Uma vez ela leu que a vida de um casal se escreve na cama, a frase
demorou-se nela, chegou a pousar o livro para digeri-la devidamente, anuiu
passado o necessário, de facto era tão verdadeira (“A vida de um casal escreve-se na
cama”), a sua actual circunstância é um
espelho dessa verdade, amarga no presente, por vezes, ansiamos tanto por
mudança, novidade, rupturas, como se implorássemos ao tempo que estugasse o
passo, e numa inesperada manhã, diante da nossa total impreparação, a vida, desdenhosa,
altera-nos radicalmente o viver, da janela do quarto ela olha o possível, nada
onde se lhe demore a vista, ainda menos o pensar, em si levanta-se a memória
com o aroma a café quente, como é distinto o cheiro a café quente comparando
com enfraquecido e inerte aroma a café frio, o perfume do café quente é digno
de todas as manhãs do mundo, há quem diga que Deus bebeu uma chávena de café
quente para se inspirar na criação de tudo, pois, é possível, mas, neste
momento, em pé, ela olha o possível, carros estacionados, a esquálida árvore,
lá em baixo, que se obstina no seu emudecido grito...
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quarta-feira, 18 de março de 2020
domingo, 15 de março de 2020
Quantas vezes nos cruzamos na vida (para depois nem um adeus)?
Àquela hora a sala estava cheia. Afinal, era uma da
tarde. Ele ocupava a mesa de sempre. Olhos no prato. Não bem no prato. Em
qualquer outra coisa. No ar, múltiplas vozes numa só conversa, talvez, no
fundo, se trate de uma só voz, sempre demasiado alto, que se desdobra pelas
diversas mesas, num assunto oco, balizado entre o queixume e a projecção. E ele
a olhar para a comida, sem qualquer vestígio de apetite. Só sente sede. A sua
afinidade está com o copo. Tem sede de se esquecer (de si?)... Ainda não levara
o garfo à boca, e a garrafa em metade. Agora roda o copo, vazio por enquanto,
firme na mesa, com o médio e o polegar. Roda, e roda, e roda… E no copo, não se
consegue encontrar, nem agora, nem em momentos idos. Pega na garrafa. O copo,
desta feita, escarlate. Sim, agora vê-se um pouco. Um sorriso, embora de há
muito. Na mão, um saco transparente com pipocas. Ela ocupada com o algodão
doce. Cor-de-rosa, sim, lá está. E, na frente deles, um carrossel, num apelo,
sem lugar para não, a voltas e voltas… O copo, de novo, vazio. Agora, transparente.
Já não se reencontra. Novamente, o polegar e o médio a rodá-lo: uma, duas, três
vezes… E nada. A sua transparência apenas lhe devolve vazio. Se ao menos o
pintasse de escarlate, uma vez mais, talvez reencontrasse o carrossel, o
algodão doce cor-de-rosa, o saco transparente cheio de pipocas… Mas a garrafa
não o permite. E a carteira ainda menos. Olha o empregado. Este, numa imaculada
pedagogia, assente no mais sábio compêndio do mundo (intitulado: Vida), sorri-lhe, aproxima-se, empurra-lhe o prato, já morno, para a
frente, pega na garrafa vazia, e sussurra-lhe ao ouvido: Alimente-se, homem. Já chega deste fel! E ele vê a garrafa a
afastar-se, sem direito a um adeus, e com ela a diluírem-se um sorriso, um
carrossel, a elegância de um algodão doce cor-de-rosa, e o gosto esforçado das
pipocas de um saquito de plástico transparente. Agora, só lhe resta o prato.
Olha a comida. Mas há muito que desconhece o paradeiro do apetite. Procura com
o olhar o empregado. Encontra-o, após o tempo necessário. Este apenas um
sorriso. Um sorriso que encerra um universo: Não, já chega. Pelo menos, por agora. Você não pode ter outra queda,
como esta última. De certeza, que não lhe sobrevive. À noite, bebe mais um
tragozinho. Mas com calma. Alimente-se, homem! Que se há-de fazer?! É a vida!
Não lhe podemos fugir… Por fim, ele levanta-se, mãos apoiadas na mesa. Com
ele, erguem-se as décadas de vida acumuladas, os dias de sol, as longas
borrascas, as certezas idas, e as dúvidas inesgotáveis… Encaminha-se para a
porta. Numa mesa, gritos de crianças chamam-lhe a atenção. Crianças, o futuro!
Que grande disparate, pensa ele. Criança é, e será sempre, sinónimo de passado.
Este pensamento ocupava-o quando, apoiado numa parede, toma o caminho de casa.
Sabe que, da porta do restaurante, os seus titubeantes passos são vigiados pelo
empregado. Pára. Olha para trás. Lá está ele, à porta, com o seu sorriso de
universo. Que se há-de fazer?! É a vida!
