Livros do Escritor

Livros do Escritor

segunda-feira, 27 de abril de 2026

A beata maledicente


 

Há figuras que, de tão obscuras, só nos apercebemos da sua existência pelo lodacento rasto que deixam, assim é a beata maledicente, nem lhe conheço a sonoridade das palavras, o mundo, neste ponto, amanheceu-me, embora arvore, em múltiplas circunstâncias, conhecer-me familiares, pois, tempo a mais e escassez de intelecto desaguam em verborreia sobre a existência dos outros, à superfície mulher de muitos valores, sobretudo religiosos, reitero: à superfície; mais uma papa-hóstias de sacristia, pródiga em cumprir os ritos eclesiásticos: eucaristias, procissões, acções de beneficência, parece, avistada da lonjura, rumo à santidade, até se infiltrou num ramo mais ortodoxo do catolicismo, onde o prefixo “neo” nada augura de bom, como se, alguma vez, estes lá soubessem o que é uma catacumba, o esplendor da hipocrisia, enfim, a figura de Cristo tudo escuda, não se equivoque o leitor, Jesus Cristo é das figuras que mais colhe a minha admiração, daí o meu asco a quem se escude na sua luz para todo o tipo de vilezas e hipocrisias, nem me alongo a inquisições e afins, por ora, basta-me o exemplo da beata maledicente; pagelas, contas rezadas entre dedos, olhar pregado no altar, assumir a dianteira, em procissões, com o marido, um rotundo idoso, igualmente rato de sacristia, ali vão, com folhas de palmeira na mão, hossanas gritadas, jamais sentidas, secundados por dezenas, dos tais que se infiltraram num ramo mais ortodoxo do catolicismo, tudo num delírio de cantorias e rezas, como se, por desígnio divino, fossem os escolhidos, cruz ao peito e filhos a rodos, dois sinais identitários, sem esquecer as cantorias e os retiros, bem disse Cristo, “Deixai-os: são cegos a conduzir cegos,” há, sem dúvida, uma lógica subjacente a estes contextos que permite a aproximação destas figuras, tudo somado, o que dali emerge? Uma beata maledicente! Há uns tempos, aproximou-se de um incauto sob o pretexto de alertar para um hipotético perigo, como ela gosta de falar de um pedestal (às vezes, questiono-me de onde provém tanta carência…), num mundo de sombras, qualquer gesto, de aparente bondade, afigura-se positivo, no entanto, o tempo, esse frio e cruel juiz dos factos da vida, desvelou as reais intenções da beata maledicente: ganhar a confiança daquele peão para o manipular no tabuleiro dos seus interesses… Quem diria? Uma papa-hóstias de sacristia, pródiga em cumprir os ritos eclesiásticos: eucaristias, procissões, acções de beneficência, parece, avistada da lonjura, rumo à santidade; e, pasme-se, pariu oito vezes, pelo menos… Como é possível?! Se assim são os beatos, imagine-se os satânicos! Como já havia referenciado, esta beata é pródiga em verborreia sobre a existência dos outros, muito canta, com uma folha de palmeira na mãozita, à cabeça das procissões, hossanas, mas a Palavra de Cristo é-lhe uma total incógnita, “Não deves julgar”, um dos mais sublimes mandamentos do Nazareno, não foi, de todo, assimilado por esta criatura, reconhecida pelo seu lodacento rasto, aqui chegados, resta questionar: Será escassez intelectual? Ou simplesmente um carácter torpe? De formação está nas misturas químicas, até aí bem distante do Logos, é vê-la a entrar em reuniões, à porta fechada, por corredores sombrios, para debitar informações colhidas a mais incautos, outra das curiosidades desta personagem, não são muitas, convenhamos, está precisamente no facto de ocultar os grisalhos com que o tempo a presenteou, ao contrário de outros elementos femininos da seita a que pertence, que se orgulham de cada grisalho como se uma bênção, desconheço se chegam a cantar hossanas, com uma folha de palmeira na mãozita, para celebrar a sua chegada, pois, é possível que sim, a beata maledicente gosta de passeios, uma forma de contornar o horário laboral, uma praxis sua de há muito, por estes dias, irá a caminho de Madrid, na companhia de uma Porcachona, imagine-se o conteúdo de tais diálogos: uma verborreia de baixo intelecto com os grunhidos enlameados em dejectos de uma Porcachona: nem restará um santinho no altar aquando do regresso… Até deixo uma sugestão: a beata maledicente levar a sua viola, a Porcachona um microfone para emitir os seus grunhidos, e que dupla promissora teríamos, bom, é melhor deixar a folha de palmeira fora da equação, não vá a Porcachona confundir com um dejecto e prontamente engoli-la… Caro leitor, não permita que estas linhas esmoreçam a sua fé, beatas maledicentes há em todos os cultos, que tenham parido oito vezes talvez não haja assim tantas, com tamanha verborreia, de baixo-intelecto, sobre a existência dos outros, também não, mas bem disse Cristo, “Deixai-os: são cegos a conduzir cegos.”

