quinta-feira, 16 de abril de 2020
segunda-feira, 13 de abril de 2020
Foi no alto de uma colina, que aprendi a olhar o Mundo
Hoje fui ver a minha Escola Primária.
Pus-me ao caminho com a timidez e a abnegação de quem cumpre o dever de visitar
um familiar indevidamente negligenciado. Percorri aquela estrada paralela à
linha de comboio, e ao mar. Chegado a um certo ponto, vira-se à esquerda, e
enfrenta-se aquela íngreme subida. No cimo, à direita, lá estava aquela casa,
de três pisos, num irreconhecível silêncio. Olhou-me, com uma expressão entre a
indulgência e um tímido sorriso de agrado, e questionou: Sempre voltaste? Porque não haveria de voltar? (retorqui); Chegas tarde. Já sou outra (respondeu-me). E eu constrangido, consciente do meu
atraso, sem qualquer desculpa nos bolsos, a olhá-la do lado de fora do portão,
sem quaisquer laivos de me intrometer, respondi-lhe: Eu também sou outro. Mas a saudade… Ela num jeito de adeus: Tens de procurar noutro lado. Aqui nem os
ecos encontras. Olho, agora, a calçada. Dirijo-me para o carro. Abro a
porta. E, sim, lá está ela (sem estar), a árvore, no recreio (que já não é), de
onde caí. Perscrutei o ramo específico (como era longo!), mas a árvore também
outra. Cai em mim o peso do adeus. E eu que nunca tive forças para o suster.
Encosto-me ao carro. Queixo no tejadilho. Ouço um motor na estrada lá em baixo.
Uma viatura no esforço da subida. É uma carrinha cinzenta, pára entre mim e a
casa. Lá de dentro sai movimento e alegria. O motorista (Sr. Costa? É mesmo
ele?) inspira o crescente silêncio do interior despovoado da viatura. A minha
atenção, agora, no barulho, em particular num miúdo que ostenta,
orgulhosamente, uma bola por chutar. Surge um irreprimível barulho por toda a
casa. E pelos recreios. No fundo, nasce vida. Olho, de novo, a casa. Não, já
não tem aquele olhar invernal de há pouco. Olha à sua volta como se também
acabasse de sair da carrinha. Alguém chama para dentro. Os jogos interrompem-se
numa aura de capitulação. O miúdo da bola ainda a segura orgulhoso e
determinado. Apesar dos inúmeros argumentos apresentados. Apesar das várias
ofertas comerciais. Ele irredutível. Queria estreá-la no intervalo grande (o do
almoço). Contorno o carro, nem dei pela partida do Sr. Costa, mas ele nunca
partiu (ainda hoje, quando saio de casa pela manhã, espero por uma carrinha
Bedford cinzenta), olho para dentro da sala do piso térreo, e observo o miúdo
da bola a abrir a mala e a depositar escola em cima da mesa. Olhos na
professora, mas antes de mergulhar nos livros e nos cadernos, sempre a janela,
e aquela extensão azul líquida, que sempre lhe pareceu pequena para depositar
os sonhos que trazia no peito.