Não lhe podemos fugir…
sexta-feira, 13 de março de 2020
A sabedoria dos avós
Hoje
apenas uma memória, se me perguntassem quando a última vez que o senti, não
poderia responder, em verdade, não me recordo, apenas tenho a certeza de que,
com o tempo, foi à minha volta rareando o cheiro a terra molhada, como eu
gostava, após uma chuvada, em mim e à minha volta desse aroma que se levantava
da essência das coisas, por momentos, breves de facto, parecia que homem e
natureza se reencontravam, e um sentir de regresso à casa de sempre, há tanto
que não sinto o cheiro a terra molhada, nem mesmo quando chove dias a fio,
embora já não chova assim muito, hoje tudo é uma outra coisa, de repente, outro
aroma levanta-se-me na memória, o cheiro a lareira, a musicalidade do crepitar
da lenha fazia-se acompanhar pelo conforto do calor e o consequente terror das
cinzas, contudo, por muitas que tenha presenciado, em mim só reside o aroma da
lareira da casa dos meus avós...
domingo, 8 de março de 2020
A Solidão de uma Música Partilhada
De onde vinham? Àquela hora tardia? Afinal, que
horas eram ao certo? Não se sabe. De facto, não se consegue perceber que horas
marca o mostrador do carro, naquela peculiar tonalidade a atirar para o
alaranjado. A cidade sob um manto de silêncio. Do rio, emerge uma neblina com
auspícios de conquista. No ar, um temor de ecos. O carro procura a jusante de
um lar (feliz?). São raros os faróis circulantes. Apenas, e por uma vez, o eco
demasiado metálico, pontuado por assobios cansados de tanto os repetirem, de um
camião de recolha dos excessos. À passagem do digno centro da cidade (todo o
centro reveste-se de uma dignidade indizível), vislumbram-se sombras (muitas)
sob arcadas graníticas, que ora se expõem, num canto doloroso de sereia
naufragada, ora se recolhem no corar inoportuno de uma menina esquecida (ainda
terão a memória desta?). Na rua contígua às arcadas, algum trânsito, apesar da
hora. Viaturas com único tripulante, de olhar fixo nas trémulas sombras, talvez
outros naufrágios… Agora, sedentos e famintos, procuram, a esta hora esquecida,
naquelas trémulas sombras, o resquício de um calor ido (para onde fora?)… Do
outro lado da praça, também sob arcadas, cartões sobre linhas antropomórficas.
Um sobe e desce de respiração. De vez em quando, um halo ilumina-se pela graça
de um candeeiro. Todos numa respeitosa fila horizontal, encostada a uma parede.
De dentro do carro, afigura-se uma parada de cartões. Nem uma laje se avista.
Apenas, um chão cartonado. Ela ainda procura um rosto naquele estranho universo
de pedra e cartão. Um rosto que lhe permitisse a compreensão. No entanto, nada
vislumbrou. Todos velados por mangas sujas e coçadas de casacos, e por gorros
esticados num imperativo de pudor. Abandono, foi a única palavra que nasceu em
si. E por largos instantes, a única que a povoou. Ele olhava as fachadas
históricas e iluminadas dos edifícios. Embora a lentidão da marcha, indiciasse
um peso acumulado por lajes, mangas coçadas e gorros de pudor. Mas eles nada
tinham que lhes cobrisse o rosto. Dentro do carro, não se formavam halos.
Afinal, os candeeiros piedosos estão no exterior húmido e gelado. O único
desconforto ali sentido, deriva da música do rádio. A canção de uma outra vida.
Sim, todos vivemos várias vidas. Porque também morremos muitas vezes. E nenhum
deles ousa desligar o rádio. Sim, o pudor acaba por encontrar uma forma de
entrar no conforto tépido deste carro. Através de um gesto: o não desligar
de um rádio. É sempre mais suave que uma manga coçada a cobrir um rosto. E
o carro continua a rolar, a caminho de um lar (também naufragado?)… Agora
atravessam a ponte. Lá em baixo, luzes e luzes, o mais, apenas um véu de
distância…
terça-feira, 3 de março de 2020
Uma Secretária à Sombra
O quarto cheira a solidão. Sim,
aquele quarto em particular. Será um quarto? Bom, trata-se de uma divisão da
casa. Mas a que não deram a finalidade de quarto. Deram-lhe uma outra. Tem uma
secretária e livros, livros, e mais livros… Na secretária, papéis agora
arrumados. Quem ocupa esta divisão? E de quem é a casa? Sombras, agora sombras.
Regressemos a esta divisão específica. À secretária com os papéis arrumados,
aos livros, ao estore corrido, às luzes apagadas (sobretudo a do candeeirozito
da secretária, que dava aquela tonalidade esverdeada), a cadeira arrumada que
proclama, no desconforto de um grito, o vazio desolador de uma partida. Quem
partiu? Quem ali vivia? De quem era aquela casa? Não nos interessa a casa.
Somente aquela divisão. A dos livros, a da secretária. Mas a casa… Não!
Interessa-nos, apenas, onde vivem as ideias. E uma casa sem livros é uma casa
sem ideias. E de pobreza, estamos conversados.