sexta-feira, 24 de abril de 2026

A saudade de um sentir saudoso

 


Quando dei por mim, despia molduras, devolvia-as àquela transparência, quase imaterial, de uma existência indefinível, como se uma janela que o deixasse de ser, foi o que me pareceu na altura. Tudo tão recente, e eu perdida naquele tumulto do meu sentir, vivia uma noite contínua, sem prenúncio de manhãs. É estranho, não é? Essa sensação de uma noite infinda? Mas é o que melhor traduz aquele período da minha vida, não me lembro, durante esses longos e absurdos dias, de ver o sol, talvez já não me recordasse de como olhar as alturas, é possível… Como dizia, quando me regressei, despia molduras, parecia-me, de certa forma, que me negava, me subtraía, não sei porquê, como se me desdobrasse entre o que sou e o que fui, e, ao certo, não me encontrava em nenhum dos lados. Não sei se me faço perceber? Compreendes, não é? Ou talvez não? Que dizes? Estou a aborrecer-te? Se estiver, diz! Por favor! A última coisa que quero é aborrecer alguém com os meus assuntos… Mas aquele dia ainda por aqui, tão nítido, quase ouço cada som desde o amanhecer até que a noite tudo serenou, menos, como sempre acontece, os sentires desordenados, e como o meu por aí andava… Regressámos, na véspera, de duas semanas de praia, já tarde, ele sempre insistiu em gozar as coisas até ao último momento, eu preferia antecipar um pouco, assim permitia organizar-me um pouco, mas os miúdos secundavam-no naquele desejo de permanecer até ao possível, e assim foi, rodámos a fechadura do nosso lar bem depois das dez da noite. Claro que o dia seguinte ainda de férias para ambos, daí a minha estranheza, pela manhã, por não o encontrar a meu lado, pensei que talvez estivesse na cozinha, levantei-me, procurei-o pela casa, três ou quatro divisões não nos levam assim tanto tempo, e nada… Nem vestígios! Liguei-lhe de imediato, só a voz fria e mecânica do atendedor, não sei por que razão, se pelas cores do dia, se pelas sombras do meu pensar, se pelo estranho silêncio àquela hora, não sei, confesso, porém, senti que algo mudara, e de forma irreversível, o frio súbito que me invadia ajudava a materializar esta certeza, de repente, senti-me náufraga, não por ele, claro, mas por mim, ia ao sabor das correntes do meu desespero, a porta do quarto dos miúdos fechada, mesmo assim ouvia-se-lhes a respiração, de facto, ele fizera muito pouco barulho, caso contrário, os miúdos já com a televisão, qualquer coisa servia de pretexto para deixarem a cama, é curioso, há quem diga que só não se recupera o tempo, discordo, eu acrescentaria o entusiasmo, os momentos, e quem fomos, afinal, viver é subtrairmo-nos… O resto já sabes, o apartamento que alugara com a outra, para onde cobardemente fugiu naquela manhã, a guerra instalada pelos bens, os miúdos no meio, coitados, pois, viver é subtrairmo-nos, contudo, ainda hoje fico perplexa pelo momento que escolheu para nos deixar: após o regresso de férias! Confesso que, há uns largos meses, ser-me-ia impossível falar disto assim, e