Vou-me embora. Não quero incomodar a
aula. Percebeste? (Diz-me ela). Acho que sim (respondo; é a única
resposta possível, quando o coração bate nas omoplatas). Já dentro do carro, a
iniciar a descida, procuro de novo o miúdo da bola. Queria dizer-lhe para nunca
sair dali, afinal, estava numa casa, no cimo de uma colina, entre livros,
árvores, e azul a perder de vista. E que, se algum dia sair, não se esqueça de,
num gesto de bem-haja, beijar a face de quem lhe apresentou o mundo num rectângulo
de lousa. Talvez no futuro, ele queira contar histórias passadas entre verdes e
azuis, de quem olha por janelas, e sonhe alcançar num gesto aquele barco que
vai em direcção a Sul (…)
domingo, 12 de abril de 2020
quinta-feira, 9 de abril de 2020
A Porteira
A
primeira vez que nela reparei foi a meio de uma manhã, ia a sair, ela em
sentido contrário, deteve-se, em pleno átrio do prédio, e olhou-me longamente,
de cima a baixo, tal foi o meu desagrado com aquela desmedida intromissão, que
me ocorreram múltiplas invectivas, contudo, prevaleceu a educação recepcionada
de meus pais, e condensei todo o meu desprezo num olhar que gentilmente lhe devolvi,
por acaso, nunca tinha ouvido uma palavra abonatória acerca daquela criatura,
logo eu que sempre gostei de inferir o mundo pelos meus juízos, porém, após
este e outros acontecimentos, que seguidamente irei relatar, tenho somente de
corroborar os pareceres chegados, neste ponto, e pelo título deste relato, o
leitor já percebeu que falo de uma porteira, aproxima-se dos sessenta,
olhando-a de qualquer perspectiva apenas uma imagem esférica, o cabelo quase
sempre apanhado, apenas acentua um carácter de vileza, por fim, uns óculos de
massa com sabor a três décadas, era comum vê-la de xaile sobre os ombros, sobretudo
em dias frios, dava passos curtos e arrastados, talvez para não se
desequilibrar, nessa noite, ao jantar, comentei com meus pais o desagrado com
aquela intromissão em pleno átrio do prédio, reparei que se entreolharam
durante o necessário, numa esperança muda de que eu não notasse, reforçaram a
necessidade de educação com os outros e apelaram à benevolência com os mais
velhos, encolhi os ombros, mas não me passou despercebido o seu constante entreolhar,
quando tal sucedia era sinal de que eu tinha razão, embora, por pedagogia, não
me quisessem concedê-la, semanas após a primeira troca de olhares, ouvi minha
mãe, num tom arrebatado, “Onde
já se viu uma coisa destas? Só neste prédio é que essa mulher conseguia ser
porteira! Põe e dispõe perante a apatia de todos! Primeiro, conseguiu que lhe
concedessem a casa do rés-do-chão a troco da limpeza do prédio… Agora, ainda
lança a escada para um ordenado fixo! E vais ver que consegue! Quando for a
votação, na reunião de condomínio, quero ver quem se irá opor! Não compreendo,
desculpa, mas não compreendo… Todos se calam! Onde estão os homens?”, não ouvi meu pai contra-argumentar muito,
percebi, mais ou menos, o modus operandi
da criatura de imagem esférica,
uns óculos de massa com sabor a três décadas, passos curtos e arrastados,
talvez para não se desequilibrar, uma estratégia tão bolorenta, dividia para
reinar, criou um grupo de condóminos, como é natural espelhos seus, mulheres
que avistavam ou já tinham dobrado o sofrível cabo da menopausa, regra geral
com casamentos de hábito, onde nem cinzas de paixão, se as houve, o vento há
muito as diluíra pelos céus do mundo, ou nem ao casamento chegaram, permanecem
sós, solteiras ou abandonadas, num indisfarçável traço de frustração que se
lhes grita do rosto aos gestos, por conseguinte, aquando da votação, o séquito
levantava o braço balofo sob a orientação dos óculos de massa com sabor a três
décadas, e lá conseguiu ser remunerada para além de ocupar a casa do rés-do-chão, quanto à limpeza,
manifestamente sofrível, subsiste, é mais o tempo que fica atrás da porta a
ouvir conversas, de forma a extrair informações da vida alheia que
oportunamente possa jogar a seu favor, do que a limpar o chão...
quarta-feira, 8 de abril de 2020
segunda-feira, 6 de abril de 2020
sexta-feira, 3 de abril de 2020
Tenho Saudades de Mim
Ele já não se recorda do exacto
momento em que ali entrou. Daquele preciso instante em que se atravessa uma
linha (sempre divisora de realidades). Afinal, é essa a sua razão de existir.
Mas ele era pródigo em transgressões. Aquela estranha coisa dos limites… O que
é isso de um limite? Não será sempre um espartilho? Embora o seu espartilho
momentâneo, porém, seja de outra ordem. Um esforço superlativo para ser. Logo
que atravessou as portas envidraçadas, a profusão de cheiros. As pernas
cederam. Ela, a seu lado, contrariada por ali estar. Só tinha um apetite (o de
não ser). Mas ele arrastou-a. Não foi difícil (um corpo de treze anos
emoldurado por um rosto de cinquenta; embora, em verdade, andasse pelos vinte e
seis). Pelo movimento de gente, seria aí pelo meio da tarde. Sim, eles tinham
despertado há pouco. Estavam sem carrinho. Talvez por não haver força para o
empurrar. Mas, depois, como levar os sacos? Eles também não iam abastecer
qualquer frigorífico. Apenas sobreviver. Nada mais. Começaram pelos iogurtes.
