Livros

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terça-feira, 10 de abril de 2018


Recordou aquela vez, há muito passada, em que acompanhou, precisamente dali, a lenta e cantada aparição do nascer do mundo. Nessa altura, o alaranjado do horizonte soube-lhe a vastidão. Já não se recorda de há quanto tempo foi, parecia-lhe, agora, ter sido numa outra vida. Sim, é verdade, quantas vezes se morre e nasce ao longo de uma vida?

in Do outro lado do rio, há uma margem

domingo, 8 de abril de 2018


Compreendo, com tristeza, que a felicidade é sempre retrospectiva. É sempre a estação deixada para trás. Toda a tristeza do mundo desenha-me no rosto a ténue linha de um sorriso compreensivo – aquele que provém do tempo.
in Queria rever o teu rosto ao entardecer

sexta-feira, 6 de abril de 2018


Com o tempo, aprende-se o desperdício do barulho, afinal, a última estação é a do silêncio.
in Do outro lado do rio, há uma margem


quinta-feira, 5 de abril de 2018


Somos cemitérios de afectos.

                                                        in Harmonia

sexta-feira, 23 de março de 2018

Rua dos Amores Perfeitos





Olhe, não sei porquê, mas há ali qualquer coisa que não bate bem. Sabe, ninguém me tira isto da cabeça, desde que a vi, o pateta, tudo embevecido, a trazê-la, ainda por cima, de mão dada, lá a casa, a virar-se para nós “Pai, Mãe, esta é a Matilde”, ela, de pastilha na boca, a cumprimentar-nos, não sei se foi a pastilha na boca, a expressão, o jeito, ou o conjunto, mas houve, logo ali, algo que me desagradou profundamente, ou talvez o desagrado proviesse dele, percebi, assim que nos apareceu com ela, como estava perdido, sabe como é, quem já passou pela coisa, reconhece logo os sinais, e a forma de lhe dizer o nome, quase levantava os pés do chão a cada sílaba (Ma-til-de), uma tristeza, ela só olhava à volta, como uma recém-chegada salteadora a avaliar o potencial do saque, sentaram-se no sofá maior, bem diante de mim, o tolinho continuava a dar-lhe a mãozita, ela a aceitar entre o enfado e o dever, a mãe (é curioso, já nem me lembro quando assim comecei a chamá-la: mãe. Como é possível? Houve uma altura em que, também eu, levantava os pés do chão a cada sílaba, I-re-ne, e o ar que se me ia quando a sabia longe, para, agora, na comodidade de amanhãs sabidos e de tantos ontem, no tédio de ser, I-re-ne dar lugar a um esquivo e tão cansado mãe) com uma bandeja, sempre num precário equilíbrio, de chávenas para o chá, não me escapou o seu espanto ignorante à vista das chávenas, pelo menos, manteve o silêncio, ou talvez avaliasse quanto conseguiria pelas chávenas e bandeja, pois, é possível, percebi que a chávena foi um óptimo pretexto para lhe fugir com a mão, ele com um traço de orfandade na expressão, à vista da evidência vazia da sua mão ainda aberta, ela pegou com avidez a chávena, não sei porquê, mas o gesto seria o mesmo fosse uma chávena de chá ou uma caneca de cerveja, talvez com a segunda hipótese estivesse bem mais familiarizada, disso não tenho dúvidas, o trivial, como quase sempre sucede, norteou os passos da conversa...

sábado, 10 de março de 2018

Um sapato velho atirado para a estrada



Volta e meia, a ideia da morte. Não é nada de novo, embora, nestes últimos tempos, com mais insistência. Desde criança, parte de mim, na altura desconhecia o porquê, invejava os que partiam, por vários motivos, primeiro, porque iam finalmente conhecer a Verdade, um pouco como aqueles que assistem à sessão de cinema anterior à nossa, e, para nosso desgosto, à saída vêm a comentar o final do filme, e nós nem na sala ainda entrámos, segundo, por raras vezes, deste lado, ter encontrado conforto, sempre o peso de existir em demasia sobre os ombros, a evidência de que nada é como queremos, de que o sonho não encontra a porta de entrada no espaço do viver…

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Habitante de dois mundos


Por detrás do balcão, observa vidas, perdeu a conta àquelas que gostaria de ter vivido, escondia este anseio na expressão hermética que há muito adoptara, no fundo, sempre foi uma observadora, daí o fascínio por janelas, e só observa quem quer passar despercebido, embora nela uma latente carência, que nem criança descalça, por um gesto de calor, mas regressemos àquele balcão, de onde ela observa vidas (…)

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018



Se nos metêssemos à estrada, naquela madrugada, hoje seríamos outros, ela tinha razão, há momentos que duram uma vida, se um pouco mais de atenção, acuidade às coisas, ao acontecer, talvez um hoje diferente, esta mulher, diante de mim, com o sol já em despedidas da sua face, dissertava sobre algo tão fundamental como o instante, a ínfima parte de um todo chamado vida, mas tudo é presente: a saudade respira no aqui, as escolhas habitam no momento, o sonho viaja no sono de agora…
in Harmonia