quinta-feira, 6 de setembro de 2018
terça-feira, 4 de setembro de 2018
Etc…
Acabo de
terminar a chamada e ainda perdura em mim a voz, melodiosa de esperança, da minha
filha mais nova “Domingo, não queres vir almoçar cá a casa connosco?”, acho
espantosa a sua inextinguível capacidade de perdão, depois de tudo, sento-me na
cama e olho a fotografia, talvez ali propositadamente colocada, na
mesa-de-cabeceira, pela minha mãe, nós os quatro, sorridentes, como não podia
deixar de ser, foi no casamento de um primo dela, as miúdas bem mais novas, é
natural, passaram doze anos, e parece que foi há pouco, talvez anteontem, doze
anos, meu Deus (levanta-se-me, de imediato, uma velha e cansada questão: Quando
perdi o tempo?), contudo, se atentar bem, tanta coisa passou, os sorrisos
daquela foto esmoreceram, o casamento do primo também, tal como o nosso, e por total
culpa minha, agora que olho para isso, desta distância, ainda a voz, melodiosa
de esperança, da minha filha mais nova (“Domingo, não queres vir almoçar cá a
casa connosco?”), continuo sem perceber muito bem se errei, porque, de certa
forma, não, minto, se me fosse concedida a possibilidade de retornar no tempo, sei
que daria exactamente os mesmos passos, não há como lhe fugir, com todo o sal
que daí brotou, em mim e nos outros (...)
sábado, 1 de setembro de 2018
... ficámos a ver os últimos vestígios de luz no horizonte, umas pinceladas de laranja que irrompiam do cinzentismo generalizado, as águas espelharam avidamente cada resquício de luz, como se sedentas de cor antes dos braços da noite, nós ali ficámos a assistir emudecidos e gratos àquele final...
in Deslumbramento
quarta-feira, 29 de agosto de 2018
terça-feira, 28 de agosto de 2018
Quantas casas cabem numa vida?
Comecei a aperceber-me de que ela não estava bem, logo no primeiro
fim-de-semana, a seguir ao almoço, íamos àquele restaurante de que tanto
gostava, sempre a gabar as doses fartas e saborosas – creio que não havia um
único conhecido seu que não tivesse ouvido falar no dito restaurante –, era um
Sábado, acabámos um pouco antes das quinze, enquanto pagava, não sei porquê, mas
fiquei a observá-la, como se para me assegurar de que era desta, de que não
havia mais equívocos, porém, daquela curta distância, não obstante o contínuo
cirandar de vultos, no interior concorrido do estabelecimento, visualizei-lhe o
início de um terror mudo pela face, nessa altura, entre o pagamento, a espera
pelo troco, pensei, confesso, que o equívoco estivesse em mim, talvez não a
tivesse observado devidamente, contudo, assim que saímos para a calçada
ensonada, numa tarde de Sábado, daquela povoação, como uma evidência, saltou-me
à vista o seu flagrante terror perante a actual circunstância (...)
quinta-feira, 23 de agosto de 2018
segunda-feira, 20 de agosto de 2018
Eu só queria que o sol aquecesse por mais um pouco a lua
Todos
os anos, por esta altura, rumamos sempre para o mesmo destino, mais
especificamente aquela povoação onde ele, já em criança, passava as férias de
Verão, um mês antes, lá por casa, o assunto torna-se recorrente: “Este ano,
vamos para lá? Ou preferes outro sítio? Estás à vontade, se quiseres mudar,
podemos ver preços… Mas ali estamos tão bem, não estamos? O que é que achas? Eu
sei que tu gostas… Podemos ficar no mesmo quarto, aquele de onde se vê ainda um
bocadinho da praia. E os miúdos gostam tanto! Andam tão felizes por lá! Já
viste? Para quê mudar?”, eu saía deste chorrilho de questões quase sempre
angustiada, simplesmente por concluir que, há doze anos, invariavelmente cumpro
os mesmos passos em Agosto, e talvez nos restantes meses, se atentar um pouco,
no dia 1 ou 2, por volta das seis da manhã, o despertador numa histeria
dissonante com a época estival, propícia a gestos vagarosos e a reequilibrar sonos,
ele abandona a cama com uma energia desajustada para a hora, para o destino,
talvez para tudo, acorda os miúdos ruidosamente no quarto ao lado, o mais velho, de onze anos, salta da cama e
perfilha o entusiasmo paterno, o outro, de nove, mantém-se deitado, e só a
muito contragosto deixa a cama e inicia os preparativos para um tão cansado
destino, quanto a mim, de repente, vejo, do hoje, uma menina a sonhar no ontem,
e suplico-lhe para não acordar (…)
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