com esta distância, pois, foi penoso aqui chegar, lembras-te da… Pois, sim, essa… Ainda no outro dia a vi, passeio fora, num claro sem destino, logo o comentário do meu mais velho: “O que um homem faz a uma mulher!” Retorqui que se calasse, afinal, o que é que um garoto de doze anos sabe do amor? Mas esta questão não me deixou logo, ficou comigo por mais algum (“O que um homem faz a uma mulher!”), e reflecti na minha expressão diante de um espelho escurecido lá de casa, haveria alguma similitude com a da…? É possível, daí a observação do miúdo, mas o que poderia ele saber do amor? Pouco, sem dúvida, mas talvez percebesse as suas consequências, talvez… Não sabes de quem estou a falar? Então, não estás a ver quem é a… Morava no prédio em frente ao nosso, víamos o marido, aos fins-de-semana, logo pela manhã, de calções, fosse Verão ou Inverno, em animadas correrias pelo bairro, até que correu para bem longe de casa, com a empregada do café, que tem aproximadamente a idade da filha mais velha deles, enfim, como eu agora a compreendo! Uma pessoa dedica a sua vida a outra, para isto! Parece que vivemos uma amarga fantasia, percebes, não é? Repara, consagramo-nos ao outro e, de repente, somos cuspidos da sua vida, como se fôssemos um qualquer acessório descartável, desculpa-me, mas não encontro outras palavras para descrever o que por aqui me vai dentro do peito… E como dói! Por favor, não me perguntes, como já outros fizeram, se é a decepção pelos anos de casados, se é o facto de ser trocada, se foi a traição, se foi nem sequer ter pensado, por um segundo, nos filhos, se tudo isso ao mesmo tempo… Sabes, o que dói mais é ter, neste momento, mais de cinquenta anos e sentir-me uma criança amedrontada por, de repente, o mundo parecer-me um lugar anoitecido. De certa forma, sinto-me vampirizada, ele levou-me os melhores anos de mim, olho, agora, à minha volta com a estranheza de uma criança, mas com a energia de uma idosa. Se isto sucedesse há uma década, enfim, recomeçar ainda seria um horizonte tangível, porém, hoje olho-me ao espelho e estou naquela fase em que me deixo de reconhecer, ou seja, quando o pensar se senta na margem do nosso existir. Bom, desculpa, estou a aborrecer-te com os meus problemas e tu ainda não falaste nada de ti, que dizes? Se ainda penso nele? Como não? Às vezes, ao final da tarde, dou por mim na marquise da sala, como sempre fazia, a olhar para o fundo da rua, à espera de ver os faróis do seu carro, e de noite, como dói, sentir frio o seu lado da cama, talvez por pudor, ou por uma esperança ainda não silenciada, cinjo-me ao meu, quem sabe se, um dia, ele cai em si e percebe o vazio deixado. Levou-me mais de metade da minha vida, agora, uma coisa te garanto, se alguém me vir, de manhã ou de tarde, passeio fora, é porque sei a direcção de cada passo.

sábado, 18 de abril de 2026



 ... quanto mais se corre atrás de palavras, à mesa, maior é a dor escondida nos silêncios…

in Nuvens passeantes pelas águas


 


 

Por ruas desertas anoitecidas

 


