sábado, 28 de fevereiro de 2026
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Se regressar, espero lá nos encontrarmos
Não
sei porquê, de repente, o meu olhar em lentos passos pelo seu rosto àquela
hora, devia a tarde estar no auge, ou talvez já caminhasse um adeus, ele
sentado à janela, na cadeira do costume, sempre com a rua, ou talvez não,
pousei o que me ocupava o momento (e penso que mais vezes devia ter pousado o
que tanto me ocupou os momentos…), enterneci-me com a expressão que ostentava,
o menino do ontem e o velho do hoje num duelo para ver quem ocupava mais espaço
naquele rosto, não se apercebeu de que pousara o que me ocupava o momento para
o olhar, a luz de adeus do exterior, não sei porquê, inclinava as coisas a
favor do menino do ontem, os cabelos de prata tornavam-se dourados, os sulcos
da vida impressos na face tornavam-se difusos no jogo de sombras daquela hora,
aproximei-me, não se apercebeu, sempre a rua, talvez aí procurasse o menino do
ontem, estendi-lhe a mão e encaminhei-o para dentro, a dificuldade em se
levantar acentuava-se, ainda há uns dias, a nossa mais velha A mãe tem de se mentalizar o que é melhor
para todos. Qualquer dia, dá cabo da sua saúde também… Isto assim é que não
pode continuar! Acha que o pai daria pela diferença, nesta fase, de estar em
casa ou num lar? Sinceramente, devia poupar-se… Desde cedo, percebi a
proximidade entre palavras e lâminas, quase lhes sinto uma certa
consanguinidade, por uns momentos, detive-me a olhá-la pelo lado do ontem,
talvez por saber que ajuda a suavizar as coisas, dessa janela, via-a às
cavalitas do pai, a insistir, nas manhãs de escola, quase em birra, para que
fosse o pai a levá-la à escola, e aquela noite, antes de jantar, eu sabia de
antemão do que se tratava, a campainha, disse-lhe para descer e ajudar o pai
com as compras, lá em baixo deparou-se com um carro novo, assim que a viu, o
pai atirou-lhe as chaves, ela entre a incredulidade e uma alegria irreprimível,
quase o sufocou com um daqueles abraços sem amanhã. A irmã, bem mais nova, não
se conteve Quando for mais velha, também
vou ter um, não é? Não tardámos com o Sim.
Veio numa fase em que, de certa forma, já estávamos acomodados, a sua
chegada fez-nos despertar para a existência, como se revivêssemos um período há
muito ido. Mas a mais velha, talvez pelas exigências da idade, ou do
temperamento, exigia-nos mais cuidados. Sempre que pensava nas diferenças entre
elas, a imagem da minha vizinha com os dedos estendidos e a frase recorrente a
ilustrar Pois é, os filhos são como os
dedos da mão, têm a mesma origem, mas são todos diferentes. Nunca se esqueça disto!
Anos depois, a mais velha, claro, exigia-nos mais cuidados, trocou o curso
por um súbito casamento e uma maternidade quase imposta, não gostámos da sua
escolha, mas sabíamos, de antemão, que, neste particular, escolher estava além
do nosso jardim, respeitámos, claro, embora isso não quisesse dizer que
aceitássemos, certa noite, levou o sujeito lá a casa, teria mais uns dez anos
que ela, um divórcio às costas, dois filhos reféns desse outrora lar,
sobrevivia pelo ramo imobiliário, denotava-se pelo discurso tiques de vendedor,
assim que o vi, confesso, desagradou-me, o mesmo sucedeu com o pai, bastou
darmos as mãos, enquanto eles entravam, para nos percebermos… Desde o fato
profusamente coçado, à pasta de gel que reflectia candeeiros, aos despojos de
acne de uma juventude sofrível que lhe pontuavam o rosto, à artificialidade dos
gestos e modos que indiciavam somente um carácter sem chão, de facto, não, não
gostámos da sua escolha, ainda hoje, quando, num acaso da vida, regresso a
estes momentos, não é difícil, basta olhar o rosto do meu neto, questiono o que
levou minha filha a olhar aquele sujeito, o miúdo, coitado, sempre o mantivemos