Será tarde, lá fora? Sim, talvez
entardeça, anunciam as escassas frestas dos estores, que, numa obstinação
guerreira, resistem ao hermetismo. A secretária silenciosa, os livros calados,
as luzes sem luz. Fechemos os olhos, ombro na parede, mãos nos bolsos… E sim,
de repente, ouve-se um som. Uma caneta rabisca algo num papel. Parece música! A
caneta pára, volta a andar, pára de novo, e sentimos luz enquanto a caneta
estática, apesar dos olhos fechados, uma luz povoa o quarto… De onde provém? A
caneta avança de novo, a luz esmorece, agora interrompe a marcha, a luz… Sim,
claro, já percebemos, a centelha que alumia a mão… A cadeira arrasta-se. Alguém
se levanta. Música. Sim, música pela casa. Um nocturno (Chopin?) preenche todo
o espaço. Afinal, entardece lá fora. De novo, a caneta. Sim, percebemos agora,
esta divisão pertence a um escritor. Abrimos os olhos. Ali está ele, à sua
secretária, parece-nos a encosta e a folha o vale, no olhar sonhos por sonhar,
e a mão numa férrea vontade de os agarrar. E os sonhos a fugirem-lhe, e a mão,
dirigida pelo olhar, sempre no seu encalço, com a ajuda de uma caneta e de uma
folha de papel. Sim, e da música. Porque música e sonhos habitam o mesmo
espaço. Um espaço além palavras. Onde esta se torna supérflua. E o escritor sabe
disto. Qualquer escritor, digno de usar este epíteto, conhece esta limitação do
verbo. Todavia, a quem o mundo não basta, é filho de D. Quixote. E só lhe resta
o galopar de sílaba em sílaba, descansar, para recobrar forças, à sombra de uma
vírgula, armado de uma caneta, e investir de novo contra a brancura desafiante
do papel, para tentar, aí, aprisionar o resquício esvoaçante de um sonho (…)
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
A face demorada da tarde
Voltar
lá? Nem pensar! Para quê? Acabou? Acabou! Uma página que se fecha. Uma página
com mais de quarenta anos! Quando ali comecei a trabalhar, nem casada era,
hoje, os meus filhos já divorciados são, nesse aspecto não defraudaram os pais…
O quê? Não sabia que eu era divorciada? Pensei que soubesse… Não é uma coisa
que se ande para aí a anunciar ou de que se vanglorie, uma história cansada,
embora, claro, nunca esperamos que nos suceda, infelizmente bateu-me à porta,
uma mulher mais nova, bem mais nova, ele, tolinho, em passos de cachorro tonto
lá foi, sabe, creio que chega uma altura, na vida de um casal, mais nos homens,
de facto, em que lamentam subterraneamente contemplar o rosto macilento do
outro por ser um genuíno espelho do seu, daí a sedução por aragens frescas, não
sei se me faço entender, como descobri? É tão simples! Às vezes interrogo-me
como há tanta mulher que se deixa enganar, ou talvez prefiram olhar para o
lado, creio que seja isso, basta reencontrar no rosto dele a expressão
apatetada dos primeiros meses de namoro, o olhar sonhador que procura na
distância o vestígio de um rosto, às vezes penso se essa fase não terá sido
noutra existência ou se foi uma outra a vivê-la, porém os filhos atestam a sua
veracidade, chegou a um ponto que nem procurava erigir desculpas, esperava,
somente, pelo meu “adeus”,
por dentro desmoronava-me, certa tarde, ouço
a porta da rua abrir-se, creio que o ranger das dobradiças traduzia a
estranheza pela hora, os seus passos ligeiros pelo entardecido interior da
casa, não me recordo onde estava, tenho apenas ideia de também ali estar àquela
hora por uma fortíssima dor de cabeça, quando, por fim, nos encarámos, ele
baixou o olhar e eu optei por um virar costas, não houve recriminações,
injúrias, impropérios, gritos, nada, ele só vinha buscar o que era seu: a vida
que lhe restava, não podia impedi-lo, para quê insultar? Se por dentro ruía,
optei por uma fachada de indiferença, lá seguiu o seu caminho, escolheu caminhar
com um rosto matinal a seu lado, com todos os riscos daí inerentes, primeiro, e
fatalmente ignorado, a manhã rapidamente transformar-se-á em tarde, segundo, o
aspecto matinal não se restringe ao rosto, a distância entre actos e ideias
ainda é difusa pela cegueira matinal da hora, mas esse problema já não me
pertence, no mais, tenho de admitir que foi um cavalheiro, assumiu a responsabilidade
por termos falhado a nossa caminhada, mais uma a engrandecer a já de si
desmesurada estatística (a quem interessará tanto lar em cinzas? Pois, não é
assim tão difícil descobrir…), manifestamente só queria a vida que lhe restava,
jamais poderia impedi-lo, isso seria sempre pertença sua, tal como o inverso
também, num repente dessa tarde, tenho-o tão nítido em mim, olho-me e
estranho-me, como sempre sucede quando nos detemos em busca de um vestígio do pensar
e sentir na nossa imagem, foi diante do cansado espelho, por cima da cómoda,
que me foi legada a salvação do naufrágio generalizado, através de um conceito
que se ergueu em mim da planta dos pés à alma: “a dignidade”! Pouco mais me restava, para além da
convicção de que a manhã rapidamente transformar-se-á em tarde...
terça-feira, 25 de fevereiro de 2020
Só te conto os meus desejos, se dermos as mãos
Ela saía do trabalho por volta das
cinco da tarde. Ele lá estava, do outro lado da rua, dentro do carro.