Por ruas desertas anoitecidas, guio num sem destino, como se soubesse lá o que isso é, o mundo, volta e meia, resolve colocar a máscara da felicidade (como se soubesse lá o que isso é), nunca fui apologista de máscaras, tantas, talvez demasiadas, no labirinto de nós que desconhecemos, caem na sucessão da voragem dos dias, daí a constância daquela frase (Nunca pensei que isto algum dia me acontecesse… Nunca pensei alguma vez responder-lhe assim… Nunca sonhei que teria de passar por isto… Nunca pensei ter de recorrer a tal coisa… Nunca pensei…), pois, mas as esquinas da vida ferem-nos, e, enquanto sangramos, redireccionamos o leme do nosso existir. Continuo por ruas desertas anoitecidas, à minha volta só luzes, das casas, dos semáforos, dos candeeiros, e o motor sedento de mudanças, que coloco num automatismo felizmente para mim despercebido, o único som desta noite, primeira e última do mundo, há qualquer coisa de irrepetível na noite, talvez por sempre constituir um fim, o regresso ao lar, a janela que se fecha, a luz que se acende, e uma aparente harmonia restituída… Até quando?

Olhava a colher trémula, receoso, contudo, a sua abnegação persistia, diariamente, com a sopa do almoço, com o doce de pêssego ao lanche, a sopa vespertina, o xarope para a tosse, ela limitava-se a entreabrir os lábios, sem sequer emitir um som, quanto mais uma palavra, sorvia na distância, pois há muito partira. Foi numa certa manhã, ela a queixar-se de dores de cabeça, ele a relativizar, afinal, já habitavam o Inverno da vida, viviam da magra reforma dele, emissário de desgraças e de tão poucas graças durante a vida, em determinadas ocasiões, quando a missiva impunha assinatura do destinatário, nem ousava tocar, preferia escrevinhar que ninguém atendeu, pelo peso do envelope aprendera a saber-lhe o conteúdo, e cansara-se de ver rostos desesperados, e quanto mais olhava a terra, sob o peso do saco dos desencontros alheios, mais colocava a cruz ao lado de Ninguém atendeu… É curioso, as cartas passavam por ele seladas, no entanto, permitiam-lhe saber a geografia de cada existência. Houve uma história que o tocou particularmente, sempre soube o porquê, talvez por isso nunca a tivesse partilhado com ela. É natural, a aprendizagem das dores é a aprendizagem do silêncio, só assim sobreviveram àquela tarde em que a campainha num pânico súbito, a contrastar com a indolência da tarde domingueira, ele num regresso forçado da sesta à sua circunstância, de sofá e jornal caído na carpete, ela também a desviar os olhos da televisão para a porta, embora o coração… Pois, o coração nos seus monólogos de profeta, farol do sentir, a sussurrar-lhe que o filho caído no alcatrão da estrada, correra por uma bola, apesar da tentativa de travagem, por demais documentada no pavimento, tudo infrutífero, o murmúrio insistente: É isto que se passa! É isto que te vão dizer! Prepara-te! Ela num assomo de esperança Tens a certeza? A resposta pronta Lamento! Nessa tarde, foi ele que calou a dissonante campainha, foi ele que recebeu a notícia, foi ele que ficou lívido e emudecido sob a ombreira da porta, ela nem se levantou, permanecia de olhar fixo numa moldura que lhe devolvia um sorriso do filho…

A aprendizagem das dores é a aprendizagem do silêncio, chegou tarde e partiu-lhes tão cedo, a vida é isto: uma soma de incompreensões! Como dizia há pouco, as cartas passavam por ele seladas, no entanto, permitiam-lhe saber a geografia de cada existência. Houve uma história que o tocou particularmente, semanas após ter deixado a cruz ao lado de Ninguém atendeu, o destinatário era um casal jovem, ela em dificuldades com os degraus, já teria dobrado o sétimo mês, o rapaz sempre diligente a seu lado, deixou os estudos para assumir as expensas desta nova fase da vida, de obras a biscates abraçava prontamente todas as possibilidades, ouvia-se dizer que deixaram o interior para fugir às más-línguas, e também ao desacordo das famílias na sua união, seguiram-se envelopes gordos, até que, numa certa manhã, os viu com três malas, pousadas, à porta do prédio, o bebé ao colo da mãe, andaria pelos dois meses, antes de depositar as cartas, parou junto deles, Bom dia! Estão de partida? Ambos responderam com uma silenciosa expressão de derrota, ele não soube o que retorquir, era uma manhã fria, o bebé soltava espirros regulares, por fim, apenas lhe restou uma questão, a mais franca possível, Têm para onde ir? O rapaz Temos de regressar à terra. Levantou os olhos, sempre de mãos nos bolsos, ele que de obras a biscates abraçava prontamente todas as possibilidades, encolheu os ombros, e acrescentou Sabe, o que mais me dói é que nem um berço ainda consegui comprar para o meu filho… Esta frase ressoou-lhe por muito nem um berço ainda consegui comprar para o meu filho… De novo, aquela evidência: a vida é isto: uma soma de incompreensões.