fora desta arena de sentires desordenados, embora lhe reconhecesse, em certos
traços de carácter, a herança paterna, talvez na verbosidade, muitas vezes, de
assuntos onde estava tão aquém… O curso esfumou-se, o filho ficou, o sujeito
partiu, foi reflectir candeeiros para outras paragens, o resultado expectável,
não houve censuras, recriminações, nada, quando a campainha soou mais pesada,
parecia anunciar o filho e as malas que ela trazia, o pai limitou-se a
abrir-lhe a porta com uma expressão ternurenta, preferiu calar-se a dizer algo
desajustado, eu não consegui, assim que as malas e o miúdo sob a luz do
candeeiro da entrada, não me contive Pois…
Pois, de falta de aviso não te podes queixar… Estava escrito! Só não viu, quem
não quis, não ousou ripostar, no fundo, ela sabia de que lado estava a
razão, e apesar de orgulhosa, a sobrevivência impunha-se. A irmã não se
manifestou, estava naquela fase da vida em que a manhã compreende que se torna
tarde. Não se seguiram tempos fáceis, porém, ela não permitiu que o miúdo se
tornasse em mais uma despesa nossa, empregou-se, apesar da insistência paterna
para que retomasse o curso, respondia laconicamente Agora é impossível! Tenho um filho. E sou eu que tenho de lhe pôr o pão
de cada dia na mesa. Tínhamos orgulho pela assumpção da responsabilidade,
contudo, havia em nós simultaneamente uma dor inconfessada pelo curso
abandonado e por uma existência inconclusa: sempre que a olhávamos, víamos duas
pessoas: a real e a sonhada; a que é, e a que podia ter sido. Ela também o
sentia, daí a pressa constante, nos gestos e palavras, sempre que na nossa
presença. É sabido que, pelo menos, vivemos duas vidas: a pensada e a vivida.
Somos plurais, é um facto. Foi o pai que a fez reaprender a lentidão dos gestos
e palavras, quando se aproximou do neto, lhe aligeirou, com o seu saber, o
fardo de existir, e, por fim, fê-la sorrir, como um caminho que, sem saber
muito bem porquê, nos esquecemos ou deixámos de usar por uma qualquer súbita
conveniência…
Desde
cedo, percebi a proximidade entre palavras e lâminas, quase lhes sinto uma
certa consanguinidade, por uns momentos, detive-me a olhá-la pelo lado do ontem,
talvez por saber que ajuda a suavizar as coisas, mas não, pelo contrário, como
é que ela ousa Acha que o pai daria pela
diferença, nesta fase, de estar em casa ou num lar? Sinceramente, devia
poupar-se… Depois de, numa outra vida, foi tão ontem que assim me parece,
com uma infinita paciência o pai tê-la feito reaprender a lentidão dos gestos e
palavras, quando se aproximou do neto, lhe aligeirou, com o seu saber, o fardo
de existir, e, por fim, fê-la sorrir, como um caminho que, sem saber muito bem
porquê, nos esquecemos ou deixámos de usar por uma qualquer súbita
conveniência… Hoje vejo uma sombra do homem que foi, mas, pelo menos uma vez
por dia, através de um olhar, um gesto, um sorriso, a sombra dilui-se e ele
ressurge, como se não houvesse ontem, como se nunca tivesse partido, e isso
para mim é mais que suficiente.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
domingo, 22 de fevereiro de 2026
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Só tenho o sol e a lua
Se me
perguntassem, hoje, se o voltaria a fazer, a minha resposta seria sim. Não há como lhe fugir. Confesso que
me custou depois, e as lágrimas que não caíam, acho que foi a primeira vez que
chorei para dentro, parecia que as lágrimas vinham do mundo para mim… Tudo
começou no final de uma manhã, a campainha, o meu filho a entrar, percebi-lhe,
pelos passos do olhar, que me ia pedir algo, como se fosse o menino que ainda
guardo em mim, primeiro, a olhar à volta, passos lentos na minha direcção, a
voz pausada e serena, quase a soletrar Sabes,
