sempre com a rua, ou talvez não,
pousei o que me ocupava o momento (e penso que mais vezes devia ter pousado o
que tanto me ocupou os momentos…), enterneci-me com a expressão que ostentava,
o menino do ontem e o velho do hoje num duelo para ver quem ocupava mais espaço
naquele rosto, não se apercebeu de que pousara o que me ocupava o momento para
o olhar, a luz de adeus do exterior, não sei porquê, inclinava as coisas a
favor do menino do ontem, os cabelos de prata tornavam-se dourados, os sulcos
da vida impressos na face tornavam-se difusos no jogo de sombras daquela hora,
aproximei-me, não se apercebeu, sempre a rua, talvez aí procurasse o menino do
ontem, estendi-lhe a mão e encaminhei-o para dentro, a dificuldade em se
levantar acentuava-se, ainda há uns dias, a nossa mais velha A mãe tem de se mentalizar o que é melhor
para todos. Qualquer dia, dá cabo da sua saúde também… Isto assim é que não
pode continuar! Acha que o pai daria pela diferença, nesta fase, de estar em
casa ou num lar? Sinceramente, devia poupar-se… Desde cedo, percebi a
proximidade entre palavras e lâminas, quase lhes sinto uma certa
consanguinidade, por uns momentos, detive-me a olhá-la pelo lado do ontem,
talvez por saber que ajuda a suavizar as coisas, dessa janela, via-a às
cavalitas do pai, a insistir, nas manhãs de escola, quase em birra, para que
fosse o pai a levá-la à escola, e aquela noite, antes de jantar, eu sabia de
antemão do que se tratava, a campainha, disse-lhe para descer e ajudar o pai
com as compras, lá em baixo deparou-se com um carro novo, assim que a viu, o
pai atirou-lhe as chaves, ela entre a incredulidade e uma alegria irreprimível,
quase o sufocou com um daqueles abraços sem amanhã. A irmã, bem mais nova, não
se conteve Quando for mais velha, também
vou ter um, não é? Não tardámos com o Sim.
Veio numa fase em que, de certa forma, já estávamos acomodados, a sua
chegada fez-nos despertar para a existência, como se revivêssemos um período há
muito ido. Mas a mais velha, talvez pelas exigências da idade, ou do
temperamento, exigia-nos mais cuidados. Sempre que pensava nas diferenças entre
elas, a imagem da minha vizinha com os dedos estendidos e a frase recorrente a
ilustrar Pois é, os filhos são como os
dedos da mão, têm a mesma origem, mas são todos diferentes. Nunca se esqueça disto!
Anos depois, a mais velha, claro, exigia-nos mais cuidados, trocou o curso
por um súbito casamento e uma maternidade quase imposta, não gostámos da sua
escolha, mas sabíamos, de antemão, que, neste particular, escolher estava além
do nosso jardim, respeitámos, claro, embora isso não quisesse dizer que
aceitássemos, certa noite, levou o sujeito lá a casa, teria mais uns dez anos
que ela, um divórcio às costas, dois filhos reféns desse outrora lar,
sobrevivia pelo ramo imobiliário, denotava-se pelo discurso tiques de vendedor,
assim que o vi, confesso, desagradou-me, o mesmo sucedeu com o pai, bastou
darmos as mãos, enquanto eles entravam, para nos percebermos… Desde o fato
profusamente coçado, à pasta de gel que reflectia candeeiros, aos despojos de
acne de uma juventude sofrível que lhe pontuavam o rosto, à artificialidade dos
gestos e modos que indiciavam somente um carácter sem chão, de facto, não, não
gostámos da sua escolha, ainda hoje, quando, num acaso da vida, regresso a
estes momentos, não é difícil, basta olhar o rosto do meu neto, questiono o que
levou minha filha a olhar aquele sujeito, o miúdo, coitado, sempre o mantivemos
fora desta arena de sentires desordenados, embora lhe reconhecesse, em certos
traços de carácter, a herança paterna, talvez na verbosidade, muitas vezes, de
assuntos onde estava tão aquém… O curso esfumou-se, o filho ficou, o sujeito
partiu, foi reflectir candeeiros para outras paragens, o resultado expectável,
não houve censuras, recriminações, nada, quando a campainha soou mais pesada,
parecia anunciar o filho e as malas que ela trazia, o pai limitou-se a
abrir-lhe a porta com uma expressão ternurenta, preferiu calar-se a dizer algo
desajustado, eu não consegui, assim que as malas e o miúdo sob a luz do
candeeiro da entrada, não me contive Pois…
Pois, de falta de aviso não te podes queixar… Estava escrito! Só não viu, quem
não quis, não ousou ripostar, no fundo, ela sabia de que lado estava a
razão, e apesar de orgulhosa, a sobrevivência impunha-se. A irmã não se
manifestou, estava naquela fase da vida em que a manhã compreende que se torna
tarde. Não se seguiram tempos fáceis, porém, ela não permitiu que o miúdo se
tornasse em mais uma despesa nossa, empregou-se, apesar da insistência paterna
para que retomasse o curso, respondia laconicamente Agora é impossível! Tenho um filho. E sou eu que tenho de lhe pôr o pão
de cada dia na mesa. Tínhamos orgulho pela assumpção da responsabilidade,
contudo, havia em nós simultaneamente uma dor inconfessada pelo curso
abandonado e por uma existência inconclusa: sempre que a olhávamos, víamos duas
pessoas: a real e a sonhada; a que é, e a que podia ter sido. Ela também o
sentia, daí a pressa constante, nos gestos e palavras, sempre que na nossa
presença. É sabido que, pelo menos, vivemos duas vidas: a pensada e a vivida.
Somos plurais, é um facto. Foi o pai que a fez reaprender a lentidão dos gestos
e palavras, quando se aproximou do neto, lhe aligeirou, com o seu saber, o
fardo de existir, e, por fim, fê-la sorrir, como um caminho que, sem saber
muito bem porquê, nos esquecemos ou deixámos de usar por uma qualquer súbita
conveniência…
Desde
cedo, percebi a proximidade entre palavras e lâminas, quase lhes sinto uma
certa consanguinidade, por uns momentos, detive-me a olhá-la pelo lado do ontem,
talvez por saber que ajuda a suavizar as coisas, mas não, pelo contrário, como
é que ela ousa Acha que o pai daria pela
diferença, nesta fase, de estar em casa ou num lar? Sinceramente, devia
poupar-se… Depois de, numa outra vida, foi tão ontem que assim me parece,
com uma infinita paciência o pai tê-la feito reaprender a lentidão dos gestos e
palavras, quando se aproximou do neto, lhe aligeirou, com o seu saber, o fardo
de existir, e, por fim, fê-la sorrir, como um caminho que, sem saber muito bem
porquê, nos esquecemos ou deixámos de usar por uma qualquer súbita
conveniência… Hoje vejo uma sombra do homem que foi, mas, pelo menos uma vez
por dia, através de um olhar, um gesto, um sorriso, a sombra dilui-se e ele
ressurge, como se não houvesse ontem, como se nunca tivesse partido, e isso
para mim é mais que suficiente.