De vez em quando, apesar de hoje a colher trémula na sua mão, da partida dela para uma incompreensão distante, ele insiste numa frase do ontem As amoras sabem a Agosto… Por momentos, os lábios dela suavizam-se, como se uma memória se erguesse na paisagem de si, ele de novo As amoras sabem a Agosto… E tudo talvez seja uma outra coisa.

Por ruas desertas anoitecidas, guio num sem destino, como se soubesse lá o que isso é, o mundo, volta e meia, resolve colocar a máscara da felicidade (como se soubesse lá o que isso é), em cada janela uma história, umas vão a meio, outras já se contaram, a vida é isto: uma soma de incompreensões, com algumas certezas a que nos agarramos, para assim nos sabermos (quantas vezes nos largamos no mundo?), e nesta rua deserta anoitecida, uma frase levanta-se em mim de um ontem tão ontem As amoras sabem a Agosto…

segunda-feira, 13 de abril de 2026


 

Concluí, há uns tempos, que uma mulher se apaixona pela criança que o homem foi e não pelo adulto do hoje…

in Nuvens passeantes pelas águas


 

domingo, 12 de abril de 2026

É preciso morrer para ser visto

 


O que é perder a razão? A primeira vez que me coloquei esta questão foi há muito, ainda pela mão dos meus pais, sempre que alguém contra-corrente do que se espera, logo Coitado! Perdeu a razão! Essa possibilidade, não sei porquê, sempre se me afigurou tão longínqua, mas o tempo, volta e meia, dá-nos a mão e leva a olhar abismos nunca pensados, pois, como dizia, ainda pela mão dos meus pais, e, lá por casa, vozes preocupadas relatavam a história de alguém próximo que perdeu a razão, daí o internamento numa casa de repouso, estranha mania esta de um povo suavizar as coisas, sempre é mais elegante de que hospício, bem verdade, mas porquê esta urgência de se contornar a realidade? Ainda lá por casa, Coitado! Teve um esgotamento… Logo eu a idealizar uma olímpica tarde de futebol, daí o esgotamento, do alto dos meus oito anos que mais podia eu conceber? É curioso, hoje raramente ouço falar em esgotamentos, já soa anacrónico, o vocábulo actual é depressão, quase virou moda, por tudo e nada arranja-se, com facilidade, uma depressão, da incompetência à impotência tudo está justificado. Mas regresso àquela história, lá por casa, de alguém próximo que perdeu a razão, daí o internamento numa casa de repouso, a génese de tudo foi o coração (Não será sempre?), talvez tenha corrido demasiado por ela, daí o esgotamento, quando parecia que, afinal, ela companheira da miragem. Começou a andar enervado, volta e meia, murros em portas, gritos ao telefone, ausências nas refeições familiares, os livros arrefecidos a um canto, os semestres, na faculdade, insensíveis a esgotamentos, e também creio que a depressões, assim continuem, sinal de que nem tudo vale, para ela, constituiu um mero apeadeiro na longa viagem da vida, contudo, ele via-a como a estação final, quantos equívocos assim ocorrem a cada dia do mundo? Ela deixou de atender o telefone, e a campainha, diziam-lhe que tinha saído ou que partira de fim-de-semana, caiu num vazio desesperado, para o preencher, refugiou-se na fantasia, tudo começou com a insistência por mais um prato à mesa, justificava que ela viria jantar lá a casa, a princípio, os pais cederam, mas as contínuas omissões fizeram perceber o pior, numa certa ocasião, ele chegou a esvaziar várias lamelas, felizmente os seus conhecimentos químicos não eram muito vastos, daí ter resultado na soma de uma sonolência redobrada com uma ligeira afectação intestinal. No entanto, o alarme parental tinha soado. Tentaram, como quase sempre sucede, primeiro, o diálogo (Então? Achas que ela vale isso? Há mais raparigas no mundo! Estás a destruir a tua vida por uma tontice… Um dia, vais ver, ainda te vais rir de tudo isto…). Porém, quando a noite entra na nossa vida, é quase impossível perceber quão fugaz é a sombra do dia. Ainda dois meses por ali, agora com lamelas prescritas, volta e meia, aquando das visitas parentais – as únicas que efectivamente se registaram –, a voz dele quase suplicante Ela ligou? Tem perguntado por mim? Não está, por acaso, aí fora? Os lábios secos, ostentava uma cor amarelecida, realçada pela brancura do roupão, como se lá fora a tarde não estivesse no seu esplendor, a voz saía-lhe arrastada e numa pronúncia de idoso, foram aconselhados a não responder, a direccionar as conversas noutro sentido, é natural, quando se esgota a circunstância, devemos partir para outras paragens… Ainda hoje, não sei se ele recuperou, na totalidade, a razão. Confesso que não acredito. Há coisas que a vida, simplesmente, nos vai subtraindo. A razão é uma delas. O que é perder a razão? Essa possibilidade, não sei porquê, sempre se me afigurou tão longínqua, mas o tempo, volta e meia, dá-nos a mão e leva a olhar abismos nunca pensados, hoje, a espaços, admito que a maior lucidez reside no adeus à razão. Como se de uma inevitabilidade se tratasse. Talvez aqui resida a lógica da sobrevivência. Quando a maioria se esqueceu de olhar os céus, que mais nos resta? Não raras vezes, invejo quem trocou a razão por amor, no fundo, tratou-se de uma escolha e nunca de uma perda. A perdê-la, se é que tal já não me sucedeu, que ao menos fosse por amor, e, se numa tarde, alguém me encontrar de lábios secos, com uma cor amarelecida, realçada pela brancura do roupão, com uma voz arrastada e uma pronúncia de idoso a perguntar (Ela ligou? Tem perguntado por mim? Não está, por acaso, aí fora?), seria bom sinal, teria escolhido o lado dos vivos nesta coisa da existência.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

O chão do mundo

 