mãe… Começava, sempre que queria algo, assim a frase (Sabes, mãe…), com a voz pausada e serena, neste caso, falou-me da
possibilidade de um negócio qualquer com o meu genro, um café, lá do bairro,
estava para trespassar, não por falta de liquidez, ressalvou logo, apenas o
cansaço e a idade do casal, há anos que o homem dizia aos clientes Estou a ficar fora de prazo! Qualquer dia,
passo isto e regresso à minha terra. Não quero morrer sem cumprir o sonho de
construir uma casita na minha aldeia. E de, pelo menos, eu e a minha patroa
termos uns anos de descanso por lá. A cidade mata-nos. Isto não é vida para
ninguém! Pegamos de sol a sol… E férias, nem vê-las! Sabe há quanto não sabemos
o que é um fim-de-semana? Ocultou-me as últimas cinco frases da sua
argumentação, só muito depois é que as conheci. Acrescentou que seria uma
excelente oportunidade para todos, como isto não está nada fácil de empregos,
assim sendo, precisavam de um avalista para o empréstimo, lembro-me tão bem, a
vida é muito engraçada, há coisas que não nos largam e outras que parece que
nem lá estivemos, neste caso, estava a preparar-me para descascar as batatas do
almoço, ao falar disto quase as sinto ainda em minhas mãos, como se nunca as
tivesse largado, disse-lhe logo que sim, apenas relembrei a minha reforma, que
ia pouco além de quinhentos euros, ele retorquiu que, o avalista, se tratava de
uma mera formalidade bancária, encolhi os ombros, queria simplesmente que eles
encontrassem o seu espaço neste mundo, e, tratando-se do meu genro, que a
família se reencontrasse, bem sei que nunca foram muito próximos, isso, de
certa forma, contribuiu para que ele e a irmã se afastassem um pouco, dói ver
seres, nascidos da nossa carne, caminharem tão afastados, durante uns tempos,
consegui juntá-los à minha mesa… Nessa noite, a campainha, minha filha e meu
genro, já sabiam do meu sim, vinham
agradecer e descansar-me, Não te
preocupes, mãe, que vamos todos arregaçar as mangas. Vai ser um sucesso! Já
temos umas ideias para inovar o espaço, até vamos reformular o conceito… Neste
ponto, eu ficava a olhá-la, nunca percebi se ela falava mesmo assim ou se fazia
de propósito para que não a percebesse, sempre que me alheava de uma conversa,
aprendi a prestar atenção aos gestos e expressões da pessoa, falam sempre muito
mais que as palavras, por vezes, tornam-se ensurdecedores com os seus
desesperados e calados gritos, confesso a minha preocupação após esta visita
nocturna, minha filha caminhava pelo sonho, arrastando com ela o seu
companheiro, em contraste com o irmão, que se movia pela necessidade, apesar de
todos conhecerem o flagelo do desemprego, partiam de lugares tão distintos,
sonho e necessidade não vivem debaixo do mesmo céu.
Cinco
meses depois, a campainha, também num final de manhã, dessa vez, lavava umas
alfaces para a salada, fechei a torneira, limpei as mãos, meu filho, com um ar
transtornado, pensei a questão mas acabei por não lhe dar voz (Não devias estar a trabalhar?), era
demasiado evidente, ali à porta, a olhar o tapete, sempre que perdia nos jogos
de bola, fazia o mesmo, pois, o menino que ainda guardo em mim, entrou devagar,
sentou-se, falou, falou, não o interrompi, nem o devemos fazer, aprendi, há
muito, que os gestos e expressões falam sempre muito mais que as palavras, por
vezes, tornam-se ensurdecedores com os seus desesperados e calados gritos,
afinal o café não abre portas há três semanas, confessou-me que não tencionam
reabri-lo, primeiro, acusaram-se de, ao final de cada dia, as contas nunca
baterem certo, seguiram-se recriminações por uns trabalharem mais que outros, a
minha filha queria investir para reformular conceitos, o irmão, e bem, achava
prematuro, certa tarde, filho e genro quase de pegavam em frente aos clientes,
avançaram com os papéis para a dissolução da sociedade, neste ponto, ninguém se
