quarta-feira, 2 de agosto de 2017
segunda-feira, 31 de julho de 2017
"... certa
noite, o amigo mais próximo
deposita-lhe uma sugestão, pertinho do ouvido, e remata: Vais ver que não custa nada… A seguir, uma beira de estrada, um carro a desacelerar, o vidro baixa, o
sujeito anafado, com uma calvície suada, mais velho que o pai, de sorriso
suíno, três frases e negócio firmado, ela com a urgência renovada de retomar a
fuga, a dignidade já nem nos bolsos..."
in "O silêncio do verbo"
sábado, 29 de julho de 2017
"Nem dei pela passagem da
reunião. Mas sei que a vivi. As marcas ficam. Ficam sempre: um contínuo
subtrair de entusiasmo. O seu equivalente traduz-se na crescente compreensão
dos velhos, que ruminam incessantemente, com as suas bocas desertas, sonhos
inconclusivos. Seduzimo-nos por brindar ao que foi, e esquecemo-nos de brindar
ao que poderia ter sido. Hoje, neste regresso a casa, uma vez mais na
auto-estrada da monotonia, vejo, à minha direita, a serra que se oculta na
névoa do entardecer, e, à minha esquerda, o mar de sempre. Nasce, em mim, o
desejo de um rosto pintado de promessa."
in "Queria rever o teu rosto ao entardecer"
segunda-feira, 24 de julho de 2017
Naquela estação, não houve beijos, longos abraços, dedos que se tocam, nada… Isso é para os filmes! Assim que a marcha se iniciou, nem os olhos se reencontraram mais. Nada! Ela inicia o regresso. Talvez cambaleie, afinal, quem conhece a sua geografia interior daquele momento? Cabeça baixa, uma mão no bolso, a outra segura um objecto (qual?), e o passo incerto de quem só possui pretérito. Quantas vezes na vida apenas temos pretérito? Porventura, vezes a mais… Mas quem o reconhece?
sexta-feira, 21 de julho de 2017
"... com o tempo, o sorriso foi
estreitando enquanto os braços empalideciam, aquela vozita filha da
espontaneidade foi ficando arrastada, curioso, nunca quis nada que lhe
ocultasse o roubo da coroa, apenas uma frase para atenuar o efeito, Assim pareço o Avô, talvez compreendesse
que há vazios intangíveis, talvez por gritarem para além da rouquidão, ainda
ontem, ao telefone, falava-lhe de natais por nascer e de aniversários por
cumprir, os braços lívidos ajudaram-no a pousar o telefone, percebeu-lhes a
dificuldade, afinal, ninguém ilumina um universo para assistir ao seu sono."
in "Os anjos não caminham"
terça-feira, 18 de julho de 2017
"Nessa noite, a nossa amizade viu a luz do dia. Uma amizade sem exigências: no fundo, a verdadeira. Minto, ele apenas me pedia que o levasse a passear duas vezes por dia. De manhã, para me mostrar a leveza do ar e a nitidez das coisas; e à noite, para me ensinar a distância das estrelas e sentir a respiração da terra. Em verdade, não pedia muito. Quantos não pedem mais, e não nos ensinam nada?"
in "Só espero que encontres um lugar onde reclinar a cabeça"
sábado, 15 de julho de 2017
"Afinal, tudo não passa de uma enorme desilusão pelo nada que foi dito, e
pelo tudo que ficou por dizer. As falanges a serenar enquanto os olhares agora repousam
naquele silêncio de fim. Ela acrescenta Esta
é a tua história. Cheguei a meio. Porém, conheceste-me no cinzento e
trouxeste-me para o azul. Ele sorri. Vira-se para ela e beija-lhe a face.
Assim ficaram, até que um ligeiro frio lhes relembrou noite. As águas
silenciosas agora em prata. Regressam ao quarto ainda de sentires entrelaçados.
Fecham a porta de vidro. Acendem um candeeiro. O mundo, lá fora, já uma noite
imensa. Enquanto eles se sorriem sob uma luz."
in "Do outro lado do rio, há uma margem"
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