Livros

Livros

quinta-feira, 2 de novembro de 2017



Até que, lentamente, começo a ver passado. Como se, cada acorde, correspondesse a uma pincelada de uma tela ainda por desvelar. Assisto à magia do alvor da memória, embalado pela melódica abertura deste sonhado Stairway to Heaven (da imortal banda inglesa). Há muito que não ouvia. Compreendo, com tristeza, que a felicidade é sempre retrospectiva. É sempre a estação deixada para trás. Toda a tristeza do mundo desenha-me no rosto a ténue linha de um sorriso compreensivo – aquele que provém do tempo.

Agora, sou um passageiro memória, e viajo à mercê do seu passo. E começo a sentir os odores, a cheirar as cores, e a rever as emoções daqueles dias, enquanto ascendo a azuis de outrora.
in Queria rever o teu rosto ao entardecer




quinta-feira, 26 de outubro de 2017


terça-feira, 24 de outubro de 2017


"... a 27 de Maio de 1987, na capital da ópera, contra todas as previsões, desde uma arrogância boçal aos favores dos média, familiarizados com nomes e marcas, e com uma traumática experiência 3 anos antes, com uma inglória final perdida, fruto de mais um que teve o seu preço, assisti ao mais belo bailado sobre um tapete verde, digno da capital que acolheu tal espectáculo, só vi camisolas azuis e brancas, de listas verticais, por todo o lado, até que, já se entrara no último quarto de hora, após tantas bolas perdidas, o magnífico argelino faz o impensável, aqueles singulares momentos em que a realidade se suspende para ver no que dá… Nem um respirar se ouve… Nada! Para mim, por muito que busquem argumentos coxos e desajustados, só o futebol tem este condão, de suspender o respirar do mundo para se ver se uma bola entra, e, felizmente, naquela noite de Maio, a bola entrou, e de calcanhar! O bailado fundia-se com uma justiça poética, e, nesse momento, sabia que o meu Porto ia ganhar..."
in "Quando a magia decidiu partir"

domingo, 22 de outubro de 2017

Rua do Sol



Hoje vi-o, passeio fora, orgulhoso, com uma bicicleta pela mão, percebia-se-lhe o tempo, mas, ainda assim, apresentável, percebi, de imediato, o destinatário, a essa hora olharia o quadro, verde, diante de si, talvez com uma frase para decompor ou uma conta de multiplicar, uma mão suportava os sonhos que lhe enchiam o pensar, enquanto a outra (com um lápis? Uma caneta?) fingia interesse pelo que se passava no quadro, àquela hora (aproximava-se o regresso a qualquer coisa de nome lar) as escassas refeições do dia empurravam-no para um sono crescente, andava por aqui há pouco mais de meia dúzia de anos, porém, aprendera que o encolher do estômago é proporcional ao alargar dos sonhos, nisto uma frase estridente fá-lo regressar-se e estremecer Perceberam, meninos? Ele a formular uma surda questão para si Perceber o quê? Os sapatos que, de tão apertados, mal lhe permitiam caminhar, quanto mais correr atrás de uma bola (...)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Os mortos não sonham


Sempre que aquela música na rádio, ele assumia um ar circunspecto, como se não a ouvisse, ou lhe fosse indiferente, porém, era precisamente esse véu de gravidade a denunciar-lhe os passos do sentir, isto sucedia com mais frequência no carro (afinal, em que outro lugar, do hoje, se ouve rádio?), nesses momentos, olhava a minha vida de uma qualquer janela, como se de uma ilusão se tratasse, tão estranho, ele ali, a meu lado, a conduzir a caminho de casa, e a canção, interminável, a povoar o silêncio que, de súbito, se abriu entre nós, enquanto os melosos acordes ecoavam, eu a olhar calçadas e transeuntes, como se tal me interessasse, logo eu que tão pouco reparava nos outros, e a canção, interminável, a certa altura, já nem posição tinha, de tanto me obrigar a olhar a janela do meu lado, nunca soube se ele se apercebia do meu esforço (pela janela), do meu súbito desconforto, do silêncio que a música nos legou, eu persistia a olhar, através do vidro, gentes, passeios, montras esconsas, creio, em verdade, que, assim que os acordes se repercutiam no interior silenciado do carro, ele desacelerava, como se quisesse eternizar o momento (...)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017


"Porém, quando a noite entra na nossa vida, é quase impossível perceber quão fugaz é a sombra do dia. "

in "É preciso morrer para ser visto"