sexta-feira, 15 de maio de 2020
quarta-feira, 13 de maio de 2020
Vazios
Um das mais vívidas memórias da minha infância é de viajar, de facto, houve
uma altura onde o mundo se apresentou através do vidro passante do carro, meu
pai ao volante, minha mãe a seu lado, eu, no banco de trás, na fé da infância,
sem dúvida a mais pura, ainda ecos da voz de Deus, achava que meus pais estavam
ao leme do destino, como é enternecedor o olhar de uma criança (os pais ao leme
do destino), que ilusão, talvez envelhecer seja a compreensão de que nunca
houve lemes, apenas destino, daí tanta amargura sobre a terra, apenas cada um
às voltas com o seu fado, há uns dias, não sei bem porquê, dou comigo às voltas
com um antigo álbum de fotos, enquanto virava as páginas, o olhar turvou-se-me,
quantos já não partiram…
terça-feira, 12 de maio de 2020
domingo, 10 de maio de 2020
quinta-feira, 7 de maio de 2020
A doce lonjura de uma manhã de férias
Cedo percebi que, nos adultos, havia aqueles que se contentavam com a sua
circunstância e os outros, os permanentemente insatisfeitos, apesar de, nessa
altura, a minha idade ainda não precisar de dois algarismos para se ilustrar,
estaria no quase, compreendi a fatalidade de nitidamente pertencer ao segundo
grupo, nem vislumbres de hesitações, estava fadado a caminhar pelo trilho da
inquietude, compreendi quão íngreme seria o meu caminho, em casa tinha os dois exemplos:
meu pai, um resignado caminhante pelo contexto de cada momento, e,
diametralmente oposta, minha mãe, as suas infindáveis querelas interiores
transpareciam até ao matinal olhar da criança que ontem fui, embora ainda por
aqui esteja, um estado de insatisfação constante, nada lhe retirava, do rosto,
um vincado traço de azedume, como se o mundo tivesse para com ela uma impagável
dívida, só a presença de alguns familiares ou até estranhos esbatiam, por
escassos segundos, esse negrume da sua face, lembro-me tão bem, apesar de
parecer ter sido noutra existência, de facto, já fui tantos, embora neste
particular de existências, não me considere o resultado de quaisquer somas
anteriores, hoje, felizmente, sou o que decidi ser, não sei se muitos se podem
orgulhar de tal, não quero com isto dizer que tenha a vida que desejava, longe
disso, mas esta distância advém de fatalmente pertencer aos que caminham pelo
trilho da inquietude (…)
quarta-feira, 6 de maio de 2020
Quem compreende o Comboio, sobe homem, mas desce menino
Hoje celebrei um rito, adormecido
algures no tempo de mim. Sim, como estava a dizer, hoje fui andar de comboio.
Sem motivo de relevo. Apenas uma decisão nascida do instante. E, como é sabido,
a duração do instante depende da cor da memória. Àquela hora, o movimento tinha
a luz de meio da manhã. Por outras palavras, espreguiçava-se. Como cheguei à
estação? Já não me lembro. Fui de carro? Apanhei boleia de alguém? Autocarro?
Afinal, para onde ia? Não me recordo. Porque o instante pertencia, no seu todo,
ao comboio. É a memória mais vívida em mim. Paguei o bilhete com moedas, subi
para a plataforma, inspirei aquele singular aroma a carris e viagens – não, não
é um cheiro de poluição! A poluição é um beco, nunca um horizonte. Ainda assim,
muitos quiseram assistir ao meu rito. A plataforma preencheu-se. De repente, os
carris a sibilar, e um apito, de pais legítimos, cantou pelos ares. Aproximo-me
da borda, e olho à minha esquerda. Lá vinha ele, sim, confesso, percebi que
estava feliz pelo reencontro, eu também, como já vos disse, assim que se
imobilizou, no esforço singular de quem foi criado para o movimento, eu entrei
num amplexo sentido, e, como sempre, só assim o rito tinha sentido, nunca podia
ser de outra forma, sentei-me à janela. À minha frente, uma senhora de idade, a
seu lado, um sujeito na casa dos quarenta, e, do meu lado esquerdo, sentou-se
uma adolescente. Subitamente, um ressoar metálico, de novo o apito, um ligeiro
desequilíbrio, e o destino cumpria-se. A nitidez esmorecia nas janelas,
enquanto eu fechava os olhos para sentir, melhor, aquele navegar,
indiscritível, sobre correntes paralelas metálicas. E o ritmo cadenciado, como
pulsação fosse, ou vaga vencida deixada pelo caminho. De repente, uma curva, e
olho as carruagens mais à frente. Sim, pois, a vida. Todos havemos de lá
chegar. Compreendo. A marcha, agora, abranda. O apito (desculpem, a nota
musical, afinal, trata-se do som de um sonho de meninice. Que nome dar aos sons
dos sonhos?), a nitidez ressurge, e a imobilidade torna-se presente. As portas
abrem-se. Há agitação. Uns apressam-se a sair, numa urgência além compreensão.
Outros procuram entrar, numa sofreguidão similar, como se receassem a perda de
um papel sem substituto. Pois, a vida. Quantos saíram? Quantos não olhei? E
estes, agora, nascidos do nada, ali, diante de mim, numa exigência de olhar,
além-verbo, como se uma presença fosse comunicável, e eu comigo, a suspirar por
um apito, e a desejar a derrota de mais vagas metálicas, sob o compasso de um
balançar com aroma de horizonte (…)
domingo, 3 de maio de 2020
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