Sorriam-se. Ela atravessava com uma cautela de garota devidamente avisada. Ao
entrar no carro, segurava com a mão direita o cabelo, como se este pudesse
ficar esquecido. Davam um beijo tímido, que servia mais para recompor a
familiaridade, do que de cumprimento. À pergunta Como correu o teu dia?, ela encetava logo uma descrição, demasiado
exaustiva para ser deste mundo, do seu desinteressantíssimo quotidiano laboral.
Todos os dias, ele arrependia-se da questão, mas esta sempre surgia, há falta
de qualquer outra coisa para dizer. E assim, ele iniciava a marcha, grato por
qualquer obstáculo que lhe fizesse redobrar a atenção (um súbito peão
desavisado, a inesperada travagem do carro à frente, o enervante vermelho que
sempre cai quando quase lá se chega, um buzinar algures), para o afastar de um
segundo cenário de trabalho que, de tanto o conhecer, é quase seu. Por fim, já
muito próximo de casa, ela lembrava-se de perguntar pelo dia dele. E ele,
apenas um encolher de ombros, e um normalmente,
para virar a página ao assunto trabalho. Ela lembrou-o ainda do leite que
acabara e da comida para o cão. Mas, agora, ela já sabia onde iam. Antes das
compras, antes dos filhos, antes de tudo. Era a vez de ela se silenciar e de o
deixar desabafar, não através de palavras, mas através de um gesto sonhado. Ele
desviava-se um pouco do trajecto de casa. Mas, para ele, estava apenas a
corrigi-lo. Entrava numa rotunda, virava na segunda à direita, subia uma rua
íngreme, ao fundo desta, à esquerda, numa zona só de vivendas, e parava diante
da terceira casa. Uma vivenda nova, de arquitectura moderna, aparentemente
desabitada (talvez a única por ali), com algum terreno a ladeá-la. Ali chegado,
desligava o carro. Virava-se para ela, dava-lhe a mão, e, de dedos entrelaçados
nos dela, dizia-lhe: Há-de ser nossa!
Um dia, esta casa há-de ser nossa.
Ela respondia com a indulgência sorridente possível, de dentro do utilitário,
comprado em segunda mão, com a tinta em vários pontos estalada, a precisar de
uma séria revisão sempre adiada. De seguida, ele ligava o carro, e partiam para
os deveres. Nunca lhe perguntou porquê
especificamente aquela casa. No fundo, ela sabia tratar-se de uma questão
absurda. Era aquela, ponto final. Após os deveres cumpridos, regressavam ao
lar, um apartamentozito, de duas exíguas assoalhadas, numa praceta onde o sol
não queria entrar, com os sacos de compras a sucumbirem ao peso, talvez já
estivessem rotos, acompanhados dos gritos das crianças, do ladrar do cão que os
terá ouvido, e de facturas por pagar, a única correspondência nunca extraviada
destes dias...
terça-feira, 18 de fevereiro de 2020
Quando uma Enxada mergulha na Terra, o homem ergue-se um pouco para o Céu
Terminada a refeição, levanta-se da imemorial mesa de
madeira, esvazia o resto escarlate do copo, limpa a boca com as costas da mão,
coloca a boina na cabeça, e sai para o quintal. Aí, observa o frenesim das aves
domésticas pelas sobras do almoço, que a mulher, numa paciência benévola,
distribuía. Olhou-a. Dos traços que demoravam o seu olhar, agora apenas
vestígios. Mas ainda assim, o seu olhar naquele rosto. Apercebia-se de que o
tempo esbatia a luz daquele olhar. No fundo, a de todos os olhares. Seria o tempo?
Ou as esquinas da vida? Pega na bicicleta, e grita-lhe do portão Vou andando, quando, em verdade, lhe
queria dizer outras coisas, com outras palavras… Quantas palavras ficam por
dizer na vida? E ele no portão, já em cima da bicicleta, e ela rodeada de asas
estridentes, ainda mais restos do almoço, e ele apenas queria dizer-lhe que sim, se fosse hoje voltaria a pronunciar
um sim diante do sacerdote, tudo, com
ela, valeu a pena. Pedala com a indolência de um início de tarde. A sua marcha
é ligeiramente oscilante. Será de levar a enxada pelo ombro? Será da idade?
Resquícios daquela estadia no hospital? E o calor a fazer-se sentir. Passa pelo
largo da igreja. O sino canta-lhe, agora, as horas, com a sua voz de séculos.
Quando o sino canta, a terra emudece. E como ele gosta daquela voz! De certa
forma, ecoa em si. Talvez por um anúncio de repouso. E ele num pedalar
obstinado, gotas de suor multiplicam-se-lhe na fronte. Segura o guiador com
maior afinco. E pedala, pedala, a respiração num crescente ofegante, nada ouve,
a não ser a crescente carência de oxigénio. Por fim, vê a sua terra. Encosta a
bicicleta a uma sebe. A enxada no ombro. Olha o céu. Tira do bolso um
amarrotado lenço, que aquieta um pouco a testa. Dá início à labuta. O tempo
passa, mas o calor não. O cabo da enxada já lhe é indiferente. Outrora
desenhou-lhe nas palmas das mãos uma geografia muito particular. Só quem há
mesa sente a leveza dos talheres, tem gravada em si esta indelével rota de
húmus e raízes (...)
