quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
domingo, 10 de dezembro de 2017
A dificílima arte desta coisa de nome viver
E, de repente, compreendo que já
percorri mais de metade do meu caminho. Resolvo sentar-me e reflectir nisto.
Olho para trás e tudo se me afigura uma irrealidade, como se uma névoa turvasse
a minha estadia por aqueles lugares, apenas as cicatrizes como testemunho da
autenticidade do ido. Tão estranho: já percorri mais de metade do meu caminho…
E continuo à procura de uma razão para caminhar, como se, em grande parte, me
tivesse deixado conduzir, ao sabor de uma corrente de velada fonte, por vezes,
vislumbro um sentido para as coisas, contudo, logo de seguida desvanece-se do
meu horizonte, no seu lugar apenas um desdenhoso absurdo, que me atomiza de
encontro aos meus mais turvos receios...
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
"Entretanto, descera um silêncio de
adeus no parque. Começou, também, a mover harmonia sob as águas, ao mesmo tempo
que olhava as impressões do movimento. As impressões nascidas de si. Cada vez
menos gente no parque. As janelas, dali avistadas, iluminavam-se. Olhou ainda
as águas. E o crescente silêncio do carrinho. Já era tarde. Estava na hora de
voltar. Levantou-se. Inicia um regresso vazio. Estava a ficar fresco, pensou. É
melhor estugar o passo. Não vá o bebé acordar. Mas ainda a fonte. Detém-se num
último olhar. A rapariga… Onde? Sim, é isso, onde nos perdemos? A mão no
ventre, o olhar nas águas, e a incompreensão do silêncio."
in A alma reflecte-se num espelho d´água
domingo, 3 de dezembro de 2017
"... volvida hora e meia, o estacionamento
de terra, a distribuição dos sacos, a mãe à frente, a brancura publicitava
ainda mais o efeito gelatina, seguia-se o pai, o azul-choque da tanga a
contrastar com a alvura descarnada dos membros inferiores, o irmão aos saltos
com a bola e mais qualquer coisa, a uns quantos passos atrás, a irmã, sempre
nas faldas deste quadro, a olhar como se de uma janela, demoraram o seu tempo a
instalar-se, após o guarda-sol, as toalhas, abrir as cadeiras, ligar o rádio,
pô-lo audível em relação às ondas, fechar os sacos onde havia comida por causa
da areia, ele deliciado a pôr protector nas costas da mulher, ela nem precisou
de o verbalizar, já a aguardava de frasco na mão, o filho entretinha-se a jogar
raquetas com um vizinho de um guarda-sol próximo, só a rapariga da janela se
encaminhou para a água, assim que uma onda lhe cobriu os pés, respirou fundo, avançou
mais uns passos, achou curioso, o único som advinha das águas, olhou para trás,
parecia tudo tão longe…"
in "Um dia de praia"
sábado, 25 de novembro de 2017
A arqueologia de mim
Ultimamente uma questão acompanha a
minha sombra: o que perdurará de mim quando partir? Volto do trabalho, ainda na
escada, percebo que a casa cheira a jantar, entro, cumprimento-a enquanto tiro
o casaco, começa, de imediato, a narrar-me as vicissitudes do seu dia, as
peripécias do bairro, finjo atenção e simultaneamente dirijo-me para a janela, acompanha-me
os passos e preenche-me os ouvidos até a um certo ponto, mais ou menos até à
mesa da televisão, que demarca a sala da marquise, aí chegados, não sei porquê,
regressa de imediato para as suas lides, enquanto eu, grato pela devolução do
silêncio, puxo de um cigarro e por ali fico, não a olhar este cenário extenuado,
mas à espera dos passos do pensar, nestes últimos tempos têm-me levado a um lugar lá
atrás, quando o agora apenas um sorriso confiante no rosto, talvez se lá
regressar volte a ostentar um sorriso confiante no rosto...
quarta-feira, 22 de novembro de 2017
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