Hoje sabia que ninguém me esperava. Um desses dias em que as sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, uma janela que se abre para a paisagem onde não nos queremos ver, apesar de por ali as nossas pegadas, chegamos a duvidar, a certa altura, da nossa existência… Como dizia, não tinha pressa em chegar a casa, ia encontrar o frio gritante do silêncio, que nos murmura incessantemente solidão, e o nosso sentir mais arrefecido que o exterior, pelos passeios, olho gente sentada em cafés, em conversas ridas, não vislumbro, por ali, os silêncios que pousam, quando eu, outrora, tacteava diálogos, nesses momentos, eu partia para as lonjuras que me habitam, de facto, nunca fui de cafés, risadas, festas, danças… Aprendi a disfarçar esta inquilina tristeza, os meus pais anunciavam ao mundo Esta nossa filha é muito concentrada! Eu aquém concentrações, apenas refém de uma tristeza que me tolhia o ser, a minha irmã, ao contrário de mim, sempre convidada para festas, uma inigualável sede de roupas, cachecóis, sapatos, malas, só a ouço em risadas, de vez em quando, sinto-lhe o olhar receoso a seguir-me os passos, enquanto os meus pais, apreensivos com tantas risadas, murmuravam Ao menos, Deus concedeu-nos um filha concentrada… E eu sentia-me tudo menos concentrada, só com ele, sentado diante de mim, esta tristeza afastava-se, como se uma concessão de tréguas, nesses momentos, eu sentia-me parte integrante de qualquer café, não, não chegava às risadas, festas, danças, gostava de ali estar com ele, a sentir a pulsação da cidade lá fora, carros, buzinas, passeios, gente que os caminhava, para mim, rostos inexpressivos, talvez por não me demorar neles, se por aí me detivesse, perceberia que se ocupavam em intrincados cálculos para aportar na margem do mês seguinte, outros pela doença de um filho, ou por um divórcio anunciado, creio que poucos questionam a morte do sonho, substituem este facto pela denominada maturidade, pelo vidro, vejo-os, lá fora, a povoar estradas e passeios, já não se olham, evitam-se num absurdo desumanizante… Como dizia, só com ele, sentado diante de mim, esta tristeza afastava-se, como se uma concessão de tréguas, talvez um sonho se erguesse algures em mim, às vezes, ele, num repente, levantava-se, dava-me a mão, e só parávamos junto ao mar, ali ficávamos, dentro do carro, a eternizar aquele instante em que a luz partia da terra para nos relembrar sonhos caídos… Outras vezes, íamos até aquela discreta pensão, duas travessas à direita do café, demorava, claro, a recuperar a intimidade, falávamos, falávamos, mais ele, como é evidente, sempre preferi ouvir, assim ia a tarde, assim ia a minha vida…

Hoje sei que ninguém me espera. Um desses dias em que as sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, nunca concebi, confesso, apaixonar-me por um homem casado, muito menos assumir o papel da outra, a palavra amante sempre me soou mal, meus pais, coitados, de mim diziam Esta nossa filha é muito concentrada! Mal sabiam, coitados, mas que podia eu fazer? Para ajudar com as contas caseiras, enquanto estudava, trabalhei na recepção de uma clínica veterinária, foi lá que nos conhecemos, lembro-me tão bem da primeira vez que o vi, é um desses momentos a que regresso múltiplas vezes, tinha um rafeiro de médio porte, assim que entrou, sabia-lhe a voz, é tão estranho, quando se abeirou do balcão, já a tristeza partira de mim, nessa semana, regressou por mais duas ou três ocasiões, o cão tinha sido atropelado, embora não fosse grave, o anelar preenchido não me