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020
Só se Aprende ao Olhar para Cima
Ela estava deitada há algum tempo. Quanto? Não sabe.
Talvez tivesse dormido um pouco. O que a despertou? As dores? Sim. Não, o
barulho. Mas também as dores. Talvez tudo somado. E sempre um vai e vem
constante de batas brancas. Outros deitados como ela entravam em salas, de
portas de saloon, em velocidades de cenários de asfalto. E ela permanecia ali,
encostada a uma parede, com um gotejar, provindo das alturas, ininterrupto
braço adentro. O movimento não cessava. Tenta levantar um pouco a cabeça, para
compreender melhor o espaço. Logo uma mão sorridente trata de a serenar de
encontro à almofada. Ouve um expressivo acalme-se,
está quase, e ela, numa resignação indefesa, de regresso à horizontalidade
branca. De repente, uma dor excruciante brota-lhe dos estigmas. Uma dor de
fogo, no fundo, uma dor de raiz. Apercebe-se, agora, da sua imobilidade.
Afinal, já ali tinha estado. Aquando da primeira estigmatização. E, por ali,
não queriam mais cordeiros sacrificiais. Sim, esta foi a sua segunda tentativa.
Nessa manhã, tivera um teste de Português. Correra-lhe muito bem. Almoçara, num
cafezito próximo da escola, com umas colegas. Conversas de liceu, algures entre
rapazes e moda. Findo o almoço, o namorado acompanhou-a a casa. Sempre
diligente. Talvez demasiado atencioso. Hoje
estás longe, recorda-se de ele dizer isto, estás longe, sim, há muito que ela está longe, e ele a dar-lhe a
mão, pelo passeio fora, com um orgulho indesmentível, traduzido num sorriso sem
recuo, e ela de expressão amarelecida, a seu lado, ora a tentar acompanhar o
passo dele, acelerado pelo entusiasmo, ora em guerra declarada com aquela
estúpida madeixa, que testa incessantemente os seus reflexos e a sua paciência.
Ele deixa-a à porta de casa, significa beijo prolongado, ele sorrisos, ela
longe, ele entusiasmo, ela numa nostalgia muda, Logo, queres ir ao café?, e ela a pensar que logo é tão longe...
domingo, 9 de fevereiro de 2020
A eternidade é uma tarde de infância
Dizem que o tempo acelera com o decorrer da vida, não sei se é verdade,
talvez a verdade resida noutro lado, não é o acelerar do tempo, mas a nossa
crescente desatenção para as coisas, lembro-me, como se há pouco, que, na
meninice, passava muito tempo, nas mais diversas brincadeiras, em contacto com
a terra, desde corridas de carrinhos, aos inolvidáveis jogos das escondidas,
onde se buscava, com avidez, o lugar mais recôndito em escassos segundos, até
às batalhas de canudos, artilhados de acordo com os limites da imaginação, ou
os jogos de berlindes, transversal a todas as brincadeiras o sentir a terra,
foi aí que, de facto, aprendi a ouvir o respirar do mundo...
quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
Quanto tempo dura uma sombra?
De repente, vejo-me diante deste estranho, com um aspecto frágil,
delicado mesmo, e a questão (“Então, o que a traz cá?”) suspensa entre nós, embora só me pese a mim, quase me ensurdece (“Então,
o que a traz cá?”), eu opto por olhar à
volta, não me passou despercebido o silêncio da divisão, convidativo ao fluir
da palavra, embora talvez um pouco artificial, uma vez que, lá fora, a dessintonia
habitual da hora citadina, era uma sala agradável, um pedaço de lar ali
colocado, as cores suaves, das paredes aos objectos, ao centro pontificavam
dois cadeirões, de frente um para o outro, num convite implícito ao diálogo,
assim que os vi, nasceram-me palavras...
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
Ao Sabor de um Eléctrico pelas ruas da Cidade
São sete da manhã. Ele permanece
ainda deitado. Chegara a dormir? O estore corrido não consegue travar o anúncio
de dia. Levanta-se, numa dificuldade crescente do acumular dos dias. Mas, sim,
levanta-se. Após arranjar-se, e antes que o silêncio da casa lhe ensurdeça a
razão, senta-se num banquito de madeira para comer um copo de leite e um bocado
de pão com marmelada. É uma casa pequena. Da cozinha avista a cama por fazer, e
os bibelôs empoeirados por cima da televisão. Primeiro, sorve um pouco de
leite. Não sabe porquê, mas sempre se habituou em jejum a ingerir primeiro
líquidos. Talvez por ser mais digerível. Só depois vem o pão da véspera
acompanhado com um poucochinho de marmelada. Mastiga, também, com a dificuldade
do tempo acrescido, no ensurdecedor crescente silêncio da casa. Por fim,
embrulha tudo e repõe nos sítios. Ao abrir o frigorífico, sempre se espantou
com o excesso inato de prateleiras. Afinal, o dele emanava a brancura do vazio.
Sempre foi assim. Até em anos de necessidade calórica. Ele apenas um sorriso
conformado interior. A sabedoria, no fundo, talvez seja a aceitação de que há
coisas que trazemos para o mundo e connosco partem. Antes de sair, ajeita os
fios de prata que lhe emolduram o rosto acinzentado pelas desilusões do tempo.
