Livros

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segunda-feira, 21 de maio de 2018

A singularidade de um gesto de amor




Há uns dias deparei-me com uma evidência: há gestos que se me tornaram impossíveis por se terem consubstanciado em palavra. Foi numa noite que ameaçava chuva, havia dúvidas, demasiadas talvez, no ar, da minha parte, dela também, entretanto, um jantar, vários convidados, fiquei de a ir buscar a casa, nessa altura uma chuva miudinha turvava horizontes, logo aproximava as coisas, à hora marcada, eu à porta dela, como combinado, um toque para o telefone anunciava a minha chegada, ela a descer, havia uma distância, próxima da altivez, na sua voz e gestos que me agradava profundamente, denotei-a assim que entrou no carro, como sempre, eu com melodias do ontem, ainda hoje não sei se lhe agradavam, embora música, para mim, fosse um veículo para me evadir da minha circunstância e regressar a lugares do ontem onde, afinal, compreendo hoje o que é isso da felicidade, porque é sempre retrospectiva (...)

quarta-feira, 16 de maio de 2018


segunda-feira, 14 de maio de 2018

Entrevista a Pedro de Sá na RTP1



Os "equívocos da existência" fizeram-me cancelar toda a promoção do "Harmonia" - o meu melhor livro. Bem distante dos tempos do "Do outro lado do rio...", onde cumpri escrupulosamente com a calendarização promocional.

domingo, 13 de maio de 2018


Creio que, a certa altura, escrevia para não enlouquecer. Seja lá o que isso for da loucura! Com os meus oitenta e dois anos na terra dos homens continuo sem saber o que é a loucura! Mas, sim, ele abriu uma porta, como todos que escrevem – repare: eu disse: escrevem, e não escrevinham, creio que entendeu –, daí as vozes, a quem a caneta cegamente obedece, percebia-se tão bem quando ele estava imbuído num livro, um pouco como quem está a viver uma enormíssima paixão: distante, feliz, absorto, com pressa em regressar, antes que o perca…
in Harmonia

Incessante Efemeridade das Vagas por Pedro de Sá

domingo, 6 de maio de 2018

Adeus, Shane - Pedro de Sá

Um dia perfeito



A vida são dias e dias que se atropelam numa voracidade crescente, até que, sem aviso, chega aquele, o fatal, em que tudo cessa. Assim sendo, quantos perduram em nós? A quantos regressamos para nos aquecerem o sentir? Pois, andava eu para aqui, com estas e outras questões, quando me dei conta do deserto de respostas, se quisesse levantar um dia na memória, confesso a minha inaptidão, momentos sim, embora, nestes últimos tempos, alimente o espírito somente de dois ou três, de facto, até espiritualmente me tornei dietético, como dizia, dois, três, quatro momentos, mas eu queria trazer um dia ao hoje, inteiro, cintilante, incontornável, um dia que valesse por uma vida. Se pensar bem, pois, sim, talvez, sim, esse mesmo, ainda no namoro, porque o casamento é um fim, e a beleza acompanha sempre o passo, nunca o sofá (o que há de sublime num sujeito sentado no sofá diante de uma televisão?), há uns dias ela falara num piquenique, a princípio, eu renitente, nunca fui adepto de me sentar no chão, quanto mais para comer, mas a sua insistência, acompanhada de um visível entusiasmo, fez-me capitular, ficou agendado para um Domingo, à hora marcada, não, não foi bem assim, nesses tempos, eu chegava sempre adiantado, só queria estar junto dela, nem que fosse sentado no chão sobre uma toalha aos quadrados, toquei à campainha e aguardei que descesse, não me apeteceu subir, estaria lá a família e necessariamente teria de fazer sala, e eu que nunca fui pródigo a encontrar diálogos na algibeira, confesso aqui a minha total inabilidade em povoar silêncios, mas, como dizia, aguardei que descesse, escudei-me com a recorrente desculpa de ter o carro mal estacionado, ainda hoje, por aqui, a imagem dela, a sair do prédio, trazia um vestido claro, só se me gravou a impressão, não sei se era branco ou bege, apenas a ideia de ser claro como o dia, tudo em consonância, o cesto pela mão, os gestos graciosos, no rosto apenas Primavera, após um beijo fugaz assim que se abeirou de mim, afinal, podia haver familiares à janela, depositou o cesto na bagageira, e lá fomos a caminho do parque, nos alvores do amor encontramo-nos mais no outro do que em nós, como é ampla a extensão de espelho que se nos oferece, para depois se ir subtraindo, subtraindo, subtraindo, até nos sabermos perdidos num equívoco, pelas janelas abertas do carro entrava aquele início de uma tarde primaveril de Domingo, não me lembro do que falámos, em mim apenas o conforto de saber que o meu coração serenara assim que ela a meu lado, chegados ao estacionamento, uma sombra à minha espera, ocupei-a de imediato, o carro já em apelos de reforma, havia sido de minha mãe, o que não augurava o melhor dos tratamentos mecânicos, de novo, a bagageira, agora fui eu que me inclinei pelo cesto, lá fomos, de mão dada, caminhámos um pouco em busca do lugar que se nos afigurasse mais aprazível, foi numa ligeira eminência, à sombra de um plátano, que assisti, encantado, à graciosidade com que a relva se cobriu de quadrados azuis e brancos, sobre estes surgiram tupperwares ora com salgados, ora com sandes, havia outro com bolachas, ainda apareceu um sumo, uma cafeteira, por fim, sentámo-nos, ela em sorrisos, começou por servir café em dois copos plásticos, brancos, ligeiramente abaixo, um grupo de crianças atrás de uma bola, percebi-lhe maternidade no olhar, eu sempre aquém de tais desígnios, porém, se por ela me sentara no chão, ainda mais para comer, quem sabe, um dia, uma mão diminuta dentro da minha e eu a guiasse para longe dos perigos do existir, por momentos, olhámos na mesma direcção, talvez ela esperasse pelo meu pensar, pois, creio que sim (...)