Logo ali. Um para cada. A sabedoria da natureza: quando um corpo apenas implora
por algo vital, cansado de tanto veneno, é por já avistar a outra margem. E
eles sôfregos, reanimados pelas efémeras calorias, partem em busca da padaria,
indiferentes a olhares e gestos (que apenas prenunciam um desprezo e nojo
inesgotáveis).
Na padaria, uma senhora, com a idade do respeito, providencia o
seu lanche (e talvez dos netos) com o cumprimento da sua carteira.
Parcimoniosamente. Ele, proveniente de outra realidade espácio-temporal,
grosseiro para a senhora (afinal, desconhecia parcimónia), agreste à lentidão
(a vertigem da necessidade requer velocidade), a empregada da padaria ameaça
com o segurança (que há muito os conhecia, mas receava a hora do fecho), por
fim, ela intervém, e ele afasta-se da padaria e abastece-se nas bolachas, o
olhar da idosa nela (uma sincera compaixão eivada de uma genuína tristeza), e
ela, agora, mais fraca. A partir dali, apenas aquele olhar. Ela sempre a
diminuir. Abrira-se a porta do passado. A arqueologia de um corpo no presente,
a alma num passado, não tão longínquo assim. Uma casa com uma família. De vez
em quando, a visita de uma avó. Com um carinho lento (sempre o verdadeiro). A
mão que lhe passava no rosto (e verbalizava: Vais dar muitas alegrias a esta tua Avó, não é verdade, minha filha?
Quero viver, para te ver a subir os degraus da faculdade. Hás-de ser médica,
para depois cuidares de mim). Agora, num qualquer lugar de sombras e
cimento, ele prepara a sua verdadeira refeição. E a dela também. Afinal, ele é
generoso. E neste exacto momento, ela olha a realidade como um todo: na
evidência do seu presente, com o peso trazido do passado, e com a mais provável
colheita do devir. Só se tem a noção
de totalidade quando o tempo se funde. Ele, absorto com o preparo, numa minúcia
de cirurgião, a olhar a seringa numa familiaridade inata de profissional,
iniciava a sua jornada além tempo.
Ela a fundir-se com a parede. A
relembrar aquele sorriso que a desarmou. Continuava a olhá-lo. A procurar
resquícios do passado naquele pardacento vulto que ali estava, diante de si, a
emitir onomatopeias indecifráveis. Um sorriso gabado em toda a escola.
Sobretudo no sector feminino, claro. Mas foi nela que mais se demorou. Curioso,
com a idade ele desaprendeu a lentidão. É quando se vive ao contrário. Ela
sucumbiu ao sorriso. Em casa dela, foi bem acolhido. Mesmo pela Avó. A tormenta
começou cerca de dois anos depois. O desconhecido. A ânsia de ir além. Ela
ainda procurou refreá-lo. Primeiro, fumos no carro, em lugares tímidos. Ela não
achava graça. Mas aquele sorriso podia fugir-lhe. Daí… Em casa, não lhe
estranhavam as alegrias fora de estação. Só a Avó, quando estava de visita,
retinha a testa. Chamou a atenção do filho e da nora para o perigo daquele sorriso
cada vez mais amarelecido, mas os empregos têm o dom de endurecer os ouvidos.
Até que, num final de tarde, não houve fumos. Nova transgressão. Afinal, ela
sempre ia aprender a usar instrumentos da medicina. A princípio, recusou-se.
Ele apenas uma expressão (Acompanha-me,
tenho medo de me perder). E aquele sorriso que se esbatia, de instante para
instante, e ela, logo a seguir, a enterrar, num antebraço trémulo, pelo garrote
improvisado da fita do cabelo, pelo genuíno medo, aquela agulha fria, a fechar os
olhos, a entreabrir os lábios, e a despedir-se de quem era (…)
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