Pega no pente preto, aqui e ali com umas pontas partidas, e de olhos fechados
procede ao rito que antecede a saída. Após fechar a porta e rodar a chave
quatro vezes, antes ainda de chamar o elevador, procede a uma derradeira reconfirmação
de chaves e fechaduras. Sai para o mundo, num passo estugado para a idade, que,
visto de longe, proclama uma pressa de destino. E este não é assim tão longe da
porta do prédio. Àquela hora ainda poucos na paragem. Passados cerca de sete
minutos, ouve o som familiar de uma campainha. Vira-se para esquerda, e hoje,
sem saber muito bem porquê, afigura-se-lhe ainda mais familiar do que em dias
idos. Deixa sempre a pressa passar adiante. Afinal, há muito compreendeu o
malogro da sua fuga. De si, vai para onde? De novo a campainha, e a marcha
metálica tem início.
Viaja à janela – hábitos de meninice
que o tempo não apagou –, por ora o banco só para si. A cidade primeiro
espreguiça-se (o trânsito começa a avolumar-se, bancas que se montam, a vida
regressa-lhe…), de seguida lava a cara (persianas que se levantam, montras que
se renovam…), por fim perfuma-se (ora cheira a café, ora a bolos, ora a
flores…).
Para ele, o mundo há muito que está a
preto e branco. Os únicos movimentos que se lhe vêem, devem-se ao constante
pára e arranca. Sobejam um rosto e uma janela. As mãos seguram o nada. Talvez
uma ausência. Talvez demasiadas ausências. E o mundo sempre num preto e branco
dorido. Alguém se sentou a seu lado? Ele não sabe. Não terá reparado. O rosto
sempre na janela. Que contempla? Talvez o próprio movimento, e uma réstia
ilusória esperança de fugir de si (...)
domingo, 19 de janeiro de 2020
Divagações
A partir de hoje, se me perguntarem porque escrevo, responderei: porque a
vida não me chega! É um facto: a vida não me chega! Aqui chegado, continuo sem
lhe encontrar um sentido, quanto mais o Sentido, tantas teorias, da
religiosidade às filosofias, porém, nada que, no quotidiano, mitigue uma
extenuada questão regressada na voragem do acontecer: O que ando aqui a fazer?
Se me perguntassem a coisa de uma outra forma (Gostas da tua vida?), a minha
resposta seria pronta: Não! Quem responde o inverso (seja pela instaurada
tirania do maldito politicamente correcto, para não ferir susceptibilidades
próximas, pela ditadura do sorriso, a fraqueza de não reconhecer erros…), mente
ou mente-se...
sexta-feira, 17 de janeiro de 2020
Uma janela para qualquer coisa de bom
A
primeira vez que ali entrei, pela mão dos meus pais, teria os meus sete ou oito
anos, desde logo, fascinou-me a grandiosidade e a beleza do espaço, pude
contemplá-lo demoradamente porque havia uma fila considerável, compreendi,
pelas rasgadas janelas, um verde, lá fora, a relembrar-me aventuras em paragens
longínquas, enredos de cinema ou banda-desenhada regressaram-me à vista de tão
luxuriante paisagem, quando chegou a nossa vez, uma voz sussurrou-me (não me recordo se meu pai ou minha mãe), “Agora escolhes quatro variedades”, eu,
atónito, a contemplar as múltiplas iguarias, algumas pela primeira vez, hesitante,
renitente, a voz insistia: “Escolhe quatro variedades”, quase tacteando lá
procedi à minha selecção, depositaram-me o prato no tabuleiro (não me
recordo se meu pai ou minha mãe), seguiu-se
a escolha da sobremesa, o meu olhar, não sei porquê, perdido numa iguaria
verde, nunca vira um doce com tal coloração, com a exigida educação (sim,
houve tempos em que a educação era um imperativo social) questionei que doce era aquele, responderam-me, sorridentes, mousse de
abacate, de súbito, parecia estar noutro continente (mousse de abacate), a
escolha estava feita, após o pagamento, a procura por uma mesa vazia, havia uma
mesmo junto à grande janela que ilustrava um verde, lá fora, a relembrar-me
aventuras em paragens longínquas, foi a primeira vez que ali entrei, teria os
meus sete ou oito anos, mas uma certeza nasceu-me, ali estava meu lugar
preferido para almoçar...
quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
Tem de haver uma Biblioteca no Céu
Conheci-o já adulto. Sim, porque só conhecemos alguém,
quando compreendemos as suas paixões. E para compreender as do meu Tio, levei o
meu tempo. E esse exigiu a maioridade. Recordo-me, com nitidez, a sua forma de
receber. Com elevada cortesia, convidava-nos a entrar, e apontava-nos, com a
sua mão direita, o fundo do extenso corredor à direita. Aí chegados, entrávamos
no seu mundo: um mundo de papel, de silêncio, de saber, de sonhos… E foi aí,
que me deu a conhecer o sublime da essência humana. Sentava-se, na sua secretária,
diante de mim, e dissertava acerca da temática mais relevante para o momento.