lembrou do empréstimo ao banco, continuam a não se lembrar, mesmo que a memória
se refrescasse, nada poderiam fazer, com o tempo, percebi que um avalista é
tudo menos uma formalidade bancária, comecei a receber carta atrás de carta com
uma frequência quase diária, logo eu que só tinha as três ou quatro contas
providenciais a desaguar-me todos os meses na caixa-do-correio, certa tarde, ao
levantar a reforma, dão-me trezentos e poucos euros, a minha indignação de nada
valeu, só duas semanas depois é que me informaram da penhora de um terço da
minha pensão, seguiu-se um panfleto colado na porta, retirei-o, claro, li-o
mais que uma vez, contudo, faltavam-lhe gestos e expressões, falam sempre muito
mais que as palavras, depois, bom, não quero falar disso, nem o vou fazer, a
vida é muito engraçada, há coisas que não nos largam e outras que parece que
nem lá estivemos, não sabia que podiam ser simultâneas, hoje para aqui estou,
num pequeno quarto, em casa do meu filho, quando me convidaram a deixar a minha casa, um homem, de fato, com um papel na
mão, acompanhado de polícias, não quero falar disso, nem o vou fazer,
lembrei-me de, certa vez, alguém dizer Quando
se fala muito em liberdade, é mau sinal, pois, eu a pensar onde estava a
liberdade quando me apontaram a porta da rua da minha própria casa, tive de me
amparar aos móveis para não cair, uma incredulidade raivosa apoderou-se de mim,
concluí que, a partir de agora, só me restavam o sol e a lua, nada mais, não
quero falar disso, nem o vou fazer, várias vezes, enquanto caminhava para fora
da minha casa, ouvi por mais que uma voz A
senhora sente-se bem? Não quer parar na farmácia? É melhor medir essa tensão! Foi
meu filho que serviu de véu quando as lágrimas do mundo correram para mim,
contaram-me, mais tarde, que a irmã estava do outro lado do passeio a assistir,
discreta, que chegou a discutir com a polícia e com o homem do fato, que lhes
gritou Esta casa viu-me nascer! Soube,
uns dias depois, que deixara de ter genro, não posso dizer que o lamente,
talvez ela apareça uma noite destas para jantar, e, se ela aparecer, queria
sossegá-la, dizer-lhe que Dificilmente a
casa que nos viu nascer será a do último adeus…
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
sábado, 14 de fevereiro de 2026
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
O homem do sorriso triste
Todos os anos é a mesma coisa, após as férias,
aí vem ela, naquele seu jeito acelerado, com os meus dois netos, o meu filho
sempre cinco a seis passos atrás, entra e senta-se sem o mínimo de um
providencial com licença, nunca me
habituei a isto, nem quero tal coisa, houve quem já me dissesse Não ligue! Ignore, que é o melhor que faz…
Esta geração é assim! Que se há-de fazer? A isto, eu respondo Educação desconhece idades ou gerações.
Simplesmente, ou se tem ou não, repito, nunca me habituei a isto, nem quero
tal coisa, mas, como dizia, ela já sentada, os miúdos ainda no corredor, o meu
filho, coitado, a fechar a porta de casa, a relatar-me as férias, para melhor
ilustrar o vazio das suas palavras, socorre-se do rectângulo do hoje, a forma
do indicador aterrar na superfície envidraçada confere-lhe, confesso, uma
ilusória noção de elegância, que, em verdade, nem ela nem os seu desengonçados
gestos possuem, contudo, na aparência tudo é sempre uma outra coisa, e ela,
coitadita, de dedo em riste, puxa imagem daqui, empurra outra para acolá, como
se eu, alguma vez, com os anos que tenho desta desgraçada estadia neste
estranho lugar a meio sempre de qualquer coisa que só no fim saberemos o que é,
esperamos bem que sim, ficasse pela superfície das coisas, o irritante e
incansável indicador fazia-se acompanhar da sua inqualificável voz Já viu? Esta tirámos de propósito para si.
