De repente, vejo-me diante deste estranho, com um aspecto frágil,
delicado mesmo, e a questão (“Então, o que a traz cá?”) suspensa entre nós, embora só me pese a mim, quase me ensurdece (“Então,
o que a traz cá?”), eu opto por olhar à
volta, não me passou despercebido o silêncio da divisão, convidativo ao fluir
da palavra, embora talvez um pouco artificial, uma vez que, lá fora, a dessintonia
habitual da hora citadina, era uma sala agradável, um pedaço de lar ali
colocado, as cores suaves, das paredes aos objectos, ao centro pontificavam
dois cadeirões, de frente um para o outro, num convite implícito ao diálogo,
assim que os vi, nasceram-me palavras...
quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
Ao Sabor de um Eléctrico pelas ruas da Cidade
São sete da manhã. Ele permanece
ainda deitado. Chegara a dormir? O estore corrido não consegue travar o anúncio
de dia. Levanta-se, numa dificuldade crescente do acumular dos dias. Mas, sim,
levanta-se. Após arranjar-se, e antes que o silêncio da casa lhe ensurdeça a
razão, senta-se num banquito de madeira para comer um copo de leite e um bocado
de pão com marmelada. É uma casa pequena. Da cozinha avista a cama por fazer, e
os bibelôs empoeirados por cima da televisão. Primeiro, sorve um pouco de
leite. Não sabe porquê, mas sempre se habituou em jejum a ingerir primeiro
líquidos. Talvez por ser mais digerível. Só depois vem o pão da véspera
acompanhado com um poucochinho de marmelada. Mastiga, também, com a dificuldade
do tempo acrescido, no ensurdecedor crescente silêncio da casa. Por fim,
embrulha tudo e repõe nos sítios. Ao abrir o frigorífico, sempre se espantou
com o excesso inato de prateleiras. Afinal, o dele emanava a brancura do vazio.
Sempre foi assim. Até em anos de necessidade calórica. Ele apenas um sorriso
conformado interior. A sabedoria, no fundo, talvez seja a aceitação de que há
coisas que trazemos para o mundo e connosco partem. Antes de sair, ajeita os
fios de prata que lhe emolduram o rosto acinzentado pelas desilusões do tempo.
Pega no pente preto, aqui e ali com umas pontas partidas, e de olhos fechados
procede ao rito que antecede a saída. Após fechar a porta e rodar a chave
quatro vezes, antes ainda de chamar o elevador, procede a uma derradeira reconfirmação
de chaves e fechaduras. Sai para o mundo, num passo estugado para a idade, que,
visto de longe, proclama uma pressa de destino. E este não é assim tão longe da
porta do prédio. Àquela hora ainda poucos na paragem. Passados cerca de sete
minutos, ouve o som familiar de uma campainha. Vira-se para esquerda, e hoje,
sem saber muito bem porquê, afigura-se-lhe ainda mais familiar do que em dias
idos. Deixa sempre a pressa passar adiante. Afinal, há muito compreendeu o
malogro da sua fuga. De si, vai para onde? De novo a campainha, e a marcha
metálica tem início.
Viaja à janela – hábitos de meninice
que o tempo não apagou –, por ora o banco só para si. A cidade primeiro
espreguiça-se (o trânsito começa a avolumar-se, bancas que se montam, a vida
regressa-lhe…), de seguida lava a cara (persianas que se levantam, montras que
se renovam…), por fim perfuma-se (ora cheira a café, ora a bolos, ora a
flores…).
Para ele, o mundo há muito que está a
preto e branco. Os únicos movimentos que se lhe vêem, devem-se ao constante
pára e arranca. Sobejam um rosto e uma janela. As mãos seguram o nada. Talvez
uma ausência. Talvez demasiadas ausências. E o mundo sempre num preto e branco
dorido. Alguém se sentou a seu lado? Ele não sabe. Não terá reparado. O rosto
sempre na janela. Que contempla? Talvez o próprio movimento, e uma réstia
ilusória esperança de fugir de si (...)
quarta-feira, 22 de janeiro de 2020
domingo, 19 de janeiro de 2020
Divagações
A partir de hoje, se me perguntarem porque escrevo, responderei: porque a
vida não me chega! É um facto: a vida não me chega! Aqui chegado, continuo sem
lhe encontrar um sentido, quanto mais o Sentido, tantas teorias, da
religiosidade às filosofias, porém, nada que, no quotidiano, mitigue uma
extenuada questão regressada na voragem do acontecer: O que ando aqui a fazer?
Se me perguntassem a coisa de uma outra forma (Gostas da tua vida?), a minha
resposta seria pronta: Não! Quem responde o inverso (seja pela instaurada
tirania do maldito politicamente correcto, para não ferir susceptibilidades
próximas, pela ditadura do sorriso, a fraqueza de não reconhecer erros…), mente
ou mente-se...
sexta-feira, 17 de janeiro de 2020
Uma janela para qualquer coisa de bom
A
primeira vez que ali entrei, pela mão dos meus pais, teria os meus sete ou oito
anos, desde logo, fascinou-me a grandiosidade e a beleza do espaço, pude
contemplá-lo demoradamente porque havia uma fila considerável, compreendi,
pelas rasgadas janelas, um verde, lá fora, a relembrar-me aventuras em paragens
longínquas, enredos de cinema ou banda-desenhada regressaram-me à vista de tão
luxuriante paisagem, quando chegou a nossa vez, uma voz sussurrou-me (não me recordo se meu pai ou minha mãe), “Agora escolhes quatro variedades”, eu,
atónito, a contemplar as múltiplas iguarias, algumas pela primeira vez, hesitante,
renitente, a voz insistia: “Escolhe quatro variedades”, quase tacteando lá
procedi à minha selecção, depositaram-me o prato no tabuleiro (não me
recordo se meu pai ou minha mãe), seguiu-se
a escolha da sobremesa, o meu olhar, não sei porquê, perdido numa iguaria
verde, nunca vira um doce com tal coloração, com a exigida educação (sim,
houve tempos em que a educação era um imperativo social) questionei que doce era aquele, responderam-me, sorridentes, mousse de
abacate, de súbito, parecia estar noutro continente (mousse de abacate), a
escolha estava feita, após o pagamento, a procura por uma mesa vazia, havia uma
mesmo junto à grande janela que ilustrava um verde, lá fora, a relembrar-me
aventuras em paragens longínquas, foi a primeira vez que ali entrei, teria os
meus sete ou oito anos, mas uma certeza nasceu-me, ali estava meu lugar
preferido para almoçar...
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