passou ao lado, porém, algo me impelia na sua direcção, talvez a súbita ligeireza por largar o fardo de uma vida (Esta nossa filha é muito concentrada!), a tristeza que me tolhia o ser, ele também se demorava, cada vez mais, do outro lado do balcão, por norma, era o último cliente, queixava-se de falta de tempo, sempre o trabalho, percebi que lhe seguia as pisadas académicas, ajudou, claro, a solidificar as pontes de diálogo, uma noite, com o pretexto da caminhada nocturna do cão, deixou-me à porta, outras se seguiram, algo, agora mais forte, continuava a impelir-me na sua direcção, apesar do objecto amarelecido exibido no anelar, de um filho na primária, de não haver vislumbres, em palavras ou actos, de algum dia partir daquela ilha, ainda assim, eu continuava a caminhar a seu lado, pelo restituído sabor da noite, as afinidades académicas pois, e a súbita ligeireza, quantas vezes largamos o fardo de uma vida? Hoje, tanto tempo depois, continuo desencontrada da palavra arrependimento, não sei se é positivo, não sei, confesso, nunca fui de ideias gerais, a mulher dele, a certa altura, criou uma ideia de nós, apenas isso, nunca a materializou, desconfiar é isso mesmo, formar uma ideia sem lhe encontrar um corpo, tivemos as nossas cautelas, como é evidente, no meu caso, queria apenas que a tristeza se mantivesse na soleira da porta, claro que, volta e meia, acabava por entrar, nos períodos festivos, nas férias grandes, nunca soube o que é isso a seu lado, e doía-me nas minhas funduras a solidão desamparada de me saber assim, com o tempo, os meus pais Esta nossa filha é muito concentrada! Só tem olhos para os livros… Já não sei se diziam isto para se convencerem, se para iludir os outros, a minha irmã de casamento marcado, não obstante as festas, uma inigualável sede de roupas, de cachecóis, de sapatos, de malas, as infindáveis risadas, eu aquém destes cenários, certa vez uma tia ousou E tu, minha filha? Quando é que chega a tua vez? Olha que filhos depois dos 30… Logo o meu pai vociferou Esta nossa filha é muito concentrada! Só tem olhos para os livros… Acho que nem ele já acreditava. O tempo continuou o seu caminho, após o curso, vários empregos até estabilizar, entretanto, um sobrinho, de vez em quando, com a desculpa de um congresso para a mulher, partíamos de fim-de-semana, doía-me não poder apresentá-lo aos meus, contudo, dessa forma, era como se pisasse uma paisagem só minha. Andaria o meu sobrinho aí pelos doze, quando, numa manhã, a voz dele tão distinta do que conhecia, arrastava-se, ao telefone, como se numa espera pelo pensar, falou-me em almoçarmos naquele restaurantezito discreto, onde íamos habitualmente, disse que sim, mas logo a inquietude ao leme do que sou, aquele arrastar de voz, tão próximo do soletrar, insisti Mas passa-se alguma coisa? Ele, impassível, quase numa anestesia, Falamos ao almoço… E custou a chegar a hora desse almoço, entrei e sentei-me na mesa habitual, esperei uns doze minutos, por fim, ele, curvado, com um semblante de derrota, disse-me Vem, falamos ali fora, acedi, confirmou-se o pior cenário, num exame, para a mulher, teria de retirar um peito, e, mesmo assim, sem garantias, acrescentou Não podemos continuar… Baixou o olhar, antes de terminar a frase, não regressámos para a mesa, ainda não tínhamos pedido, abraçámo-nos pudicamente, dei-lhe um beijo na face, enquanto ele me segredava, numa doçura suplicante, Espero que compreendas… Partimos em direcções opostas, creio que, nesta vida, raramente caminhámos rumo ao mesmo horizonte…

