A música viaja-nos pela memória, ilumina
paisagens que julgámos esquecidas, levanta-nos dias que atirámos para um
qualquer canto obscuro de nós sem direito a um porquê, no fundo, mostra-nos quem fomos, quem somos, por onde caminha
o nosso sentir, por onde andou, e até onde se perdeu, às vezes de onde
dificilmente ressurgiu, neste ponto, recordo-me bem, guiava ameno, longe de
tempestades doutrora, mas temperado pela sua presença, havia nela qualquer
coisa de uma tarde de Domingo, como se um guião há muito conhecido, porém, de
onde não podiam surgir naufrágios, às vezes, é o suficiente, e, neste ponto da
minha vida, aprendi e bem, a valorizá-lo (…)
terça-feira, 26 de junho de 2018
domingo, 24 de junho de 2018
Já ninguém morre por amor?
Ontem saí da tua rua com a alma na sola dos sapatos. Não imaginas o que
me custou deixar-te! Não acreditas? O quê? Achas que digo isto a todas? Estás
bem enganada! Se encontrares alguém que te ame 1/10, do que eu te amo, dá-te
por feliz. Não, disto não podes duvidar! Queria tanto ter ficado contigo…
Estive quase a ceder à vontade de subir, de adormecer a teu lado, abraçados
apenas, às vezes é o suficiente, não achas? Parece que o próprio amor se eleva,
não sei… Reparei que olhaste para trás, ainda no passeio, palavra de honra, sei
que me vou repetir, mas não sei como consegui sair da tua rua, perdia-me a
olhar-te pelo retrovisor, nem sei como foi possível fazer aquela curva à
esquerda, de repente, alguém entra no espaço do nosso viver e torna-se
personagem principal, é isto que se passa, tu és a personagem principal do meu
existir! Não, por favor, não fales dela, dos filhos, fala somente de nós, já
viste, parece que estamos destinados a viver várias vidas no espaço de um só
existir. O quê? É ela que dorme a meu lado… Mas o meu coração está algures
caído pela tua rua, por favor, nunca coloques isso em causa! Pois, não é muito
elegante perguntares isso, é normal que te tenhas arrependido, não, não levo a
mal, até compreendo, já o fizeste, não precisas de pedir desculpa, repito:
compreendo. Se me amas, é natural que perguntes se entre mim e ela (neste ponto, doía-me tratar a minha
mulher de há décadas por ela, como se
me reportasse a uma qualquer estranha com quem me cruzei num passeio da cidade,
quando, na verdade, falava daquela, a única, que me levou, diante de um altar, a
proferir Sim, aceito…) tem havido intimidades, gostei dos ciúmes,
confesso (quem não gosta?), porém, soubeste demonstrar arrependimento pela
questão colocada e logo a declinaste, de certa forma, agradeci-te, afinal, não
estava preparado para lhe responder, pois, essas intimidades não são tua
pertença, ela já cá estava (de novo, ela,
uma incómoda dor levanta-se-me numa indistinta zona de mim) e tudo indicia que continue, porque eu não
posso permitir que o meu coração esteja caído numa qualquer rua deste mundo,
seja a tua ou qualquer outra, se ao menos o fosses buscar, e levasses, com o cuidado
exigido, contigo, o deitasses junto ao teu, para que, assim, pudessem conversar
sobre sonhos adormecidos ou sonhos ainda por sonhar, mas não, no fundo, talvez
tudo se trate de um equívoco, até o facto de por aqui andarmos seja o maior de
todos os equívocos, não sei, é possível, contudo, não compreendo que continues
a subir placidamente para a tua casa e deixes o meu desamparado coração na
agora arrefecida rua, sabes, nunca fui jogador, e como tu és dada a jogos, aqui
abre-se a porta às assimetrias, é bom para iniciar o adeus, hoje não que já é
tarde, mas amanhã, não, o mais tardar depois de amanhã (assim não terás
desculpas caso não o vás buscar, e levares, com o cuidado exigido, contigo, o
deitares junto do teu, para que, assim, possam conversar sobre sonhos
adormecidos ou sonhos ainda por sonhar), passo pela tua rua apenas para
recuperar o meu desamparado coração, sabes, nascemos com a capacidade de
regenerar corações (pelo menos, o nosso), descobri, algures por aqui, uma
ferramenta de nome equívoco, já havia tropeçado nela, sim, sem dúvida (ao
relembrar que já houve quem me levasse, sem quaisquer jogos, diante de um
altar, a proferir Sim, aceito…), seria muito tolo em permitir que o meu
coração continuasse caído, no alcatrão anoitecido, de uma qualquer rua, onde
lhe viram as costas enquanto sobem placidamente as escadas no regresso a uma
coisa que chamam de lar, também eu agora vou subir escadas no regresso a casa,
e cada degrau constituirá uma prece de perdão, por ter deixado cair o coração
no equívoco de uma rua anoitecida.
Pedro de Sá
(25/06/18)quarta-feira, 20 de junho de 2018
segunda-feira, 18 de junho de 2018
"... lembra-se no outro dia, lá no café, estava a
servir-me, enquanto a sua mão, com a chávena, num movimento descendente em
direcção à mesa, eu a desejar que o mundo se esquecesse de nós, a sentir o seu
perfume, porventura barato, mas sempre honrado, nisto, os nossos olhares a
encontrarem-se, e uma linguagem além-palavra, no fundo, quanto dissemos de nós
naquele instante, eu acho que lhe disse tudo, você também algumas coisas, uma
súbita sombra de timidez pelo seu rosto, eu a distanciar-me de mim, a perder-me
nesse novo continente que era a sua face, você, apesar da timidez, permanecia na
honra de me suster o olhar..."
in Olhos que se olham, almas que se tocam
quinta-feira, 14 de junho de 2018
quarta-feira, 13 de junho de 2018
Nós temos sempre a idade do momento
Uma
das piores coisas da vida é ver um erro grosseiro repetir-se, bem diante de
nós, sem que nada possamos fazer para alterar o rumo do acontecer, isto
geralmente devolve-nos um sentir de orfandade, uma regressada incompreensão das
coisas, como se nos aproximássemos de uma janela, para vislumbrar a ansiada
paisagem, contudo, quando estamos mesmo a chegar, mesmo a chegar, quase a
sentir a brisa no rosto, logo se fecha, com estrondo, diante da nossa
incredulidade, mas uma questão impõe-se: por que é que permitimos que um
grosseiro erro se repita? De facto, se houvesse resposta para tal, eu teria
sanado do meu existir tão nefasto regresso, em vez de assistir, impassível, ao
seu desenrolar, bem diante de mim (...)
segunda-feira, 11 de junho de 2018
Percebi-lhe, aos primeiros olhares, uma miríade de
emoções, entre a alegria de me ver e a dor infinda de se saber sentado, esmagado
de encontro aos seus sonhos moribundos, mas é curioso, assim que trocávamos as
primeiras frases, restabelecíamos a nossa singular empatia, que nos levava,
madrugadas infindas, a confidenciarmos a alma, enquanto ouvíamos melodias que
nos relembravam quantos já fomos nesta vida…
in Harmonia
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