quarta-feira, 2 de maio de 2018


(...) ficámos, por instantes, a olhar o horizonte em silêncio, o astro já mergulhara nas águas, de um lado as estrelas multiplicavam-se como se ecos de sonhos por sonhar, do outro ainda vestígios de luz, talvez o dia já caminhasse estrada fora, mas olhasse para trás uma última vez, tudo estava em serenidade, das águas aos céus, os corações humanos pertencem a uma outra realidade, o meu em harmonia com as águas, o dela, neste momento, não sei, o seu olhar, no entanto, sempre naquele resquício de luz lá no horizonte, talvez já não tivesse sonhos por sonhar (...) 
in Harmonia


domingo, 29 de abril de 2018

Talitha Cumi



A primeira vez que a vi foi quando me abriguei na entrada daquele prédio, por causa de um repentino aguaceiro, o Inverno renitente em partir, como se procurasse estender a sua estadia por um qualquer capricho de última hora, ou talvez encantado pelo rosto fresco e florido da Primavera que se aproximava, pois, é possível, eu, incauto, apenas a olhar para o calendário, daí que, nessa manhã, ao sair, desprezasse o guarda-chuva, porém, ao final da tarde, no regresso a casa, assim que saio da estação, os céus resolvem limpar da terra os nossos pecados, surpreendido, corro até à entrada mais próxima, ali fico durante o necessário, mais dois ou três incautos, recém-chegados no mesmo comboio, juntam-se-me, no hoje evitam-se olhares, não compreendo, nem quero, olho à minha volta e descubro-a a um canto, muito encolhida, com uma mesita, à sua frente, que quase a cobria por completo, sobre a mesa umas agora esquálidas florezitas, deslustradas, enterneceu-me aquela visão, nisto uma mulher, creio que fosse mãe, aproxima-se, a tossir ruidosamente, percebo-lhe veemência nos gestos, repreende a menina por não ter acautelado uma protecção para as flores aquando do aguaceiro, espanta-me que não se tenha apercebido de que os céus igualmente sobre a menina, tal o dó de a olhar, também ela deslustrada, esquálida, as roupas, já de si pobres, agora encharcadas, apenas acentuavam a carência de dignidade nas refeições (...)

quinta-feira, 26 de abril de 2018



Como sempre acontece debaixo do céu do mundo, num certo momento, os nossos olhares demoraram-se um pouco mais, de seguida, o verbo, a musicalidade da voz, tudo em consonância, quando consegui, de novo, alcançar-me, já juras de amor pelo ar, uma opressão no peito quando ela não por perto, e a certeza pétrea de que me fora apresentado o conceito de amor…

in A noite aproxima-se e o dia está quase findo

A alma reflecte-se num espelho d'água - Pedro de Sá


terça-feira, 24 de abril de 2018



Percebi-lhe, aos primeiros olhares, uma miríade de emoções, entre a alegria de me ver e a dor infinda de se saber sentado, esmagado de encontro aos seus sonhos moribundos, mas é curioso, assim que trocávamos as primeiras frases, restabelecíamos a nossa singular empatia, que nos levava, madrugadas infindas, a confidenciarmos a alma, enquanto ouvíamos melodias que nos relembravam quantos já fomos nesta vida… 

in Harmonia

sábado, 21 de abril de 2018


De certa forma, acho que ainda estava naquela praia, perdido naquele deslumbramento, é possível que parte de mim ali permanecesse para sempre, pois, é possível, afinal, há lugares de onde nunca partimos...

in Àquela que me trouxe as estrelas à terra

segunda-feira, 16 de abril de 2018



Li uma vez, já não me lembro onde, que para fazermos Deus rir devemos contar-lhe os nossos planos. Mas, naquele tempo, nós éramos os próprios deuses. E ríamos bem alto… Até que os risos se tornaram um eco longínquo. Até o tempo o silenciar por completo. Até que, por fim, nos alimentamos de memórias do que fomos para nos esquecermos daquilo em que nos tornámos. Porque só olha para o passado quem sente o desconforto do presente.
in Queria rever o teu rosto ao entardecer

sexta-feira, 13 de abril de 2018


Por fim, o sol obrigou-o a desviar-se. Olhou um ramo próximo. Admirava, agora, a graça com que se alongava, em contínuas multiplicações, numa harmonia de matéria e céu. Como se abraçasse o todo, e tangesse a impossibilidade. De súbito, levou a mão ao rosto. Contemplou as inscrições gravadas na palma. E, então sim, compreendeu…

in Queria rever o teu rosto ao entardecer