Por vezes, parava, para ir em busca de um qualquer texto que, oportunamente,
ilustraria, na perfeição, as suas palavras. E como era extenso o seu universo
de papel! O seu olhar, acompanhado pela mão, percorria lombadas e lombadas e
lombadas. Por fim, regressava sempre, num triunfo silencioso, com o volume
desejado. Sentava-se. Olhava o livro com uma familiaridade quase orgânica. Como
se este fosse uma extensão de si. E, no fundo, era-o. Sabia sempre onde o
abrir. Regra geral, os seus livros estavam comentados, sublinhados… E então,
procedia à leitura de um excerto, com a singularidade de uma voz que tinha o
dom de animar caracteres impressos, como se, em vez de os decifrar, lhes desse
a vida. Como eu gostava de o ouvir declamar Pessoa! E tantos outros… Acredito,
no meu íntimo, que o próprio Pessoa gostava de ouvir as suas palavras através
do meu Tio. Ainda hoje recordo quando declamou o Aniversário, de Álvaro de Campos. A cada verso, senti-me a
mergulhar naquele universo, numa viagem ao tempo em que festejavam o dia dos meus anos. E muitos, muitos, outros…
Sim, a lista é extensa, assim como a sua invulgar cultura. Sabia que o caminho
do saber é o da humildade. Porque só procura quem sente a falta. E, até ao fim,
procurou, e procurou, acrescentar um
pouco de areia à sua ilha (o meu Tio gostava, particularmente, desta
metáfora de Huxley). Achava que era o dever de cada um de nós, nesta
existência, lançar a ponte para o próximo. Só assim, no seu entendimento, a
compreensão poderia emergir. E, de facto, sempre procurou esse conhecimento do
outro. Ouvia-nos, sentado, a cabeça ligeiramente inclinada, num misto de
compreensão e indulgência. De seguida, as suas palavras apenas lucidez. Afinal,
os tempos não pedem outra coisa...
domingo, 12 de janeiro de 2020
O Verão é um lugar lá atrás
Há
palavras que fatalmente nos remetem para tempos e lugares, Verão é uma delas,
hoje, quando a ouço, limito-me a olhar para um tempo em que vivia o presente,
foi tão precoce este desaprender, não me recordo do momento, apenas do seu
carácter matinal na minha vida, lamento-o bastante, talvez por isso hoje queira
regressar a um tempo onde o passado estava à distância de um olhar e o futuro
apenas um sonho por sonhar, há felicidade maior que respirar o instante? A angústia,
assim sendo, não advém da ignorância, mas da consciência de tão precoce desaprender,
e a amarga compreensão da impossibilidade desse regressar, há quem o tente
através de retornos e recriações estéreis, não sei se chegam a entrever o
malogro dos seus esforços ou o ridículo do itinerário, embora, por estes dias,
ridículo seja um vocábulo em desuso, tal a proliferação da sua essência, mas
quando ouço Verão, limito-me a olhar para um tempo em que vivia o presente, e
para uma terra, de casinhas brancas, que contempla, a cada instante, o abraço
líquido entre rio e mar, a primeira vez que ali cheguei, familiarizava-me com
letras e números, lembro-me tão bem de ficar sentado, num muro branco, da falésia,
a olhar todo aquele azul à minha volta, a brisa quente relembrou-me outras
paragens, como se eu já tivesse sido outros, de repente, encontrava um Sentido
para as coisas (foi tão precoce este desaprender), algo tão raro, tão precioso,
íamos para lá em Setembro, daí ecoem na minha memória tantos entardeceres,
sempre vislumbrei em cada um o seu carácter irrepetível, no fundo, esse olhar
residia em mim e não à minha volta...
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
Por favor, diga-me que sim
Chegaram ao centro comercial, como é
habitual ao sábado, por volta das 3 da tarde. Apesar da idade do carro, a
estima dele não esmorece. Ainda por cima, como ele costuma dizer, sempre que
pode trata de o abonecar. Já lhe mudou a dianteira e consequentes novas
ópticas. O anoitecer, para ele, ganhou um novo desígnio: afinal, a estrada
passou para uma tonalidade algures entre o azul e o roxo. E não esquecer a
traseira… Mas já chega de carros. Afinal, acabaram de o estacionar, e, ao sair,
ele não evita bater com a cabeça no terço, pendente do retrovisor, que a mãe o
obrigara a colocar, sob promessa. Ela saía com mais solenidade: não só pelos
saltos, como pelo carácter da ocasião. Antes de as portas se lhes abrirem de
par em par, com a promessa de um triunfalismo nunca chegado, ele prime o botão
da chave, e escuta o guincho metálico do carro, observa o reflexo das luzes nos
vidros, e incha o peito por uma confiança revigorada. Ele dá-lhe a mão. Com a
outra ajeita o boné. Enverga umas calças de ganga, compradas numa feira em
Loures (na altura dissera a um amigo: São
um mimo, bacano. Por um nico, e parecem as verdadeiras), camisa branca, casaco castanho de
cabedal, um pouco coçado, e com o fecho estragado, e umas botas pontiagudas,
pretas, com umas cornucópias gravadas a atirar para o dourado. Está um pouco
irritado com um bocado de carne, preso entre molares, que não consegue tirar.