Hoje sei que ninguém me espera. Um desses dias em que as sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, uma janela que se abre para a paisagem onde não nos queremos ver, entretanto, o meu pai deixou-nos, faz agora pouco mais de um ano, sempre aquele terrível inimigo que nos dilacera por dentro, e que ninguém aparentemente quer derrotar (a quem interessará tal força?), felizmente ainda conheceu a neta, pois, fui novamente tia, desta vez, de uma linda menina, tem agora oito aninhos, a minha mãe refugiou-se no serviço paroquial, reforma e viuvez não são boas conselheiras, e eu para aqui ando, faz dez anos aquele púdico abraço. Nunca mais nos vimos. Nunca mais soube nada dele. De certa forma, foi o único final possível. E admirei o seu gesto de regressar inteiro naquela hora. Houve tanta nobreza nesse momento. Desde então, regressou a minha velha companheira de viagem, recebi-a com indiferença, foi discreta na sua reentrada, está para ali, no seu canto, e não me incomoda, chego a casa, não acendo logo a luz, nalguns gestos sinto os passos do tempo, é natural, dele só resta uma fotografia, nem está à vista, hoje, tanto tempo depois, continuo desencontrada da palavra arrependimento, basta-me relembrar aquele instante em que a luz partia da terra para nos relembrar sonhos caídos…

quarta-feira, 1 de abril de 2026


"No fim de contas, são poucos a ter o dom de alterar a direcção do nosso caminhar, de nos desconstruírem convicções, de, num repente, nos colocarem face a um dos actos mais radicais da existência: virar costas a tudo o que edificámos para contemplar o seu rosto, nem que seja por mais um entardecer…"

in Nuvens passeantes pelas águas