Esta praia fica mesmo em frente ao hotel. É fantástica, não acha? E os seus
netos ficaram tão bem… Entretanto, os miúdos entram, a voz dela cessa, por
pouco, bem sei, cumprimentam-me e logo se vão sentar, denoto que nem o esforço
de abrir uma porta de diálogo, pois, nunca me habituei a isto, nem quero tal
coisa, por fim, o meu filho, ainda por cima único, tanto que eu e o pai
sonhámos para ele, cumprimenta-me com pudor sempre que na presença dela, há
tanto que li estas entrelinhas, ainda namoravam, e ela já lhe atirava à cara És mesmo um menino da mamã! Isto parece
que se lhe interiorizou, desde então, este pudor de gestos e palavras, como se
um espartilho, olho-o e percebo-lhe uma sombra pousada no rosto, não,
acreditem, não é coisa de mãe, muito menos um delírio de velha, há muito que o
meu filho, ainda por cima único, vive com uma sombra pousada no rosto, nem de
propósito, quase de seguida, a boçal atira Já
viu? O seu filho é que fica sempre cá com uma cara… Sinceramente! Vira-se
para ele e acrescenta Não és nada
fotogénico! Aqui quase lhe respondia, mas, num último instante, consegui
segurar a frase que me deixava (Se não é
feliz, não pode ter boa cara!), confesso desconhecer o porquê de me ter
calado, talvez essa fala pertencesse a uma outra voz, sim, talvez seja por aí,
afinal, não foi para mim que ela se virou (Não
és nada fotogénico!) … Teria de ser ele a afastar a sombra pousada no seu
rosto, há coisas que já são uma nossa pretérita pertença, como se estivessem
largadas no mundo à espera da nossa passagem, este momento aguardou por ele,
sempre ali esteve, de todas as formas possíveis, o eco ainda se arrastou pelos
ares da tarde (Não és nada fotogénico!),
ele impassível, parecia habitar outro contexto, a sombra pousada no seu rosto
vencia-o sempre, reparei que, nos momentos seguintes, evitou o meu olhar, nada
de novo, quantas vezes, desde que ele abriu a porta da nossa casa à boçal, isto
se repetiu? Tanto que eu e o pai sonhámos para ele! Ainda me lembro, pelos seus
últimos dias, o meu querido marido, em esforço, a articular Mulher: vê se metes algum juízo na cabeça do
nosso Fernandinho! Aquela mulher nem para um bode serve! E, pouco dias
depois, partiu… Com este desgosto, é certo, mas que fazer? Abrimos a porta do
mundo aos filhos, mas são eles que escolhem a que sombras querem repousar, para
mim, a tarde já vai alta, relembro a janta que tenho de fazer, ela percebe o
toque, que eu sei, embora se faça desentendida, mudo de estratégia E agora que as férias acabaram, vai procurar
trabalho? Ou acha que não vale a pena? Já conheço a sequência desta cena,
os movimentos aceleram-se-lhe, enquanto procura desconversar, as feições
endurecem, empurra os miúdos para a porta, por fim, pelo rosto do meu filho,
leio-lhe uma censura inarticulada pela minha última frase: nem sombras, nem
ecos, nem fotogenia: apenas uma reprovação silenciada pelo gesto feito frase.
Entretanto, a boçal já a chamar o elevador, os miúdos nem um adeus, pois, nunca me habituei a isto,
nem quero tal coisa, por mim, já vão tarde, afinal, as pontes só ligam margens
possíveis, e eu estou cansada, tão cansada, desta desgraçada estadia neste
estranho lugar a meio sempre de qualquer coisa que só no fim saberemos o que é,
esperamos bem que sim, que agradeço a paz restituída, vou à janela, vejo-os lá
em baixo, a boçal à frente, depois os miúdos, ele para o fim, cinco a seis
passos atrás, naquele seu modo de andar desarticulado, sorrio para mim à vista
disso, quase o revejo de sapatos ortopédicos, mochila às costas, a caminho da
primária, parece que foi há bocado e, afinal, aconteceu numa outra vida,
suspiro longamente enquanto um pensamento regressa-me abrimos a porta do mundo aos filhos, mas são eles que escolhem a que
sombras querem repousar…
sábado, 7 de fevereiro de 2026
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Adeus, Shane
Sempre
que me falam de cinema, é a cena final, deste maravilhoso filme, que me povoa,
não sei porquê, ou talvez saiba, afinal, não há questões sem resposta, teria os