Não consegue desviar daí a língua. Já tentou, infrutiferamente, com o indicador
direito. Praguejou pela ausência de palitos. Tinha por hábito mirar-se nos
vidros das montras, e perdia-se com os reflexos de luzes provenientes da
ostensiva pasta de gel, que lhe emoldurava o cabelo. Ela, muito direita a seu
lado, trazia vestida uma camisola preta, de decote acentuado (neste particular,
ele nutria orgulho, e proclamava bem alto: O
que é bonito, é para se ver), por cima um casaco a imitar peles, uma
minissaia verde, e uns botins, forrados a leopardo, com um salto da altura da
vertigem. Deambularam um pouco, entre montras, com o semblante algures entre o
cumprimento de um dever e o fascínio. Enquanto ela resistia, desta feita, a
entrar, e ficava-se pelas montras, ele observava em redor, na esperança de um
sorriso conhecido. Mas os rostos cirandantes apenas lhe devolviam circunspecção
e o distanciamento da indiferença (...)
quinta-feira, 2 de janeiro de 2020
Quantas vezes se Morre e Nasce ao longo da Vida?
O cortejo negro, num passo lento e doloroso,
contrastava com o azul demasiado azul, talvez pelo seu convite à alegria, do
céu. Não era um cortejo muito longo. Também não se esperava que o fosse. Mas no
íntimo de cada um, latejava uma indizível revolta pela exiguidade do mesmo. Afinal,
tratava-se de uma última homenagem. E, para essa, todos são convidados. Ela ia
amparada (não se recorda por quem), a olhar um vazio, talvez não olhasse, mas
começasse a sentir. Por fim, os passos cessaram. Algo desceu (um regresso?),
ouviu palmas (soaram-lhe estridentes, despropositadas, ocas), e o som
(inesquecível) de pás e terra, terra a cair em madeira, e este som ecoou nas
suas raízes, como um grito secular mudo, e ela estremeceu, sentiu-se cair,
agarrou-se à falésia anónima do ombro que a ladeava… Quando, por fim, abriu os
olhos, só terra. Da madeira, nem sinal. Olhou o rosto dos homens das pás.
Ostentavam um rosto condizente com a mecânica dos seus movimentos. Nutriu
compaixão, afinal que sentimento pode suscitar a ignorância? Ouviu, agora,
passos, murmúrios, era a hora do regresso. Mas ela já não tinha hora. Ainda
menos onde regressar. Uma mão tola tentou arrastá-la. Tentou resistir-lhe, mas
não havia forças. Se ao menos uma lágrima lhe surgisse. Talvez uma súbita leveza.
Mas não. Sabia que o seu sentir estava além lágrimas. Um sentir de pedra não se
compadece com o carácter líquido de uma emoção. Sentiu-se longe. Apenas isso (...)
quinta-feira, 26 de dezembro de 2019
Com a Idade Aprende-se a dizer Adeus
Desceu a escada na dificuldade própria do acumular do tempo. Uma mão na bengala, a outra numa súplica muda – para quem? Por fim, sentiu o chão do mundo e saiu para a rua. Era crescente a sua distância em relação a tudo o que via. Primeiro, pela ligeira traição do ouvir – embora daí não se importasse, algo de latejante, em si, sussurrava que nada perdia. Em segundo, pelo espectáculo oferecido: uma velocidade contrastante com a sua lenta fragilidade, automóveis no lugar de pessoas, que a obrigavam a odisseias rodopiantes, rostos fechados, num emudecimento obstinado, que a faziam suspirar pelo vazio crescente de espaços outrora ocupados.
Iniciou a sua jornada. Ao passar debaixo da sua janela, ouviu o matinal canto do seu pássaro. Olhou para cima, numa retribuição muda de agradecimento, pelo estímulo da familiaridade. Morava no primeiro andar, de um prédio sexagenário. Numa dessas ruas da capital, onde o sol pede permissão para entrar. Era uma casa pequena. Apenas duas assoalhadas. Agora parecia-lhe enorme, pelo silêncio devolvido. À entrada, tinha uma mesa redonda, pontuada com o devido naperon (orgulhosamente proclamava-se a autora de todos os naperons por ali existentes), e, sobre esta, fotografias – vestígios de uma biografia! A casa estava repleta desta arqueologia. Afinal, ali houve vida! Ainda há, é verdade, embora uma ténue centelha, que se alimenta desta saudade que um dia espera reencontrar (...)
sábado, 21 de dezembro de 2019
Uma Mão Estendida para o Nada
Ali estava ele, sentado na calçada de uma movimentada rua da
cidade (Qual?), de mão estendida. Devia ser de tarde. Mas ele há muito
desinteressara-se do tempo dos outros. Observava os passantes na ânsia da
dádiva. Alguns devolviam-lhe uma certeza que, de alguma forma, conseguira
soterrar em si, através de um olhar inflexível. Estes eram sempre os mais
apressados. Geralmente, andavam munidos de uma pasta. Transpareciam uma
confiança, em cada passo, que o deixava atónito. Como se soubessem, em algum
recanto interior, que o destino era um servo submisso à espera das suas
instruções no alpendre. E ele, a sentir, simultaneamente, o frio e a dureza da
calçada, nutria compaixão por eles. Mas uma compaixão sincera. Como se os
olhasse de um cume, e os soubesse na dura inclinação da encosta (...)
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