Hoje
apenas uma memória, se me perguntassem quando a última vez que o senti, não
poderia responder, em verdade, não me recordo, apenas tenho a certeza de que,
com o tempo, foi à minha volta rareando o cheiro a terra molhada, como eu
gostava, após uma chuvada, em mim e à minha volta desse aroma que se levantava
da essência das coisas, por momentos, breves de facto, parecia que homem e
natureza se reencontravam, e um sentir de regresso à casa de sempre, há tanto
que não sinto o cheiro a terra molhada, nem mesmo quando chove dias a fio,
embora já não chova assim muito, hoje tudo é uma outra coisa, de repente, outro
aroma levanta-se-me na memória, o cheiro a lareira, a musicalidade do crepitar
da lenha fazia-se acompanhar pelo conforto do calor e o consequente terror das
cinzas, contudo, por muitas que tenha presenciado, em mim só reside o aroma da
lareira da casa dos meus avós...
sexta-feira, 13 de março de 2020
quarta-feira, 11 de março de 2020
domingo, 8 de março de 2020
A Solidão de uma Música Partilhada
De onde vinham? Àquela hora tardia? Afinal, que
horas eram ao certo? Não se sabe. De facto, não se consegue perceber que horas
marca o mostrador do carro, naquela peculiar tonalidade a atirar para o
alaranjado. A cidade sob um manto de silêncio. Do rio, emerge uma neblina com
auspícios de conquista. No ar, um temor de ecos. O carro procura a jusante de
um lar (feliz?). São raros os faróis circulantes. Apenas, e por uma vez, o eco
demasiado metálico, pontuado por assobios cansados de tanto os repetirem, de um
camião de recolha dos excessos. À passagem do digno centro da cidade (todo o
centro reveste-se de uma dignidade indizível), vislumbram-se sombras (muitas)
sob arcadas graníticas, que ora se expõem, num canto doloroso de sereia
naufragada, ora se recolhem no corar inoportuno de uma menina esquecida (ainda
terão a memória desta?). Na rua contígua às arcadas, algum trânsito, apesar da
hora. Viaturas com único tripulante, de olhar fixo nas trémulas sombras, talvez
outros naufrágios… Agora, sedentos e famintos, procuram, a esta hora esquecida,
naquelas trémulas sombras, o resquício de um calor ido (para onde fora?)… Do
outro lado da praça, também sob arcadas, cartões sobre linhas antropomórficas.
Um sobe e desce de respiração. De vez em quando, um halo ilumina-se pela graça
de um candeeiro. Todos numa respeitosa fila horizontal, encostada a uma parede.
De dentro do carro, afigura-se uma parada de cartões. Nem uma laje se avista.
Apenas, um chão cartonado. Ela ainda procura um rosto naquele estranho universo
de pedra e cartão. Um rosto que lhe permitisse a compreensão. No entanto, nada
vislumbrou. Todos velados por mangas sujas e coçadas de casacos, e por gorros
esticados num imperativo de pudor. Abandono, foi a única palavra que nasceu em
si. E por largos instantes, a única que a povoou. Ele olhava as fachadas
históricas e iluminadas dos edifícios. Embora a lentidão da marcha, indiciasse
um peso acumulado por lajes, mangas coçadas e gorros de pudor. Mas eles nada
tinham que lhes cobrisse o rosto. Dentro do carro, não se formavam halos.
Afinal, os candeeiros piedosos estão no exterior húmido e gelado. O único
desconforto ali sentido, deriva da música do rádio. A canção de uma outra vida.
Sim, todos vivemos várias vidas. Porque também morremos muitas vezes. E nenhum
deles ousa desligar o rádio. Sim, o pudor acaba por encontrar uma forma de
entrar no conforto tépido deste carro. Através de um gesto: o não desligar
de um rádio. É sempre mais suave que uma manga coçada a cobrir um rosto. E
o carro continua a rolar, a caminho de um lar (também naufragado?)… Agora
atravessam a ponte. Lá em baixo, luzes e luzes, o mais, apenas um véu de
distância…
quinta-feira, 5 de março de 2020
terça-feira, 3 de março de 2020
Uma Secretária à Sombra
O quarto cheira a solidão. Sim,
aquele quarto em particular. Será um quarto? Bom, trata-se de uma divisão da
casa. Mas a que não deram a finalidade de quarto. Deram-lhe uma outra. Tem uma
secretária e livros, livros, e mais livros… Na secretária, papéis agora
arrumados. Quem ocupa esta divisão? E de quem é a casa? Sombras, agora sombras.
Regressemos a esta divisão específica. À secretária com os papéis arrumados,
aos livros, ao estore corrido, às luzes apagadas (sobretudo a do candeeirozito
da secretária, que dava aquela tonalidade esverdeada), a cadeira arrumada que
proclama, no desconforto de um grito, o vazio desolador de uma partida. Quem
partiu? Quem ali vivia? De quem era aquela casa? Não nos interessa a casa.
Somente aquela divisão. A dos livros, a da secretária. Mas a casa… Não!
Interessa-nos, apenas, onde vivem as ideias. E uma casa sem livros é uma casa
sem ideias. E de pobreza, estamos conversados.
Será tarde, lá fora? Sim, talvez
entardeça, anunciam as escassas frestas dos estores, que, numa obstinação
guerreira, resistem ao hermetismo. A secretária silenciosa, os livros calados,
as luzes sem luz. Fechemos os olhos, ombro na parede, mãos nos bolsos… E sim,
de repente, ouve-se um som. Uma caneta rabisca algo num papel. Parece música! A
caneta pára, volta a andar, pára de novo, e sentimos luz enquanto a caneta
estática, apesar dos olhos fechados, uma luz povoa o quarto… De onde provém? A
caneta avança de novo, a luz esmorece, agora interrompe a marcha, a luz… Sim,
claro, já percebemos, a centelha que alumia a mão… A cadeira arrasta-se. Alguém
se levanta. Música. Sim, música pela casa. Um nocturno (Chopin?) preenche todo
o espaço. Afinal, entardece lá fora. De novo, a caneta. Sim, percebemos agora,
esta divisão pertence a um escritor. Abrimos os olhos. Ali está ele, à sua
secretária, parece-nos a encosta e a folha o vale, no olhar sonhos por sonhar,
e a mão numa férrea vontade de os agarrar. E os sonhos a fugirem-lhe, e a mão,
dirigida pelo olhar, sempre no seu encalço, com a ajuda de uma caneta e de uma
folha de papel. Sim, e da música. Porque música e sonhos habitam o mesmo
espaço. Um espaço além palavras. Onde esta se torna supérflua. E o escritor sabe
disto. Qualquer escritor, digno de usar este epíteto, conhece esta limitação do
verbo. Todavia, a quem o mundo não basta, é filho de D. Quixote. E só lhe resta
o galopar de sílaba em sílaba, descansar, para recobrar forças, à sombra de uma
vírgula, armado de uma caneta, e investir de novo contra a brancura desafiante
do papel, para tentar, aí, aprisionar o resquício esvoaçante de um sonho (…)
domingo, 1 de março de 2020
… uma vez alguém escreveu ou disse, já não me recordo, “Saber sair de cena é uma arte”, não podia estar mais certo, no fundo, há
algo que nos pertence por inteiro: a vida que nos resta… Se arranjar forma de
descobrir que o sol lá fora brilha tanto como o de ontem, seria tão bom, não
acha?
in A face demorada da tarde
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