meus doze anos quando, lá por casa, meu pai Tens
de ver este filme! Ouvi-o e, de imediato, assenti, regra geral, sempre que
meu pai (Tens de ver este filme!),
acertava, neste caso, foi mais além… Não, não vou relatar pormenorizadamente a
história, enaltecer as interpretações, realçar o tom crepuscular de todo o
filme, bem como o sublimado triângulo amoroso, a magistral banda sonora, nada
disso, vou simplesmente centrar-me no efeito que, após ouvir o lamento daquele
miúdo (Adeus, Shane), teria mais ou
menos a minha idade, aquele serão provocou em mim. De facto, há coisas, nesta
vida, que nos espelham a geografia da alma, uma pessoa, um livro, um filme, uma
música, até uma paisagem, nessa noite, oscilei entre o miúdo que era e o herói
que partia ao crepúsculo, após cumprir a sua promessa (De não haver mais armas no vale…), sim, Shane era um homem de
palavra, desconhecia o nim, hoje, já
adulto, quase tudo é gente do nim, em
todos os sectores desta apalermada sociedade, do profissional ao lúdico, é
curioso, se alguém chamar o outro de palerma, poder-se-á considerar ofensivo,
mas poucos se importam de fazer figuras aparvalhadas, desde assistir, por vezes
boquiabertos, a autênticos dejectos televisivos, a aderir entusiasmadamente a
todas as modas subterraneamente chegadas, como “caçar” bonequinhos imaginários,
entre outros feitos dignos de causar a repulsa dos nossos avós, creio que,
neste cenário, Shane jamais se apearia, continuaria a sua marcha rumo a um
lugar digno de si, por estes lados, já ninguém olha o outro nos olhos, ainda
menos os inimigos, que sempre existem, estão identificados, e este é o melhor
dos mundos para eles se mobilizarem, tudo permanece numa anestesia de delírio e
fúteis risos, estou a escrever isto com a profunda convicção de que nem meia
dúzia conhece Shane, George Stevens
ou Alan Ladd, pouco me importa, sou um afortunado, é tudo o que posso dizer,
porque, num serão de há muito, alguém me disse Tens de ver este filme! Só havia dois canais, pôr para trás ou para
a frente era ficção científica, daí que a nossa atenção sorvesse cada pormenor
no seu irrepetível carácter, talvez por isso fôssemos mais atentos, talvez por
isso não abraçássemos tanto a preguiça, findo o filme, nessa noite dos meus
doze anos, permaneci sentado a arrumar sentimentos, e como precisava de arrumar
sentimentos, gosto de filmes assim, que me desarrumem por dentro, são cada vez
mais raros, hoje ou despertam bocejos ou atentam a inteligência na sua
desmesurada estupidez, enfim, lá aparece um ou outro que vale a pena, ou
talvez, no meu caso, seja uma outra coisa, a ausência de uma voz que me diga Tens de ver este filme! Como compreendi
aquele miúdo que gritava para a noite Volta,
Shane! Quantas vezes, numa vida, queríamos que as coisas tivessem a cor do
nosso sentir? Ali, naquele espaço de uma despedida, a vida foi-me apresentada,
nada foi como devia, talvez por compreender, num canto cá de mim, que tudo não
podia ser de outra forma, a última fala de Shane é um quase sumido, mas num tom
sem réplica, Adeus, pequeno Joe, após
perceber que cada homem nasce com a sua fôrma, e por muito que faça, não lhe
pode fugir, assim sendo, tinha de partir, nos dias seguintes, claro que rodei o
meu revólver de fulminantes à Shane, creio que, agora mesmo, se o
reencontrasse, voltaria a fazê-lo, uma das grandes lições deste magistral filme
é exactamente essa: cada homem nasce com a sua fôrma, e por muito que faça, não
lhe pode fugir. No que me concerne, a cada dia, vou descobrindo um pouco mais
dessa minha fôrma, por isso, há uns tempos, escrevi: Para onde vou, levo-me comigo… Daí que não consiga articular nins… Daí que também não os compreenda…
Se algum dia me sentir só com as minhas convicções, sempre posso ligar a
televisão, agarrar num certo dvd, ouvir o eco de uma voz (Tens de ver este filme!), e rever Shane, e quando, no final, assistir à sua partida, rumo às
montanhas anoitecidas, resta-me acompanhar o miúdo no seu grito final: Adeus, Shane!








